Começando
a conversa: quem são as PPD - Pessoas Portadoras de Deficiência?
Há
muitas maneiras de conceituar quem pode ser classificado como portador
de deficiência; estes conceitos mudaram, ao longo da História,
assim como as palavras utilizadas para exprimi-los. Termos como: retardado,
doentinho, aleijado, surdo-mudo, surdinho, mudinho, excepcional, mongolóide,
débil mental e outros não são mais aceitos,
atualmente, pois carregam muitos preconceitos. E todos nós
sabemos o quanto as palavras são poderosas...
Atualmente,
os termos adequados são: Pessoa Portadora de Deficiência,
Pessoa com Deficiência ou Pessoa com Necessidades Especiais.
Estes termos sinalizam que, em primeiro lugar, referimo-nos a uma
PESSOA que, dentre outros atributos e características,
tem uma deficiência, mas ela não É esta
deficiência. O que importa, em primeiro lugar, é a pessoa.
Estes
termos também despertam controvérsias; cada um deles
tem defensores, com argumentos próprios. Acreditamos que
o fundamental é referir-se a estas pessoas ou conversar com
elas de forma natural e respeitosa.
Em
termos gerais, podemos definir que "Pessoa Portadora de Deficiência"
é a que apresenta, em comparação com a maioria
das pessoas, significativas diferenças físicas, sensoriais
ou intelectuais, decorrentes de fatores inatos e/ou adquiridos, de
caráter permanente e que acarretam dificuldades em sua interação
com o meio físico e social.
No
Brasil, o Decreto n. 3.298 de 20 de dezembro de 1999 considera pessoa
portadora de deficiência a que se enquadra em uma das seguintes
categorias:
Deficiência
Física: "Alteração completa ou parcial
de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento
da função física, apresentando-se sob a forma
de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia,
tetraparesia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, amputação
ou ausência de membro, paralisia cerebral, membros com deformidade
congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas
e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções";
Deficiência
Auditiva: "Perda parcial ou total das possibilidades auditivas
sonoras, variando em graus e níveis" que vão de
25 decibéis (surdez leve) à anacusia (surdez profunda);
Deficiência
Visual: "Acuidade visual igual ou menor que 20/200 no melhor
olho, após a melhor correção, ou campo visual
inferior a 20 (tabela de Snellen), ou ocorrência simultânea
de ambas as situações";
Deficiência
Mental: "Funcionamento intelectual geral significativamente
abaixo da média, oriundo do período de desenvolvimento,
concomitante com limitações associadas a duas ou mais
áreas da conduta adaptativa ou da capacidade do indivíduo
em responder adequadamente às demandas da sociedade";
Deficiência
Múltipla: "É a associação, no
mesmo indivíduo, de duas ou mais deficiências primárias
(mental/visual/auditiva/física), com comprometimentos que acarretam
conseqüências no seu desenvolvimento global e na sua capacidade
adaptativa".
Uma
das possibilidades de ocorrência de deficiência múltipla
é a surdocegueira, na qual a pessoa tem uma perda substancial
de visão e audição, de tal forma que a combinação
das duas causa muita dificuldade no dia-a-dia, demandando o emprego
de metodologias próprias para comunicação e aprendizagem.
No
outro extremo da escala das habilidades intelectuais estão
as pessoas que são consideradas superdotadas ou com
altas habilidades, que se caracterizam por um notável
desempenho e elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos,
isolados ou combinados:
- Alta
capacidade intelectual geral;
- Aptidão
acadêmica específica;
- Pensamento
criativo ou produtivo;
- Capacidade
de liderança;
- Talento
especial para artes;
- Capacidade
psicomotora.
Além
destes quatro tipos de deficiência anteriormente citados, há
um outro grupo de comportamentos e atitudes que se diferencia do padrão
considerado normal e que recebe o nome de condutas típicas.
Estas podem ser definidas como manifestações de comportamento
típicas de portadores de síndromes e quadros psicológicos,
neurológicos ou psiquiátricos, que ocasionam atrasos
no desenvolvimento e prejuízos no relacionamento social, em
grau que requeira atendimento educacional especializado.
Vale
a pena mencionar, ainda que brevemente, o autismo, que é
uma síndrome definida por alterações presentes,
em geral, por volta do 3º ano de vida e que se caracteriza pela presença
de desvios nas relações interpessoais, linguagem/comunicação,
jogos e comportamentos.
Dentre
os sinais mais característicos do autismo, podemos citar:
- Tendência
ao isolamento;
- Movimentos
repetitivos, aparentemente sem função e sem objetivo
(esteriotipia);
- Dificuldade
no relacionamento com outras pessoas (não mantém diálogo,
mantém o olhar distante, rejeita contatos físicos);
- Faz
uso de seu nome quando se refere a si próprio;
- Repete
palavras ou frases constantemente (ecolalia);
- Ausência
de noção de perigo;
- Permanência
em situação de fantasia desvinculada da realidade;
- Hiperatividade
intensa e permanente;
- Necessidade
de manter rotinas obsessivas de comportamento, apresentando reação
de pânico quando há alguma interferência.
A
série Espaços de Inclusão trata da problemática
referente aos portadores de deficiências física, mental,
auditiva e visual.
Gradações
É
fácil perceber que, qualquer que seja o tipo de deficiência,
ele apresenta gradações: há pessoas com comprometimentos
maiores, que exigem equipamentos como cadeira de rodas, e há
outras cujas limitações são menores; algumas
conseguem aprender a ler e escrever, mas outras não. A Organização
Mundial da Saúde define estes graus usando as seguintes classificações:
Desvantagem
(handicap): "No domínio da saúde, a
desvantagem representa um impedimento sofrido por um dado indivíduo,
resultante de uma deficiência ou de uma incapacidade, que lhe
limita ou lhe impede o desempenho de uma atividade considerada normal
para ele, levando em conta a idade, o sexo e os fatores sócio-culturais"
(OMS, 1980, p. 37).
A
situação de desvantagem só se determina em relação
a outros, sendo por isso um fenômeno social. Caracteriza-se
por uma discordância entre o nível de desempenho do indivíduo
e as expectativas que o seu grupo social tem em relação
a ele. A situação de desvantagem expressa, pois, o conjunto
de atitudes e respostas dos que não sofrem de desvantagens.
Deficiência:
"No domínio da saúde, deficiência representa
qualquer perda ou anormalidade da estrutura ou função
psicológica, fisiológica ou anatômica". Dizer
que um indivíduo "tem uma deficiência" não
implica, portanto, que ele tenha uma doença nem que tenha de
ser encarado como "doente".
Incapacidade:
No campo da saúde, indica uma desvantagem individual, resultante
da desvantagem ou da deficiência, que limita ou impede o cumprimento
ou desempenho de um papel social, dependendo da idade, sexo e fatores
sociais e culturais.
A
incapacidade, estabelecendo a conexão entre a deficiência
e a desvantagem, representa um desvio da norma relativamente ao comportamento
ou atividade habitualmente esperados do indivíduo. A incapacidade
não é um desvio do órgão ou do mecanismo,
mas sim um "desvio" em termos de atuação global
do indivíduo e pode ser temporária ou permanente, reversível
ou irreversível, progressiva ou regressiva.
Estes
conceitos da OMS são seguidos por praticamente todas as organizações
internacionais que abordam a problemática da Deficiência:
UNESCO, International Rehabilitation, OIT, ONU e outras.
Trazendo
estes conceitos para o contexto da inclusão dos alunos com
deficiências, podemos perceber que os aspectos que adquirem
maior relevância neste cenário são as desvantagens
funcionais que eles apresentam. Nem sempre a comunidade escolar está
preparada para lidar com elas e não sabe o que fazer. Isso
cria um desconforto na interação social, fazendo com
que muitos evitem as crianças com deficiência ou façam
piadinhas de mau gosto.
Estas
atitudes mostram a existência de preconceitos e de estigma.
Deficiência:
verdades e mitos
Verdades
- Deficiência
não é doença;
- Algumas
crianças portadoras de deficiências podem necessitar
de escolas especiais;
- As
adaptações são recursos necessários
para facilitar a integração dos educandos com necessidades
especiais nas escolas;
- Síndromes
de origem genética não são contagiosas;
- Deficiente
mental não é louco.
Mitos
- Todo
surdo é mudo;
- Todo
cego tem tendência à música;
- Deficiência
é sempre fruto de herança familiar;
- Existem
remédios milagrosos que curam as deficiências;
- As
pessoas com necessidades especiais são eternas crianças;
- Todo
deficiente mental é dependente.
O que
fazer, se suspeitar da ocorrência de deficiência?
- Entre
em contato com a família, para verificar se estes comportamentos
estão presentes também em casa e se já foi
tomada alguma providência;
- Recomende
que a criança seja encaminhada a serviços especializados,
para fins de avaliação.
Por que
temos preconceitos?
É
normal ter preconceito.
O
preconceito faz parte da natureza humana, desde o início dos
tempos. O homem desconfia e tem medo de tudo o que é diferente
dele mesmo. O "outro" inspira receio, temor, insegurança;
daí para adotar atitudes defensivas e de ataque é um
passo.
Esses
sentimentos eram importantes no tempo das cavernas, quando os homens
eram poucos e lutavam bravamente para sobreviver em um ambiente hostil.
Infelizmente, persistem até hoje, nas lutas entre católicos
e protestantes, árabes e judeus, muçulmanos e cristãos,
brancos e negros... A lista dos pontos de divergência é
grande mas, no fundo, o ponto essencial reside na diferença
entre Eu e o Outro.
A
rotina das relações sociais nos leva, mais ou menos
conscientemente, a "classificar" as pessoas de acordo com
uma escala de valores a priori, como resultante da nossa educação
e das nossas referências culturais (do lugar que ocupamos na
"escala social"). Os critérios dessa "classificação"
são variados: a qualidade da expressão, o modo de olhar,
a maneira de comer, a forma de andar, a forma de vestir, o senso de
humor etc.
Muitas
vezes, a segregação começa a partir da colocação
de "rótulos" ou de "etiquetas" nas pessoas
com deficiência, do tipo "não vai aprender a ler",
"não pode fazer tal movimento" e outros. Estas "etiquetas"
têm conseqüências sobre a forma como estas pessoas
são aceitas pela sociedade e não permitem que a própria
pessoa se exprima e mostre do que é capaz. A ênfase recai
sobre a INcapacidade, sobre a Deficiência e não
sobre a Eficiência, a Capacidade, a Possibilidade.
"O
normal e o estigmatizado não são pessoas concretas e
sim, perspectivas que são geradas em situações
sociais. Assim, nenhuma diferença é em si mesma vantajosa
ou desvantajosa, pois a mesma característica pode mudar sua
significação, dependendo dos olhares que se lançam
sobre elas" (Proposta Curricular de Santa Catarina - 1998).
Felizmente,
esta postura começa a ser alterada e os profissionais, principalmente
na área da Educação, estão voltando o
diagnóstico e a atuação para as possibilidades
e os recursos que a pessoa portadora de deficiência tem.
E,
deste ponto de vista, a heterogeneidade, característica
presente em qualquer grupo humano, passa a ser vista como fator imprescindível
para as interações na sala de aula.
A
partir do reconhecimento e da aceitação de nossos preconceitos
e desconfianças, estamos aptos a mudar nosso comportamento
e a aceitar que o objeto destes sentimentos é uma pessoa como
nós, ou seja, começaremos a identificar os pontos comuns
entre nós e não mais a acentuar as diferenças.
Poderemos, então, identificar o que nos une e constatar que
nossa essência é a mesma: somos seres humanos, cuja diversidade
indica riqueza de situações e possibilidade de intercâmbio
de vivências e de aprendizagem.
Os
diferentes ritmos, comportamentos, experiências, trajetórias
pessoais, contextos familiares, valores e níveis de conhecimento
de cada criança (e do professor) imprimem ao cotidiano escolar
a possibilidade de troca de repertórios, de visão de
mundo, bem como os confrontos e a ajuda mútua, e a conseqüente
ampliação das capacidades individuais.
Por que
as pessoas portadoras de deficiência são "invisíveis"?
Às
vezes, até parece que as pessoas com deficiência não
existem, são fantasmas... Elas não são muito
vistas nas ruas, ou na televisão, ou na política...
Como se explica isso?
Na
verdade, desde que o mundo é mundo sempre houve pessoas com
deficiência. Mas, nem sempre estas pessoas foram consideradas
da mesma maneira.
No
passado, a sociedade freqüentemente colocou obstáculos
à integração das pessoas deficientes. Receios,
medos, superstições, frustrações, exclusões,
separações estão, lamentavelmente, presentes
desde os tempos da antiga Grécia, em Esparta, onde essas pessoas
eram jogadas do alto de montanhas, ou em Atenas, onde elas eram abandonadas
nas florestas.
Adotando
esta atitude de "longe dos olhos, longe do pensamento",
Platão chegou mesmo a ponto de afirmar, quando dizia como deveria
ser a sociedade ideal:
"As
mulheres dos nossos militares são pertença da comunidade,
assim como os seus filhos, e nenhum pai conhecerá o seu filho
e nenhuma criança os seus pais. Funcionários preparados
tomarão conta dos filhos dos bons pais, colocando-os em certas
enfermarias de educação, mas os filhos dos inferiores,
ou dos melhores, quando surjam deficientes ou deformados, serão
postos fora, num lugar misterioso e desconhecido, onde deverão
permanecer."
Na
Idade Média, eram freqüentes os apedrejamentos ou a morte
nas fogueiras da Inquisição das pessoas com deficiência,
pois eram consideradas como possuídas pelo demônio.
No
séc. XIX e princípios do séc. XX a esterilização
foi usada como método para evitar a reprodução
desses "seres imperfeitos". O nazismo promoveu a aniquilação
pura e simples das pessoas com deficiência, porque não
correspondiam à "pureza" da raça ariana.
Paralelamente
a estas atitudes extremas de aniquilamento, outras atitudes eram adotadas,
como o isolamento destas pessoas em grandes asilos (como na Inglaterra),
além de comportamentos marcados por rejeição,
vergonha e medo.
Foi
apenas a partir da Revolução Francesa e das suas bandeiras
de liberdade, igualdade e fraternidade que estas pessoas passaram
a ser objeto de assistência (mas ainda não de educação)
e entregues aos cuidados de organizações caritativas
e religiosas.
Após
a 2a Guerra Mundial, os direitos humanos começaram a ser valorizados;
surgem os conceitos de igualdade de oportunidades, direito à
diferença, justiça social e solidariedade nas novas
concepções jurídico-políticas, filosóficas
e sociais de organizações como a ONU - Organização
das Nações Unidas, a UNESCO, a OMS - Organização
Mundial de Saúde, a OIT - Organização Internacional
do Trabalho e outras. As pessoas com deficiência passaram a
ser consideradas como possuidoras dos mesmos direitos e deveres dos
outros cidadãos e, entre eles, o direito à participação
na vida social e à sua conseqüente integração
escolar e profissional.
Segundo
a UNESCO (1977, p. 5-6), pode-se dividir a história da humanidade
em cinco fases, de acordo com o modo como os deficientes foram tratados
e considerados:
1. Fase
filantrópica - em que as pessoas com deficiência
são consideradas doentes e portadoras de incapacidades permanentes
inerentes à sua natureza. Portanto, precisavam ficar isoladas
para tratamento e cuidados de saúde;
2. Fase
da "assistência pública" - em que o mesmo
estatuto de "doentes" e "inválidos" implica
a institucionalização da ajuda e da assistência
social;
3. Fase
dos direitos fundamentais, iguais para todas as pessoas, quaisquer
que sejam as suas limitações ou incapacidades. É
a época dos direitos e liberdades individuais e universais
de que ninguém pode ser privado, como é o caso do
direito à educação;
4. Fase
da igualdade de oportunidades - época em que o desenvolvimento
econômico e cultural acarreta a massificação
da escola e, ao mesmo tempo, faz surgir o grande contingente de
crianças e jovens que, não tendo um rendimento escolar
adequado aos objetivos da instituição escolar, passam
a engrossar o grupo das crianças e jovens deficientes mentais
ou com dificuldades de aprendizagem;
5.
Fase do direito à integração - se
na fase anterior se "promovia" o aumento das "deficiências",
uma vez que a ignorância das diferenças, o não
respeito pelas diferenças individuais mascarado como defesa
dos direitos de "igualdade" agravava essas diferenças,
agora é o conceito de "norma" ou de "normalidade"
que passa a ser posto em questão.
Mas,
como diz ainda a UNESCO, estas fases só aparentemente se sucedem
de forma cronológica. Na verdade, o que acontece é que
estas diferentes atitudes e concepções face às
pessoas com deficiência se sobrepõem, mesmo nos nossos
dias.
Atitudes
que contribuem para a integração da pessoa com necessidades
especiais
- Acesso
ao conhecimento e à informação;
- Convivência,
que estimula o relacionamento;
- rompimento
de padrões de comportamentos estabelecidos.
Estratégias
para facilitar mudança de atitudes
- Filmes
mostrando como pessoas com necessidades especiais podem viver integradas
em sua comunidade;
- Palestras
com pessoas com necessidades especiais relatando suas experiências;
- Palestras
com profissionais acerca da problemática das deficiências;
- Livros
e folhetos informativos sobre a deficiência.
Quando
você encontrar uma pessoa com deficiência
Segundo
o CEDIPOD - Centro de Documentação e Informação
do Portador de Deficiência e a CORDE- Coordenadoria Nacional
para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência,
aqui vão algumas dicas de comportamento.
Muitas
pessoas não deficientes ficam confusas quando encontram uma
pessoa com deficiência. Isso é natural. Todos nós
podemos nos sentir desconfortáveis diante do "diferente".
Esse
desconforto diminui e até desaparece quando há convivência
entre pessoas deficientes e não deficientes.
Não
faça de conta que a deficiência não existe. Se
você se relacionar com uma pessoa deficiente como se ela não
tivesse uma deficiência, você vai estar ignorando uma
característica muito importante dela. Dessa forma, você
não estará se relacionando com ela, mas com outra pessoa,
uma que você inventou, que não é real.
Aceite
a deficiência. Ela existe e você precisa levá-la
na sua devida consideração.
Não
subestime as possibilidades, nem superestime as dificuldades e vice-versa.
As
pessoas com deficiência têm o direito, podem e querem
tomar suas próprias decisões e assumir a responsabilidade
por suas escolhas.
Ter
uma deficiência não faz com que uma pessoa seja melhor
ou pior do que uma pessoa não deficiente.
Provavelmente,
por causa da deficiência, essa pessoa pode ter dificuldade para
realizar algumas atividades e, por outro lado, poderá ter extrema
habilidade para fazer outras coisas. Exatamente como todo mundo.
A
maioria das pessoas com deficiência não se importa de
responder perguntas, principalmente aquelas feitas por crianças,
a respeito da sua deficiência e como ela transforma a realização
de algumas tarefas. Mas, se você não tem muita intimidade
com a pessoa, evite fazer perguntas íntimas.
Quando
quiser alguma informação de uma pessoa deficiente, dirija-se
diretamente a ela e não a seus acompanhantes ou intérpretes.
Sempre
que quiser ajudar, ofereça ajuda. Espere sua oferta ser aceita,
antes de ajudar. Pergunte a forma mais adequada para fazê-lo.
Mas
não se ofenda se seu oferecimento for recusado, pois nem sempre
as pessoas com deficiência precisam de auxílio. Às
vezes, uma determinada atividade pode ser mais bem desenvolvida sem
assistência.
Se
você não se sentir confortável ou seguro para
fazer alguma coisa solicitada por uma pessoa deficiente, sinta-se
livre para recusar. Neste caso, seria conveniente procurar outra pessoa
que possa ajudar.
As
pessoas com deficiência são pessoas como você.
Têm os mesmos direitos, os mesmos sentimentos, os mesmos receios,
os mesmos sonhos.
Você
não deve ter receio de fazer ou dizer alguma coisa errada.
Aja com naturalidade e tudo vai dar certo.
Se
ocorrer alguma situação embaraçosa, uma boa dose
de delicadeza, sinceridade e bom-humor nunca falha.
Como
a PPD tem sido vista pela Educação
Em
termos educativos, o conceito de Deficiência tem evoluído
ao longo dos tempos, acompanhando as concepções de desenvolvimento
e de aprendizagem.
Durante
a primeira metade do séc. XX, os conceitos de "deficiência"
/ "diminuição" / handicap /inadaptação
incluíam as características de inatismo e de determinismo,
implicando a concepção de que "uma vez deficiente,
deficiente para sempre".
Esta
compreensão impulsionou muitos estudos, que tinham por objetivo
organizar em diferentes categorias todos os possíveis distúrbios
que pudessem ser detectados.
Esta
fase de categorização e etiquetagem, que via a "deficiência"
ou o "distúrbio" como uma característica inerente
à criança, trouxe consigo duas conseqüências
fundamentais:
- A
necessidade de uma "detecção precisa" da
deficiência, com o conseqüente desenvolvimento dos Testes
de Inteligência e outras técnicas de diagnóstico
quantitativo;
- A
generalização da idéia de que, sendo as "deficiências"
irrecuperáveis, as crianças por elas afetadas deveriam
ser "colocadas" num sistema educacional à parte
(escolas especiais).
De
acordo com esta compreensão da Deficiência, os efeitos
das deficiências físicas e sensoriais eram deterministicamente
atribuídos ao próprio indivíduo e as dificuldades
sentidas por este tipo de alunos na escola eram concebidas em termos
de deficiência mental; crianças ou jovens com marcadas
dificuldades físicas, sensoriais, mentais, comportamentais
ou de comunicação eram considerados como qualitativamente
diferentes dos outros alunos, com características consideradas
inalteráveis e permanentes e, como tal, fazia sentido a existência
de um sistema educacional separado do ensino regular.
Nos
anos 40 e 50 surgem profundas e importantes alterações
com o fortalecimento das correntes "ambientalistas" e "comportamentalistas".
Questionando amplamente a "constitucionalidade" e a "incurabilidade"
dos distúrbios, os partidários destas teorias afirmavam
que a "deficiência" podia ser "provocada"
pela "ausência de estimulação adequada ou
por processos de aprendizagem incorretos".
Ao
assim pensar, os adeptos destas correntes não só acabaram
por incluir os conceitos de "adaptação social"
e de aprendizagem na definição de "atraso mental",
por exemplo, como permitiram consideráveis avanços na
compreensão de que "todas as crianças são
educáveis" e deram um profundo golpe nas concepções
da "incurabilidade" das deficiências.
Entretanto,
a partir dos anos 60 e principalmente da década de 70, em decorrência
da contribuição de muitas disciplinas e ramos da ciência,
uma grande "revolução" se deu no conceito
de "deficiência" aplicado às crianças
e jovens em idade escolar. Tal alteração tem por base
uma mudança de perspectiva, colocando no centro do problema
não a deficiência do indivíduo, mas as suas necessidades
particulares, para procurar o meio ambiente no qual se poderá
desenvolver melhor.
Assim,
durante a década de 70, por todo o mundo ocidental, um amplo
movimento de alargamento da escolaridade obrigatória a todas
as crianças faz com que os diferentes países prestassem
uma atenção particular à organização
dos seus serviços de educação especial, chamando
a si a responsabilidade de garantirem também às crianças
com deficiências um processo educativo adaptado às suas
necessidades individuais.
Marco
relevante nesta nova abordagem da deficiência, tendente a modificar
não só o sistema das classificações, mas
também, e sobretudo, a prática da "integração"
foi o "Warnock Report", um relatório britânico
publicado em 1978 e realizado por uma comissão dirigida por
Mary Warnock, encarregada de elaborar propostas para a melhoria da
educação de jovens com deficiências. É
o "Warnock Report" que introduz, pela primeira vez, o conceito
de "aluno com necessidades educativas especiais".
Este
conceito é bastante amplo e enfatiza aspectos instrumentais
e funcionais, ou seja: o que fazer para receber e tratar este aluno
no ambiente escolar comum, da melhor forma possível?
De
acordo com este conceito e efeitos da sua educação,
as crianças e jovens com dificuldades especiais, ou com necessidades
educativas especiais (NEE), são aquelas que requerem educação
especial e serviços específicos de apoio para a realização
total do seu potencial humano. Eles podem ser muito diferentes dos
outros por terem atraso mental, dificuldades de aprendizagem, desordens
emocionais ou comportamentais, incapacidades físicas, problemas
de comunicação, autismo, lesões cerebrais, deficiência
auditiva, deficiência visual, ou mesmo dotes e talentos especiais,
no caso dos superdotados. São exatamente estas diferenças
que devem ser levadas em conta, para que eles possam freqüentar
a escola comum.
Segundo
alguns estudiosos, entre os quais Hallahn e Kauffman, esta definição
de crianças e jovens com necessidades especiais mostra algo
muito importante, que merece destaque:
Estas
pessoas apresentam uma extraordinária diversidade de
características, o que impede a generalização
de medidas para tratá-los como se fossem um grupo homogêneo.
A
partir de meados da década de 70 e claramente assumida nos
anos 80, surge uma filosofia de "integração"
educativa como opção principal da grande maioria dos
países, defendendo-se que o ensino das crianças e jovens
com dificuldades especiais deve ser feito, pelo menos tanto quanto
possível, no âmbito da escola regular.
Por que
incluir crianças com deficiência na escola regular?
Em
muitos países do mundo ocidental, os professores vêm
fazendo esta pergunta, às vezes em voz alta, às vezes
consigo mesmos, em diversas ocasiões.
Para
muitos, a integração escolar de alunos com deficiência
é uma provocação ao profissionalismo do professor.
A lógica da inclusão (veja-se a Declaração
de Salamanca) constitui a essência do ideal democrático.
Os
benefícios da inclusão de alunos com necessidades
educativas especiais na escola regular são evidentes (apesar
das dificuldades) e TODOS os autores desta integração
"lucram" com ela.
Vários
estudos comparativos realizados principalmente nos EUA e nos países
escandinavos, onde este movimento existe há mais tempo, revelam
a seguinte situação:
Benefícios
para os alunos com deficiências
- Eles
encontram modelos positivos nos colegas;
- Contam
com assistência por parte dos colegas;
- A
criança cresce e aprende a viver em ambientes integrados;
Benefícios
para os alunos que não são deficientes
- A
melhor forma de aprenderem a lidar com as diferenças individuais;
- Oportunidade
para praticar e partilhar as aprendizagens;
- Diminuição
da ansiedade face aos fracassos ou insucessos.
Benefícios
para todos os alunos
- Compreensão
e aceitação dos outros;
- Reconhecimento
das necessidades e competências dos colegas;
- Respeito
por todas as pessoas;
- Construção
de uma sociedade solidária;
- Desenvolvimento
de apoio e assistência mútua;
- Desenvolvimento
de projetos de amizade;
- Preparação
para uma comunidade de suporte e apoio.
A caminho
da inclusão
Segundo
Steinemann: "Integração significa o (re)-estabelecer
de formas comuns de vida, de aprendizagem e de trabalho entre pessoas
deficientes e não-deficientes. Integração significa
ser participante, ser considerado, "fazer parte de", ser
levado a sério e ser encorajado. A integração
requer a promoção das qualidades próprias de
um indivíduo, sem estigmatização e sem segregação.
Realizar pedagogicamente a integração significa, seja
no jardim de infância, na escola ou no trabalho, que todas as
crianças e adultos (deficientes ou não) brinquem/aprendam/trabalhem
de acordo com o seu nível próprio de desenvolvimento
em cooperação com os outros" (Steinemann, 1994).
As
palavras "integrado" e "integração"
derivam do latim "integrare" que vem do adjetivo
"integer", que originalmente significa intacto, não
tocado, sem mácula, são, virgem, inteiro, completo.
Portanto,
a palavra "integração", neste sentido, deve
ser interpretada como alguma coisa de original e natural, sendo a
"segregação" (o estado de não-integração)
algo anormal, construído, artificial.
Mas
o mais interessante da história da palavra integração
é que o termo latino "integer" (intacto) parece
ter derivado em duas direções nas línguas modernas.
Enquanto que em uma delas está muito próximo do seu
sentido original (aparecendo em termos como "integridade",
"íntegro", "integral"), a outra direção
vai mais no sentido de "compor", "fazer um conjunto",
"juntar as partes separadas no sentido de reconstruir uma totalidade".
Quando
se aborda o tema da educação de crianças e jovens
com dificuldades especiais, nomeadamente devidas às suas deficiências
físicas, mentais ou sensoriais, parece ser mais no segundo
sentido acima indicado que se utiliza o termo "integração",
querendo significar a colocação de pessoas com deficiência
juntamente com pessoas não-deficientes no mesmo lugar.
Neste
contexto, a integração escolar pode ser vista como um
"fim" em si, como uma forma de "associação"
entre o grupo de alunos "especiais" e a escola regular ou
então como um "processo" de "estruturação
organizacional", de modificação da própria
escola regular no sentido de atender a todas as diferenças.
Segundo
Romeu K. Sassaki: "(...) a integração social, afinal
de contas, tem consistido no esforço de inserir na sociedade
pessoas com deficiência que alcançaram um nível
de competência compatível com os padrões sociais
vigentes. A integração tinha e tem o mérito de
inserir o portador de deficiência na sociedade, sim, mas desde
que ele esteja de alguma forma capacitado a superar as barreiras físicas,
programáticas e atitudinais nela existentes. Sob a ótica
dos dias de hoje, a integração constitui um esforço
unilateral tão somente da pessoa com deficiência e seus
aliados (a família, a instituição especializada
e algumas pessoas da comunidade que abracem a causa da inserção
social), sendo que estes tentam torná-la mais aceitável
no seio da sociedade."1
Continuando,
Sassaki mostra que a prática da integração social
vem ocorrendo, desde a década de 80, de 3 formas:
1. Pela
inserção pura e simples daquelas pessoas com deficiência
que conseguiram ou conseguem, por méritos pessoais e profissionais
próprios, utilizar os espaços físicos e sociais,
bem como seus programas e serviços, sem nenhuma modificação
por parte da sociedade, ou seja, da escola comum, da empresa comum,
do clube comum, etc.;
2. Pela
inserção daqueles portadores de deficiência
que necessitavam ou necessitam de alguma adaptação
específica no espaço físico comum ou no procedimento
da atividade comum, a fim de poderem, só então, estudar,
trabalhar, ter lazer, enfim, conviver com pessoas não-deficientes;
3. Pela
inserção de pessoas com deficiência em ambientes
separados dentro dos sistemas gerais. Por exemplo: escola especial
junto à comunidade; classe especial numa escola comum; setor
separado dentro de uma empresa comum; horário exclusivo para
pessoas deficientes num clube comum, etc. Esta forma de integração,
mesmo com todos os méritos, não deixa de ser segregativa.
Embora
estas formas representem um avanço em relação
às atitudes do passado, de segregação, ainda
não respondem plenamente aos anseios e direitos das PPD, pois
elas pouco exigem da sociedade em termos de modificação
de comportamentos, leis, adaptações arquitetônicas
e outras. O esforço da integração fica quase
que exclusivamente sobre os ombros das PPD.
O
ano de 1981 foi designado, pela ONU - Organização das
Nações Unidas, de Ano Internacional das Pessoas Portadoras
de Deficiência e assinalou um marco fundamental na luta pelos
direitos das PPD no mundo todo. Na esteira do conceito de integração
vieram outros, como os de autonomia, independência, empowerment
e equiparação de oportunidades, que podem ser considerados
passos em direção ao conceito atualmente vigente, de
inclusão social.
Vamos
recorrer novamente à autoridade de Romeu Sassaki 2 para definir,
brevemente, estas palavras.
Autonomia
é a condição de domínio no ambiente físico
e social, preservando ao máximo a privacidade e a dignidade
da pessoa que a exerce. Ter maior ou menor autonomia significa que
a pessoa com deficiência tem maior ou menor controle nos ambientes
que ela freqüenta; rampas facilitam a autonomia no espaço
físico, por exemplo.
Independência
é a faculdade de decidir sem depender de outras pessoas, como
familiares ou profissionais especializados. Uma pessoa com deficiência
pode ser mais ou menos independente em decorrência da quantidade
e da qualidade de informações a que tiver acesso, mas
também de sua autodeterminação e/ou prontidão
para tomar decisões em uma determinada situação.
Empowerment
significa o processo pelo qual uma pessoa ou um grupo de pessoas usa
o seu poder pessoal, inerente à sua condição,
para fazer escolhas e tomar decisões, assumindo assim o controle
de sua(s) vida(s). Neste sentido, independência e empowerment
são conceitos interdependentes. Não se outorga este
poder às pessoas; o poder pessoal está em cada ser humano
desde o seu nascimento.
O
termo equiparação de oportunidades é definido
pela Disabled Peoples' International (1981) como "o processo
mediante o qual os sistemas gerais da sociedade, tais como o meio
físico, a habitação e o transporte, os serviços
sociais e de saúde, as oportunidades de educação
e trabalho, e a vida cultural e social, incluídas as instalações
esportivas e de recreação, são feitos acessíveis
para todos. Isto inclui a remoção das barreiras que
impedem a plena participação das pessoas deficientes
em todas estas áreas, permitindo-lhes assim alcançar
uma qualidade de vida igual à de outras pessoas".
Nesta
definição está implícito o princípio
da igualdade de direitos: "O princípio de direitos
iguais implica que as necessidades de cada um e de todos são
de igual importância e que essas necessidades devem ser utilizadas
como base para o planejamento das comunidades e que todos os recursos
precisam ser empregados de tal modo que garantam que cada pessoa tenha
oportunidade igual de participação."
A
igualdade de oportunidades em educação é na verdade
essencial dada a importância da educação na transmissão
de atitudes, conhecimentos e competências que a sociedade como
um todo encara como importantes para todas as crianças e jovens.
Como
bem enfatiza Sassaki: "É fundamental equipararmos as oportunidades
para que todas as pessoas, incluindo portadoras de deficiência,
possam ter acesso a todos os serviços, bens, ambientes construídos
e ambientes naturais, em busca da realização de seus
sonhos e objetivos."
Na
seqüência destes movimentos e conquistas é elaborado
o conceito de inclusão social, processo que funciona
em mão dupla: a sociedade e os segmentos até então
excluídos (inclusive o das PPD) buscam equacionar soluções
e alternativas, para garantir a equiparação de oportunidades
e de direitos. Os valores que norteiam este processo são:
- A
aceitação e a valorização da diversidade;
- O
exercício da cooperação entre diferentes;
- A
aprendizagem da multiplicidade.
De
acordo com estudiosos deste processo social, o momento atual caracteriza-se
pela transição da fase da integração
para a da inclusão, que pressupõe um novo paradigma,
um novo modelo de sociedade.
Momentos
de transição, como este, despertam debates e dúvidas;
surgem várias opções e alternativas, cada uma
com seus defensores. É difícil adotar novos conceitos
e modificar padrões de comportamento já consolidados.
Além disso, estamos tratando de seres humanos, que merecem
ser tratados com respeito e delicadeza.
No
campo da Educação, vemos surgir diversas posições:
a mais radical, que defende que todos os alunos devem ser educados
apenas na escola regular (Escola para Todos) até a idéia
de que a diversidade de características, verificada no grupo
de alunos com necessidades educativas especiais, implica a existência
e manutenção de um contínuo de serviços
e uma diversidade de opções. Essas opções
podem ir da inclusão na classe regular até a colocação
em instituições residenciais especializadas, passando
pelas salas de apoio e classes especiais na escola regular ou pelo
recurso a escolas especiais.
Se
se trata de uma questão de direitos cívicos, um dos
principais direitos de qualquer minoria é o seu direito de
escolha e, conforme prevê a legislação, os pais
ou tutores destes alunos têm liberdade de escolher o que acham
melhor para os seus educandos. Nesse sentido, é importante
que haja diferentes alternativas, para que possam escolher a que melhor
se ajusta ao seu caso.
Desta
forma, os educadores e profissionais da educação devem
preservar a oferta de diferentes tipos de serviços de forma
que, sempre que possível, seja garantida a possibilidade de
escolha. Alguns autores propõem um contínuo de serviços
organizados em cascata e numa ordem progressiva de pequenos "saltos"
no sentido da maior proximidade entre os alunos com dificuldades especiais
na escola e os seus colegas não deficientes.
Não
se trata simplesmente de transferir os alunos da escola especial
para a escola regular, mas sim de remodelar e modificar a escola regular
para que esta possa atender a uma mais ampla variedade de alunos.
Não
podemos nos esquecer de que as interações sociais não
acontecem automaticamente; num grupo social, as pessoas tendem a escolher
os parceiros com interesses e valores semelhantes, evitando as diferenças.
O fato de estarem na mesma sala não faz com que as crianças
imediatamente comecem a interagir com colegas que têm alguma
diferença.
Além
das mudanças arquitetônicas, que são necessárias
em quase todos os edifícios escolares para acolher a criança
com deficiência, a escola regular tem normalmente uma estrutura
curricular, a organização dos horários, os padrões
de socialização e todo um conjunto de normas e regulamentos
verdadeiramente segregadores dos alunos com deficiências, estando
mais voltada para o acumular de conhecimentos e para a criação
de elites qualificadas.
Portanto,
entre as alternativas possíveis e os níveis de integração
desejados interpõe-se a necessidade de desenvolver um conjunto
de métodos e estratégias educativas (em nível
curricular) de importância fundamental para o sucesso da integração
dos alunos com deficiências na escola.
Alguns
tipos de alunos (com deficiências sensoriais ou graves problemas
de comunicação, por exemplo) requerem o uso de equipamentos
ou materiais específicos e não utilizados pela generalidade
dos alunos da escola. Assim sendo, a escola deve se adaptar e modificar,
no sentido de atender às necessidades de uma grande variedade
e diversidade de alunos.
Para
que uma criança "especial" possa ser "incluída"
numa situação em que todos a sintam "mais normal"
e em que a sua auto-estima seja aumentada, em que se desenvolvam relações
interpessoais e interações com seus colegas (com ou
sem dificuldades especiais) é necessário desenvolver
estratégias adequadas e devidamente planejadas, como a pesquisa
desenvolvida por McNamara e Moreton, em 1993 evidencia. Os seguintes
aspectos devem ser levados em conta:
- A
planificação e o desenvolvimento de arranjos no ambiente
físico e no ambiente social;
- A
escolha dos materiais e equipamentos da sala de aula;
- A
disposição e a adequação do espaço
disponível para os alunos ("densidade social" e
"densidade espacial");
- A
revisão do papel do professor como iniciador das interações
sociais ou como mero gestor dessas interações;
- A
maior ou menor estruturação das atividades propostas
na sala de aula.
Concluindo...
Resumindo
o caminho percorrido até aqui, podemos dizer que uma das principais
lições que podemos tirar é que não há
um formato padronizado para a integração de alunos diferentes/deficientes
na escola regular. Cada um dos aspectos da integração
- definição, motivos, objetivos, níveis, dificuldades,
vantagens e desvantagens etc. - apresenta uma enorme diversidade e,
como diz o documento publicado pela Comissão Européia,
em 1996:
"Deve
reconhecer-se que a integração dos alunos com necessidades
educativas especiais implica muito mais do que colocar simplesmente
o aluno numa escola regular. Trata-se de um processo em que o aluno
tem oportunidades para se desenvolver e progredir em termos educativos
para uma autonomia econômica e social. A integração
é igualmente um processo em que as próprias escolas
necessitam de mudar e de se desenvolver com o objetivo de proporcionar
um ensino de elevado nível a todos os alunos e o máximo
de acesso aos que têm necessidades educativas especiais"
Segundo
a Declaração de Salamanca:
"As
escolas devem ajustar-se a todas as crianças, independentemente
das suas condições físicas, sociais, lingüísticas
ou outras. Neste conceito devem incluir-se crianças com deficiência
ou superdotadas, crianças da rua ou crianças que trabalham,
crianças de populações imigradas ou nômades,
crianças de minorias lingüísticas, étnicas
ou culturais e crianças de áreas ou grupos desfavorecidos
ou marginais."
Declaração
de Salamanca: UNESCO, 1994.
Assim,
principalmente na área pedagógica, não parece
correto ter-se como ponto de referência as deficiências
ou incapacidades (atitude infelizmente ainda freqüente nas
nossas escolas) mas sim compreender que o que é importante
é o ser humano. Tal como a ergonomia já faz no domínio
do trabalho - com a adaptação do posto de trabalho
à pessoa, às suas habilidades e características
individuais - no campo da pedagogia teremos de evitar que a deficiência
se coloque entre o professor e o aluno, impedindo-nos de ver a pessoa
que está por detrás dessa deficiência.
Talvez
seja este o momento de se passar da idéia de que "todos
devem ter as mesmas oportunidades" para a noção
de que "todos deveriam ter oportunidades diferentes" para
desenvolver as suas potencialidades e satisfazer as suas necessidades,
dadas as nossas diferenças individuais. Fica aí o pensamento
para reflexão...
Ao
iniciarmos um novo século e um novo milênio, está
na hora de abandonarmos etiquetas e rótulos e de olharmos além
deles.
Os
professores e o processo de inclusão
Estudos
indicam que a atitude do professor é um dos fatores que mais
contribui para o sucesso de qualquer medida de integração
da criança com deficiência. De fato, como o comprovam
as práticas do dia-a-dia nas nossas escolas, não basta
determinar legalmente a integração para que ela aconteça.
A
integração é, em última instância,
um processo de fornecer aos alunos com deficiência uma educação
com o máximo de qualidade e de eficácia, no sentido
da satisfação das suas necessidades individuais. Ora,
este objetivo depende fundamentalmente do papel do professor, nomeadamente
de variáveis como a sua vontade em levar a cabo as tarefas
de ensino destes alunos e a sua formação ou preparação
pedagógica para o fazer.
Estratégias
para a integração/inclusão
Gostaríamos
de sugerir estratégias que estão sendo utilizadas para
a integração de crianças e jovens com deficiência
na escola regular, em outros países. Algumas ainda estão
em fase de experimentação. Esperamos que possam trazer
idéias aplicáveis em suas escolas.
Equipe
de pré-classificação
Trata-se
de equipes compostas por uma variedade de profissionais, especialmente
professores de ensino regular e professores de ensino especial, que
trabalham em conjunto com o professor da classe no sentido de elaborar,
recomendar e desenvolver estratégias para ensinar as crianças
ou jovens com deficiência dessa classe.
O
principal objetivo destas equipes é o de influenciar o professor
da classe regular, para que ele assuma a responsabilidade pela educação
de todos os seus alunos, tentando todas as estratégias de ensino
necessárias e possíveis, antes de enviar qualquer aluno
para um programa de ensino especial.
Apoio
consultivo
Trata-se
de um professor especializado ou com experiência no ensino especial
que colabora com o professor da classe regular, no sentido de descobrir
e implementar estratégias de ensino eficazes para os casos
de alunos com deficiência.
Neste
modelo, as relações entre o professor do ensino especial
e o professor da classe regular baseiam-se nos princípios da
mutualidade - ou seja, da partilha de responsabilidades entre os dois
profissionais pela escolha e implementação das estratégias
adotadas - e da reciprocidade - o que significa que qualquer um dos
dois profissionais tem idêntica autoridade, igualdade no acesso
à informação e as mesmas oportunidades para participarem
na identificação, discussão, tomada de decisão
e implementação das medidas adotadas.
Ensino
cooperativo
Trata-se
de uma estratégia em que o professor da classe regular e o
professor do ensino especial trabalham em conjunto, dentro da sala
de aula regular composta por alunos com deficiência e por alunos
ditos normais. Neste modelo existem, pelo menos, três formas
diferentes de organização:
1. Atividades
complementares - enquanto o professor do ensino regular assume,
por exemplo, as atividades da área acadêmica (conteúdos
acadêmicos), o professor do ensino especial ensina alguns
alunos a identificar as idéias principais de um texto, a
fazer resumos - enfim, a dominar técnicas de estudo;
2. Atividades
de apoio à aprendizagem - os dois professores ensinam
os conteúdos acadêmicos, mas enquanto o professor do
ensino regular é responsável pelo núcleo central
do conteúdo, pela matéria essencial, o professor do
ensino especial encarrega-se de dar apoio suplementar a qualquer
aluno que dele necessite, individualmente ou em pequenos grupos;
3. Ensino
em equipe - o professor da classe regular e o professor do ensino
especial planificam e ensinam em conjunto todos os conteúdos
a todos os alunos, responsabilizando-se cada um deles por uma determinada
parte do currículo ou por diferentes aspectos das matérias
de ensino.
O
sucesso do "ensino cooperativo" depende de dois fatores
fundamentais:
- Necessidade
de bastante tempo nos horários dos professores para fazerem
o planejamento em conjunto;
- Compatibilidade
entre os estilos de trabalho e personalidades dos dois professores.
Aprendizagem
Cooperativa
Trata-se
de uma estratégia em que o professor da classe regular coloca
os alunos em grupos de trabalho, organizando-os na base da heterogeneidade
das suas habilidades (por exemplo, juntando alunos com dificuldades
especiais numa determinada área com alunos mais habilidosos
no assunto em estudo).
De
acordo com os dados de investigação conhecidos, as estratégias
de aprendizagem cooperativa levam a uma melhoria significativa das
atitudes por parte dos alunos não-deficientes face aos seus
colegas com dificuldades especiais ou mesmo com deficiências
graves, ao mesmo tempo em que permite a estes um aumento significativo
da sua auto-estima e das suas atitudes em face de si mesmos.
Ensino
por colegas
Trata-se
de um método baseado na noção de que os alunos
podem efetivamente ensinar os seus colegas. Neste método, o
papel de aluno ou de professor pode ser atribuído a qualquer
aluno, com deficiência ou não, e alternadamente, conforme
as matérias em estudo ou as atividades a desenvolver. No entanto,
quando um aluno com deficiência assume o papel de mestre (professor),
o aprendiz (aluno) é geralmente um aluno mais novo e menos
desenvolvido, ainda que sem dificuldades especiais em relação
ao seu nível de desenvolvimento.
Participação
parcial
Trata-se
de uma estratégia em que os alunos com dificuldades especiais,
quando freqüentam uma sala de aula regular, se envolvem em algumas
atividades com os seus colegas sem deficiência, embora numa
reduzida dimensão. Neste tipo de estratégia, o professor
faz algumas adaptações nas atividades a desenvolver,
no sentido de facilitar o mais possível a participação
dos alunos com mais dificuldades, alterando as regras do "jogo",
modificando a forma de apresentação ou de organização
da tarefa a fazer ou, mesmo, dando alguma ajuda individual aos alunos
com dificuldades nas partes mais difíceis da atividade em causa.
Materiais
curriculares específicos para a mudança de atitudes
Trata-se
de uma estratégia em que o professor organiza alguns materiais
(como, por exemplo, marionetes) ou desenvolve atividades de simulação
em que os alunos ditos normais representam o papel de alunos com deficiência,
para levar os alunos sem deficiência a modificar as suas atitudes
face aos seus colegas com dificuldades especiais.
NOTAS:
* Socióloga.
Gerente da Rede SACI - Solidariedade, Apoio, Comunicação
e Informação (www.saci.org.br). Consultora
desta série.
- Sassaki,
Romeu. K. Inclusão - construindo uma sociedade para todos.
Rio de Janeiro: WVA, 1997, p. 34.
- Sassaki,
op. cit.. pág. 36 a 41..
