PGM 1
– A importância
dos projetos juvenis
Concepção, abrangência e importância dos projetos juvenis
Angela Cruz*
Ao
conhecermos as experiências desenvolvidas pelas escolas de Ensino Médio do
país, observamos não só a qualidade das produções, mas o movimento que vem
ocorrendo, no sentido de dar voz aos alunos e às alunas. Apesar de tal
movimento ser ainda embrionário, visto que seu alcance é tímido, ele
existe e, esperamos, resista à tensão provocada pela reação dos que
acreditam que o papel do aluno é o de ouvir e acatar o “saber/poder” dos
professores e das professoras.
É visível a preocupação em estimular os/as alunos/as a tomarem iniciativas
e a decidirem coletivamente. Com isso vivenciam valores, como o respeito
às diferenças, e constroem identidades e cidadania, pois os projetos
estimulam ações de intervenção na comunidade.
Tem-se a impressão de que a alquimia entre o saber e o ser está começando
a se dar, ao vermos os/as alunos/as aplicarem o que aprendem na escola à
própria vida e, mais ainda, contribuírem para a mudança na comunidade.
Se por “todo o sempre” projetos foram desenvolvidos nas escolas, hoje sua
prática – além de mais preocupada com a efetiva participação dos/as
alunos/as procura se efetivar curricularmente. Mas, dirão alguns, tudo o
que se discute na escola não é curricular? Deveria ser, se o tratamento
dado a tais discussões estivesse promovendo sentido e significado aos
conceitos das áreas/disciplinas escolares, se levasse à compreensão das
finalidades sociais específicas de cada disciplina.
Refletindo sobre o significado e a importância de projetos juvenis
nas escolas, vamos levantar algumas questões.
Se tais projetos são desenvolvidos pelos/as jovens, visando-se estimular o
protagonismo dos/das mesmos/as desde o momento de sua concepção, até a
avaliação, todos os projetos realizados nas escolas seriam juvenis. Mas
para que isso efetivamente aconteça devemos agregar a eles as “marcas” das
juventudes, suas identidades, suas expressões culturais.
Referimo-nos a juventudes, no plural, porque não consideramos juventude
como grupo social homogêneo, definido apenas em termos etários. Os/as
jovens estão em diferentes situações sociais e vivenciam diferentes
responsabilidades e sentimentos de pertença. Por isso as manifestações
culturais dos/as jovens se expressam em culturas juvenis e, não, em
uma cultura juvenil, específica de determinada geração. Mesmo que
se queira considerar a influência de gerações precedentes no conjunto de
símbolos, crenças e valores das culturas juvenis de hoje ou até mesmo
identificar alguns elementos comuns às práticas cotidianas dos/as jovens,
consideramos juventude como construção sociocultural, embasada em grande
diversidade, daí o caráter plural do conceito.
Mas se as expressões culturais das juventudes são múltiplas, como
selecionar as que serão incorporadas ao currículo de determinada escola? –
perguntaríamos. É fundamental, sem dúvida, conhecermos os/as jovens de
nossas escolas. Estão vinculados/as a que conjunturas específicas? Como é
seu cotidiano? A que grupos ou “tribos” pertencem, quais as suas
identidades sociais, qual é, enfim, a lógica de significação que, ao
combinar diversos elementos, gera expressões de identidade grupal?
Conhecemos os/as alunos/as das escolas onde trabalhamos? Mais do que achar
impossível que os/as professores/as cheguem a tal conhecimento, em virtude
do quantitativo de alunos/as por turma e pela necessidade de atuação em
várias instituições, precisamos refletir sobre a importância do currículo
que cada escola constrói para a produção de sujeitos. Até porque conhecer
os estilos de vida dos/as jovens de determinada escola passa, basicamente,
por conversas com eles/as em sala de aula. É claro que algumas
instituições, através de questionários preenchidos no início do ano
pelos/as alunos/as, respondem a algumas das indagações. Mas nada melhor do
que sabermos quem e como são nossos/as jovens, qual é seu modo de sentir e
interpretar o mundo, através de conversas com eles, para esse fim.
É claro que de nada adianta sabermos seu jeito de ser se o currículo tiver
sido criado para alunos/as utópicos/as (de tal e qual série). Ao
contrário, se desenharmos, por exemplo, o currículo para os/as alunos/as
do 2º ano de respectiva escola, saberemos para quem estamos falando, com a
intenção de atingirmos objetivos já definidos.
A partir do conhecimento a respeito dos/das jovens que freqüentam
nossas escolas, o currículo agregaria marcas culturais específicas e
outras, que abrangem tendências mais comuns. Quais seriam elas?
Segundo Tedesco (2001)1,
são tendências mais comuns a importância do corpo, da música, o predomínio
da imagem, a empatia com a utilização de novas tecnologias (não
necessariamente com sua compreensão interna), a importância fundamental da
afetividade como dimensão das relações sociais e o predomínio do presente
como dimensão temporal dominante. É bastante nítida a preocupação que
os/as jovens possuem com relação à aparência. Em particular o vestuário
aparece como um instrumento de integração grupal, um poder simbólico,
como afirma José Machado Pais2.
Continua o autor que não só o vestuário, mas os penteados, os gestos, as
linguagens, os lazeres etc. combinam-se intencionalmente, numa lógica de
significação do estilo de vida dos/as jovens.
E os elementos apontados o corpo (e a sexualidade), as relações
sociais, a dimensão temporal e o presenteísmo, a música (com sua
diversidade de estilos), a imagem, a estética, as tecnologias etc.
como tendências mais comuns às manifestações culturais dos/as jovens,
dizem respeito aos conhecimentos da área das Ciências da Natureza, de
Humanas e de Linguagens. O currículo adquire significado, ao se basear num
conjunto de referências que se relacionam às percepções dos alunos.
Integra e promove a necessária simbiose entre o saber escolar e as
vivências culturais e comportamentos dos/as alunos/as.
E tal simbiose entre os conhecimentos e as manifestações culturais
dos/as alunos/as se efetiva mais significativamente através do trabalho
com projetos, porque através deles se dão a investigação, a
pesquisa, a troca, o registro do processo, que ajudam os/as alunos/as a
saberem mais sobre coisas que fazem sentido para eles/as, além do estímulo
a que se tornem autônomos/as e tomem decisões. A (s) problemática (s)
investigada (s), diferentemente de temas (que se esgotam por si mesmos),
aproximam os saberes disciplinares. A convivência decorrente do
desenvolvimento das atividades favorece a cooperação, o trabalho em
equipe, estimulando o reconhecimento das diferenças e o respeito ao outro.
Além disso, um conjunto maior de competências é desenvolvido de maneira
mais rica, pois a multiplicidade de situações de aprendizagem vivenciadas
num projeto oportuniza tal desenvolvimento. Trabalhar com projetos, além
de desafiar a linearidade e fragmentação curriculares, demanda a
reorganização de tempos e espaços escolares. Isso exige espaço e tempo
físicos para que professores/as possam se encontrar para planejar e
avaliar, em permanente troca com os/as alunos/as, todo o processo.
Portanto, quando falamos em projetos juvenis nas escolas de
Ensino Médio, estamos nos referindo àqueles que são planejados e
desenvolvidos a partir de contextos referenciados no currículo, são
avaliados em permanente processo de discussão por professores/as e
alunos/as, e integram as culturas juvenis aos conhecimentos investigados.
Seu desenvolvimento em nossas escolas pode propiciar novas narrativas que
permitam dar aos/às jovens um novo sentido a suas práticas individuais e
sociais, a se desenvolverem enquanto pessoas. Se queremos que os/as
alunos/as do Ensino Médio se preparem para intervir socialmente de maneira
positiva, é preciso que na escola (também espaço de alegria) a reflexão e
a busca de soluções de forma criativa, compartilhada, coletiva e
solidária, faça parte do seu cotidiano.
Esperamos que o trabalho com projetos juvenis provoque densas e
significativas discussões nos espaços escolares sobre o papel dos/as
professores/as, a função social da escola e as relações de poder nela
vivenciadas que, ansiamos, sejam cada vez mais democráticas.
NOTAS:
*
Consultora da Secretaria de Educação Média e Tecnológica – SEMTEC/MEC e
consultora desta série.
1
Algunos dilemas de la educación secundaria en America Latina,
comunicação apresentada no Seminário Alternativas de reforma de la
educación secundaria.
Santiago, Chile, março de 2001.
2
Pais, José Machado. Culturas Juvenis. Lisboa: Imprensa Nacional –
Casa da Moeda, 1993, p. 99.
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