PGM 4 – Ciências humanas e suas tecnologias

A área de ciências humanas e suas tecnologias e o trabalho com projetos juvenis

Léo Stampacchio*

Para que possamos debater sobre algumas questões relacionadas ao trabalho com projetos juvenis nas escolas de Ensino Médio, é importante que destaquemos, de forma preliminar, tanto a necessidade de se construir processos de ensino e de aprendizagem centrados na associação ensino-pesquisa em sala de aula como uma prática permanente, quanto esclarecermos alguns pontos gerais que envolvem o trabalho com projetos.

Inicialmente, é importante lembrar que o trabalho com pesquisa deve objetivar a superação da mera reprodução livresca nos processos de ensino e de aprendizagem. Tal condição revela-se como sendo fundamental para a construção de uma concepção de ensino que busca ir além de noções que consideram o produto de uma obra seja ela acadêmica ou materializada na forma de manuais didáticos como sendo a verdade absoluta sobre o tema, a área ou a disciplina que pretende abordar. Nesses termos, é absolutamente imprescindível que se construam posturas que venham a se opor de forma clara, intencional e sistemática às concepções que encaram o conhecimento como verdade absoluta e imutável. Tais posturas revelam-se como facilitadoras fundamentais para que competências como a compreensão de que as ações dos sujeitos sociais são realizadas no tempo e no espaço, criando relações e desdobramentos variados, sem determinismos, ou, ainda, como a compreensão de que as instituições sociais, políticas e econômicas são historicamente construídas/reconstruídas por diferentes sujeitos sociais, em processos influenciados por fatores variados e a partir de diferentes projetos sociais venham a ser construídas/reconstruídas pelos educandos nos trabalhos realizados no âmbito das diferentes disciplinas que compõem a Área de Ciências Humanas e suas Tecnologias. Contextos de pesquisa que venham a ser destacados de forma intencional para contemplar tais competências irão contribuir de forma efetiva para que conceitos e noções fundamentais da Área aqui citada venham a ser mobilizados e/ou construídos/reconstruídos pelos educandos. Entre esses podemos destacar, sem a intenção de esgotar as possibilidades, os seguintes: identidade social e diversidade de sujeitos como agentes de construção da história; permanências e mudanças históricas; relações políticas; relações sociais; poder; dominação; ética; semelhanças e diferenças entre contextos sociais diversos; trabalho; tradição, etc.

A construção de projetos de pesquisa que possam mobilizar em termos iniciais as competências, noções e conceitos que nos serviram de exemplo acima apresentam um aspecto qualitativo que não deve ser menosprezado, qual seja, o de servir de alavanca para que outras competências, conceitos e noções sejam mobilizados, construídos e reconstruídos pelos educandos ao longo dos trabalhos a serem desenvolvidos. Um exemplo disso é a competência voltada para a construção da autonomia intelectual do educando, a partir da problematização de situações baseadas em referências concretas e diversas, rompendo com verdades absolutas ou deterministas, que para ser construída recebe o aporte das diversidades dos trabalhos de análise que somente um projeto orientado de pesquisa pode proporcionar, sobretudo quando contextualizado nos espaços de vivência de nossos jovens.

Assim, assumir uma atitude reflexiva e questionadora frente ao conhecimento historicamente produzido, encarando-o como uma construção permanente e como prática social, é um primeiro passo para o reconhecimento de que os diversos saberes produzidos por qualquer sociedade, em qualquer época, trazem em seu interior um conjunto de influências éticas, políticas, religiosas, etc. que faz com que os mesmos não possam ser aprisionados no falso invólucro da neutralidade científica.

Nesse sentido, assume grande significado a postura de professores e alunos no sentido de se garantir a busca constante da investigação e da produção de conhecimentos sobre a realidade na qual estão imersos, a partir do estabelecimento de relações críticas com a mesma que permitam que aqueles se expressem como sujeitos e produtores de história e de conhecimentos.

Iniciar um processo, no qual a associação ensino pesquisa assume um caráter de significativa importância para o desenvolvimento de habilidades e competências e construção/reconstrução de conhecimentos por parte do aluno, implica a definição de uma proposta de curso que expresse claramente uma concepção pedagógica intimamente articulada a um modo de conceber a produção do conhecimento. Nesse sentido, um aspecto primordial é a construção de uma relação professor aluno que permita o trabalho de reflexão conjunto, no qual os alunos possam ser orientados na busca de respostas para suas inquietações. A valorização de todos os pontos de partida possíveis referências bibliográficas, reflexão metodológica, um contato com as fontes, assim como das expectativas dos alunos, uma experiência de vida ou um debate colocado pelo contexto social torna-se um primeiro e necessário passo para a superação da mera reprodução livresca anteriormente colocada.

O processo de ampliação do trabalho de localização, seleção e análise das fontes, registros, documentos e dados relevantes, a partir da construção de posturas que venham a consolidar uma prática de confrontar diversas fontes, procurando relacioná-las entre si, evitando privilegiar uma ou mais como a “mais”  verdadeira, constitui-se uma opção metodológica que visa, sobretudo, despertar a curiosidade, a criatividade e o interesse pelo ensino, tendo como  pressuposto a pesquisa e a descoberta como condições fundamentais para o desenvolvimento da capacidade de expressão e elaboração de nossos alunos. Em suma, a iniciação do educando nos caminhos da pesquisa passa, sobretudo, pela transformação das práticas de trabalho pedagógico do educador, em particular do papel comumente assumido de mero retransmissor de conhecimentos, que tem sido um dos principais obstáculos ao desenvolvimento de processos de ensino e de aprendizagem em que o desenvolvimento pleno do educando, no sentido de que este desenvolva múltiplas habilidades e competências, apresente-se como o fundamento maior a nortear as ações educativas. Nesse sentido, a construção dos projetos juvenis no espaço educativo de nossas escolas de Ensino Médio tem condições de ser, entre outras alternativas, uma ação de fundamental importância para que a associação ensino-pesquisa venha a se tornar de fato uma prática permanente.

O trabalho com projetos permite que competências fundamentais no campo da investigação e compreensão, como a obtenção de informações contidas em diferentes fontes e expressas em diferentes linguagens, associando-as às soluções possíveis para situações problema diversas, possam ser mobilizadas e/ou construídas/reconstruídas pelos educandos.

No entanto, diferentemente das atividades elaboradas ao sabor do improviso ou de planejamentos precários, o projeto de pesquisa deve ser entendido como um trabalho intencional, compreendido e desejado pelo aluno. Intencional porque situado no conjunto de fundamentos estruturados por uma dada disciplina do currículo quando da elaboração do planejamento, plano de curso e plano de aulas da mesma. Compreendido pelo aluno, porque as questões a serem debatidas e os problemas a serem levantados ao longo da pesquisa devem estar claramente colocados pelo roteiro de pesquisa que se pretende desenvolver, assim como situados no contexto do tema que se trabalha em dado momento dos processos de ensino e de aprendizagem de uma determinada disciplina. Finalmente, desejado pelo aluno, porque deve ser precedido do estímulo à curiosidade e da não apresentação de respostas imediatas às questões colocadas pelo educando, posto que tais respostas, se possíveis de serem alcançadas, irão ser construídas no processo de elaboração do trabalho de pesquisa.

Assim, considerando que todo e qualquer projeto visa à realização de uma produção, podemos definir um projeto como o conjunto de atividades necessárias a concretizar a produção pretendida. O empreendedor de tais tarefas nos processos de ensino e de aprendizagem será o aluno, razão pela qual o professor, enquanto mediador fundamental desse processo, deve explicitar claramente para os seus alunos os passos necessários ao desenvolvimento do projeto de pesquisa a ser trabalhado.

Dessa forma, esses são alguns dos passos gerais que podemos destacar para a construção de um projeto de pesquisa no âmbito escolar:
a) a identificação e/ou formulação do problema (etapa que visa deixar claro o que se pretende pesquisar, ou seja, qual o problema central que será alvo da elaboração da pesquisa);

b) o momento da elaboração e do planejamento do projeto junto aos alunos;

c) o desenvolvimento do projeto propriamente dito (etapa que se constitui na própria construção e desenvolvimento da pesquisa, sendo composta por atividades necessárias à construção da pesquisa, debates sobre os resultados alcançados e construção de conclusões possíveis frente às fontes analisadas);

d) a apresentação dos resultados e a avaliação final (etapa na qual as conclusões a que cada grupo chegou são comunicadas ao coletivo do grupo classe, constituindo-se, portanto, no momento da globalização dos resultados obtidos);

e) e também o momento da avaliação final da pesquisa realizada, cujos resultados podem constituir o ponto de partida para outro trabalho de pesquisa a ser realizado na seqüência. Além desses passos, é fundamental explicitar alguns pontos  básicos  que  todo projeto  de  pesquisa  deve conter, razão pela qual sugerimos o roteiro que se segue, embora saibamos que outras possibilidades também podem dar origem a roteiros de pesquisa. A nossa sugestão visa apenas demarcar algumas questões chave, que entendemos devam ser claramente explicitadas para os educandos quando da realização de um projeto.


O que será estudado?


Deve-se identificar, claramente, o tema fundamental que expressa o objeto de estudo que será alvo do trabalho de pesquisa a ser desenvolvido.


Para que a pesquisa será realizada?


Devem ser explicitadas, claramente, as expectativas com o desenvolvimento do trabalho.


Por que a pesquisa será realizada?


Aqui são explicitadas as razões que motivaram a proposta, a importância da investigação, os problemas levantados e a delimitação da temática.


Como a pesquisa será realizada? Quais os passos e atividades que serão necessários?


Explicitar as fontes que serão investigadas, as técnicas de pesquisa e os caminhos que serão percorridos no desenvolvimento do trabalho.


Quando as atividades previstas serão realizadas? Como ocorrerá a avaliação?


Definir as ações e etapas necessárias para a construção da pesquisa e a previsão da época em que serão realizadas, ou seja, elaborar um cronograma de execução da pesquisa.


O que é necessário?


Identificar quais recursos humanos e materiais são necessários para a execução da pesquisa proposta.


Onde pesquisar? Existem fontes? São acessáveis para o aluno?


Aqui é fundamental que se esclareça que o desenvolvimento de uma pesquisa, muitas vezes, requer um levantamento bibliográfico e de fontes sobre o assunto a ser pesquisado. Diferentemente do que ocorre na maioria dos casos em que o professor solicita “trabalhos” e simplesmente informa ao aluno que o mesmo encontrará informações para o trabalho em livros,  enciclopédias, etc. sem informar quais fontes e o que exatamente essas fontes contêm, o que se afirma aqui é que o professor deverá conhecer previamente os materiais que venha a indicar para o aluno. Tal condição é essencial para que não se pretenda que o aluno venha a ser capaz de realizar não apenas o trabalho proposto, mas também aquele que é atribuição do professor.

Finalmente, é importante observar que se de um lado a estruturação de um trabalho de pesquisa e o conhecimento construído através da mesma é uma produção coletiva, de outro lado o desempenho e desenvolvimento do aluno é individual, razão pela qual o professor deve ter atenção e cuidados especiais no tratamento dos registros que venham a ser elaborados para identificar o trabalho que cada aluno desenvolveu ao longo da elaboração do projeto de determinada pesquisa. No que tange ao trabalho com projetos juvenis que, por sua natureza, já devem necessariamente estar contextualizados nos e aos espaços de vivência social ampla e particular dos educandos, tais cuidados tornam-se ainda mais significativos, uma vez que os mesmos devem se constituir em momento privilegiado para a construção/reconstrução das memórias individuais e coletivas de um dado grupo social. Este, aliás, é um dos fundamentos essenciais do trabalho das disciplinas que compõem a Área de Ciências Humanas e suas Tecnologias.
 

NOTAS:

 

* Consultor do SEMTEC/MEC para a área de Ciências Humanas e suas tecnologias.

 

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