PGM 2
– Linguagens, códigos e suas tecnologias
Projetos juvenis na área de linguagens, códigos e suas tecnologias
Carlos Emílio Faraco*
No
programa de introdução desta série, apresentou-se o conceito de
projetos juvenis, justificando-se inclusive o emprego da expressão
culturas juvenis, no plural, uma vez que a designação abrange diversas
“tribos”, com características próprias.
A contextualização pedagógico-educacional do tema implica a consideração
das variáveis seguintes, entre outras:
a) Geralmente nota-se uma distância acentuada entre a cultura
prescritiva incorporada e estimulada pela escola e as culturas
efetivamente protagonizadas pelos jovens; estas, a escola deve
incorporar criticamente, se pretende minimizar aquela distância.
b) A expansão do Ensino Médio mudou o mapa cultural desse ciclo, fazendo
emergir culturas com traços e tonalidades diversos, originadas em classes
sociais diferentes e expressas por variedades estilísticas de convívio nem
sempre pacífico.
c) Embora sustentados por objetivos semelhantes, há vários discursos,
veiculados pela mídia, voltados especificamente para os públicos juvenis.
As inúmeras publicações – para ficar só na mídia impressa – demonstram a
percepção dessas diferenças culturais. Ao acaso, podemos citar estas
revistas: Batera & Percussão; Capricho; Atrevida;
Full Games; Fluir; Todateen; Trip...
Ignorar conteúdos e formas difundidos pela mídia, especialmente esses
voltados para o jovem, é ignorar uma das competências mais abrangentes que
a escola se propõe a desenvolver: a leitura crítica da realidade.
d) Boa parte dos alunos que chegam hoje ao Ensino Médio fazem parte da
chamada “geração WWW” (World Wide Web). Imersos no ciberespaço, muitos
desses jovens já não conseguem entender como teria sido “um mundo sem
Internet”.
e) Conseqüência do que se apontou em c e d: a identidade desses jovens
não se constrói mais prioritariamente no discurso típico do seio familiar
ou do âmbito escolar, mas nos multifacetados discursos que impregnam a
realidade extra-familiar e extra-escolar.
A necessária convivência com o pluralismo de linguagens e estilos
é, pois, questão chave para a escola.
O que se observa, geralmente, é que tanto a produção cultural voltada para
esses grupos como aquela por eles gerada quase nunca é incorporada pela
escola. Quando ocorre, salvo poucas exceções, tal inserção se faz de modo
circunstancial.
Por isso, é fundamental que se entenda a incorporação daquelas culturas na
perspectiva de projetos, como anuncia o conceito que abriu esta
série e que retomamos:
“ Quando falamos em projetos juvenis nas escolas de Ensino
Médio, estamos nos referindo aos que se desenvolvem a partir do
currículo,
são planejados e avaliados de forma coletiva por professores e alunos e
integram
as manifestações culturais de seus jovens aos conhecimentos
investigados.”
(Grifos nossos)
Como
se vê pela definição, o projeto não é uma atividade esporádica a legitimar
os momentos em que a escola fica “em suspensão” para comemorar um fato, um
acontecimento, uma data, ou mesmo para dedicar-se exclusivamente a
determinado tema. Cessado o momento, retoma-se a rotina imposta pela
rigidez da lista de conteúdos, que acaba deglutindo o fazer
circunstancial, fragmentando-o mais ainda, de forma a dificultar até mesmo
a avaliação precisa dos resultados e da real significação daquele hiato
para o todo que deveria constituir o currículo.
O projeto se opõe, portanto, à idéia de interrupção e diluição,
definindo-se pela sua articulação com um todo.
Na Área de LCT, essa articulação se dá pelos três eixos previstos nos
PCNEM, ou seja, o da comunicação e expressão, o da compreensão e da
investigação e o da contextualização sociocultural. Essa articulação se
faz no interior da própria disciplina, no interior da área e, em muitos
casos, na interface das áreas.
Dos temas mencionados no primeiro programa, todos, como de resto qualquer
conteúdo curricular, não prescinde da utilização de um ou outro tipo de
linguagem, com a predominância de algum desses tipos. Mas este é um fio
condutor ainda frágil para sustentar a idéia de projeto.
A utilização de linguagens diversas, que certamente atende à
formação de competências do eixo da comunicação e expressão, não é
suficiente para afirmarmos que a área está presente de forma substancial
em determinado projeto. Fosse assim, qualquer grupo de atividade poderia
ser considerado um projeto, pelo simples fato de seu processo e produto se
valerem das linguagens diversas que circulam no meio escolar e
extra-escolar. Quando o projeto efetivamente se preocupa com o
desenvolvimento de competências da área de Linguagens, Códigos e suas
Tecnologias, é necessário que os outros dois eixos sejam também
considerados. Ou seja, que aquela linguagem utilizada no processo
condutor e no produto resultante também seja alvo de análise e reflexão;
aí estaremos trabalhando no eixo da investigação e compreensão.
Mas essa interseção é ainda insuficiente para definir um projeto que
sublinhe a área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. É preciso, para
concluir a articulação desejada, que os protagonistas do projeto entendam
que tanto as linguagens utilizadas quanto os princípios metodológicos
utilizados para analisá-las são criações culturais e, como tal,
relacionadas (não necessariamente como validação mas também como
questionamento) a determinado contexto sociocultural. Deve-se
insistir, nesse eixo, para o fato de que as linguagens
não se constituem apenas e tão-somente reflexo ou decorrência
imediata de um contexto, mas podem conter, explícita ou
implicitamente, um questionamento a esse contexto.
Conseqüentemente, as linguagens podem ser apreendidas muito além da sua
natureza instrumental. Podem ser analisadas nos seus elementos
constituintes, nas suas articulações internas que desenham uma gramática
própria, na sua substância. E, como fechamento dessas duas
apreensões, instrumento e substância revelam-se como
criação humana, impregnada pelo tempo, pelo espaço e pelos sujeitos
que a constroem pelo uso. Grosso modo, estamos querendo dizer que
as culturas juvenis, que se expressam em diversas linguagens, como
quaisquer outros tipos de cultura, têm raízes e que essas raízes se
relacionam com a identidade do aluno.
A correta compreensão da cultura corporal para ficar num dos
exemplos citados no primeiro programa desta série depende do domínio de
alguns conceitos da área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. Se
considerado como um gerador de textos, o corpo se manifesta por
meio de uma linguagem específica, com uma gramática própria,
escrevendo no espaço e no tempo estilos individuais e coletivos que
podem consolidar índices tribais reforçados pela vestimenta e adereços
(moda) e até por outras marcas e sinais como a tatuagem, atualmente
recuperada em nova contextualização.
No entanto, como se sabe, roupas, acessórios e intervenções na pele não
garantem, por si, a aceitação e a inclusão em grupos. Importa também o
comportamento, manifestado por códigos verbais e não-verbais, que descarta
condutas consideradas ultrapassadas e cria ou incorpora novas, numa
dinâmica própria das linguagens, coerente com aquela diversidade de
formas de expressão de que já tratamos.
Moda, comportamento e textos produzidos pelo corpo, tendo morfologia e
sintaxe próprias, podem ser objetos de estudo que incorporam conceitos da
área, ou seja, podem ser compreendidos e analisados sob o ponto de vista
das linguagens.
Na interface das áreas, esses mesmos objetos são passíveis de análise por
meio de outros conceitos, instrumentos e métodos, próprios das Ciências da
Natureza e das Ciências Humanas, reforçando o princípio da
interdisciplinaridade, um dos pilares do conjunto de propostas do novo
Ensino Médio.
Compete aos professores a seleção desses conceitos, métodos e instrumentos
para que, de fato, as culturas juvenis se tornem objeto de estudo
sistematizado e não mero exercício de excentricidade, com a sempre
indesejada conotação de “concessão” feita pela erudição.
NOTAS:
* Consultor do
SEMTEC/MEC para a área de Linguagens, códigos e suas tecnologias.
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