PGM 3 – Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias

Projetos juvenis na área de natureza, matemática e suas tecnologias

Mônica Waldhelm*

A contaminação por metais pesados do rio que banha a região onde fica a escola, o alto índice de poluição do ar provocando doenças respiratórias, a desinformação  da comunidade em relação à AIDS e outras DSTs, o uso de anabolizantes por adolescentes e suas conseqüências... Muitas são as questões que podem ser problematizadas no currículo de Ensino Médio. Tratam-se de contextos significativos para o jovem e a comunidade. As problemáticas citadas exigem a mobilização de conhecimentos, métodos e competências, de diferentes disciplinas, particularmente às da Área de Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias.

A partir destas problematizações, projetos juvenis, nos quais os jovens tenham participação ativa o que significa ir muito além da simples execução de atividades determinadas pelo professor podem ser desenvolvidos.

Um currículo cujo eixo seja a construção de competências com vistas a promover a autonomia intelectual do aluno deve basear-se na abordagem contextualizada e interdisciplinar do conhecimento. As disciplinas, sob este foco, deixam de ser fim e passam a ser meio, instrumentalizando o aluno para o exercício da cidadania.

A inserção cidadã implica tomar decisões e assumir posições relativas ao  mundo do trabalho, à saúde, à sexualidade, ao meio ambiente, ao uso da tecnologia. Estas escolhas não podem ser baseadas apenas no senso comum ou nas informações fragmentadas obtidas pela mídia. A escola tem portanto, papel fundamental na formação deste cidadão.

Por muito tempo assistimos à escola desenvolvendo “projetos” do tipo “Saúde”, “Lixo”, “Olimpíadas”, “Alimentos”, “Água” e outros similares. A partir de temas isolados, alunos e professores passavam o ano preparando cartazes, “experiências” e maquetes para serem exibidos, e talvez avaliados, nas feiras de ciências ou culturais.

Professores de todas as disciplinas eram obrigados e participar do “projeto”, desenvolvendo atividades isoladas, desarticuladas e muitas vezes totalmente desprovidas de significado para o aluno. Não havia problematização, não havia,  portanto, uma questão a ser investigada.

Ora, o que demanda a atividade de investigação e pesquisa, inerente a um projeto, é justamente a problematização. Sem isso, como identificar que conhecimentos disciplinares serão necessários para o entendimento da questão ? Como garantir a inserção significativa e articulada das disciplinas? Será que todas as disciplinas precisam participar de um mesmo projeto? E ao mesmo tempo?

Este equívoco, muito comum até hoje, cria uma artificialidade multidisciplinar, fragmentada e linear, favorece a superposição de conhecimentos e a perda de tempo. Um projeto, a partir da problematização, demanda atividades e mobilização de conhecimentos e competências específicas. Como serão realizados os trabalhos experimentais, as entrevistas e os relatórios ? Como as competências dos três eixos apontados nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Médio (Representação e Comunicação, Investigação e Compreensão, Contextualização Sociocultural) serão construídas e mobilizadas?

O método científico, base do conhecimento das  disciplinas da área de CNMT, permeará muito as atividades em que competências de Investigação e Compreensão sejam construídas/mobilizadas. Sairá do lugar de ponto estanque do currículo, para a vida real. A inquietude e interesse  do jovem  por questões do seu tempo não devem ser sufocados. Tais questões podem ser canalizadas para levá-los a propor hipóteses, testá-las com uma metodologia adequada e fazer intervenções. Embora a contextualização não implique tratar apenas de questões locais, de maior concretude, este tipo de trabalho favorece as intervenções práticas por parte dos alunos. Assim, ainda que seja importante incluir no currículo a discussão  sobre o impacto econômico político ambiental das decisões tomadas pelos países participantes da  Rio+10, um projeto envolvendo a comunidade no debate acerca das condições sanitárias do bairro pode desencadear ações como abaixo assinados dirigidos a autoridades competentes, mutirões, coleta seletiva do lixo, campanhas de esclarecimento e outras, que terão grande significado.  É fundamental  ampliar o quadro de referências do jovem, viabilizando seu trânsito por diferentes contextos  na sociedade. Não podemos oferecer simplesmente uma educação de periferia para um jovem aluno de periferia. As questões locais serão o pano de fundo para a construção/mobilização de conceitos e competências, que servirão  de passaporte para vôos além dos limites da escola e do bairro.

Projetos na área de CNMT representam, também, o espaço favorável para que os alunos (e professores) percebam a necessidade (e riqueza) das articulações entre os diferentes campos do conhecimento. Como tratar questões ambientais sem “conversar” com a Geografia? Como falar do corpo, dos padrões de beleza, sem o encontro com a Educação Física e Sociologia? Como confrontar diferentes discursos, do senso comum e da ciência, sem o auxílio da Língua Portuguesa?

Em uma abordagem histórica da ciência, entendendo-a como produção humana, questões de cunho ético e filosófico atravessarão diferentes discussões demandadas  dos projetos. Clonagem, transgênicos, uso de embriões humanos, mapeamento genético, testes de paternidade, eugenia... Questões que saíram dos laboratórios e invadiram a vida do cidadão comum, seja através da novela, do jornal, do papo com o vizinho ou pelo  filho na escola. Percebe-se que o jovem tem um papel importante na articulação entre escola e família, entre escola e comunidade. Ele pode ser um verdadeiro catalisador neste processo, pois participa de atividades, relaciona-se com diferentes agentes e compreende os códigos usados dentro e fora da escola.

O uso de diferentes tecnologias também é favorecido no desenvolvimento de projetos. Principalmente naqueles em que os muros escolares são transpostos e o jovem tem contato com outros espaços, como laboratórios, empresas, universidades, museus, centros de ciências, etc. As atividades de campo em geral também requerem o uso de materiais tradicionalmente esquecidos ou subutilizados na escola. Recursos como a TV Escola e computadores  podem favorecer o trânsito entre o local e o global, entre o concreto e o abstrato, entre o visível e o microscópico, a que já nos referimos. Como tal, não devem ser subestimados no trabalho com projetos.

Não cabe ao jovem decidir os programas a serem desenvolvidos pelas disciplinas, mas o professor pode estar atento aos anseios e indagações de seus alunos e selecionar contextos significativos para desenvolver o que foi definido como sendo importante para ser aprendido no Ensino Médio.

Longe de ter a pretensão de formar químicos, físicos, biólogos ou matemáticos no Ensino Médio, a área de Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias, em igualdade de importância com as outras áreas no currículo, pode trazer para a escola muito mais que nomes e fórmulas complicados. Neste mundo globalizado e cibernético, o acesso democrático a conceitos fundamentais e ao uso de  tecnologias pode ser a diferença entre a inclusão e exclusão. O conhecimento não pára de ser produzido. É primordial que nosso aluno continue a aprender após a escola. Isso só é garantido com a construção de competências, que vão além de saber a diferença entre fotossíntese e quimiossíntese.

Jovens protagonistas, com autonomia intelectual, senso crítico e respeito a valores como a solidariedade, com certeza deixarão marcas por onde passarem. Formar estes jovens  é um dos desafios  da escola de Ensino Médio. Este é o grande projeto.
 

NOTAS: 

* Prof de Biologia do CEFET/RJ; Mestre em Educação.

 

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