Apresentação
O Novo Ensino Médio proposto pelo MEC sugere
um currículo voltado para o desenvolvimento de competências,
no qual a interdisciplinaridade e a contextualização permeiem
a prática pedagógica. Educar para a vida, preparar para
o mundo do trabalho, superar o "rótulo" de "antessala da Universidade":
este é o papel assumido pelo Ensino Médio.
Neste novo contexto, formar alunos críticos,
autônomos e protagonistas, instrumentalizados para múltiplas
leituras e possibilidades de intervenção em sua realidade,
é tarefa que exige esforço conjunto dos professores. Formados
em sua maioria em cursos nos quais as dicotomias teoria/prática
e ensino/pesquisa eram a tônica, nossos professores têm
dificuldade para refletir, confrontar e reformular suas práticas
pedagógicas. O que fazer? Como fazer? Esta angústia se
reflete nas falas e na resistência à proposta de mudança.
Não se trata de culpabilizar o professor, nem
de dar a ele o rótulo de vítima impotente. Não
devemos ignorar as dificuldades (currículos lineares, espaços
e tempos rígidos, a escassez de recursos, a desarticulação
entre os colegas e equipes, os instrumentos tradicionais de avaliação...).
Mas é importante que vislumbremos as diferentes possibilidades
de superá-las. Nesta série de cinco programas, que será
apresentada no Salto para o Futuro/TV Escola de 10 a 14 de junho, vamos
discutir com professores de diversas áreas/disciplinas alguns
dos aspectos envolvidos neste novo papel do professor. Trataremos da
importância da diversidade e da flexibilidade no currículo,
da (re)significação dos tempos e espaços escolares,
dos materiais didáticos, dos projetos como prática pedagógica
e da avaliação por competências.
Justificativa
Milhares de professores do Brasil inteiro encaram hoje
o desafio de concretizar a proposta de um Ensino Médio diferente
do modelo que conhecem e vivenciaram como alunos e docentes em outros
anos. Os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio
chegaram às escolas por via impressa, disquetes, internet, programas
da TV Escola e oficinas promovidas pelas Secretarias de Educação.
Os PCNEM trouxeram os princípios da interdisciplinaridade e da
contextualização e propuseram um currículo cujo
eixo fosse a construção de competências e a promoção
da autonomia intelectual do aluno. Também incentivaram o protagonismo
juvenil e o desenvolvimento de projetos.
Muitos professores se rebelaram:
" Grande novidade! Já faço
atividade interdisciplinar há muito tempo... sempre trabalhei
de forma contextualizada... já desenvolvi muitos projetos
na minha escola..
O que estes Parâmetros trazem de novo?!"
É preciso refletir sobre essas falas. Nenhuma
proposta na área educacional parte do zero. Ela toma por base
conceitos, referenciais, práticas que se mostraram interessantes
e adequadas, aqui ou em outros países. É claro que a interdisciplinaridade
e contextualização já deviam permear a prática
pedagógica de muitos professores. Mas será que era uma
prática coletiva, sistemática, matricial, organizada,
intencional? Ou se revelava de modo pontual, por iniciativas apenas
individuais? Os projetos partiam da problematização ou
eram na verdade um conjunto de atividades inspiradas em temas? Está
na hora de mudar este quadro. Ao propor um Novo Ensino Médio,
os PCNEM carregam a esperança de que isto de fato aconteça.
Não por força de decretos. Mas pela reflexão e
mudança da prática pedagógica.
O novo de fato, assusta. E não apenas ao professor.
Só quem é leviano não se assusta com a mudança.
O problema está no medo que imobiliza, estagna, cristaliza. Tedesco
(1998) afirma que a cultura profissional do docente caracteriza-se por
forte ceticismo diante das inovações. Segundo ele, no
esquema organizativo tradicional da escola, o trabalho docente definia-se
por seu isolamento. Um dos traços mais significativos da docência
seria seu caráter individual. Este tipo de organização,
para Tedesco, não estimula a discussão nem a co-responsabilização
pelos resultados. O docente é obrigado a enfrentar privadamente
a solução dos problemas que sua atividade coloca. Ora,
o trabalho em equipe torna-se uma exigência concreta quando há
um projeto pedagógico em andamento. Em equipe, deve ser feita
a reflexão sobre a prática pedagógica e a tomada
de decisões, tais como as estratégias para formação
continuada.
A LDB n. 9.394/96 trouxe a autonomia às escolas.
São elas que devem elaborar seu Projeto Político Pedagógico,
baseadas na realidade que vivenciam, na sua concepção
de Educação e no que esperam para o futuro. Não
há conteúdo programático listado a ser seguido,
não há livros obrigatórios a serem adotados. Esta
autonomia causa angústia em alguns docentes, acostumados a familiares
e lineares currículos, baseados em programas de vestibulares
e índices de livros didáticos. Repensar a organização
curricular causa desconforto porque gera desequilíbrio. Implica
mexer com a hierarquização de saberes e disciplinas. Esta
hierarquização arbórea, em que os saberes são
como galhos, fragmentados e ramificados, comunicando-se apenas pelo
tronco, caracteriza a escola tradicional. Guattari (1986) propõe
um outro paradigma, uma nova metáfora: o rizoma. Este é
o nome de um caule subterrâneo, onde não se percebe um
eixo central e ramificações. O conjunto é heterogêneo,
com múltiplas entradas e conexões. Os fios se entrelaçam,
formando uma rede. Um currículo "rizomático" com certeza
é mais fértil à interdisciplinaridade: os elementos
"nutritivos" circulam pelos fios, alimentando todo o sistema e mantendo-o
saudável, vivo.
Muitos professores argumentam que a seqüência
de conteúdos dos programas impede as atividades interdisciplinares.
Acerca disto, cabem algumas reflexões. Em primeiro lugar, a escola
tem autonomia para definir que conteúdos vai trabalhar, logo
as equipes docentes deveriam decidir por um programa que atendesse às
suas expectativas e às de seus alunos. Em segundo lugar, não
é preciso haver conteúdos afins ou sobrepostos para o
desenvolvimento de atividades interdisciplinares. A problematização
de contextos, as questões a serem investigadas, os eixos de competências
a serem desenvolvidas é que de fato demandam a integração
dos saberes disciplinares, já que dificilmente uma área/disciplina
sozinha dá conta dessa tarefa.
Novas demandas sociais levaram a escola a assumir novas
características e novos papéis. Promover o simples desenvolvimento
cognitivo dos alunos não atende a estas demandas. Como orientar
as ações desta escola? Perrenoud (2000) nos lembra que
não se vai à escola exclusivamente para aprender a exercer
o ofício de aluno, ou se preparar para o programa dos graus seguintes.
A escolaridade só tem sentido se o essencial do que nela se aprende
possa ser investido fora dela, paralelamente ou mais tarde. O "repertório"
do aluno deve permitir que ele transite entre contextos familiares e
distantes. As competências, para este autor, são transversais,
atravessam diversas situações. A escola define programas
para fazer exames, para atender às demandas de vestibulares,
mas não se preocupa em definir o que será sempre necessário
saber quando os saberes dos programas estiverem esquecidos.
Cabe aos professores selecionar o quê e como
aprender de cada disciplina. Sendo meios e não fins em si mesmos,
os conteúdos disciplinares devem ser significativos aos jovens,
favorecer o desenvolvimento de competências. O conhecimento é
produzido a cada dia. Como pode a escola ter a pretensão de abarcar
todos os conceitos relativos às disciplinas? Como garantir a
nosso aluno condições de ter acesso a novos conhecimentos
e ao uso de novas tecnologias, que serão produzidos após
a conclusão da Educação Básica? As competências
são atemporais. Não ficam obsoletas ou esquecidas. Podendo
ser ampliadas e mobilizadas em diferentes situações ao
longo da vida, permitirão ao aluno continuar a aprender, seja
na continuidade formal dos estudos, no mundo do trabalho ou na vida
pessoal e social.
Morin (1999), citado por
Santos (2000) nos alerta: "Trata-se da famosa história dos passarinhos
de Konrad Lorenz1:
o passarinho sai do ovo, sua mãe passa ao lado do ovo e ele a
segue. Para o passarinho, o primeiro ser que passa perto do ovo de onde
ele saiu é a sua mãe.(...). Isto é imprinting,
marca original irreversível que é impressa no cérebro.
Na escola e na universidade sofremos imprinting terríveis,
sem que possamos, então, abandoná-los."
Sem dúvida, a formação fragmentada,
rigidamente disciplinar, baseada na dicotomia teoria-prática
da maioria dos cursos de licenciatura não favorece em absoluto
uma prática pedagógica centrada na aprendizagem, inserida
em um currículo interdisciplinar e contextualizado. Nós,
professores, tivemos muitas aulas e lemos muitos livros sobre o
"ensinar". Pouco refletimos sobre o "aprender". Será que toda
vez que ensinamos, há de fato alunos aprendendo? Como lutar então
contra os imprinting que entravam nossa prática? O conformismo
e a normalização dificultam a contestação
destas marcas matriciais provocadas pela família, escola, trabalho...
Como escapar das concepções didáticas fossilizadas
que nos acompanham há tanto tempo?
É claro que se aprende fora da escola, e às
vezes apesar dela. Mas espera-se que na escola a aprendizagem seja provocada
e não acidental. O direito à aprendizagem está
garantido na LDB. E cabe a nós, professores, junto com toda a
escola, tornar esta garantia legal um fato concreto. A autonomia intelectual
dos alunos só é possível com a construção
de competências. Este processo não é linear. Não
segue a lógica dos pré-requisitos. Competências
diferentes e com diferentes graus de complexidade exigem situações
de aprendizagem diferenciadas. É papel do professor planejar
e oportunizar a vivência dessas situações pelos
alunos.
O conceito de competências não se restringe
ao aluno. Para Perrenoud (2001), competências profissionais referem-se
a um conjunto diversificado de conhecimentos da profissão, de
esquemas de ação e de posturas que são mobilizados
no exercício do ofício. São ao mesmo tempo de ordem
cognitiva, afetiva, conativa e prática. O que caracteriza este
ofício? Para Meirieu (1989): "Prática reflexiva, profissionalização,
trabalho em equipe e por projetos, autonomia e responsabilidade crescente,
pedagogias diferenciadas, centralização sobre os dispositivos
e sobre as situações de aprendizagem, sensibilidade à
relação com o saber e com a lei delineiam um roteiro para
um novo ofício".
Acerca da prática reflexiva, é interessante
retomar as idéias de Schön (1983), que apresenta o paradigma
do professor reflexivo, no qual a reflexão ocorre dentro
da ação. Este professor é aquele que reflete sobre
sua prática docente, à luz da metodologia científica
de pesquisa, reformulando esta prática e compartilhando os resultados
obtidos.
Este é um princípio que pode nortear
não apenas a formação continuada, em que o professor
amplie seu quadro de referências e possa intercambiar práticas,
documentos, experiências, como também a formação
inicial. O confronto das diferentes práticas pode indicar caminhos
para uma mudança na ação pedagógica.
O conhecimento produzido é construção
social, determinado historicamente por um contexto espaço-temporal.
É, portanto, inacabado. O educador precisa estar continuamente
envolvido com a produção deste conhecimento. Assim como
as teorias não devem ser tratadas como verdades absolutas, o
professor não pode se considerar "pronto". Novas concepções
pedagógicas, novas tecnologias e alunos protagonistas nos desafiam
a construir um currículo vivo, voltado para a autonomia.
Não se trata de desqualificar o professor ou
ignorar sua experiência, nem tampouco tratá-lo como consumidor
de pacotes pedagógicos, mas oportunizar momentos e espaços
nos quais esta experiência é base para reflexão
e mudança. A formação continuada não deve
caracterizar-se por eventos pontuais e estanques, ou estar restrita
a momentos de Reformas. Programas como os desta série, que aqui
apresentamos podem ser utilizados na formação continuada
de professores, fornecendo elementos para discussões e para o
exercício reflexivo.
Bibliografia consultada e sugerida:
Candau, Vera Maria (org.).
Magistério: Construção Cotidiana. 4a
edição. Petrópolis, Ed. Vozes, 2001.
Castro, Amélia Domingues de; Carvalho, Ana Maria
Pessoa de (org.). Ensinar a ensinar. Didática para a Escola
Fundamental e Média. São Paulo, Pioneira Thomson Learning,
2001.
Guattari, Félix; Rolnik, Suely. Micropolítica:
cartografia do desejo. Petrópolis, Ed. Vozes, 1986.
Giroux, Henry A. Os professores como intelectuais.
Rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. Porto Alegre,
Artmed Editora, 1997.
Morin, Edgar. Os setes saberes necessários
à Educação do futuro. Brasília, Cortez
Editora/UNESCO, 2000.
Perrenoud, Philippe. 10 novas competências
para ensinar. Porto Alegre, Artmed Editora, 2000.
Perrenoud, Philippe et alli. Formando professores
profissionais. Quais estratégias? Quais competências? Porto
Alegre, Artmed Editora, 2001.
Perrenoud, Philippe. Pedagogia diferenciada. Das
intenções à ação. Porto Alegre,
Artmed Editora, 2000.
Perrenoud, Philippe. Ensinar: Agir na urgência,
decidir na incerteza. Porto Alegre, Artmed Editora, 2001.
Santos, Edméa Oliveira
dos. Pedagogia de projetos: (Re)significando a práxis pedagógica.
Revista de Educação CEAP, vol. 8, nº
31, Salvador, dez./fev., 2000/2001.
Schön, Donald A. "Formar professores como profissionais
reflexivos": Os professores e sua formação. Nóvoa
(org.). Lisboa, Dom Quixote, 1992.
Tedesco, Juan Carlos. O novo pacto educativo.
São Paulo, Editora Ática, 1998.
Sugestões de sites:
O Centro de Informações e Biblioteca
em Educação CIBEC é um órgão
do INEP especializado na disseminação de informações
sobre Educação.
http://www.inep.gov.br/cibec
Escola do Futuro da Universidade de São Paulo,
na qual se desenvolvem pesquisas multidisciplinares ligadas à
aplicação educacional de inovações tecnológicas.
http://www.futuro.usp.br
Site com diversos endereços ligados à Educação:
http:/ / www.eduk.com.br
Sugestões de vídeos:
Os vídeos da série Salto para o Futuro
Formação de professores.
Os vídeos da grade do Ensino Médio (Como
fazer; Acervo, Como fazer A Escola), da TV Escola para
sugestões de atividades didáticas e como recurso na formação
continuada.

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