Apresentação
Azoilda Loretto da Trindade*
Antes de embarcarmos nesta viagem com o tema multiculturalismo,
precisamos aguçar nossas percepções acerca
do nosso mundo de hoje, como que diante de um clipe. ao som
de Louis Armstrong, cantando "Wonderful World". Vamos fazer um breve
panorama apenas sobre os movimentos sociais que abriram caminho
para que hoje possamos nos inquietar pelo desejo de compreensão
e busca de novas possibilidades pedagógicas, que nos permitam
atuar numa perspectiva de respeito com a nossa rica diversidade
cultural.
Estes movimentos sociais a que nos referimos tiveram
como conseqüência o abalo da Ciência, da Razão,
dos Padrões "Universais" e hegemônicos de ser,
sentir e estar no mundo. Hoje, em todo o planeta, olhos se abrem
para os Outros, principalmente para os Outros que
não fazem parte do padrão e do projeto eurocêntrico.
Lembrando que esses olhares não ocorrem
por benevolência ou concessão de ninguém, mas
por influência/pressão desses Outros/as movimentos
feministas, negros (africanos da diáspora), homossexuais
e de outros povos e culturas que não comungam ou se
beneficiam com o padronizado modo euronorteamericano de ser,
pensar e de agir.
Nesta panorâmica musicada mentalmente, nós
nos deparamos com o movimento negro e toda afirmação
de uma cosmovisão africana Martin Luter King, Nelson
e Winnie Mandela, luta pelos direitos civis, lutas de libertação
africana; o movimento feminista, queima dos sutiãs, conquistas
políticas com muitas das nossas reivindicações
atendidas e absorvidas pela sociedade em geral. Vemos o movimento
dos homossexuais (gays, lésbicas e bissexuais) ganhar
força a cada instante e, ainda, a visibilidade crescente
da luta dos deficientes. Ao mesmo tempo, questões de cunho
religioso/político ganham notabilidade internacional... As
questões das diferenças de gênero, cultura,
etnia/cor e de várias especialidades borbulham no mundo.
E, com a visibilidade global de singularidades, de outras formas
de ser e estar no mundo, que se agenciam, buscando comunicação,
vem também a necessidade de pensar e discutir diante dessa
nova era social que se apresenta: Como se pode construir uma
pedagogia multicultural e criativa em que não se reproduzam
padrões, estereotipias, exclusões?
E no Brasil?
Há um consenso que o Brasil é um
país multicultural e pluriétnico. Um país cuja
diversidade é cantada e contada em verso e prosa e vem encantando
a todos.
No entanto, infelizmente, no que se refere especificamente
à Educação, vemos o quanto essa diversidade
não é incorporada a contento às organizações
educacionais.
Embora encantados, ideologicamente comprometidos
com o "Mito da Democracia Racial", constatamos que nosso sistema
educacional vem sendo produtor e reprodutor de desigualdades sociais
e étnicas:
Dados educacionais
No Brasil, cerca
de 21 milhões de pessoas, entre 25 e 64 anos de idade nunca
foram à escola ( UNESCO/OCDE, 2000)
Em 1998, dos alunos
matriculados na 1ª série, 30% foram reprovados ou abandonaram
a escola (INEP/MEC, 1998)
Existem 15 milhões
de analfabetos de 15 anos ou mais, o que representa 13,3%da população
nesta faixa etária
Das mulheres acima
de 40 anos, 32% não são alfabetizadas. Na zona rural,
este número sobe para 60% (IBGE/PNAD, 1999)
|
ÍNDICE DE
ANALFABETISMO EM PERCENTUAL
|
| |
|
|
|
|
|
POPULAÇÃO
|
TAXA DE ANALFABETISMO1
|
TAXA DE
ANALFABETISMO FUNCIONAL2
|
| |
|
|
|
|
Brancos
|
54,0
|
8,4
|
22,7
|
|
Pardos
|
39,5
|
20,7
|
40,7
|
|
Pretos
|
5,7
|
21,6
|
41,8
|
|
Amarelos
|
0,8
|
-
|
-
|
(Fonte: PNAD/1998 - IBGE)
A riqueza cultural e étnica do nosso país
ou não é levada em consideração no cotidiano
das nossas escolas ou é mal trabalhada, tendendo ao estereótipo
e à disseminação de preconceitos.
Vemos, enfim, o acirramento de conflitos culturais
e étnicos no planeta colocando a discussão crítica
e a preocupação com a questão cultural e étnica
como uma das questões-chave do século e para além
do Brasil.
Neste sentido, antes de fazermos uma viagem acompanhada
do tema multiculturalismo viagem na qual expectativas se
colocam, medos, receios, convivências, contatos se anunciam
necessitamos fazer um roteiro, preparar as malas, destacar
o que levaremos de sonhos, projetos, desejos...
Pensar o multiculturalismo, tema complexo, controverso
e de modo geral considerado indefinido sobretudo quando o
relacionamos à educação e mais especificamente
à escola coloca-nos diante de desafios do nosso tempo:
- a percepção da diversidade humana;
- a desconstrução de verdades;
- a integração/interação de saberes;
- a desierarquização das diferenças e visões
de mundo, dentre outros desafios e, sobretudo,
- um profundo amor e respeito pela Vida.
Objetivos
O Universo Escolar é marcado eminentemente
pela presença de pessoas. Estas se apresentam com suas singularidades:
diferentes tamanhos, etnias, visões de mundo, modos de ser,
sentir, agir, sonhar... A escola é um espaço eminentemente
da diferença, da diversidade, e também de encontros,
embates, conflitos, possibilidades... É um espaço
do múltiplo. Neste sentido, imbuídos com o desejo
de superação dos obstáculos que envolvem um
trabalho numa perspectiva multiculcural, pretendemos, nesta série
Debates: Multiculturalismo e educação, que
será apresentada no programa Salto para o Futuro/TV Escola,
de 1 a 5 de julho:
- Discutir a presença da Diferença, da Diversidade
na escola, numa abordagem pluriétnica, multicultural e
multidisciplinar, tomando como desafio novas possibilidades, mais
democráticas de tratar a Diferença, o Outro no cotidiano
das nossas escolas.
- Potencializar educadoras e educadores a se aventurarem em experiências
criativas promotoras de uma educação não
racista, não machista e não elitista.
- Propiciar momentos de encontro, atualização e,
conseqüentemente, construção/produção
coletiva do conhecimento, a favor de uma Educação
para Todos, efetivamente inclusiva, a partir do olhar sobre a
nossa diversidade cultural.
Bibliografia
AQUINO, Julio Groppa. Diferenças
e preconceito na escola: alternativas teóricas e práticas.
Summus Editorial.
BORGES, Edson; MEDEIROS, Carlos Alberto e dADESKY,
Jacques. Racismo, preconceito e intolerância. Atual
Editora.
CAVALHEIRO, Eliane. Racismo e Anti-racismo
na educação. Editora Selo Negro.
GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços.
L&PM, 1991.
HALMENSCCHLAGER, Vera Lucia da S. Etnomatemática:
Uma experiência educacional. São Paulo: Summus,
2001.
LAJOLO, Marisa. Nós e os outros:
Histórias de diferentes culturas. São Paulo,
Editora Ática.
LOPES, Nei. Bantos, malês e identidade
negra. Rio de Janeiro, Forense, 1998.
LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade
e educação: Uma perspectiva pós-estruturalista.
Petrópolis, Vozes, 1997.
MALERBA, Jurandir e BERTONI, Mauro. Nossa
gente brasileira. Campinas, Papirus, 2001.
MASON, Raquel. Por uma arte-educação
multicultural. Campinas: Mercado Aberto, 2001.
MORIN, Edgar. Ensinar a Condição
Humana. In: Os sete saberes necessários à Educação
do Futuro. São Paulo: Cortez, Brasília, DF,
UNESCO, 2000.
MUNANGA, Kabenguele. Rediscutindo a mestiçagem
no Brasil. Editora Vozes.
OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. Elogio da diferença:
o feminismo emergente. 2ª ed. São Paulo:
Brasiliense, 1992.
SODRÉ, Muniz. Reinventando a cultura
- a comunicação e seus produtos. Petrópolis,
Editora Vozes, 1996.
TRINDADE, Azoilda e SANTOS Rafael (orgs.).Multiculturalismo:
as mil e uma faces da escola. DP&A Editora. Rio de Janeiro,
1999.
_________________. O racismo no cotidiano
escolar. Rio de Janeiro: FGV/IESAE. Dissertação
de Mestrado, 1994.
Vídeos
Pesquisar nos Catálogos da TV Escola, do
CECIP e do IBASE.
Músicas:
"Milagres do Povo" Caetano Veloso e Gilberto
Gil
"Haiti" - Caetano Veloso e Gilberto Gil
CD do Antonio Nóbrega O marco do
meio-dia
CD do Jorge Aragão Jorge Aragão
ao vivo
Internet
www.mulheresnegras.org
www.afirma.com.br
www.geledes.org.br
www.italianostra.hpg.com.br
www.brasil500.com.br
www.museudoindio.org.br
NOTAS:
* Professora do Ensino Fundamental e Superior.
Pesquisadora da UFRJ. Ativista do movimento anti-racista. Consultora
desta série.
- Das pessoas de 15 anos ou mais de idade.
- Pessoa de 15 ou mais anos de idade têm até 4 anos de
escolaridade, segundo parâmetros do IBGE.

|