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Apresentação
Quando falamos em
projetos juvenis nas escolas de Ensino Médio, estamos nos referindo
aos que se desenvolvem a partir do currículo, são planejados e
avaliados de forma coletiva por professores e alunos e integram as
manifestações culturais jovens aos conhecimentos investigados.
Discutir sua concepção, abrangência, significado e importância
representa refletir sobre a promoção de mudanças nas relações
interpessoais, nas relações de poder, na organização curricular, na
organização interna da escola, enfim.
É sobre essa mudança que vamos dedicar a série Ensino Médio:
Projetos Juvenis, com ritmos, cores, sons e arte diversificados,
como são diversas as realidades, a expressão e a sensibilidade de
nossas juventudes1.
A série será apresentada no programa Salto para o Futuro/TV Escola, de
4 a 8 de novembro. O programa de abertura abordará a concepção,
abrangência e importância dos projetos juvenis. O segundo programa
focará muito especialmente a manifestação das Linguagens nos projetos.
O programa 3 irá discutir conhecimentos da área de Natureza através de
projetos. O quarto programa irá priorizar o desenvolvimento de
projetos que evidenciam conhecimentos da área de Humanas. Finalmente,
o programa de encerramento abordará a temática
Juventudes e projetos de vida: o papel das escolas.
Justificativa
Ao abordar o trabalho com projetos na construção do conhecimento
escolar, valorizamos uma prática pedagógica que estimula a iniciativa
dos alunos através da pesquisa, desenvolve o respeito às diferenças
pela necessidade do trabalho em equipe, incentiva o saber ouvir e
expressar-se, o falar em público e o pensamento crítico autônomo.
O desenvolvimento de projetos nas escolas sempre existiu. E por que
agora está tão “badalado” ? Há diferenças entre a prática de hoje e a
de ontem?
O que se valoriza ultimamente não é a prática de projetos em si, mas a
autonomia que vai sendo conquistada através da pesquisa com toda
a diversidade de caminhos percorridos e as competências que os alunos
vão desenvolvendo através de tal prática, visando-se, com isso,
promover sua autonomia intelectual.
Além disso, muitos dos projetos desenvolvidos até então não se
preocupavam com a necessária inserção curricular de tal prática. Mas
dirão alguns: tudo o que se discute na escola não é curricular?
Deveria ser, se o tratamento dado a tais discussões estivesse
promovendo sentido e significados aos conceitos das áreas/disciplinas
escolares, se levasse à compreensão das finalidades sociais
específicas de cada disciplina. Ainda, caracterizam o tratamento
curricular o planejamento e a avaliação sistemática ao longo de todo o
desenvolvimento dos projetos. Um exemplo simples do que não é
curricular é um projeto de teatro na escola que acontece, muitas
vezes, sem ter uma vinculação explícita aos contextos histórico e
literário e às diferentes linguagens, e que nem sempre é formalmente
avaliado. E, na maioria das vezes, os jovens gostam muito de
participar desse projeto. Então, devemos refletir: o que é prazeroso,
na escola, não pode estar vinculado ao currículo nem ser avaliado?
Qual a relação do jovem com o saber que a escola valoriza?
Os projetos curriculares estão, em sua maioria, vinculados ao projeto
escolar, ao projeto pedagógico da escola. Por isso, evidenciam os
princípios e a própria identidade da escola através da escolha dos
contextos pesquisados e das atividades desenvolvidas.
As culturas das juventudes também se manifestam nos projetos através
de aspectos da música, da imagem e das tecnologias, do corpo, do
hedonismo, da afetividade e da sociabilidade, linguagens e valores,
que devem ser discutidos no currículo e evidenciados nos projetos
juvenis.
A dinâmica do trabalho com projetos envolve também as relações
escolares. Estimular a participação dos jovens na construção do seu
conhecimento significa não só provocar o espírito investigativo e o
relacionar-se melhor com o outro. Promove também mudanças nas relações
entre aluno-professor, aluno-aluno, aluno-diretor-professor etc. A
problemática que será discutida no projeto, assim como o planejamento
e a avaliação do mesmo, devem ser realizados de forma coletiva por
professores e alunos. Isso muitas vezes incomoda a quem ainda acredita
que o poder de decisão está nas mãos do professor, que “detém o
saber/poder”.
A prática do trabalho com projetos também pode alterar as relações da
escola com a comunidade externa e com as famílias. Depende da
visibilidade (interna e externa) dos mesmos, obtida através da
divulgação, das atividades que serão desenvolvidas fora da escola, das
parcerias estabelecidas com outras instituições, das propostas de
intervenção apontadas. Além do aprimoramento da auto-estima, os alunos
apresentam mudanças significativas no comportamento, que se manifestam
no maior engajamento com as questões da comunidade e no interesse em
participar mais ativamente da escola.
Os projetos se desenvolvem percorrendo conceitos e métodos pertinentes
às três áreas do conhecimento definidas pelas/os Diretrizes e
Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio e se desdobram em
subprojetos ou em outros projetos, na maioria das vezes, reorganizando
tempos e espaços escolares.
E conhecemos os projetos de vida dos nossos alunos? Quais as suas
expectativas em relação ao futuro?
PGM 1
– A importância
dos projetos juvenis
Concepção, abrangência e importância dos projetos juvenis
Angela Cruz*
Ao
conhecermos as experiências desenvolvidas pelas escolas de Ensino Médio do
país, observamos não só a qualidade das produções, mas o movimento que vem
ocorrendo, no sentido de dar voz aos alunos e às alunas. Apesar de tal
movimento ser ainda embrionário, visto que seu alcance é tímido, ele
existe e, esperamos, resiste à tensão provocada pela reação dos que
acreditam que o papel do aluno é o de ouvir e acatar o “saber/poder” dos
professores e das professoras.
É visível a preocupação em estimular os/as alunos/as a tomarem iniciativas
e a decidirem coletivamente. Com isso vivenciam valores, como o respeito
às diferenças, e constroem identidades e cidadania, pois os projetos
estimulam ações de intervenção na comunidade.
Tem-se a impressão de que a alquimia entre o saber e o ser está começando
a se dar, ao vermos os/as alunos/as aplicarem o que aprendem na escola à
própria vida e, mais ainda, contribuírem para a mudança na comunidade.
Se por “todo o sempre” projetos foram desenvolvidos nas escolas, hoje sua
prática – além de mais preocupada com a efetiva participação dos/as
alunos/as procura se efetivar curricularmente. Mas, dirão alguns, tudo o
que se discute na escola não é curricular? Deveria ser, se o tratamento
dado a tais discussões estivesse promovendo sentido e significado aos
conceitos das áreas/disciplinas escolares, se levasse à compreensão das
finalidades sociais específicas de cada disciplina.
Refletindo sobre o significado e a importância de projetos juvenis
nas escolas, vamos levantar algumas questões.
Se tais projetos são desenvolvidos pelos/as jovens, visando-se estimular o
protagonismo dos/das mesmos/as desde o momento de sua concepção, até a
avaliação, todos os projetos realizados nas escolas seriam juvenis. Mas
para que isso efetivamente aconteça devemos agregar a eles as “marcas” das
juventudes, suas identidades, suas expressões culturais.
Referimo-nos a juventudes, no plural, porque não consideramos juventude
como grupo social homogêneo, definido apenas em termos etários. Os/as
jovens estão em diferentes situações sociais e vivenciam diferentes
responsabilidades e sentimentos de pertença. Por isso as manifestações
culturais dos/as jovens se expressam em culturas juvenis e, não, em
uma cultura juvenil, específica de determinada geração. Mesmo que
se queira considerar a influência de gerações precedentes no conjunto de
símbolos, crenças e valores das culturas juvenis de hoje ou até mesmo
identificar alguns elementos comuns às práticas cotidianas dos/as jovens,
consideramos juventude como construção sociocultural, embasada em grande
diversidade, daí o caráter plural do conceito.
Mas se as expressões culturais das juventudes são múltiplas, como
selecionar as que serão incorporadas ao currículo de determinada escola? –
perguntaríamos. É fundamental, sem dúvida, conhecermos os/as jovens de
nossas escolas. Estão vinculados/as a que conjunturas específicas? Como é
seu cotidiano? A que grupos ou “tribos” pertencem, quais as suas
identidades sociais, qual é, enfim, a lógica de significação que, ao
combinar diversos elementos, gera expressões de identidade grupal?
Conhecemos os/as alunos/as das escolas onde trabalhamos? Mais do que achar
impossível que os/as professores/as cheguem a tal conhecimento, em virtude
do quantitativo de alunos/as por turma e pela necessidade de atuação em
várias instituições, precisamos refletir sobre a importância do currículo
que cada escola constrói para a produção de sujeitos. Até porque conhecer
os estilos de vida dos/as jovens de determinada escola passa, basicamente,
por conversas com eles/as em sala de aula. É claro que algumas
instituições, através de questionários preenchidos no início do ano
pelos/as alunos/as, respondem a algumas das indagações. Mas nada melhor do
que sabermos quem e como são nossos/as jovens, qual é seu modo de sentir e
interpretar o mundo, através de conversas com eles, para esse fim.
É claro que de nada adianta sabermos seu jeito de ser se o currículo tiver
sido criado para alunos/as utópicos/as (de tal e qual série). Ao
contrário, se desenharmos, por exemplo, o currículo para os/as alunos/as
do 2º ano de respectiva escola, saberemos para quem estamos falando, com a
intenção de atingirmos objetivos já definidos.
A partir do conhecimento a respeito dos/das jovens que freqüentam
nossas escolas, o currículo agregaria marcas culturais específicas e
outras, que abrangem tendências mais comuns. Quais seriam elas?
Segundo Tedesco (2001)1,
são tendências mais comuns a importância do corpo, da música, o predomínio
da imagem, a empatia com a utilização de novas tecnologias (não
necessariamente com sua compreensão interna), a importância fundamental da
afetividade como dimensão das relações sociais e o predomínio do presente
como dimensão temporal dominante. É bastante nítida a preocupação que
os/as jovens possuem com relação à aparência. Em particular o vestuário
aparece como um instrumento de integração grupal, um poder simbólico,
como afirma José Machado Pais2.
Continua o autor que não só o vestuário, mas os penteados, os gestos, as
linguagens, os lazeres etc. combinam-se intencionalmente, numa lógica de
significação do estilo de vida dos/as jovens.
E os elementos apontados o corpo (e a sexualidade), as relações
sociais, a dimensão temporal e o presenteísmo, a música (com sua
diversidade de estilos), a imagem, a estética, as tecnologias etc.
como tendências mais comuns às manifestações culturais dos/as jovens,
dizem respeito aos conhecimentos da área das Ciências da Natureza, de
Humanas e de Linguagens. O currículo adquire significado, ao se basear num
conjunto de referências que se relacionam às percepções dos alunos.
Integra e promove a necessária simbiose entre o saber escolar e as
vivências culturais e comportamentos dos/as alunos/as.
E tal simbiose entre os conhecimentos e as manifestações culturais
dos/as alunos/as se efetiva mais significativamente através do trabalho
com projetos, porque através deles se dão a investigação, a
pesquisa, a troca, o registro do processo, que ajudam os/as alunos/as a
saberem mais sobre coisas que fazem sentido para eles/as, além do estímulo
a que se tornem autônomos/as e tomem decisões. A (s) problemática (s)
investigada (s), diferentemente de temas (que se esgotam por si mesmos),
aproximam os saberes disciplinares. A convivência decorrente do
desenvolvimento das atividades favorece a cooperação, o trabalho em
equipe, estimulando o reconhecimento das diferenças e o respeito ao outro.
Além disso, um conjunto maior de competências é desenvolvido de maneira
mais rica, pois a multiplicidade de situações de aprendizagem vivenciadas
num projeto oportuniza tal desenvolvimento. Trabalhar com projetos, além
de desafiar a linearidade e fragmentação curriculares, demanda a
reorganização de tempos e espaços escolares. Isso exige espaço e tempo
físicos para que professores/as possam se encontrar para planejar e
avaliar, em permanente troca com os/as alunos/as, todo o processo.
Portanto, quando falamos em projetos juvenis nas escolas de
Ensino Médio, estamos nos referindo àqueles que são planejados e
desenvolvidos a partir de contextos referenciados no currículo, são
avaliados em permanente processo de discussão por professores/as e
alunos/as, e integram as culturas juvenis aos conhecimentos investigados.
Seu desenvolvimento em nossas escolas pode propiciar novas narrativas que
permitam dar aos/às jovens um novo sentido a suas práticas individuais e
sociais, a se desenvolverem enquanto pessoas. Se queremos que os/as
alunos/as do Ensino Médio se preparem para intervir socialmente de maneira
positiva, é preciso que na escola (também espaço de alegria) a reflexão e
a busca de soluções de forma criativa, compartilhada, coletiva e
solidária, faça parte do seu cotidiano.
Esperamos que o trabalho com projetos juvenis provoque densas e
significativas discussões nos espaços escolares sobre o papel dos/as
professores/as, a função social da escola e as relações de poder nela
vivenciadas que, ansiamos, sejam cada vez mais democráticas.
NOTAS:
*
Consultora da Secretaria de Educação Média e Tecnológica – SEMTEC/MEC e
consultora desta série.
1
Algunos dilemas de la educación secundaria en America Latina,
comunicação apresentada no Seminário Alternativas de reforma de la
educación secundaria.
Santiago, Chile, março de 2001.
2
Pais, José Machado. Culturas Juvenis. Lisboa: Imprensa Nacional –
Casa da Moeda, 1993, p. 99.
PGM 2
– Linguagens, códigos e suas tecnologias
Projetos juvenis na área de linguagens, códigos e suas tecnologias
Carlos Emílio Faraco*
No
programa de introdução desta série, apresentou-se o conceito de
projetos juvenis, justificando-se inclusive o emprego da expressão
culturas juvenis, no plural, uma vez que a designação abrange diversas
“tribos”, com características próprias.
A contextualização pedagógico-educacional do tema implica a consideração
das variáveis seguintes, entre outras:
a) Geralmente nota-se uma distância acentuada entre a cultura
prescritiva incorporada e estimulada pela escola e as culturas
efetivamente protagonizadas pelos jovens; estas, a escola deve
incorporar criticamente, se pretende minimizar aquela distância.
b) A expansão do Ensino Médio mudou o mapa cultural desse ciclo, fazendo
emergir culturas com traços e tonalidades diversos, originadas em classes
sociais diferentes e expressas por variedades estilísticas de convívio nem
sempre pacífico.
c) Embora sustentados por objetivos semelhantes, há vários discursos,
veiculados pela mídia, voltados especificamente para os públicos juvenis.
As inúmeras publicações – para ficar só na mídia impressa – demonstram a
percepção dessas diferenças culturais. Ao acaso, podemos citar estas
revistas: Batera & Percussão; Capricho; Atrevida;
Full Games; Fluir; Todateen; Trip...
Ignorar conteúdos e formas difundidos pela mídia, especialmente esses
voltados para o jovem, é ignorar uma das competências mais abrangentes que
a escola se propõe a desenvolver: a leitura crítica da realidade.
d) Boa parte dos alunos que chegam hoje ao Ensino Médio fazem parte da
chamada “geração WWW” (World Wide Web). Imersos no ciberespaço, muitos
desses jovens já não conseguem entender como teria sido “um mundo sem
Internet”.
e) Conseqüência do que se apontou em c e d: a identidade desses jovens
não se constrói mais prioritariamente no discurso típico do seio familiar
ou do âmbito escolar, mas nos multifacetados discursos que impregnam a
realidade extra-familiar e extra-escolar.
A necessária convivência com o pluralismo de linguagens e estilos
é, pois, questão chave para a escola.
O que se observa, geralmente, é que tanto a produção cultural voltada para
esses grupos como aquela por eles gerada quase nunca é incorporada pela
escola. Quando ocorre, salvo poucas exceções, tal inserção se faz de modo
circunstancial.
Por isso, é fundamental que se entenda a incorporação daquelas culturas na
perspectiva de projetos, como anuncia o conceito que abriu esta
série e que retomamos:
“ Quando falamos em projetos juvenis nas escolas de Ensino
Médio, estamos nos referindo aos que se desenvolvem a partir do
currículo,
são planejados e avaliados de forma coletiva por professores e alunos e
integram
as manifestações culturais de seus jovens aos conhecimentos
investigados.”
(Grifos nossos)
Como
se vê pela definição, o projeto não é uma atividade esporádica a legitimar
os momentos em que a escola fica “em suspensão” para comemorar um fato, um
acontecimento, uma data, ou mesmo para dedicar-se exclusivamente a
determinado tema. Cessado o momento, retoma-se a rotina imposta pela
rigidez da lista de conteúdos, que acaba deglutindo o fazer
circunstancial, fragmentando-o mais ainda, de forma a dificultar até mesmo
a avaliação precisa dos resultados e da real significação daquele hiato
para o todo que deveria constituir o currículo.
O projeto se opõe, portanto, à idéia de interrupção e diluição,
definindo-se pela sua articulação com um todo.
Na Área de LCT, essa articulação se dá pelos três eixos previstos nos
PCNEM, ou seja, o da comunicação e expressão, o da compreensão e da
investigação e o da contextualização sociocultural. Essa articulação se
faz no interior da própria disciplina, no interior da área e, em muitos
casos, na interface das áreas.
Dos temas mencionados no primeiro programa, todos, como de resto qualquer
conteúdo curricular, não prescinde da utilização de um ou outro tipo de
linguagem, com a predominância de algum desses tipos. Mas este é um fio
condutor ainda frágil para sustentar a idéia de projeto.
A utilização de linguagens diversas, que certamente atende à
formação de competências do eixo da comunicação e expressão, não é
suficiente para afirmarmos que a área está presente de forma substancial
em determinado projeto. Fosse assim, qualquer grupo de atividade poderia
ser considerado um projeto, pelo simples fato de seu processo e produto se
valerem das linguagens diversas que circulam no meio escolar e
extra-escolar. Quando o projeto efetivamente se preocupa com o
desenvolvimento de competências da área de Linguagens, Códigos e suas
Tecnologias, é necessário que os outros dois eixos sejam também
considerados. Ou seja, que aquela linguagem utilizada no processo
condutor e no produto resultante também seja alvo de análise e reflexão;
aí estaremos trabalhando no eixo da investigação e compreensão.
Mas essa interseção é ainda insuficiente para definir um projeto que
sublinhe a área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. É preciso, para
concluir a articulação desejada, que os protagonistas do projeto entendam
que tanto as linguagens utilizadas quanto os princípios metodológicos
utilizados para analisá-las são criações culturais e, como tal,
relacionadas (não necessariamente como validação mas também como
questionamento) a determinado contexto sociocultural. Deve-se
insistir, nesse eixo, chamando a atenção para o fato de que as linguagens
não se constituem apenas e tão-somente reflexo ou decorrência
imediata de um contexto, mas podem conter, explícita ou
implicitamente, um questionamento a esse contexto.
Conseqüentemente, as linguagens podem ser apreendidas muito além da sua
natureza instrumental. Podem ser analisadas nos seus elementos
constituintes, nas suas articulações internas que desenham uma gramática
própria, na sua substância. E, como fechamento dessas duas
apreensões, instrumento e substância revelam-se como
criação humana, impregnada pelo tempo, pelo espaço e pelos sujeitos
que a constroem pelo uso. Grosso modo, estamos querendo dizer que
as culturas juvenis, que se expressam em diversas linguagens, como
quaisquer outros tipos de cultura, têm raízes e que essas raízes se
relacionam com a identidade do aluno.
A correta compreensão da cultura corporal para ficar num dos
exemplos citados no primeiro programa desta série depende do domínio de
alguns conceitos da área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. Se
considerado como um gerador de textos, o corpo se manifesta por
meio de uma linguagem específica, com uma gramática própria,
escrevendo no espaço e no tempo estilos individuais e coletivos que
podem consolidar índices tribais reforçados pela vestimenta e adereços
(moda) e até por outras marcas e sinais como a tatuagem, atualmente
recuperada em nova contextualização.
No entanto, como se sabe, roupas, acessórios e intervenções na pele não
garantem, por si, a aceitação e a inclusão em grupos. Importa também o
comportamento, manifestado por códigos verbais e não-verbais, que descarta
condutas consideradas ultrapassadas e cria ou incorpora novas, numa
dinâmica própria das linguagens, coerente com aquela diversidade de
formas de expressão de que já tratamos.
Moda, comportamento e textos produzidos pelo corpo, tendo morfologia e
sintaxe próprias, podem ser objetos de estudo que incorporam conceitos da
área, ou seja, podem ser compreendidos e analisados sob o ponto de vista
das linguagens.
Na interface das áreas, esses mesmos objetos são passíveis de análise por
meio de outros conceitos, instrumentos e métodos, próprios das Ciências da
Natureza e das Ciências Humanas, reforçando o princípio da
interdisciplinaridade, um dos pilares do conjunto de propostas do novo
Ensino Médio.
Compete aos professores a seleção desses conceitos, métodos e instrumentos
para que, de fato, as culturas juvenis se tornem objeto de estudo
sistematizado e não mero exercício de excentricidade, com a sempre
indesejada conotação de “concessão” feita pela erudição.
NOTAS:
* Consultor do
SEMTEC/MEC para a área de Linguagens, códigos e suas tecnologias.
PGM 3
– Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias
Projetos juvenis na área de natureza, matemática e suas
tecnologias
Mônica Waldhelm*
A
contaminação por metais pesados do rio que banha a região onde fica a
escola, o alto índice de poluição do ar provocando doenças respiratórias,
a desinformação da comunidade em relação à AIDS e outras DSTs, o uso de
anabolizantes por adolescentes e suas conseqüências... Muitas são as
questões que podem ser problematizadas no currículo de Ensino Médio.
Tratam-se de contextos significativos para o jovem e a comunidade. As
problemáticas citadas exigem a mobilização de conhecimentos, métodos e
competências, de diferentes disciplinas, particularmente às da Área de
Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias.
A partir destas problematizações, projetos juvenis, nos quais os jovens
tenham participação ativa o que significa ir muito além da simples
execução de atividades determinadas pelo professor podem ser
desenvolvidos.
Um currículo cujo eixo seja a construção de competências com vistas a
promover a autonomia intelectual do aluno deve basear-se na abordagem
contextualizada e interdisciplinar do conhecimento. As disciplinas, sob
este foco, deixam de ser fim e passam a ser meio, instrumentalizando o
aluno para o exercício da cidadania.
A inserção cidadã implica tomar decisões e assumir posições relativas ao
mundo do trabalho, à saúde, à sexualidade, ao meio ambiente, ao uso da
tecnologia. Estas escolhas não podem ser baseadas apenas no senso comum ou
nas informações fragmentadas obtidas pela mídia. A escola tem portanto,
papel fundamental na formação deste cidadão.
Por muito tempo assistimos à escola desenvolvendo “projetos” do tipo
“Saúde”, “Lixo”, “Olimpíadas”, “Alimentos”, “Água” e outros similares. A
partir de temas isolados, alunos e professores passavam o ano preparando
cartazes, “experiências” e maquetes para serem exibidos, e talvez
avaliados, nas feiras de ciências ou culturais.
Professores de todas as disciplinas eram obrigados e participar do
“projeto”, desenvolvendo atividades isoladas, desarticuladas e muitas
vezes totalmente desprovidas de significado para o aluno. Não havia
problematização, não havia, portanto, uma questão a ser investigada.
Ora, o que demanda a atividade de investigação e pesquisa, inerente a um
projeto, é justamente a problematização. Sem isso, como identificar que
conhecimentos disciplinares serão necessários para o entendimento da
questão ? Como garantir a inserção significativa e articulada das
disciplinas? Será que todas as disciplinas precisam participar de um mesmo
projeto? E ao mesmo tempo?
Este equívoco, muito comum até hoje, cria uma artificialidade
multidisciplinar, fragmentada e linear, favorece a superposição de
conhecimentos e a perda de tempo. Um projeto, a partir da problematização,
demanda atividades e mobilização de conhecimentos e competências
específicas. Como serão realizados os trabalhos experimentais, as
entrevistas e os relatórios ? Como as competências dos três eixos
apontados nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Médio
(Representação e Comunicação, Investigação e Compreensão, Contextualização
Sociocultural) serão construídas e mobilizadas?
O método científico, base do conhecimento das disciplinas da área de CNMT,
permeará muito as atividades em que competências de Investigação e
Compreensão sejam construídas/mobilizadas. Sairá do lugar de ponto
estanque do currículo, para a vida real. A inquietude e interesse do
jovem por questões do seu tempo não devem ser sufocados. Tais questões
podem ser canalizadas para levá-los a propor hipóteses, testá-las com uma
metodologia adequada e fazer intervenções. Embora a contextualização não
implique tratar apenas de questões locais, de maior concretude, este tipo
de trabalho favorece as intervenções práticas por parte dos alunos. Assim,
ainda que seja importante incluir no currículo a discussão sobre o
impacto econômico político ambiental das decisões tomadas pelos países
participantes da Rio+10, um projeto envolvendo a comunidade no debate
acerca das condições sanitárias do bairro pode desencadear ações como
abaixo assinados dirigidos a autoridades competentes, mutirões, coleta
seletiva do lixo, campanhas de esclarecimento e outras, que terão grande
significado. É fundamental ampliar o quadro de referências do jovem,
viabilizando seu trânsito por diferentes contextos na sociedade. Não
podemos oferecer simplesmente uma educação de periferia para um jovem
aluno de periferia. As questões locais serão o pano de fundo para a
construção/mobilização de conceitos e competências, que servirão de
passaporte para vôos além dos limites da escola e do bairro.
Projetos na área de CNMT representam, também, o espaço favorável para que
os alunos (e professores) percebam a necessidade (e riqueza) das
articulações entre os diferentes campos do conhecimento. Como tratar
questões ambientais sem “conversar” com a Geografia? Como falar do corpo,
dos padrões de beleza, sem o encontro com a Educação Física e Sociologia?
Como confrontar diferentes discursos, do senso comum e da ciência, sem o
auxílio da Língua Portuguesa?
Em uma abordagem histórica da ciência, entendendo-a como produção humana,
questões de cunho ético e filosófico atravessarão diferentes discussões
demandadas dos projetos. Clonagem, transgênicos, uso de embriões humanos,
mapeamento genético, testes de paternidade, eugenia... Questões que saíram
dos laboratórios e invadiram a vida do cidadão comum, seja através da
novela, do jornal, do papo com o vizinho ou pelo filho na escola.
Percebe-se que o jovem tem um papel importante na articulação entre escola
e família, entre escola e comunidade. Ele pode ser um verdadeiro
catalisador neste processo, pois participa de atividades, relaciona-se com
diferentes agentes e compreende os códigos usados dentro e fora da escola.
O uso de diferentes tecnologias também é favorecido no desenvolvimento de
projetos. Principalmente naqueles em que os muros escolares são
transpostos e o jovem tem contato com outros espaços, como laboratórios,
empresas, universidades, museus, centros de ciências, etc. As atividades
de campo em geral também requerem o uso de materiais tradicionalmente
esquecidos ou subutilizados na escola. Recursos como a TV Escola e
computadores podem favorecer o trânsito entre o local e o global, entre o
concreto e o abstrato, entre o visível e o microscópico, a que já nos
referimos. Como tal, não devem ser subestimados no trabalho com projetos.
Não cabe ao jovem decidir os programas a serem desenvolvidos pelas
disciplinas, mas o professor pode estar atento aos anseios e indagações de
seus alunos e selecionar contextos significativos para desenvolver o que
foi definido como sendo importante para ser aprendido no Ensino Médio.
Longe de ter a pretensão de formar químicos, físicos, biólogos ou
matemáticos no Ensino Médio, a área de Ciências da Natureza, Matemática e
suas Tecnologias, em igualdade de importância com as outras áreas no
currículo, pode trazer para a escola muito mais que nomes e fórmulas
complicados. Neste mundo globalizado e cibernético, o acesso democrático a
conceitos fundamentais e ao uso de tecnologias pode ser a diferença entre
a inclusão e exclusão. O conhecimento não pára de ser produzido. É
primordial que nosso aluno continue a aprender após a escola. Isso só é
garantido com a construção de competências, que vão além de saber a
diferença entre fotossíntese e quimiossíntese.
Jovens protagonistas, com autonomia intelectual, senso crítico e respeito
a valores como a solidariedade, com certeza deixarão marcas por onde
passarem. Formar estes jovens é um dos desafios da escola de Ensino
Médio. Este é o grande projeto.
NOTAS:
* Prof de Biologia do
CEFET/RJ; Mestre em Educação.
PGM 4
– Ciências
humanas e suas tecnologias
A
área de ciências humanas e suas tecnologias e o trabalho com projetos
juvenis
Léo Stampacchio*
Para
que possamos debater sobre algumas questões relacionadas ao trabalho com
projetos juvenis nas escolas de Ensino Médio, é importante que
destaquemos, de forma preliminar, tanto a necessidade de se construir
processos de ensino e de aprendizagem centrados na associação
ensino-pesquisa em sala de aula como uma prática permanente, quanto
esclarecermos alguns pontos gerais que envolvem o trabalho com projetos.
Inicialmente, é importante lembrar que o trabalho com pesquisa deve
objetivar a superação da mera reprodução livresca nos processos de ensino
e de aprendizagem. Tal condição revela-se como sendo fundamental para a
construção de uma concepção de ensino que busca ir além de noções que
consideram o produto de uma obra seja ela acadêmica ou materializada na
forma de manuais didáticos como sendo a verdade absoluta sobre o tema, a
área ou a disciplina que pretende abordar. Nesses termos, é absolutamente
imprescindível que se construam posturas que venham a se opor de forma
clara, intencional e sistemática às concepções que encaram o conhecimento
como verdade absoluta e imutável. Tais posturas revelam-se como
facilitadoras fundamentais para que competências como a compreensão de que
as ações dos sujeitos sociais são realizadas no tempo e no espaço, criando
relações e desdobramentos variados, sem determinismos, ou, ainda, como a
compreensão de que as instituições sociais, políticas e econômicas são
historicamente construídas/reconstruídas por diferentes sujeitos sociais,
em processos influenciados por fatores variados e a partir de diferentes
projetos sociais venham a ser construídas/reconstruídas pelos educandos
nos trabalhos realizados no âmbito das diferentes disciplinas que compõem
a Área de Ciências Humanas e suas Tecnologias. Contextos de pesquisa que
venham a ser destacados de forma intencional para contemplar tais
competências irão contribuir de forma efetiva para que conceitos e noções
fundamentais da Área aqui citada venham a ser mobilizados e/ou
construídos/reconstruídos pelos educandos. Entre esses podemos destacar,
sem a intenção de esgotar as possibilidades, os seguintes: identidade
social e diversidade de sujeitos como agentes de construção da história;
permanências e mudanças históricas; relações políticas; relações sociais;
poder; dominação; ética; semelhanças e diferenças entre contextos sociais
diversos; trabalho; tradição, etc.
A construção de projetos de pesquisa que possam mobilizar em termos
iniciais as competências, noções e conceitos que nos serviram de exemplo
acima apresentam um aspecto qualitativo que não deve ser menosprezado,
qual seja, o de servir de alavanca para que outras competências, conceitos
e noções sejam mobilizados, construídos e reconstruídos pelos educandos ao
longo dos trabalhos a serem desenvolvidos. Um exemplo disso é a
competência voltada para a construção da autonomia intelectual do
educando, a partir da problematização de situações baseadas em referências
concretas e diversas, rompendo com verdades absolutas ou deterministas,
que para ser construída recebe o aporte das diversidades dos trabalhos de
análise que somente um projeto orientado de pesquisa pode proporcionar,
sobretudo quando contextualizado nos espaços de vivência de nossos jovens.
Assim, assumir uma atitude reflexiva e questionadora frente ao
conhecimento historicamente produzido, encarando-o como uma construção
permanente e como prática social, é um primeiro passo para o
reconhecimento de que os diversos saberes produzidos por qualquer
sociedade, em qualquer época, trazem em seu interior um conjunto de
influências éticas, políticas, religiosas, etc. que faz com que os mesmos
não possam ser aprisionados no falso invólucro da neutralidade científica.
Nesse sentido, assume grande significado a postura de professores e alunos
no sentido de se garantir a busca constante da investigação e da produção
de conhecimentos sobre a realidade na qual estão imersos, a partir do
estabelecimento de relações críticas com a mesma que permitam que aqueles
se expressem como sujeitos e produtores de história e de conhecimentos.
Iniciar um processo, no qual a associação ensino pesquisa assume um
caráter de significativa importância para o desenvolvimento de habilidades
e competências e construção/reconstrução de conhecimentos por parte do
aluno, implica a definição de uma proposta de curso que expresse
claramente uma concepção pedagógica intimamente articulada a um modo de
conceber a produção do conhecimento. Nesse sentido, um aspecto primordial
é a construção de uma relação professor aluno que permita o trabalho de
reflexão conjunto, no qual os alunos possam ser orientados na busca de
respostas para suas inquietações. A valorização de todos os pontos de
partida possíveis referências bibliográficas, reflexão metodológica, um
contato com as fontes, assim como das expectativas dos alunos, uma
experiência de vida ou um debate colocado pelo contexto social torna-se um
primeiro e necessário passo para a superação da mera reprodução livresca
anteriormente colocada.
O processo de ampliação do trabalho de localização, seleção e análise das
fontes, registros, documentos e dados relevantes, a partir da construção
de posturas que venham a consolidar uma prática de confrontar diversas
fontes, procurando relacioná-las entre si, evitando privilegiar uma ou
mais como a “mais” verdadeira, constitui-se uma opção metodológica que
visa, sobretudo, despertar a curiosidade, a criatividade e o interesse
pelo ensino, tendo como pressuposto a pesquisa e a descoberta como
condições fundamentais para o desenvolvimento da capacidade de expressão e
elaboração de nossos alunos. Em suma, a iniciação do educando nos caminhos
da pesquisa passa, sobretudo, pela transformação das práticas de trabalho
pedagógico do educador, em particular do papel comumente assumido de mero
retransmissor de conhecimentos, que tem sido um dos principais obstáculos
ao desenvolvimento de processos de ensino e de aprendizagem em que o
desenvolvimento pleno do educando, no sentido de que este desenvolva
múltiplas habilidades e competências, apresente-se como o fundamento maior
a nortear as ações educativas. Nesse sentido, a construção dos projetos
juvenis no espaço educativo de nossas escolas de Ensino Médio tem
condições de ser, entre outras alternativas, uma ação de fundamental
importância para que a associação ensino-pesquisa venha a se tornar de
fato uma prática permanente.
O trabalho com projetos permite que competências fundamentais no campo da
investigação e compreensão, como a obtenção de informações contidas em
diferentes fontes e expressas em diferentes linguagens, associando-as às
soluções possíveis para situações problema diversas, possam ser
mobilizadas e/ou construídas/reconstruídas pelos educandos.
No entanto, diferentemente das atividades elaboradas ao sabor do improviso
ou de planejamentos precários, o projeto de pesquisa deve ser entendido
como um trabalho intencional, compreendido e desejado pelo aluno.
Intencional porque situado no conjunto de fundamentos estruturados por uma
dada disciplina do currículo quando da elaboração do planejamento, plano
de curso e plano de aulas da mesma. Compreendido pelo aluno, porque as
questões a serem debatidas e os problemas a serem levantados ao longo da
pesquisa devem estar claramente colocados pelo roteiro de pesquisa que se
pretende desenvolver, assim como situados no contexto do tema que se
trabalha em dado momento dos processos de ensino e de aprendizagem de uma
determinada disciplina. Finalmente, desejado pelo aluno, porque deve ser
precedido do estímulo à curiosidade e da não apresentação de respostas
imediatas às questões colocadas pelo educando, posto que tais respostas,
se possíveis de serem alcançadas, irão ser construídas no processo de
elaboração do trabalho de pesquisa.
Assim, considerando que todo e qualquer projeto visa à realização de uma
produção, podemos definir um projeto como o conjunto de atividades
necessárias a concretizar a produção pretendida. O empreendedor de tais
tarefas nos processos de ensino e de aprendizagem será o aluno, razão pela
qual o professor, enquanto mediador fundamental desse processo, deve
explicitar claramente para os seus alunos os passos necessários ao
desenvolvimento do projeto de pesquisa a ser trabalhado.
Dessa forma, esses são alguns dos passos gerais que podemos destacar para
a construção de um projeto de pesquisa no âmbito escolar:
a) a identificação e/ou formulação do problema (etapa que visa deixar
claro o que se pretende pesquisar, ou seja, qual o problema central que
será alvo da elaboração da pesquisa);
b) o momento da elaboração e do planejamento do projeto junto aos alunos;
c) o desenvolvimento do projeto propriamente dito (etapa que se constitui
na própria construção e desenvolvimento da pesquisa, sendo composta por
atividades necessárias à construção da pesquisa, debates sobre os
resultados alcançados e construção de conclusões possíveis frente às
fontes analisadas);
d) a apresentação dos resultados e a avaliação final (etapa na qual as
conclusões a que cada grupo chegou são comunicadas ao coletivo do grupo
classe, constituindo-se, portanto, no momento da globalização dos
resultados obtidos);
e) e também o momento da avaliação final da pesquisa realizada, cujos
resultados podem constituir o ponto de partida para outro trabalho de
pesquisa a ser realizado na seqüência. Além desses passos, é fundamental
explicitar alguns pontos básicos que todo projeto de pesquisa deve
conter, razão pela qual sugerimos o roteiro que se segue, embora saibamos
que outras possibilidades também podem dar origem a roteiros de pesquisa.
A nossa sugestão visa apenas demarcar algumas questões chave, que
entendemos devam ser claramente explicitadas para os educandos quando da
realização de um projeto.
O que será estudado?
Deve-se identificar, claramente, o tema fundamental que expressa o objeto
de estudo que será alvo do trabalho de pesquisa a ser desenvolvido.
Para que a pesquisa será realizada?
Devem ser explicitadas, claramente, as expectativas com o desenvolvimento
do trabalho.
Por que a pesquisa será realizada?
Aqui são explicitadas as razões que motivaram a proposta, a importância da
investigação, os problemas levantados e a delimitação da temática.
Como a pesquisa será realizada? Quais os passos e atividades que serão
necessários?
Explicitar as fontes que serão investigadas, as técnicas de pesquisa e os
caminhos que serão percorridos no desenvolvimento do trabalho.
Quando as atividades previstas serão realizadas? Como ocorrerá a
avaliação?
Definir as ações e etapas necessárias para a construção da pesquisa e a
previsão da época em que serão realizadas, ou seja, elaborar um cronograma
de execução da pesquisa.
O que é necessário?
Identificar quais recursos humanos e materiais são necessários para a
execução da pesquisa proposta.
Onde pesquisar? Existem fontes? São acessáveis para o aluno?
Aqui é fundamental que se esclareça que o desenvolvimento de uma pesquisa,
muitas vezes, requer um levantamento bibliográfico e de fontes sobre o
assunto a ser pesquisado. Diferentemente do que ocorre na maioria dos
casos em que o professor solicita “trabalhos” e simplesmente informa ao
aluno que o mesmo encontrará informações para o trabalho em livros,
enciclopédias, etc. sem informar quais fontes e o que exatamente essas
fontes contêm, o que se afirma aqui é que o professor deverá conhecer
previamente os materiais que venha a indicar para o aluno. Tal condição é
essencial para que não se pretenda que o aluno venha a ser capaz de
realizar não apenas o trabalho proposto, mas também aquele que é
atribuição do professor.
Finalmente, é importante observar que se de um lado a estruturação de um
trabalho de pesquisa e o conhecimento construído através da mesma é uma
produção coletiva, de outro lado o desempenho e desenvolvimento do aluno é
individual, razão pela qual o professor deve ter atenção e cuidados
especiais no tratamento dos registros que venham a ser elaborados para
identificar o trabalho que cada aluno desenvolveu ao longo da elaboração
do projeto de determinada pesquisa. No que tange ao trabalho com projetos
juvenis que, por sua natureza, já devem necessariamente estar
contextualizados nos e aos espaços de vivência social ampla e particular
dos educandos, tais cuidados tornam-se ainda mais significativos, uma vez
que os mesmos devem se constituir em momento privilegiado para a
construção/reconstrução das memórias individuais e coletivas de um dado
grupo social. Este, aliás, é um dos fundamentos essenciais do trabalho das
disciplinas que compõem a Área de Ciências Humanas e suas Tecnologias.
NOTAS:
* Consultor do SEMTEC/MEC para a área de Ciências Humanas e
suas tecnologias.
PGM 5
– Juventudes e
projetos de vida
Juventudes e projetos de vida: o papel das escolas
Avelino Romero Pereira*
O
tema deste programa nos leva a uma questão fundamental e absolutamente
necessária no contexto de uma reforma educacional e, mais ainda, no
contexto da construção de uma escola para jovens no Brasil: para que serve
a escola?
Muitas respostas óbvias e imediatas, quase que instintivas, podem ser
dadas à pergunta. Se quisermos, porém, ir um pouco além do instantâneo e
discutir a questão, mais do que tentar respondê-la, podemos avançar em uma
série de considerações pertinentes aos desafios da definição de uma escola
jovem, de uma nova escola de Ensino Médio.
A começar pelo fato de que nem sempre a questão é óbvia para o aluno,
especialmente o jovem, que freqüenta a escola. Em anos de atuação como
professor de Ensino Médio, em situações diversas, ouvi de meus alunos que
a escola “permite melhorar de vida”, “é a chance que o pobre tem de ser
alguém”, “ensina coisas que precisamos saber para trabalhar” ou ainda que
“é um lugar legal para se ir, para encontrar os amigos”. Sem nenhuma
pretensão sociológica, recrio algumas respostas colhidas aqui e ali e que
não devem ser muito diferentes de outras ouvidas por outros profissionais.
Sem negar o fato de que representam um claro sinal de que a escola ainda é
um importante referencial social, associado à sobrevivência econômica e à
interação, também não são raras as circunstâncias em que os jovens revelam
certa desconfiança ou mesmo desprezo pela instituição escolar, como a
típica resposta de alguns jovens de classe média de que “só vão à escola
porque os pais os obrigam”. De certa forma, a representação da escola como
um espaço meramente de interação social, como um “lugar legal” onde se
encontram os amigos e nada mais, já parece adiantar os riscos da perda de
vigor da instituição em contextos de profunda exclusão e violência social.
Outro problema grave é a perda de significado dos conteúdos escolares, não
raro rotulados de “distantes da realidade” ou “muito teóricos”, num
entendimento equivocado inclusive do que seja a própria teoria. Isto nos
leva a crer que, quando os jovens vêem na escola uma precondição de
ascensão social, podem estar se referindo mais ao diploma do que ao que
nela aprendem.
Em uma sociedade de valores tão deslocados e confundidos, em que o saber
nem sempre é sinônimo de prestígio social e em que os meios de comunicação
às vezes parecem promover e premiar a mediocridade, a falta de critério
racional e moral, o vazio intelectual, estético, político e ético, é cada
vez mais difícil sustentar a afirmação da escola como espaço útil e
necessário, essencial à promoção do bem-estar social. Afirmar simplesmente
que a escola deve formar cidadãos como uma ilha em meio ao desrespeito
generalizado, acaba sendo um truísmo de pouca força, a não ser retórica.
Por melhor intencionados que sejamos, a defesa da escola acaba caindo no
vazio, se descolamos a afirmativa de uma ação concreta e cotidiana desde
nossas escolas. Explico melhor: apenas dizer que a escola serve para
formar cidadãos ou sustentar que ela é fundamental para a inserção do
nosso jovem no mundo do trabalho não faz a mágica de transformar nossa
sociedade em seus mais perversos contornos políticos e socioeconômicos.
Nem transmite a nossos jovens a segurança de que necessitam para trilharem
a transição da fase infantil à fase adulta de suas vidas. A eficácia da
ação educacional começa no momento em que a escola sinaliza com suas
práticas a potencialização do cidadão e trabalhador que a freqüenta.
O desenvolvimento pessoal do educando jovem implica o reconhecimento de
sua identidade jovem e a contribuição para a qualificação desta mesma
identidade no plano individual e social, como pessoa, como cidadão e como
trabalhador. O desenvolvimento pessoal do educando jovem implica, ainda, o
reconhecimento do papel da escola como potencializador de sua autonomia
sócio-afetiva e intelectual. E o entendimento de que a autonomia começa já
na escola impõe projetos pedagógicos que levem em conta a efetiva
contribuição da escola para que os jovens sejam os artífices de seus
próprios projetos de vida e extraiam da escola as ferramentas para
concretizarem seus ideais.
As afirmativas acima não mudam na essência os objetos sobre os quais atuam
as escolas conhecimentos, procedimentos e valores a serem adquiridos pelos
alunos no processo de aprendizagem. Tais conteúdos sempre estiveram no
centro dos projetos pedagógicos. O que muda é a direcionalidade de tais
projetos. Ao invés de se centrarem em si mesmos, referindo-se à própria
escolaridade os célebres pré-requisitos que parecem terminar nos programas
de vestibulares, os conteúdos devem apontar, projetar a vida real e
palpável fora das escolas. Daí que juventudes e projetos de vida são a
dimensão central que explica o papel das escolas.
Juventudes: identidade ou identidades?
“Historicamente os sistemas educativos foram concebidos para
‘transferir a cultura das gerações adultas às gerações mais jovens’
[...]
Esta posição continha cinco propostas atualmente discutíveis. A primeira
é que as gerações mais jovens não possuem uma cultura própria e,
conseqüentemente, não oferecem nenhum tipo de resistência ao aprendizado
de conteúdos e à assunção de pautas culturais dos adultos. A segunda é
que a cultura adulta é homogênea. A terceira é que as culturas dos
jovens também são homogêneas. A quarta é que a cultura adulta e, como
parte dela, as características da produção e das estruturas dos
conhecimentos são estáveis através do tempo. A quinta é que os sistemas
educativos e as escolas constituem o principal sistema especializado na
transmissão de informação.”
(Cecília Braslavsky,
As
novas tendências mundiais e as mudanças curriculares na educação
secundária latino-americana na década de 90.
Brasília: Unesco, 2001, p. 19)
Uma
consideração preliminar em toda esta reflexão deve ser a de que quando
falamos de jovens, de identidades e de culturas juvenis, estamos nos
referindo a fenômenos marcadamente plurais e diversificados.
A reflexão das Ciências Humanas hoje aponta a superação dos olhares que
buscavam circunscrever e descrever a identidade pessoal e social como um
dado único e estático, isolado e recortado, como uma imagem congelada em
uma fotografia. Uma série objetiva de dados para constarem de uma espécie
de “cédula de identidade”, que devia traduzir o retrato fiel do objeto
descrito. Generalistas demais, tais descrições acabavam assumindo um
caráter preconceituoso, em afirmações taxativas do tipo “os jovens são
criativos” ou “os jovens são rebeldes”, assim como “os camponeses são
conservadores” ou “os brasileiros são musicais”.
Realidades fugidias, as identidades são muito mais complexas e dinâmicas
do que podiam pensar os que buscavam fixar o caráter, o tipo ideal, com o
qual se classificavam e rotulavam as pessoas e os grupos humanos. E não é
só o jovem que é plural, nem toda esta pluralidade e diversidade
constituem um problema. Trata-se, sem dúvida, de uma dificuldade a mais na
compreensão, que resulta no entanto em maior eficácia da própria
compreensão.
Todo subgrupo social constitui sua identidade a partir de um jogo complexo
de inter-relações com fenômenos e grupos variados, o que os torna muito
mais multifacetados do que à primeira vista parecem ser. Vivendo em
sociedades cada vez mais complexas, com níveis cada vez mais variados de
interação com outras sociedades e subgrupos sociais, culturas e
subculturas, formam-se identidades variadas resultantes de verdadeiras
sínteses culturais. O acúmulo de experiências no tempo também contribui
para formar somatórios complexos de diferentes influências, que poderão
reorientar opiniões e comportamentos. O resultado é que as diferentes
dinâmicas sociais levam os grupos a optarem por uma ou outra faceta desta
identidade plural, conforme o momento, recorrendo a uma espécie de
estratégia de sobrevivência. Não é muito diferente do que ocorre no plano
individual, quando, dependendo da situação, optamos por ressaltar nossa
identidade de gênero ou profissional, demonstrar ou ocultar nossa opção
religiosa ou política, assumir um gosto musical ou outro. E ao longo de
nossas vidas, vamos revendo opções e reestruturando opiniões e
comportamentos. E não se trata de esquizofrenia ou instabilidade
emocional, mas de reconhecimento do caráter interativo, dinâmico e
histórico da própria personalidade.
Qualquer tentativa de caracterização de nossos jovens como um grupo
homogêneo, detentor das mesmas características, pode significar uma
generalização apressada que, ao ser transposta para o currículo escolar,
contribuirá por mantê-lo afastado dos interesses dos jovens concretos que
estudam em cada escola. Daí a importância de não se perder de vista o
contato direto com os alunos nos momentos de planejamento, permitindo que
a diversidade alimente a reflexão curricular da escola. Dizer que os
jovens se interessam por música, por exemplo, é uma afirmativa muito
genérica que oculta diferentes possibilidades de seleção de repertório e
de práticas de escuta ou expressão. A generalização que pouco contribuirá
para o exercício pedagógico deve ceder ao estabelecimento de diferentes
estratégias de interação do currículo escolar com os interesses
diversificados dos alunos, o que só se dará mediante um diálogo que faça
aflorar estes interesses.
Uma atividade significativa é pôr em confronto no bom sentido os
interesses e gostos musicais de diferentes grupos de alunos ou destes e de
seus professores ou familiares. Exercitar a comparação, a definição de
critérios de análise, a compreensão dos diferentes usos sociais das
músicas será uma oportunidade para a construção de competências e
conhecimentos tanto de Linguagens quanto de Ciências Humanas e até de
Ciências da Natureza. É uma boa oportunidade também para o próprio
professor, de conhecer e compreender mais de perto e profundamente seus
alunos, fugindo à facilitação dos rótulos de que “os jovens só ouvem
música estrangeira”, de que “a música dos jovens é barulhenta” ou ainda de
que “os jovens não sabem escolher; consomem o que o mercado lhes oferece”.
A atividade poderá reservar algumas boas surpresas ao professor, revelando
um aluno consciente de suas escolhas, muito mais crítico e seletivo do que
os rótulos fazem supor. O indivíduo crítico não é o que faz as “escolhas
certas”, mas o que sabe as razões que fundamentam suas escolhas.
Reorientando-se o dito popular de que “gosto não se discute”, discutir os
gostos pode levar professores e alunos a exercitarem dentro da escola a
tolerância e o respeito à diversidade.
Juventudes e projetos de vida
Embora correndo o risco das generalizações, arriscaria nomear alguns focos
de interesse das gerações jovens, a título de exercício para reflexão.
Lembro mais uma vez que tais focos deveriam sempre ser averiguados em cada
escola, tendo em conta as múltiplas identidades juvenis e também a
diversidade cultural de nosso país.
Estes possíveis centros de atenção dos jovens constituem um conjunto de
vivências presentes e expectativas futuras que, sem dúvida, podem se
associar a diferentes projetos de vida. Podemos sintetizá-los em torno de
três grandes eixos intercomplementares, de expressão, interação e criação.
No eixo da expressão estão atividades e interesses associados ao campo das
artes e dos esportes, do lazer e da comunicação, referidos à cultura
audiovisual e à cultura corporal. Já apontando a interação, tais
manifestações parecem revestir-se de funções de identificação e de
extravasamento pessoal, assumindo papel de marcas, sinais e códigos
socialmente comunicáveis. Reveladoras de suas aspirações por participação
e ação coletiva, estas manifestações apontam novas formas de organização
política e social e podem ser lidas na perspectiva da reivindicação de
inclusão, inclusive econômica. Por sua vez, o inconformismo ou
irreverência ante os valores preestabelecidos e ante a própria escola e a
(pré)-disposição ao novo podem ser traduzidos como um amplo potencial de
criação e transformação das realidades vigentes.
A facilidade com que os jovens parecem absorver e se apropriar das
tecnologias de comunicação e informação, sempre que a elas tenham acesso e
mesmo que na condição de consumidores, constitui um importante campo de
reflexão para a escola. Esta, no entanto, mais uma vez, precisa superar a
generalização preconceituosa e pessimista predominante em discursos
difundidos sobre os jovens, que tendem a qualificá-los como alienados e
passivos diante da oferta dos meios de comunicação. A formação de
subgrupos que se distinguem por padrões de consumo pode ocultar níveis
insuspeitados de mediação que os levam a definir e assumir suas opções.
Ainda que a compreensão do papel dos meios de comunicação de massa na
formação dos jovens seja nebulosa, este constitui outro importante objeto
de investigação e reflexão conjunta para professores e alunos, de forma
que a escola possa ela própria tecer estratégias de mediação cultural na
recepção por nossos jovens dos produtos e valores veiculados pelos meios
de massa. Novamente, como no caso da música e sendo a própria música um
dos principais produtos veiculados pelos meios pode-se conceber o
exercício sobre os padrões de consumo cultural, níveis de percepção e
crítica da programação veiculada pelas emissoras de televisão e também de
rádio, a partir da experiência dos próprios alunos. Noções sobre a vida
política e econômica do país, a prática de esportes, o desenvolvimento
científico e tecnológico, a produção cultural são conteúdos presentes nos
meios, que podem se constituir em objetos de trabalho da escola, como
desconstrução e reconstrução.
Aqui, é fundamental o entendimento do papel da cultura escolar os
conhecimentos disciplinares que deve dialogar e não se sobrepor
simplesmente ao conhecimento prévio dos alunos, em geral mediado pelos
veículos de massa. A escola precisa compreender melhor os padrões de
consumo e de recepção de seus alunos, para poder construir com eles novos
padrões de recepção que sejam críticos e fundamentados em conhecimentos.
Desta forma, a escola não abre mão de sua missão de preservação de um
patrimônio cultural, mas também não “atropela” os alunos, partindo do
reconhecimento do conhecimento prévio como etapa inicial para a construção
de conhecimento novo acerca dos meios de comunicação e do conteúdo por
eles veiculado e contribuindo para a leitura crítica dos mesmos.
Não me refiro aqui simplesmente à aplicação de questionários em busca de
perfis socioculturais dos alunos, mas à adoção de estratégias mais amplas
e significativas de investigação conjunta e orgânica de seus interesses e
conhecimentos, já no âmbito das áreas curriculares e da aprendizagem
propriamente dita, isto é, como atividade curricular planejada e avaliada.
A investigação que tem como foco o cotidiano dos próprios alunos é a
melhor estratégia para cumprir a inclusão das culturas juvenis na escola e
a contextualização da cultura escolar, construindo-se um diálogo produtivo
entre estes dois universos.
Importa ainda registrar as expectativas dos jovens acerca da participação
e da própria inclusão social. Ao contrário de alienados, a precoce
inserção no mercado de trabalho contribui para torná-los atentos aos
problemas da vida econômica e social. Se ao emitirem opiniões e avaliações
acerca da situação política ou social do país, os jovens parecem
distanciar-se dos padrões habituais de outras gerações, eles podem estar
dando sinais de inconformismo ou de desconfiança nas velhas fórmulas.
Inconformismo e não alienação. O potencial criador dos jovens os converte
em formuladores de novas estratégias de protagonismo associativo social,
cultural e religioso.
É neste ponto que a articulação entre o currículo escolar e os projetos de
vida se faz mais necessária, sob pena de a escola se ver ultrapassada por
outras instituições lícitas ou não capazes de catalisar e fazer convergir
o potencial dos jovens para a ação. A inclusão social, em suas duas
vertentes, socioeconômica e sociopolítica, converte-se em importante ponto
de tensão entre as culturas juvenis e a cultura escolar. Resulta, por um
lado, na necessidade de a escola dar conta da preparação do jovem para o
mundo do trabalho. Isto requer não só a articulação entre Ensino Médio
geral e ensino técnico-profissional, desafio mais complexo do ponto de
vista institucional e financeiro, mas também a valorização do trabalho
como contexto a partir do qual os conhecimentos escolares podem ser
construídos e aplicados. Trata-se de dar respostas ao jovem quanto a suas
indagações a respeito da utilidade da própria escola. É um imperativo
social que a escola de Ensino Médio comprometa-se com as necessidades do
mundo do trabalho, dispa-se de uma roupagem meramente acadêmica,
enciclopédica e “teorizante” e assuma a articulação dos conteúdos com as
diferentes dinâmicas laborais, sem, é claro, render-se ao utilitarismo e
pragmatismo e sem perder de vista a dimensão humanista do próprio
trabalho. Trata-se de compreender concretamente como as linguagens, as
ciências e as tecnologias estão presentes nas diversas atividades laborais
desenvolvidas nas sociedades modernas e que conhecimentos, sejam
conceitos, procedimentos ou valores, são necessários no âmbito das
diversas formas de processos de produção. Não é outro o sentido da
aquisição de competências na escola.
Por outro lado, respondendo às expectativas de ordem sociopolítica, a
escola pode ir ao encontro dos jovens, institucionalizando em seu próprio
espaço físico ou em articulação com outras instituições sociais as novas
formas de protagonismo e interação inventadas pelos jovens. O trabalho com
projetos de investigação e intervenção solidária que façam a ponte entre
os conhecimentos escolares das três áreas curriculares e os imperativos da
vida social parecem ser a melhor estratégia pedagógica e sociológica,
para trazer para a escola as culturas juvenis e enriquecê-las e
potencializá-las com a cultura escolar. A aquisição de competências e
valores orientados para a vida em comum, como o trabalho em equipe e a
gestão de projetos, embasados no respeito mútuo, na negociação democrática
e na participação coletiva, tornam-se objetivos tão significativos quanto
os conteúdos disciplinares a serem construídos em tais atividades.
O papel das escolas
“(...) para que os jovens compareçam, permaneçam e aprendam
nos colégios, devem encontrar neles oportunidades de desenvolvimento em
condição de protagonistas, por intermédio de práticas bem variadas que
lhes permitam fazer das escolas espaços de vida juvenil. Por outro lado,
essa juventude não é um conglomerado homogêneo e, sim, um conjunto de
grupos de pessoas com interesses, necessidades e conhecimentos
diferentes, convergentes em alguns momentos e divergentes em outros, com
relação aos adultos e entre si. Por último, sua cultura não é uma
alternativa perfeita e não pode ser o único ponto de referência da
educação secundária.” (Idem, p. 20)
Talvez aí resida o ponto mais polêmico e mais perigoso de toda a questão
da inclusão das culturas juvenis na escola. Incluí-las na escola não
significa que a escola deva abandonar sua tradicional missão de
preservação do patrimônio cultural, ponte entre o conhecimento acadêmico e
a vida cotidiana. Incluí-las na escola não significa fazer do professor um
refém do próprio currículo, “encostando-o à parede” e constrangendo-o a
lidar com realidades culturais para as quais não está preparado nem
sensibilizado. Isto só produziria novos e perigosos conflitos de gerações.
Superar o mal-entendido requer compreender a própria articulação entre
escola e cultura e compreender cultura no sentido antropológico como
dinâmica viva e movente, não como patrimônio fossilizado. É a célebre
dialética entre tradição e inovação. A missão de preservação do patrimônio
pressupõe a ação de transcriação e recriação permanentes da própria
cultura.
O papel das escolas, portanto, desenvolve-se na incorporação das múltiplas
vivências e na reconstrução de seus significados. O significado da
cultura, da ciência, da tecnologia, da arte, da própria vida social não é
algo dado, pronto e transmissível, mas uma construção intelectual e também
afetiva que precisa acontecer diariamente na escola. Por isto, o papel das
escolas desenha-se na adoção do princípio da contextualização da
aprendizagem e na adoção de práticas pedagógicas mais dinâmicas e
desafiadoras à imaginação, que aproveitem o potencial criador dos próprios
jovens, como é o caso do desenvolvimento de projetos curriculares.
Conforme já vimos acima em diversas passagens, o papel das escolas reside
no entendimento de sua função como potencializadoras dos comportamentos
intelectuais e afetivos de seus alunos. São os saberes e as competências
construídos pelos alunos nas escolas a partir ou apesar de outros saberes
e competências construídos "na vida" que servem como ferramentas
intelectuais e afetivas, que se tornam disponíveis na constituição das
identidades pessoais de nossos jovens e que serão mobilizados em situações
diversas como respostas a desafios cotidianos e corriqueiros ou inusitados
e complexos.
O olhar atento às necessidades presentes e futuras que os jovens terão de
enfrentar no decorrer da concretização de seus projetos de vida requer que
a inclusão das culturas juvenis na escola não seja interpretada como um
convite ao abandono da tradição. Nem o jovem deve moldar-se passivamente à
escola, como se acreditava no passado, nem a escola deve moldar-se ao
jovem, incorporando acriticamente seu universo extra-escolar. A escola e o
jovem devem construir conjuntamente projetos de vida, sínteses dialéticas
concebidas no encontro entre a tradição que a escola preserva e transmite
e as dinâmicas sociais que forçam a recriação e transcriação desta mesma
tradição.
Sem dúvida, os desafios e dificuldades são de ordem a nos querer arrancar
qualquer otimismo e disposição para a transformação. De pronto, a falta de
recursos materiais e culturais a aquisição de equipamentos para as
escolas e a capacitação dos profissionais que nelas atuam, que não foram
formados para lidar com toda esta problemática. Sem dúvida também, é a
superação da inércia institucional que detona o processo de transformação.
Mais uma vez, é preciso falar de vontades políticas das escolas aos órgãos
gestores e da superação da alienação cotidiana como condições do
desenvolvimento da luta por melhoria qualitativa na educação de nossos
jovens. Somente a plena conscientização do papel das escolas por parte dos
próprios profissionais da educação, enquanto protagonistas do processo de
mudança, pode constituir a força capaz de superar os desafios.
Para dar respostas satisfatórias aos jovens e contribuir efetivamente para
a realização de projetos de vida, o papel das escolas é cada vez mais de
ordem afetiva. Na entrada, o acolhimento e o encontro, reconhecendo nos
jovens suas potencialidades e fugindo do discurso fácil que acusa
problemas e desvios. Na saída, o estímulo e o impulso, na construção do
instrumental reflexivo e crítico sobre o qual os projetos pessoais,
individuais e coletivos serão construídos. Na raiz de todo o percurso, uma
atitude educativa solidamente alicerçada em valores, como força para a
mudança qualitativa de nossa sociedade, que nos permita apontar a
superação de males que não foram criados por nossos jovens, mas que os
afligem talvez mais do que a todos os outros.
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siglo y la participación social y política de los jóvenes.
Urresti, Marcelo - Paradigmas de participación juvenil: un balance
histórico. Krauskopf, Dina - Dimensiones críticas en la
participación social de las juventudes.
Miranda, Ana e Balardini , Sergio - De la experiencia de la Escuela de
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juveniles y proyecciones hacia el nuevo siglo. Elementos para el debate
(1996).
NOTAS:
*
Mestre em História Social pela UFRJ e Professor de História da Música da
Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio).
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