A TV Escola, canal educativo do Ministério
da Educação, tem como proposta apoiar o professor no
que diz respeito à sua formação e à sua
prática em sala de aula.
O Salto para o Futuro faz parte dessa programação,
sendo estruturado para permitir o debate entre os participantes. Mais
do que recomendações, o programa busca criar um espaço
de diálogo sobre temas pertinentes à formação
do professor, atendendo a demandas formuladas por professores, orientadores
e demais agentes educacionais.
É ponto pacífico a necessidade de se
buscar formas de articulação entre a Família
e a Escola. Fácil falar sobre ela, difícil construí-la.
Ainda mais que se vê a Educação hoje como algo
permanente, por toda a vida, um processo continuado e não mais
como uma etapa: estudar, para depois, entrar no mercado de trabalho.
Se assim é, a relação Família-Escola
não diz respeito apenas aos filhos-alunos, mas a todos, familiares
e professores e comunidade em geral.
A presente série visa discutir alguns destes
aspectos. Primeiro, caracterizando o que entendemos por família;
depois, apresentando várias situações do relacionamento
entre as duas instituições. Finalmente, a perspectiva
do futuro.
A série Parceria Escola e Família,
que será apresentada pela TV Escola no programa Salto para
o Futuro, de 20 a 24 de maio de 2002, é composta de cinco programas,
que buscam oferecer uma possível compreensão das questões
envolvidas e os limites e possibilidades de cada uma destas duas instituições
para uma ação comum, a educação de crianças
e jovens. Norteia a série uma pergunta dupla: O que a família
espera da escola e o que a escola espera da família?
Antes de mais nada, é preciso entendermos
o que estamos falando quando mencionamos os termos Família
e Escola. Aparentemente, todos sabemos do que se trata. Todos nós
temos uma família, quase todos nós freqüentamos
a escola. Então sabemos do que estamos falando. Sabemos?
Ser parente, portanto, seria algo positivo, confiável.
Ocorre que, na história brasileira, tivemos a escravidão.
Houve um contingente populacional, os escravos, que não tinha
direitos. Eram propriedade de terceiros e não podiam por si
mesmo constituir família, criar filhos. Seus filhos seriam
propriedade de seu dono e senhor até a promulgação
da Lei do Ventre Livre.
Como podemos perceber, uma parte da população
podia ter família e valorizava fortemente as relações
familiares, enquanto outra, majoritária, não tinha o
direito à instituição familiar.
Duas são as repercussões deste fato
na camada social menos favorecida economicamente, formando um verdadeiro
paradoxo: 1) a eliminação da responsabilidade paterna
e 2) a suposição, para a mulher pobre, de que, tendo
filhos, manteria junto a ela o homem, o pai de seus filhos. Afinal
o ideal da família era o homem, provedor, casado, e com muitos
filhos. A função ativa era masculina. A função
da mulher era reprodutiva e seria tanto mais valorizada quando mais
filhos tivesse.
Este retrato, apresentado aqui em rápidas
pinceladas, é um retrato parcial do passado, embora ainda o
encontremos em muitos recantos do país. É uma imagem
valorizada, a da permanência de um casal com filhos, articulado
com a rede ampla de parentesco, avós, tios, primos, sobrinhos.
A família extensa, aglutinando várias famílias
conjugais.
Hoje, o retrato é diferente. Está nas
propagandas, que na verdade "vendem" não só produtos,
mas sobretudo representações, de modo claro e restrito:
as imagens mostram um casal, homem e mulher, e poucos filhos, certamente
dois, um menino e uma menina. Esporadicamente aparece uma pessoa idosa:
avô ou avó. E é este modelo de família,
o "nuclear", que está presente também nos livros didáticos,
como se fosse o único, o correto, o "normal", o "desejável",
reforçando sua força como "modelo" que é, e não
como a família se apresenta na realidade, em que o que predomina
é a diversidade.
A família que não segue esse modelo
é considerada "desestruturada". E, certamente, ela se apresentará
"desestruturada" nas camadas pobres da população, aquelas
mais vinculadas ao passado da escravidão. E certamente muitas
das soluções encontradas pelas camadas menos favorecidas
da população para encontrar novas possibilidades de
organização de novos núcleos familiares são
taxadas como modelos desestruturados, porque se afastam muito do modelo
familiar tido como hegemônico.
É curioso nos lembrarmos de um outro fato.
O autor de livros para crianças mais conhecido no Brasil é
Monteiro Lobato. E que família ele nos mostra? Uma avó,
Dona Benta, seus netos e outros personagens, inclusive a cozinheira,
negra, e o preto velho. Lobato mostra que a família é
dos brancos, mas a apresenta sem o casal - os pais (família
conjugal). Mostra apenas o eixo da descendência, omitindo o
eixo da aliança (expressa pelo casamento de dois membros, um
homem e uma mulher, oriundos cada um de uma outra família conjugal).
Isto se verifica, também, nas inúmeras histórias
de fadas do passado, em que os pais, em geral, não estão
presentes. Cabendo aos pais a função disciplinadora,
omiti-los é fazer esta desaparecer e valorizar os momentos
de liberdade dos filhos em casa, ou em casa dos avós, supostamente
mais permissivos. Também surge a figura da madrasta, hoje presente
nos casais recasados com filhos, mas cuja denominação
é problemática, exatamente por carregar a tônica
negativa que ganhou no passado.
Depois dessa consideração, voltemos
à questão inicial: De que família estamos falando?
Passo, agora, a expressar melhor o que queremos dizer quando usamos
o termo Família. Isto é, para uma família se
formar, seria indispensável que cada família de origem
cedesse um de seus membros para a constituição de uma
nova família. O eixo da filiação: pai, mãe,
filho, neto, avós, ou o eixo da aliança: sogros, genro,
nora, cunhados. Para a criança, temos tios e primos, independentemente
da família de origem. Assim, Dona Benta, Pedrinho e Narizinho
são família, mas tio e sobrinho também o são.
Essa denominação "tio", "tia" tem uma característica
interessante, pois extrapola o núcleo familiar e chega a outros
por afinidade ou respeito. Está presente até em outras
situações. Não é incomum, nos grandes
centros, ouvirmos expressões como: "tia, me dá um dinheiro",
que às vezes pode ser um pedido, e às vezes, um assalto.
Tanta é a importância da instituição familiar
no Brasil, que os professores/as são chamados de "tios/tias"...
O aluno, ao entrar na escola, tem uma família.
Qual é esta, de quantas pessoas se compõe, isso é
variável. Às vezes, a avó é a família
que a criança conhece.
O fato é que poucas instituições
conheceram mudanças tão significativas como a família
em uma geração: o seu tamanho se reduziu e ela se tornou
menos estável no que se refere à contribuição
do casal conjugal. O casamento passou a ter um papel social menos
central e o "companheirismo" tornou-se corrente e aceito.
Além disso, ganhou terreno a igualdade entre
os sexos. A sociedade, antes marcada por uma distribuição
forte entre os sexos e uma divisão clara entre trabalho produtivo
e reprodutivo (atividades domésticas) se transformou, dado
o valor do pensamento feminista e de uma política de emancipação
da mulher, o que levou a uma redistribuição importante,
embora ainda com limites, das atividades profissionais e privadas.
No âmbito privado, houve a perda da exclusividade
feminina das funções domésticas, permitindo-se
e, ali, justificando-se, a entrada do homem. Este tornou-se mais atuante,
tanto na educação dos filhos, quanto na gestão
cotidiana do "lar".
Entre as transformações ocorridas na
família temos:
1. Controle da natalidade - a mulher pode hoje
decidir se quer ou não ter filhos. Há uma aceitação
social do sexo em si mesmo, e não mais para a reprodução.
2. Redução do número de
filhos, donde menos irmãos, tios, sobrinhos, primos.
3. Prolongamento do tempo de vida - mais pessoas
idosas com saúde e vida ativa.
4. Alteração do papel doméstico
atribuído só à mulher - ruptura do quadro tradicional
provedor/dona de casa.
5. Instabilidade do casal aceita socialmente,
com facilitação da dissolução do vínculo
conjugal - a razão do unir-se é afetiva e não
ter filhos. Isto gerou uma multiplicidade de situações:
casal sem filhos; casal temporário com filhos; famílias
extensas; famílias uniparentais; casal homossexual com ou
sem filhos; recasamento de avós, antes separados.
6. Forte mobilidade geográfica e social
dos membros da família.
7. Igualdade entre os sexos.
8. Clima de incerteza: nada é seguro,
donde a exigência de processos de ajustamentos contínuos,
isto é, a construção permanente da identidade
de cada um que exije liberdade individual de movimentos na incerteza
da construção de sua trajetória social.
Qual a conseqüência disto tudo? Não
há critérios para se julgar: o modelo de família
das gerações anteriores nada mais tem a ver com a realidade.
E o aluno, a criança, o jovem, diante disso?
Na sua educação valoriza-se sua autonomia, autenticidade,
criatividade. E a família coloca filhos na escola e não
alunos, mas esta recebe alunos e não filhos. Mas se pensamos
em parceria entre estas duas instituições, temos de
compreender suas diferenças. E a família lida com os
filhos 24 horas por dia, durante a semana toda. Já a escola
lida com os alunos por período determinado e, normalmente,
apenas algumas horas, em 5 dias da semana.
É uma parceria entre instituições
distintas. Se a desejamos eficaz temos de reconhecer as características
de cada uma e descobrir as pontes possíveis existentes.
Ao aceitar este trabalho comecei a pensar no tema
"Parceria Família-Escola" e percebi não estar presente
um terceiro componente, o "filho-aluno". Afinal é ele o elo
destas duas instituições, ambas em "crise", sendo criticadas
pelo que "não" fazem (e deveriam fazer) numa realidade de intensas
transformações. Por mais que seja criticada a Escola,
e a família vista como desestruturada, ambas são instituições
valorizadas. Talvez seja o aluno quem capte o atual desejo da Escola
como instituição de ter a família mais próxima
dela, para enfrentar as atuais dificuldades, senão as intencionalidades
e obrigações decorrentes para efetivar a parceria desejada.
Mas que "aluno"/filho está chegando ou por
chegar à escola? Sobre isto permito-me apresentar três
situações:
1. Criança de 1 ano e 8 meses - a avó
chega e vê a criança. Pede-lhe um beijo e a criança
sai correndo, dizendo, bem alto: Que saco!
2. Criança de 4 anos - mãe, sem
problemas de sobrevivência. É seu segundo casamento
e ela diz que pode dedicar-se a seus filhos. Não trabalha.
Mas está sempre nervosa, gritando, falando aos berros com
os filhos. E a filha mais velha diz: "Mãe, você pediu
ao Papai do Céu para que ele te desse a mim e à Dedé
(irmã de 2 anos). Você devia saber: criança
dá muito trabalho".
3. Criança, 10 anos - esta pergunta à
mãe. "Mãe, você é minha dona?" E a mãe
explica que ninguém é dono de ninguém. Horas
mais tarde a mãe manda a filha fazer alguma coisa, e a filha
responde: "Você não me manda. Você não
é a minha dona!".
Falar em parceria é fácil. Construí-la
é um trabalho exigente que terá de levar em consideração
as condições reais da Escola, da Família e, também,
desses novos filhos/alunos.
Para terminar, algumas considerações:
O tema, por sua complexidade, permite múltiplas
visões. A relação escola e família precisa
ser analisada do ponto de vista da cultura, o que implica visões
de mundo diferenciadas, tanto no que se refere aos valores, quanto
à realidade socieconômica. O recorte apresentado nos
textos é fruto da reflexão de profissionais que vêm
se dedicando ao tema, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Sendo assim,
determinadas realidades provavelmente não foram contempladas.
Algumas destas abordagens são passíveis de generalização,
enquanto outras, por sua peculiariedade, estão diretamente
relacionadas ao contexto do qual emergiram. Certamente, os debates
no programa televisivo comportarão outras visões e experiências,
não só devido à participação dos
debatedores, quanto pela intensa participação dos professores
que constituem o diálogo interativo do programa Salto para
o Futuro.