A vida nos oferece, todos os dias, uma variedade
de cores, formas, movimentos e significados. O nosso olhar curioso
observa os detalhes, as diferenças, as mudanças,
o permanente, o antigo, o novo dando-lhes significado pessoal.
O desenvolvimento dessa prática educa o olhar, estimulando-o
a ver para além da aparência e, assim, perceber a
essência das coisas e dos fatos. O viver se torna, ao mesmo
tempo, atraente e intrigante. Com o olhar atento, a busca sobre
a compreensão da realidade ganha mais elementos de análise,
enriquecendo o processo de integração social.
O olhar, quando está consciente de sua
potencialidade crítica, possibilita estabelecer a dimensão
histórica entre o local e o global e vice-versa, contribuindo
para atribuir valores universais ao cotidiano.
As maneiras diferentes de ver e de perceber o
mundo marcam a diferença na vida de cada um e no coletivo.
A observação do cotidiano faz parte
da história dos seres humanos desde os primórdios.
O primeiro desejo de registrar e partilhar essa experiência
com o outro, de se comunicar, está registrado nas paredes
das cavernas, com os desenhos rupestres. Assim que o homem conseguiu
um instrumento para registrar o seu olhar sobre a vida ao seu
redor, ele o fez, perpetuando-o.
Que fascinante pensar que esse desejo humano
permanece até hoje!
Para contar a nossa história, foram criadas
inúmeras formas de registro, chegando-se, no final do milênio,
a uma sofisticação técnica inimaginável
pelos nossos antepassados, que vai da fotografia à internet.
O importante é que as novas tecnologias não fizeram
desaparecer aquele primeiro gesto de desenhar do homem das cavernas.
Ele continua vivo e forte.
A arte de escrever cria letra a letra, sílaba
a sílaba, palavra a palavra, frase a frase, textos diferentes
para contar e eternizar os vários modos de ver a vida,
senti-la, percebê-la, interpretá-la. Esta arte vem
ganhando cada vez mais importância nas sociedades modernas.
A escrita tem o poder de reunir a humanidade em torno de sonhos
e realizações.
Fala-se e, às vezes, o tom é cético,
que a sociedade atual é a da imagem por causa do sucesso
da televisão. A televisão é uma importante
conquista da humanidade, que possibilita que milhões de
pessoas tenham a oportunidade de ver outros mundos, de conhecer
outras realidades, bem como de manter contato com os vários
pontos do planeta, envolvendo cada vez mais a população
mundial na busca de soluções para os problemas universais,
como também divulgando os benefícios que outras
pessoas desfrutam, provocando o desejo e a consciência de
que todos têm direitos.
A imagem, portanto, sempre esteve presente, com
muita força, na vida dos homens e mulheres. A televisão,
o cinema, a fotografia e a internet possibilitaram alargar e ampliar
esse fascínio humano, que é poder ver, olhar, observar,
pensar, criar.
Nesta permanente busca de registrar a vida, se
sobressaem aqueles que o fazem de uma forma própria, original,
diferente de outros: os artistas.
Essa contribuição criadora dos
artistas é que possibilita aquela experiência perturbadora,
emocionante, que nos faz despertar para o que não estava
sendo percebido antes. Desde o início da história
da humanidade, o artista, em suas mais variadas maneiras de ser
e de se expressar, tem sido o catalizador e o incentivador de
ações e atitudes. O artista nem sempre chega a ter
conhecimento do impacto que suas obras causam nas pessoas. Mas,
certamente, são milhares aqueles que depois de verem uma
obra de arte, ou depois de lerem um livro, repensam o rumo de
suas vidas.
Apesar de o caráter do desejo e do gesto
de registrar imagens poder ser espontâneo, a expressão
pictórica e a consciência estética podem ser
e devem ser educadas. Não em sua forma autoritária,
mas democrática, isto é, proporcionando a todos
as oportunidades de contato com a variedade e a qualidade dos
bens culturais e artísticos.
Nesta série do Salto para o Futuro, da
TV Escola, que responde a uma demanda dos professores que nas
avaliações sobre os programas e em suas questões
levantam constantemente esse tema, vamos tratar do bem cultural
livro para crianças e jovens e seus conteúdos, texto
e ilustração, pelo importante e destacado papel
que a escrita e as imagens representam para a sua formação
educacional e cultural e, ainda, da forma de apropriação
dessas expressões, a leitura. A série Literatura
e Imagem será apresentada de 26 a 30 de agosto.
Durante muito tempo, o trabalho com o texto escrito
se restringiu aos conteúdos formais e as imagens foram
vistas apenas como complemento ou adorno, mas hoje já sentimos
uma mudança. Mesmo que isso não se reflita ainda
em todas escolas, nem em todos os livros de literatura, principalmente
nos livros didáticos.
Esta diferença valorativa entre imagem
e texto escrito, no currículo da escola fundamental, reflete
a frágil formação cultural nos cursos de
formação de professores. A necessidade de uma educação
artística, para além dos trabalhos manuais e artesanais,
reflete-se nos trabalhos (murais, cadernos e organização
especial e estética da sala de aula). As paredes da escola
oferecem, muitas vezes, um panorama linear e estereotipado para
a educação do olhar, do exercício da observação.
Esta é uma lacuna grave entre nós, principalmente
por sermos um país sem tradição de visitar
museus e exposições. As imagens e os textos nas
escolas, seja nos livros ou nas paredes, precisam contribuir mais
para desenvolver a observação das crianças.
O livro, como alimento fértil e essencial
para a imaginação, para o pensamento, para a criação,
deve ser um objeto cultural de qualidade total, seja no aspecto
textual, literário ou informativo, seja no que se refere
às imagens, ilustrações e fotos.
Os cursos de formação de professores
devem incluir, em seus currículos, atividades e estudos
na área cultural, com possibilidade de experiências
variadas no campo artístico, não como algo opcional
ou sem valor, mas como matérias importantes para dar sentido
e qualidade ao desempenho da educação formal.
A realidade social brasileira vive um processo
efervescente de mudanças que ampliou, e vem ampliando,
a participação de um grupo cada vez maior de pessoas
que estavam alijadas dos vários conhecimentos e saberes
conquistados pela humanidade.
Para fazer frente a esse novo contexto, os professores
devem buscar integrar a compreensão da história
sobre a imagem na vida da humanidade às atividades de leitura,
escrita e de números.
Nossa intenção nesta série
é levantar a discussão, apontar experiências,
levar contribuições sobre a imagem e a sua relação
com a leitura, provocando o olhar dos professores na direção
das perguntas e não das respostas.