LITERATURA E IMAGEM

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Apresentação

Elizabeth Serra*

Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil

Ler Para Ver

A vida nos oferece, todos os dias, uma variedade de cores, formas, movimentos e significados. O nosso olhar curioso observa os detalhes, as diferenças, as mudanças, o permanente, o antigo, o novo dando-lhes significado pessoal. O desenvolvimento dessa prática educa o olhar, estimulando-o a ver para além da aparência e, assim, perceber a essência das coisas e dos fatos. O viver se torna, ao mesmo tempo, atraente e intrigante. Com o olhar atento, a busca sobre a compreensão da realidade ganha mais elementos de análise, enriquecendo o processo de integração social.

O olhar, quando está consciente de sua potencialidade crítica, possibilita estabelecer a dimensão histórica entre o local e o global e vice-versa, contribuindo para atribuir valores universais ao cotidiano.

As maneiras diferentes de ver e de perceber o mundo marcam a diferença na vida de cada um e no coletivo.

A observação do cotidiano faz parte da história dos seres humanos desde os primórdios. O primeiro desejo de registrar e partilhar essa experiência com o outro, de se comunicar, está registrado nas paredes das cavernas, com os desenhos rupestres. Assim que o homem conseguiu um instrumento para registrar o seu olhar sobre a vida ao seu redor, ele o fez, perpetuando-o.

Que fascinante pensar que esse desejo humano permanece até hoje!

Para contar a nossa história, foram criadas inúmeras formas de registro, chegando-se, no final do milênio, a uma sofisticação técnica inimaginável pelos nossos antepassados, que vai da fotografia à internet. O importante é que as novas tecnologias não fizeram desaparecer aquele primeiro gesto de desenhar do homem das cavernas. Ele continua vivo e forte.

A arte de escrever cria letra a letra, sílaba a sílaba, palavra a palavra, frase a frase, textos diferentes para contar e eternizar os vários modos de ver a vida, senti-la, percebê-la, interpretá-la. Esta arte vem ganhando cada vez mais importância nas sociedades modernas. A escrita tem o poder de reunir a humanidade em torno de sonhos e realizações.

Fala-se e, às vezes, o tom é cético, que a sociedade atual é a da imagem por causa do sucesso da televisão. A televisão é uma importante conquista da humanidade, que possibilita que milhões de pessoas tenham a oportunidade de ver outros mundos, de conhecer outras realidades, bem como de manter contato com os vários pontos do planeta, envolvendo cada vez mais a população mundial na busca de soluções para os problemas universais, como também divulgando os benefícios que outras pessoas desfrutam, provocando o desejo e a consciência de que todos têm direitos.

A imagem, portanto, sempre esteve presente, com muita força, na vida dos homens e mulheres. A televisão, o cinema, a fotografia e a internet possibilitaram alargar e ampliar esse fascínio humano, que é poder ver, olhar, observar, pensar, criar.

Nesta permanente busca de registrar a vida, se sobressaem aqueles que o fazem de uma forma própria, original, diferente de outros: os artistas.

Essa contribuição criadora dos artistas é que possibilita aquela experiência perturbadora, emocionante, que nos faz despertar para o que não estava sendo percebido antes. Desde o início da história da humanidade, o artista, em suas mais variadas maneiras de ser e de se expressar, tem sido o catalizador e o incentivador de ações e atitudes. O artista nem sempre chega a ter conhecimento do impacto que suas obras causam nas pessoas. Mas, certamente, são milhares aqueles que depois de verem uma obra de arte, ou depois de lerem um livro, repensam o rumo de suas vidas.

Apesar de o caráter do desejo e do gesto de registrar imagens poder ser espontâneo, a expressão pictórica e a consciência estética podem ser e devem ser educadas. Não em sua forma autoritária, mas democrática, isto é, proporcionando a todos as oportunidades de contato com a variedade e a qualidade dos bens culturais e artísticos.

Nesta série do Salto para o Futuro, da TV Escola, que responde a uma demanda dos professores que nas avaliações sobre os programas e em suas questões levantam constantemente esse tema, vamos tratar do bem cultural livro para crianças e jovens e seus conteúdos, texto e ilustração, pelo importante e destacado papel que a escrita e as imagens representam para a sua formação educacional e cultural e, ainda, da forma de apropriação dessas expressões, a leitura. A série Literatura e Imagem será apresentada de 26 a 30 de agosto.

Durante muito tempo, o trabalho com o texto escrito se restringiu aos conteúdos formais e as imagens foram vistas apenas como complemento ou adorno, mas hoje já sentimos uma mudança. Mesmo que isso não se reflita ainda em todas escolas, nem em todos os livros de literatura, principalmente nos livros didáticos.

Esta diferença valorativa entre imagem e texto escrito, no currículo da escola fundamental, reflete a frágil formação cultural nos cursos de formação de professores. A necessidade de uma educação artística, para além dos trabalhos manuais e artesanais, reflete-se nos trabalhos (murais, cadernos e organização especial e estética da sala de aula). As paredes da escola oferecem, muitas vezes, um panorama linear e estereotipado para a educação do olhar, do exercício da observação. Esta é uma lacuna grave entre nós, principalmente por sermos um país sem tradição de visitar museus e exposições. As imagens e os textos nas escolas, seja nos livros ou nas paredes, precisam contribuir mais para desenvolver a observação das crianças.

O livro, como alimento fértil e essencial para a imaginação, para o pensamento, para a criação, deve ser um objeto cultural de qualidade total, seja no aspecto textual, literário ou informativo, seja no que se refere às imagens, ilustrações e fotos.

Os cursos de formação de professores devem incluir, em seus currículos, atividades e estudos na área cultural, com possibilidade de experiências variadas no campo artístico, não como algo opcional ou sem valor, mas como matérias importantes para dar sentido e qualidade ao desempenho da educação formal.

A realidade social brasileira vive um processo efervescente de mudanças que ampliou, e vem ampliando, a participação de um grupo cada vez maior de pessoas que estavam alijadas dos vários conhecimentos e saberes conquistados pela humanidade.

Para fazer frente a esse novo contexto, os professores devem buscar integrar a compreensão da história sobre a imagem na vida da humanidade às atividades de leitura, escrita e de números.

Nossa intenção nesta série é levantar a discussão, apontar experiências, levar contribuições sobre a imagem e a sua relação com a leitura, provocando o olhar dos professores na direção das perguntas e não das respostas.

Bibliografia

BREVES, Tereza. O livro-de-imagem: um (pré) texto para contar histórias. Imperatriz: Breves Palavras, 2000.

CAMARGO, Luís. Ilustração do livro infantil. Belo Horizonte: Ed. Lê,

1995.

GÓES, Lúcia Pimentel. Olhar de descoberta. São Paulo: Mercuryo, 1996.

MANGUEL, Alberto. Lendo imagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Parâmetros Curriculares Nacionais: Introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997, v.1.

Parâmetros Curriculares Nacionais: Arte / Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997, v.6.

SERRA, Elizabeth (org.). Ética, estética e afeto na literatura para crianças e jovens. São Paulo: Global, 2001.

. 30 anos de literatura para crianças e jovens: algumas leituras. Campinas, São Paulo: Mercado das Letras: Associação de Leitura do Brasil, 1998.

WALTY, Ivete Lara Camargos. Palavra e imagem: leituras cruzadas. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

NOTAS:

* Secretária Geral da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Consultora desta série.