PGM 5
– Juventudes e
projetos de vida
Juventudes e projetos de vida: o papel das escolas
Avelino Romero Pereira*
O
tema deste programa nos leva a uma questão fundamental e absolutamente
necessária no contexto de uma reforma educacional e, mais ainda, no
contexto da construção de uma escola para jovens no Brasil: para que serve
a escola?
Muitas respostas óbvias e imediatas, quase que instintivas, podem ser
dadas à pergunta. Se quisermos, porém, ir um pouco além do instantâneo e
discutir a questão, mais do que tentar respondê-la, podemos avançar em uma
série de considerações pertinentes aos desafios da definição de uma escola
jovem, de uma nova escola de Ensino Médio.
A começar pelo fato de que nem sempre a questão é óbvia para o aluno,
especialmente o jovem, que freqüenta a escola. Em anos de atuação como
professor de Ensino Médio, em situações diversas, ouvi de meus alunos que
a escola “permite melhorar de vida”, “é a chance que o pobre tem de ser
alguém”, “ensina coisas que precisamos saber para trabalhar” ou ainda que
“é um lugar legal para se ir, para encontrar os amigos”. Sem nenhuma
pretensão sociológica, recrio algumas respostas colhidas aqui e ali e que
não devem ser muito diferentes de outras ouvidas por outros profissionais.
Sem negar o fato de que representam um claro sinal de que a escola ainda é
um importante referencial social, associado à sobrevivência econômica e à
interação, também não são raras as circunstâncias em que os jovens revelam
certa desconfiança ou mesmo desprezo pela instituição escolar, como a
típica resposta de alguns jovens de classe média de que “só vão à escola
porque os pais os obrigam”. De certa forma, a representação da escola como
um espaço meramente de interação social, como um “lugar legal” onde se
encontram os amigos e nada mais, já parece adiantar os riscos da perda de
vigor da instituição em contextos de profunda exclusão e violência social.
Outro problema grave é a perda de significado dos conteúdos escolares, não
raro rotulados de “distantes da realidade” ou “muito teóricos”, num
entendimento equivocado inclusive do que seja a própria teoria. Isto nos
leva a crer que, quando os jovens vêem na escola uma precondição de
ascensão social, podem estar se referindo mais ao diploma do que ao que
nela aprendem.
Em uma sociedade de valores tão deslocados e confundidos, em que o saber
nem sempre é sinônimo de prestígio social e em que os meios de comunicação
às vezes parecem promover e premiar a mediocridade, a falta de critério
racional e moral, o vazio intelectual, estético, político e ético, é cada
vez mais difícil sustentar a afirmação da escola como espaço útil e
necessário, essencial à promoção do bem-estar social. Afirmar simplesmente
que a escola deve formar cidadãos como uma ilha em meio ao desrespeito
generalizado, acaba sendo um truísmo de pouca força, a não ser retórica.
Por melhor intencionados que sejamos, a defesa da escola acaba caindo no
vazio, se descolamos a afirmativa de uma ação concreta e cotidiana desde
nossas escolas. Explico melhor: apenas dizer que a escola serve para
formar cidadãos ou sustentar que ela é fundamental para a inserção do
nosso jovem no mundo do trabalho não faz a mágica de transformar nossa
sociedade em seus mais perversos contornos políticos e socioeconômicos.
Nem transmite a nossos jovens a segurança de que necessitam para trilharem
a transição da fase infantil à fase adulta de suas vidas. A eficácia da
ação educacional começa no momento em que a escola sinaliza com suas
práticas a potencialização do cidadão e trabalhador que a freqüenta.
O desenvolvimento pessoal do educando jovem implica o reconhecimento de
sua identidade jovem e a contribuição para a qualificação desta mesma
identidade no plano individual e social, como pessoa, como cidadão e como
trabalhador. O desenvolvimento pessoal do educando jovem implica, ainda, o
reconhecimento do papel da escola como potencializador de sua autonomia
sócio-afetiva e intelectual. E o entendimento de que a autonomia começa já
na escola impõe projetos pedagógicos que levem em conta a efetiva
contribuição da escola para que os jovens sejam os artífices de seus
próprios projetos de vida e extraiam da escola as ferramentas para
concretizarem seus ideais.
As afirmativas acima não mudam na essência os objetos sobre os quais atuam
as escolas conhecimentos, procedimentos e valores a serem adquiridos pelos
alunos no processo de aprendizagem. Tais conteúdos sempre estiveram no
centro dos projetos pedagógicos. O que muda é a direcionalidade de tais
projetos. Ao invés de se centrarem em si mesmos, referindo-se à própria
escolaridade os célebres pré-requisitos que parecem terminar nos programas
de vestibulares, os conteúdos devem apontar, projetar a vida real e
palpável fora das escolas. Daí que juventudes e projetos de vida são a
dimensão central que explica o papel das escolas.
Juventudes: identidade ou identidades?
“Historicamente os sistemas educativos foram concebidos para
‘transferir a cultura das gerações adultas às gerações mais jovens’
[...]
Esta posição continha cinco propostas atualmente discutíveis. A primeira
é que as gerações mais jovens não possuem uma cultura própria e,
conseqüentemente, não oferecem nenhum tipo de resistência ao aprendizado
de conteúdos e à assunção de pautas culturais dos adultos. A segunda é
que a cultura adulta é homogênea. A terceira é que as culturas dos
jovens também são homogêneas. A quarta é que a cultura adulta e, como
parte dela, as características da produção e das estruturas dos
conhecimentos são estáveis através do tempo. A quinta é que os sistemas
educativos e as escolas constituem o principal sistema especializado na
transmissão de informação.”
(Cecília Braslavsky,
As
novas tendências mundiais e as mudanças curriculares na educação
secundária latino-americana na década de 90.
Brasília: Unesco, 2001, p. 19)
Uma
consideração preliminar em toda esta reflexão deve ser a de que quando
falamos de jovens, de identidades e de culturas juvenis, estamos nos
referindo a fenômenos marcadamente plurais e diversificados.
A reflexão das Ciências Humanas hoje aponta a superação dos olhares que
buscavam circunscrever e descrever a identidade pessoal e social como um
dado único e estático, isolado e recortado, como uma imagem congelada em
uma fotografia. Uma série objetiva de dados para constarem de uma espécie
de “cédula de identidade”, que devia traduzir o retrato fiel do objeto
descrito. Generalistas demais, tais descrições acabavam assumindo um
caráter preconceituoso, em afirmações taxativas do tipo “os jovens são
criativos” ou “os jovens são rebeldes”, assim como “os camponeses são
conservadores” ou “os brasileiros são musicais”.
Realidades fugidias, as identidades são muito mais complexas e dinâmicas
do que podiam pensar os que buscavam fixar o caráter, o tipo ideal, com o
qual se classificavam e rotulavam as pessoas e os grupos humanos. E não é
só o jovem que é plural, nem toda esta pluralidade e diversidade
constituem um problema. Trata-se, sem dúvida, de uma dificuldade a mais na
compreensão, que resulta no entanto em maior eficácia da própria
compreensão.
Todo subgrupo social constitui sua identidade a partir de um jogo complexo
de inter-relações com fenômenos e grupos variados, o que os torna muito
mais multifacetados do que à primeira vista parecem ser. Vivendo em
sociedades cada vez mais complexas, com níveis cada vez mais variados de
interação com outras sociedades e subgrupos sociais, culturas e
subculturas, formam-se identidades variadas resultantes de verdadeiras
sínteses culturais. O acúmulo de experiências no tempo também contribui
para formar somatórios complexos de diferentes influências, que poderão
reorientar opiniões e comportamentos. O resultado é que as diferentes
dinâmicas sociais levam os grupos a optarem por uma ou outra faceta desta
identidade plural, conforme o momento, recorrendo a uma espécie de
estratégia de sobrevivência. Não é muito diferente do que ocorre no plano
individual, quando, dependendo da situação, optamos por ressaltar nossa
identidade de gênero ou profissional, demonstrar ou ocultar nossa opção
religiosa ou política, assumir um gosto musical ou outro. E ao longo de
nossas vidas, vamos revendo opções e reestruturando opiniões e
comportamentos. E não se trata de esquizofrenia ou instabilidade
emocional, mas de reconhecimento do caráter interativo, dinâmico e
histórico da própria personalidade.
Qualquer tentativa de caracterização de nossos jovens como um grupo
homogêneo, detentor das mesmas características, pode significar uma
generalização apressada que, ao ser transposta para o currículo escolar,
contribuirá por mantê-lo afastado dos interesses dos jovens concretos que
estudam em cada escola. Daí a importância de não se perder de vista o
contato direto com os alunos nos momentos de planejamento, permitindo que
a diversidade alimente a reflexão curricular da escola. Dizer que os
jovens se interessam por música, por exemplo, é uma afirmativa muito
genérica que oculta diferentes possibilidades de seleção de repertório e
de práticas de escuta ou expressão. A generalização que pouco contribuirá
para o exercício pedagógico deve ceder ao estabelecimento de diferentes
estratégias de interação do currículo escolar com os interesses
diversificados dos alunos, o que só se dará mediante um diálogo que faça
aflorar estes interesses.
Uma atividade significativa é pôr em confronto no bom sentido os
interesses e gostos musicais de diferentes grupos de alunos ou destes e de
seus professores ou familiares. Exercitar a comparação, a definição de
critérios de análise, a compreensão dos diferentes usos sociais das
músicas será uma oportunidade para a construção de competências e
conhecimentos tanto de Linguagens quanto de Ciências Humanas e até de
Ciências da Natureza. É uma boa oportunidade também para o próprio
professor, de conhecer e compreender mais de perto e profundamente seus
alunos, fugindo à facilitação dos rótulos de que “os jovens só ouvem
música estrangeira”, de que “a música dos jovens é barulhenta” ou ainda de
que “os jovens não sabem escolher; consomem o que o mercado lhes oferece”.
A atividade poderá reservar algumas boas surpresas ao professor, revelando
um aluno consciente de suas escolhas, muito mais crítico e seletivo do que
os rótulos fazem supor. O indivíduo crítico não é o que faz as “escolhas
certas”, mas o que sabe as razões que fundamentam suas escolhas.
Reorientando-se o dito popular de que “gosto não se discute”, discutir os
gostos pode levar professores e alunos a exercitarem dentro da escola a
tolerância e o respeito à diversidade.
Juventudes e projetos de vida
Embora correndo o risco das generalizações, arriscaria nomear alguns focos
de interesse das gerações jovens, a título de exercício para reflexão.
Lembro mais uma vez que tais focos deveriam sempre ser averiguados em cada
escola, tendo em conta as múltiplas identidades juvenis e também a
diversidade cultural de nosso país.
Estes possíveis centros de atenção dos jovens constituem um conjunto de
vivências presentes e expectativas futuras que, sem dúvida, podem se
associar a diferentes projetos de vida. Podemos sintetizá-los em torno de
três grandes eixos intercomplementares, de expressão, interação e criação.
No eixo da expressão estão atividades e interesses associados ao campo das
artes e dos esportes, do lazer e da comunicação, referidos à cultura
audiovisual e à cultura corporal. Já apontando a interação, tais
manifestações parecem revestir-se de funções de identificação e de
extravasamento pessoal, assumindo papel de marcas, sinais e códigos
socialmente comunicáveis. Reveladoras de suas aspirações por participação
e ação coletiva, estas manifestações apontam novas formas de organização
política e social e podem ser lidas na perspectiva da reivindicação de
inclusão, inclusive econômica. Por sua vez, o inconformismo ou
irreverência ante os valores preestabelecidos e ante a própria escola e a
(pré)-disposição ao novo podem ser traduzidos como um amplo potencial de
criação e transformação das realidades vigentes.
A facilidade com que os jovens parecem absorver e se apropriar das
tecnologias de comunicação e informação, sempre que a elas tenham acesso e
mesmo que na condição de consumidores, constitui um importante campo de
reflexão para a escola. Esta, no entanto, mais uma vez, precisa superar a
generalização preconceituosa e pessimista predominante em discursos
difundidos sobre os jovens, que tendem a qualificá-los como alienados e
passivos diante da oferta dos meios de comunicação. A formação de
subgrupos que se distinguem por padrões de consumo pode ocultar níveis
insuspeitados de mediação que os levam a definir e assumir suas opções.
Ainda que a compreensão do papel dos meios de comunicação de massa na
formação dos jovens seja nebulosa, este constitui outro importante objeto
de investigação e reflexão conjunta para professores e alunos, de forma
que a escola possa ela própria tecer estratégias de mediação cultural na
recepção por nossos jovens dos produtos e valores veiculados pelos meios
de massa. Novamente, como no caso da música e sendo a própria música um
dos principais produtos veiculados pelos meios pode-se conceber o
exercício sobre os padrões de consumo cultural, níveis de percepção e
crítica da programação veiculada pelas emissoras de televisão e também de
rádio, a partir da experiência dos próprios alunos. Noções sobre a vida
política e econômica do país, a prática de esportes, o desenvolvimento
científico e tecnológico, a produção cultural são conteúdos presentes nos
meios, que podem se constituir em objetos de trabalho da escola, como
desconstrução e reconstrução.
Aqui, é fundamental o entendimento do papel da cultura escolar os
conhecimentos disciplinares que deve dialogar e não se sobrepor
simplesmente ao conhecimento prévio dos alunos, em geral mediado pelos
veículos de massa. A escola precisa compreender melhor os padrões de
consumo e de recepção de seus alunos, para poder construir com eles novos
padrões de recepção que sejam críticos e fundamentados em conhecimentos.
Desta forma, a escola não abre mão de sua missão de preservação de um
patrimônio cultural, mas também não “atropela” os alunos, partindo do
reconhecimento do conhecimento prévio como etapa inicial para a construção
de conhecimento novo acerca dos meios de comunicação e do conteúdo por
eles veiculado e contribuindo para a leitura crítica dos mesmos.
Não me refiro aqui simplesmente à aplicação de questionários em busca de
perfis socioculturais dos alunos, mas à adoção de estratégias mais amplas
e significativas de investigação conjunta e orgânica de seus interesses e
conhecimentos, já no âmbito das áreas curriculares e da aprendizagem
propriamente dita, isto é, como atividade curricular planejada e avaliada.
A investigação que tem como foco o cotidiano dos próprios alunos é a
melhor estratégia para cumprir a inclusão das culturas juvenis na escola e
a contextualização da cultura escolar, construindo-se um diálogo produtivo
entre estes dois universos.
Importa ainda registrar as expectativas dos jovens acerca da participação
e da própria inclusão social. Ao contrário de alienados, a precoce
inserção no mercado de trabalho contribui para torná-los atentos aos
problemas da vida econômica e social. Se ao emitirem opiniões e avaliações
acerca da situação política ou social do país, os jovens parecem
distanciar-se dos padrões habituais de outras gerações, eles podem estar
dando sinais de inconformismo ou de desconfiança nas velhas fórmulas.
Inconformismo e não alienação. O potencial criador dos jovens os converte
em formuladores de novas estratégias de protagonismo associativo social,
cultural e religioso.
É neste ponto que a articulação entre o currículo escolar e os projetos de
vida se faz mais necessária, sob pena de a escola se ver ultrapassada por
outras instituições lícitas ou não capazes de catalisar e fazer convergir
o potencial dos jovens para a ação. A inclusão social, em suas duas
vertentes, socioeconômica e sociopolítica, converte-se em importante ponto
de tensão entre as culturas juvenis e a cultura escolar. Resulta, por um
lado, na necessidade de a escola dar conta da preparação do jovem para o
mundo do trabalho. Isto requer não só a articulação entre Ensino Médio
geral e ensino técnico-profissional, desafio mais complexo do ponto de
vista institucional e financeiro, mas também a valorização do trabalho
como contexto a partir do qual os conhecimentos escolares podem ser
construídos e aplicados. Trata-se de dar respostas ao jovem quanto a suas
indagações a respeito da utilidade da própria escola. É um imperativo
social que a escola de Ensino Médio comprometa-se com as necessidades do
mundo do trabalho, dispa-se de uma roupagem meramente acadêmica,
enciclopédica e “teorizante” e assuma a articulação dos conteúdos com as
diferentes dinâmicas laborais, sem, é claro, render-se ao utilitarismo e
pragmatismo e sem perder de vista a dimensão humanista do próprio
trabalho. Trata-se de compreender concretamente como as linguagens, as
ciências e as tecnologias estão presentes nas diversas atividades laborais
desenvolvidas nas sociedades modernas e que conhecimentos, sejam
conceitos, procedimentos ou valores, são necessários no âmbito das
diversas formas de processos de produção. Não é outro o sentido da
aquisição de competências na escola.
Por outro lado, respondendo às expectativas de ordem sociopolítica, a
escola pode ir ao encontro dos jovens, institucionalizando em seu próprio
espaço físico ou em articulação com outras instituições sociais as novas
formas de protagonismo e interação inventadas pelos jovens. O trabalho com
projetos de investigação e intervenção solidária que façam a ponte entre
os conhecimentos escolares das três áreas curriculares e os imperativos da
vida social parecem ser a melhor estratégia pedagógica e sociológica,
para trazer para a escola as culturas juvenis e enriquecê-las e
potencializá-las com a cultura escolar. A aquisição de competências e
valores orientados para a vida em comum, como o trabalho em equipe e a
gestão de projetos, embasados no respeito mútuo, na negociação democrática
e na participação coletiva, tornam-se objetivos tão significativos quanto
os conteúdos disciplinares a serem construídos em tais atividades.
O papel das escolas
“(...) para que os jovens compareçam, permaneçam e aprendam
nos colégios, devem encontrar neles oportunidades de desenvolvimento em
condição de protagonistas, por intermédio de práticas bem variadas que
lhes permitam fazer das escolas espaços de vida juvenil. Por outro lado,
essa juventude não é um conglomerado homogêneo e, sim, um conjunto de
grupos de pessoas com interesses, necessidades e conhecimentos
diferentes, convergentes em alguns momentos e divergentes em outros, com
relação aos adultos e entre si. Por último, sua cultura não é uma
alternativa perfeita e não pode ser o único ponto de referência da
educação secundária.” (Idem, p. 20)
Talvez aí resida o ponto mais polêmico e mais perigoso de toda a questão
da inclusão das culturas juvenis na escola. Incluí-las na escola não
significa que a escola deva abandonar sua tradicional missão de
preservação do patrimônio cultural, ponte entre o conhecimento acadêmico e
a vida cotidiana. Incluí-las na escola não significa fazer do professor um
refém do próprio currículo, “encostando-o à parede” e constrangendo-o a
lidar com realidades culturais para as quais não está preparado nem
sensibilizado. Isto só produziria novos e perigosos conflitos de gerações.
Superar o mal-entendido requer compreender a própria articulação entre
escola e cultura e compreender cultura no sentido antropológico como
dinâmica viva e movente, não como patrimônio fossilizado. É a célebre
dialética entre tradição e inovação. A missão de preservação do patrimônio
pressupõe a ação de transcriação e recriação permanentes da própria
cultura.
O papel das escolas, portanto, desenvolve-se na incorporação das múltiplas
vivências e na reconstrução de seus significados. O significado da
cultura, da ciência, da tecnologia, da arte, da própria vida social não é
algo dado, pronto e transmissível, mas uma construção intelectual e também
afetiva que precisa acontecer diariamente na escola. Por isto, o papel das
escolas desenha-se na adoção do princípio da contextualização da
aprendizagem e na adoção de práticas pedagógicas mais dinâmicas e
desafiadoras à imaginação, que aproveitem o potencial criador dos próprios
jovens, como é o caso do desenvolvimento de projetos curriculares.
Conforme já vimos acima em diversas passagens, o papel das escolas reside
no entendimento de sua função como potencializadoras dos comportamentos
intelectuais e afetivos de seus alunos. São os saberes e as competências
construídos pelos alunos nas escolas a partir ou apesar de outros saberes
e competências construídos "na vida" que servem como ferramentas
intelectuais e afetivas, que se tornam disponíveis na constituição das
identidades pessoais de nossos jovens e que serão mobilizados em situações
diversas como respostas a desafios cotidianos e corriqueiros ou inusitados
e complexos.
O olhar atento às necessidades presentes e futuras que os jovens terão de
enfrentar no decorrer da concretização de seus projetos de vida requer que
a inclusão das culturas juvenis na escola não seja interpretada como um
convite ao abandono da tradição. Nem o jovem deve moldar-se passivamente à
escola, como se acreditava no passado, nem a escola deve moldar-se ao
jovem, incorporando acriticamente seu universo extra-escolar. A escola e o
jovem devem construir conjuntamente projetos de vida, sínteses dialéticas
concebidas no encontro entre a tradição que a escola preserva e transmite
e as dinâmicas sociais que forçam a recriação e transcriação desta mesma
tradição.
Sem dúvida, os desafios e dificuldades são de ordem a nos querer arrancar
qualquer otimismo e disposição para a transformação. De pronto, a falta de
recursos materiais e culturais –- a aquisição de equipamentos para as
escolas e a capacitação dos profissionais que nelas atuam, que não foram
formados para lidar com toda esta problemática. Sem dúvida também, é a
superação da inércia institucional que detona o processo de transformação.
Mais uma vez, é preciso falar de vontades políticas das escolas aos órgãos
gestores e da superação da alienação cotidiana como condições do
desenvolvimento da luta por melhoria qualitativa na educação de nossos
jovens. Somente a plena conscientização do papel das escolas por parte dos
próprios profissionais da educação, enquanto protagonistas do processo de
mudança, pode constituir a força capaz de superar os desafios.
Para dar respostas satisfatórias aos jovens e contribuir efetivamente para
a realização de projetos de vida, o papel das escolas é cada vez mais de
ordem afetiva. Na entrada, o acolhimento e o encontro, reconhecendo nos
jovens suas potencialidades e fugindo do discurso fácil que acusa
problemas e desvios. Na saída, o estímulo e o impulso, na construção do
instrumental reflexivo e crítico sobre o qual os projetos pessoais,
individuais e coletivos serão construídos. Na raiz de todo o percurso, uma
atitude educativa solidamente alicerçada em valores, como força para a
mudança qualitativa de nossa sociedade, que nos permita apontar a
superação de males que não foram criados por nossos jovens, mas que os
afligem talvez mais do que a todos os outros.
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histórico. Krauskopf, Dina - Dimensiones críticas en la
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NOTAS:
*
Mestre em História Social pela UFRJ e Professor de História da Música da
Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio).
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