ESPAÇOS
DE INCLUSÃO
Apresentação
Marta Gil*
"A deficiência é uma dentre
todas as possibilidades do ser humano e daí dever
ser considerada, mesmo se as suas causas e conseqüências
se modificam, como um fato natural que nós
mostramos e de que falamos, do mesmo modo que o fazemos
em relação a todas as outras potencialidades
humanas" (UNESCO, 1977).
"Nós não devemos deixar que
as incapacidades das pessoas nos impossibilitem de reconhecer
as suas habilidades. As características mais importantes
das crianças e jovens com deficiência são
as suas habilidades" (Hallahan e Kauffman, 1994).
"Uma criança deficiente não
é respeitada se for abandonada à sua deficiência,
do mesmo modo que não é respeitada se se negar
a realidade da sua deficiência. É respeitada
se a sua identidade, a sua originalidade, da qual a deficiência
também faz parte, for favorecida e quase provocada,
isto é, se ela for levada a desenvolver-se. Tal é
a atitude realista ativa, em situação e em
relação. Se for ao contrário, temos
o realismo inerte" (Canevaro, 1984).
Vivemos um momento histórico caracterizado
por mudanças, turbulências e crises, mas também
pelo surgimento de oportunidades.
Esta situação pode ser constatada
na área da Deficiência, entre outras. Basta olhar à
nossa volta: há mais pessoas com deficiência nas ruas
e locais públicos; elas aparecem com mais freqüência
no noticiário, inclusive no esportivo: nas últimas
Paraolimpíadas, conquistaram muito mais medalhas (inclusive
de ouro e prata) que os nossos atletas brasileiros ditos "normais"...
Elas se destacam na música (podemos citar o reggae d' "A
Tribo de Jah", por exemplo), ganham as passarelas, como modelos
fotográficos, como Mara Gabrilli e Ranulfo, e também
escrevem livros, como Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens
Paiva. O Pirata, que ganhou este apelido por ter uma prótese
na perna, continua surfando e ensinando portadores de deficiência
a surfar; a Equiperneta, composta por jovens com diferentes tipos
de deficiência física, foi praticar esportes radicais
no Nepal, há uns dois anos, façanha que foi mostrada
na televisão.
Estes exemplos (e muitos outros mais) indicam que
há um processo social em curso, denominado "inclusão"
pelos estudiosos: de um lado, a sociedade começa a perceber
a existência de pessoas portadoras de deficiência e
a se organizar, para acolhê-las e, de outro, as próprias
pessoas com deficiência começam a se mostrar, a reivindicar
seus espaços, a exercer seu papel de cidadãs.
Como todo processo social, este também é
complexo e acontece de forma gradual. Afinal, para que a inclusão
aconteça é preciso modificar séculos de história,
de preconceitos muito arraigados, de ambos os lados - e isso não
acontece de um dia para o outro.
A inclusão ocorre nas escolas, nas lanchonetes,
nos shopping centers, no trabalho, nas igrejas - enfim, em todos
os espaços de interação humana. Nesta série
do Salto para o Futuro/TV Escola, vamos focalizar principalmente
o que está acontecendo nas escolas, com a Educação
Especial, que passa a se chamar Educação Inclusiva.
É nosso propósito apresentar material para reflexão
dos que estão envolvidos com o processo pedagógico.
Como pensar em incluir e, mais ainda, como exercer
a inclusão, se não conhecemos estas pessoas, se não
temos informações sobre elas - enfim, se elas ainda
não existem para nós? Estes e outros temas serão
debatidos nos cinco programas da série Espaços de
inclusão, que será apresentada no programa Salto para
o Futuro, da TV Escola, de 22 a 26 de abril de 2002.
Temas que serão abordados na série Espaços de Inclusão
PGM 1: O QUE É INCLUSÃO SOCIAL?
Este termo "inclusão social" tem sido bastante
veiculado e discutido, em substituição ao conceito
utilizado anteriormente, de "integração social", em
muitos países, não apenas no Brasil. Porém,
há várias acepções deste termo, que
introduz um novo paradigma em nossa sociedade e assinala outra etapa
no processo de conquista dos direitos por parte das PPD - Pessoas
Portadoras de Deficiência e de simpatizantes desta causa.
Neste programa, abordaremos este conceito, através de perguntas
"provocadoras" e mantendo, sempre que possível, o foco sobre
a situação nas escolas: O que significa inclusão?
Quem são, realmente, as pessoas portadoras de deficiência?
Por que elas estavam "invisíveis", até há pouco
tempo?
PGM 2: DEFICIÊNCIA MENTAL E INCLUSÃO SOCIAL
Este programa focaliza a realidade das pessoas
com deficiência mental, que representam de 40 a 50% do segmento
das PPD. Dada a grande ênfase que nossa cultura coloca sobre
o desempenho e as habilidades cognitivas, percebidas até
mesmo em ditados populares como "O homem que lê vale mais",
as pessoas com este tipo de deficiência recebem a carga mais
expressiva de atitudes e sentimentos discriminatórios e são
consideradas "eternas crianças". Este programa focalizará
sua atuação em diversos ambientes sociais: na escola,
no trabalho, em atividades de lazer e tendo direito à expressão
de sua sexualidade.
PGM 3: DEFICIÊNCIA VISUAL E INCLUSÃO SOCIAL
A incidência de deficiência visual
corresponde a aproximadamente 20 a 30% dos casos de deficiência.
Infelizmente, estes números têm apresentado tendência
a aumentar, em decorrência do aumento da violência,
nas cidades de médio e grande porte. Este programa mostrará
portadores de deficiência visual parcial ou total desempenhando
tarefas profissionais, aprendendo o alfabeto Braille e tendo acesso
a museus.
PGM 4: DEFICIÊNCIA FÍSICA E INCLUSÃO
SOCIAL
Embora as pessoas utilizem o termo "deficiência
física" de forma genérica, para designar todos os
tipos de deficiência, para os que atuam na área ele
indica pessoas com comprometimentos motores e/ou de locomoção,
em braços e/ou pernas. Este tipo de deficiência também
tem aumentado, em grande parte como conseqüência da violência
urbana e da prática de esportes radicais. Este programa mostrará
alternativas de adaptações arquitetônicas que
proporcionam autonomia, situações de inclusão
em salas de aula e no trabalho.
PGM 5: DEFICIÊNCIA AUDITIVA E INCLUSÃO
SOCIAL
A situação das pessoas com deficiência
auditiva é, freqüentemente, minimizada tanto por familiares
quanto por medidas do Poder Público, que traduzem esta percepção
na frase: "Ora, mas ele/a é apenas surdo/a", sem se dar conta
do que esta deficiência afeta a capacidade de compreensão
e de comunicação destas pessoas. Assim, os estudos
e as iniciativas voltadas para a compreensão e o atendimento
deste segmento das PPD são em menor número. Este programa
vai mostrar a pessoa surda em diversos ambientes de aprendizagem
e exercendo o lazer.
PGM 1: O que é inclusão social?
Marta Gil*
Começando a conversa: quem são as PPD - Pessoas Portadoras
de Deficiência?
Há muitas maneiras de conceituar quem pode
ser classificado como portador de deficiência; estes conceitos
mudaram, ao longo da História, assim como as palavras utilizadas
para exprimi-los. Termos como: retardado, doentinho, aleijado,
surdo-mudo, surdinho, mudinho, excepcional, mongolóide, débil
mental e outros não são mais aceitos, atualmente,
pois carregam muitos preconceitos. E todos nós sabemos o quanto
as palavras são poderosas...
Atualmente, os termos adequados são: Pessoa
Portadora de Deficiência, Pessoa com Deficiência ou Pessoa
com Necessidades Especiais. Estes termos sinalizam que, em primeiro
lugar, referimo-nos a uma PESSOA que, dentre outros atributos
e características, tem uma deficiência, mas ela não
É esta deficiência. O que importa, em primeiro lugar,
é a pessoa.
Estes termos também despertam controvérsias;
cada um deles tem defensores, com argumentos próprios. Acreditamos
que o fundamental é referir-se a estas pessoas ou conversar
com elas de forma natural e respeitosa.
Em termos gerais, podemos definir que "Pessoa
Portadora de Deficiência" é a que apresenta, em comparação
com a maioria das pessoas, significativas diferenças físicas,
sensoriais ou intelectuais, decorrentes de fatores inatos e/ou adquiridos,
de caráter permanente e que acarretam dificuldades em sua interação
com o meio físico e social.
No Brasil, o Decreto n. 3.298 de 20 de dezembro de
1999 considera pessoa portadora de deficiência a que se enquadra
em uma das seguintes categorias:
Deficiência Física: "Alteração
completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando
o comprometimento da função física, apresentando-se
sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia,
tetraparesia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, amputação
ou ausência de membro, paralisia cerebral, membros com deformidade
congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas
e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções";
Deficiência Auditiva: "Perda parcial
ou total das possibilidades auditivas sonoras, variando em graus e
níveis" que vão de 25 decibéis (surdez leve)
à anacusia (surdez profunda);
Deficiência Visual: "Acuidade visual
igual ou menor que 20/200 no melhor olho, após a melhor correção,
ou campo visual inferior a 20 (tabela de Snellen), ou ocorrência
simultânea de ambas as situações";
Deficiência Mental: "Funcionamento intelectual
geral significativamente abaixo da média, oriundo do período
de desenvolvimento, concomitante com limitações associadas
a duas ou mais áreas da conduta adaptativa ou da capacidade
do indivíduo em responder adequadamente às demandas
da sociedade";
Deficiência Múltipla: "É
a associação, no mesmo indivíduo, de duas ou
mais deficiências primárias (mental/visual/auditiva/física),
com comprometimentos que acarretam conseqüências no seu
desenvolvimento global e na sua capacidade adaptativa".
Uma das possibilidades de ocorrência de deficiência
múltipla é a surdocegueira, na qual a pessoa
tem uma perda substancial de visão e audição,
de tal forma que a combinação das duas causa muita dificuldade
no dia-a-dia, demandando o emprego de metodologias próprias
para comunicação e aprendizagem.
No outro extremo da escala das habilidades intelectuais
estão as pessoas que são consideradas superdotadas
ou com altas habilidades, que se caracterizam por um notável
desempenho e elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos,
isolados ou combinados:
- Alta capacidade intelectual geral;
- Aptidão acadêmica específica;
- Pensamento criativo ou produtivo;
- Capacidade de liderança;
- Talento especial para artes;
- Capacidade psicomotora.
Além destes quatro tipos de deficiência
anteriormente citados, há um outro grupo de comportamentos
e atitudes que se diferencia do padrão considerado normal e
que recebe o nome de condutas típicas. Estas podem ser
definidas como manifestações de comportamento típicas
de portadores de síndromes e quadros psicológicos, neurológicos
ou psiquiátricos, que ocasionam atrasos no desenvolvimento
e prejuízos no relacionamento social, em grau que requeira
atendimento educacional especializado.
Vale a pena mencionar, ainda que brevemente, o autismo,
que é uma síndrome definida por alterações
presentes, em geral, por volta do 3º ano de vida e que se caracteriza
pela presença de desvios nas relações interpessoais,
linguagem/comunicação, jogos e comportamentos.
Dentre os sinais mais característicos do autismo,
podemos citar:
- Tendência ao isolamento;
- Movimentos repetitivos, aparentemente sem função
e sem objetivo (esteriotipia);
- Dificuldade no relacionamento com outras pessoas (não
mantém diálogo, mantém o olhar distante, rejeita
contatos físicos);
- Faz uso de seu nome quando se refere a si próprio;
- Repete palavras ou frases constantemente (ecolalia);
- Ausência de noção de perigo;
- Permanência em situação de fantasia desvinculada
da realidade;
- Hiperatividade intensa e permanente;
- Necessidade de manter rotinas obsessivas de comportamento, apresentando
reação de pânico quando há alguma interferência.
A série Espaços de Inclusão
trata da problemática referente aos portadores de deficiências
física, mental, auditiva e visual.
Gradações
É fácil perceber que, qualquer que
seja o tipo de deficiência, ele apresenta gradações:
há pessoas com comprometimentos maiores, que exigem equipamentos
como cadeira de rodas, e há outras cujas limitações
são menores; algumas conseguem aprender a ler e escrever, mas
outras não. A Organização Mundial da Saúde
define estes graus usando as seguintes classificações:
Desvantagem (handicap): "No domínio
da saúde, a desvantagem representa um impedimento sofrido por
um dado indivíduo, resultante de uma deficiência ou de
uma incapacidade, que lhe limita ou lhe impede o desempenho de uma
atividade considerada normal para ele, levando em conta a idade, o
sexo e os fatores sócio-culturais" (OMS, 1980, p. 37).
A situação de desvantagem só
se determina em relação a outros, sendo por isso um
fenômeno social. Caracteriza-se por uma discordância entre
o nível de desempenho do indivíduo e as expectativas
que o seu grupo social tem em relação a ele. A situação
de desvantagem expressa, pois, o conjunto de atitudes e respostas
dos que não sofrem de desvantagens.
Deficiência: "No domínio da saúde,
deficiência representa qualquer perda ou anormalidade da estrutura
ou função psicológica, fisiológica ou
anatômica". Dizer que um indivíduo "tem uma deficiência"
não implica, portanto, que ele tenha uma doença nem
que tenha de ser encarado como "doente".
Incapacidade: No campo da saúde, indica
uma desvantagem individual, resultante da desvantagem ou da deficiência,
que limita ou impede o cumprimento ou desempenho de um papel social,
dependendo da idade, sexo e fatores sociais e culturais.
A incapacidade, estabelecendo a conexão entre
a deficiência e a desvantagem, representa um desvio da norma
relativamente ao comportamento ou atividade habitualmente esperados
do indivíduo. A incapacidade não é um desvio
do órgão ou do mecanismo, mas sim um "desvio" em termos
de atuação global do indivíduo e pode ser temporária
ou permanente, reversível ou irreversível, progressiva
ou regressiva.
Estes conceitos da OMS são seguidos por praticamente
todas as organizações internacionais que abordam a problemática
da Deficiência: UNESCO, International Rehabilitation, OIT, ONU
e outras.
Trazendo estes conceitos para o contexto da inclusão
dos alunos com deficiências, podemos perceber que os aspectos
que adquirem maior relevância neste cenário são
as desvantagens funcionais que eles apresentam. Nem sempre a comunidade
escolar está preparada para lidar com elas e não sabe
o que fazer. Isso cria um desconforto na interação social,
fazendo com que muitos evitem as crianças com deficiência
ou façam piadinhas de mau gosto.
Estas atitudes mostram a existência de preconceitos
e de estigma.
Deficiência: verdades e mitos
Verdades
- Deficiência não é doença;
- Algumas crianças portadoras de deficiências podem
necessitar de escolas especiais;
- As adaptações são recursos necessários
para facilitar a integração dos educandos com necessidades
especiais nas escolas;
- Síndromes de origem genética não são
contagiosas;
- Deficiente mental não é louco.
Mitos
- Todo surdo é mudo;
- Todo cego tem tendência à música;
- Deficiência é sempre fruto de herança familiar;
- Existem remédios milagrosos que curam as deficiências;
- As pessoas com necessidades especiais são eternas crianças;
- Todo deficiente mental é dependente.
O que fazer, se suspeitar da ocorrência de deficiência?
- Entre em contato com a família, para verificar se estes
comportamentos estão presentes também em casa e se já
foi tomada alguma providência;
- Recomende que a criança seja encaminhada a serviços
especializados, para fins de avaliação.
Por que temos preconceitos?
É normal ter preconceito.
O preconceito faz parte da natureza humana, desde
o início dos tempos. O homem desconfia e tem medo de tudo o
que é diferente dele mesmo. O "outro" inspira receio, temor,
insegurança; daí para adotar atitudes defensivas e de
ataque é um passo.
Esses sentimentos eram importantes no tempo das cavernas,
quando os homens eram poucos e lutavam bravamente para sobreviver
em um ambiente hostil. Infelizmente, persistem até hoje, nas
lutas entre católicos e protestantes, árabes e judeus,
muçulmanos e cristãos, brancos e negros... A lista dos
pontos de divergência é grande mas, no fundo, o ponto
essencial reside na diferença entre Eu e o Outro.
A rotina das relações sociais nos leva,
mais ou menos conscientemente, a "classificar" as pessoas de acordo
com uma escala de valores a priori, como resultante da nossa
educação e das nossas referências culturais (do
lugar que ocupamos na "escala social"). Os critérios dessa
"classificação" são variados: a qualidade da
expressão, o modo de olhar, a maneira de comer, a forma de
andar, a forma de vestir, o senso de humor etc.
Muitas vezes, a segregação começa
a partir da colocação de "rótulos" ou de "etiquetas"
nas pessoas com deficiência, do tipo "não vai aprender
a ler", "não pode fazer tal movimento" e outros. Estas "etiquetas"
têm conseqüências sobre a forma como estas pessoas
são aceitas pela sociedade e não permitem que a própria
pessoa se exprima e mostre do que é capaz. A ênfase recai
sobre a INcapacidade, sobre a Deficiência e não
sobre a Eficiência, a Capacidade, a Possibilidade.
"O normal e o estigmatizado não são
pessoas concretas e sim, perspectivas que são geradas em situações
sociais. Assim, nenhuma diferença é em si mesma vantajosa
ou desvantajosa, pois a mesma característica pode mudar sua
significação, dependendo dos olhares que se lançam
sobre elas" (Proposta Curricular de Santa Catarina - 1998).
Felizmente, esta postura começa a ser alterada
e os profissionais, principalmente na área da Educação,
estão voltando o diagnóstico e a atuação
para as possibilidades e os recursos que a pessoa portadora de deficiência
tem.
E, deste ponto de vista, a heterogeneidade,
característica presente em qualquer grupo humano, passa a ser
vista como fator imprescindível para as interações
na sala de aula.
A partir do reconhecimento e da aceitação
de nossos preconceitos e desconfianças, estamos aptos a mudar
nosso comportamento e a aceitar que o objeto destes sentimentos é
uma pessoa como nós, ou seja, começaremos a identificar
os pontos comuns entre nós e não mais a acentuar as
diferenças. Poderemos, então, identificar o que nos
une e constatar que nossa essência é a mesma: somos seres
humanos, cuja diversidade indica riqueza de situações
e possibilidade de intercâmbio de vivências e de aprendizagem.
Os diferentes ritmos, comportamentos, experiências,
trajetórias pessoais, contextos familiares, valores e níveis
de conhecimento de cada criança (e do professor) imprimem ao
cotidiano escolar a possibilidade de troca de repertórios,
de visão de mundo, bem como os confrontos e a ajuda mútua,
e a conseqüente ampliação das capacidades individuais.
Por que as pessoas portadoras de deficiência são "invisíveis"?
Às vezes, até parece que as pessoas
com deficiência não existem, são fantasmas...
Elas não são muito vistas nas ruas, ou na televisão,
ou na política... Como se explica isso?
Na verdade, desde que o mundo é mundo sempre
houve pessoas com deficiência. Mas, nem sempre estas pessoas
foram consideradas da mesma maneira.
No passado, a sociedade freqüentemente colocou
obstáculos à integração das pessoas deficientes.
Receios, medos, superstições, frustrações,
exclusões, separações estão, lamentavelmente,
presentes desde os tempos da antiga Grécia, em Esparta, onde
essas pessoas eram jogadas do alto de montanhas, ou em Atenas, onde
elas eram abandonadas nas florestas.
Adotando esta atitude de "longe dos olhos, longe
do pensamento", Platão chegou mesmo a ponto de afirmar, quando
dizia como deveria ser a sociedade ideal:
"As mulheres dos nossos militares são pertença
da comunidade, assim como os seus filhos, e nenhum pai conhecerá
o seu filho e nenhuma criança os seus pais. Funcionários
preparados tomarão conta dos filhos dos bons pais, colocando-os
em certas enfermarias de educação, mas os filhos dos
inferiores, ou dos melhores, quando surjam deficientes ou deformados,
serão postos fora, num lugar misterioso e desconhecido, onde
deverão permanecer."
Na Idade Média, eram freqüentes os apedrejamentos
ou a morte nas fogueiras da Inquisição das pessoas com
deficiência, pois eram consideradas como possuídas pelo
demônio.
No séc. XIX e princípios do séc.
XX a esterilização foi usada como método para
evitar a reprodução desses "seres imperfeitos". O nazismo
promoveu a aniquilação pura e simples das pessoas com
deficiência, porque não correspondiam à "pureza"
da raça ariana.
Paralelamente a estas atitudes extremas de aniquilamento,
outras atitudes eram adotadas, como o isolamento destas pessoas em
grandes asilos (como na Inglaterra), além de comportamentos
marcados por rejeição, vergonha e medo.
Foi apenas a partir da Revolução Francesa
e das suas bandeiras de liberdade, igualdade e fraternidade que estas
pessoas passaram a ser objeto de assistência (mas ainda não
de educação) e entregues aos cuidados de organizações
caritativas e religiosas.
Após a 2a
Guerra Mundial, os direitos humanos começaram a ser valorizados;
surgem os conceitos de igualdade de oportunidades, direito à
diferença, justiça social e solidariedade nas novas
concepções jurídico-políticas, filosóficas
e sociais de organizações como a ONU - Organização
das Nações Unidas, a UNESCO, a OMS - Organização
Mundial de Saúde, a OIT - Organização Internacional
do Trabalho e outras. As pessoas com deficiência passaram a
ser consideradas como possuidoras dos mesmos direitos e deveres dos
outros cidadãos e, entre eles, o direito à participação
na vida social e à sua conseqüente integração
escolar e profissional.
Segundo a UNESCO (1977, p. 5-6), pode-se dividir
a história da humanidade em cinco fases, de acordo com o modo
como os deficientes foram tratados e considerados:
1. Fase filantrópica - em que
as pessoas com deficiência são consideradas doentes
e portadoras de incapacidades permanentes inerentes à sua
natureza. Portanto, precisavam ficar isoladas para tratamento e
cuidados de saúde;
2. Fase da "assistência pública"
- em que o mesmo estatuto de "doentes" e "inválidos"
implica a institucionalização da ajuda e da assistência
social;
3. Fase dos direitos fundamentais, iguais
para todas as pessoas, quaisquer que sejam as suas limitações
ou incapacidades. É a época dos direitos e liberdades
individuais e universais de que ninguém pode ser privado,
como é o caso do direito à educação;
4. Fase da igualdade de oportunidades - época
em que o desenvolvimento econômico e cultural acarreta a massificação
da escola e, ao mesmo tempo, faz surgir o grande contingente de
crianças e jovens que, não tendo um rendimento escolar
adequado aos objetivos da instituição escolar, passam
a engrossar o grupo das crianças e jovens deficientes mentais
ou com dificuldades de aprendizagem;
5. Fase do direito à integração
- se na fase anterior se "promovia" o aumento das "deficiências",
uma vez que a ignorância das diferenças, o não
respeito pelas diferenças individuais mascarado como defesa
dos direitos de "igualdade" agravava essas diferenças, agora
é o conceito de "norma" ou de "normalidade" que passa a ser
posto em questão.
Mas, como diz ainda a UNESCO, estas fases só
aparentemente se sucedem de forma cronológica. Na verdade,
o que acontece é que estas diferentes atitudes e concepções
face às pessoas com deficiência se sobrepõem,
mesmo nos nossos dias.
Atitudes que contribuem para a integração da pessoa
com necessidades especiais
- Acesso ao conhecimento e à informação;
- Convivência, que estimula o relacionamento;
- rompimento de padrões de comportamentos estabelecidos.
Estratégias para facilitar mudança de atitudes
- Filmes mostrando como pessoas com necessidades especiais podem
viver integradas em sua comunidade;
- Palestras com pessoas com necessidades especiais relatando suas
experiências;
- Palestras com profissionais acerca da problemática das
deficiências;
- Livros e folhetos informativos sobre a deficiência.
Quando você encontrar uma pessoa com deficiência
Segundo o CEDIPOD - Centro de Documentação
e Informação do Portador de Deficiência e a CORDE-
Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora
de Deficiência, aqui vão algumas dicas de comportamento.
Muitas pessoas não deficientes ficam confusas
quando encontram uma pessoa com deficiência. Isso é natural.
Todos nós podemos nos sentir desconfortáveis diante
do "diferente".
Esse desconforto diminui e até desaparece
quando há convivência entre pessoas deficientes e não
deficientes.
Não faça de conta que a deficiência
não existe. Se você se relacionar com uma pessoa deficiente
como se ela não tivesse uma deficiência, você vai
estar ignorando uma característica muito importante dela. Dessa
forma, você não estará se relacionando com ela,
mas com outra pessoa, uma que você inventou, que não
é real.
Aceite a deficiência. Ela existe e você
precisa levá-la na sua devida consideração.
Não subestime as possibilidades, nem superestime
as dificuldades e vice-versa.
As pessoas com deficiência têm o direito,
podem e querem tomar suas próprias decisões e assumir
a responsabilidade por suas escolhas.
Ter uma deficiência não faz com que
uma pessoa seja melhor ou pior do que uma pessoa não deficiente.
Provavelmente, por causa da deficiência, essa
pessoa pode ter dificuldade para realizar algumas atividades e, por
outro lado, poderá ter extrema habilidade para fazer outras
coisas. Exatamente como todo mundo.
A maioria das pessoas com deficiência não
se importa de responder perguntas, principalmente aquelas feitas por
crianças, a respeito da sua deficiência e como ela transforma
a realização de algumas tarefas. Mas, se você
não tem muita intimidade com a pessoa, evite fazer perguntas
íntimas.
Quando quiser alguma informação de
uma pessoa deficiente, dirija-se diretamente a ela e não a
seus acompanhantes ou intérpretes.
Sempre que quiser ajudar, ofereça ajuda. Espere
sua oferta ser aceita, antes de ajudar. Pergunte a forma mais adequada
para fazê-lo.
Mas não se ofenda se seu oferecimento for
recusado, pois nem sempre as pessoas com deficiência precisam
de auxílio. Às vezes, uma determinada atividade pode
ser mais bem desenvolvida sem assistência.
Se você não se sentir confortável
ou seguro para fazer alguma coisa solicitada por uma pessoa deficiente,
sinta-se livre para recusar. Neste caso, seria conveniente procurar
outra pessoa que possa ajudar.
As pessoas com deficiência são pessoas
como você. Têm os mesmos direitos, os mesmos sentimentos,
os mesmos receios, os mesmos sonhos.
Você não deve ter receio de fazer ou
dizer alguma coisa errada. Aja com naturalidade e tudo vai dar certo.
Se ocorrer alguma situação embaraçosa,
uma boa dose de delicadeza, sinceridade e bom-humor nunca falha.
Como a PPD tem sido vista pela Educação
Em termos educativos, o conceito de Deficiência
tem evoluído ao longo dos tempos, acompanhando as concepções
de desenvolvimento e de aprendizagem.
Durante a primeira metade do séc. XX, os conceitos
de "deficiência" / "diminuição" / handicap /inadaptação
incluíam as características de inatismo e de determinismo,
implicando a concepção de que "uma vez deficiente, deficiente
para sempre".
Esta compreensão impulsionou muitos estudos,
que tinham por objetivo organizar em diferentes categorias todos os
possíveis distúrbios que pudessem ser detectados.
Esta fase de categorização e etiquetagem,
que via a "deficiência" ou o "distúrbio" como uma característica
inerente à criança, trouxe consigo duas conseqüências
fundamentais:
- A necessidade de uma "detecção precisa" da deficiência,
com o conseqüente desenvolvimento dos Testes de Inteligência
e outras técnicas de diagnóstico quantitativo;
- A generalização da idéia de que, sendo
as "deficiências" irrecuperáveis, as crianças
por elas afetadas deveriam ser "colocadas" num sistema educacional
à parte (escolas especiais).
De acordo com esta compreensão da Deficiência,
os efeitos das deficiências físicas e sensoriais eram
deterministicamente atribuídos ao próprio indivíduo
e as dificuldades sentidas por este tipo de alunos na escola eram
concebidas em termos de deficiência mental; crianças
ou jovens com marcadas dificuldades físicas, sensoriais, mentais,
comportamentais ou de comunicação eram considerados
como qualitativamente diferentes dos outros alunos, com características
consideradas inalteráveis e permanentes e, como tal, fazia
sentido a existência de um sistema educacional separado do ensino
regular.
Nos anos 40 e 50 surgem profundas e importantes alterações
com o fortalecimento das correntes "ambientalistas" e "comportamentalistas".
Questionando amplamente a "constitucionalidade" e a "incurabilidade"
dos distúrbios, os partidários destas teorias afirmavam
que a "deficiência" podia ser "provocada" pela "ausência
de estimulação adequada ou por processos de aprendizagem
incorretos".
Ao assim pensar, os adeptos destas correntes não
só acabaram por incluir os conceitos de "adaptação
social" e de aprendizagem na definição de "atraso mental",
por exemplo, como permitiram consideráveis avanços na
compreensão de que "todas as crianças são educáveis"
e deram um profundo golpe nas concepções da "incurabilidade"
das deficiências.
Entretanto, a partir dos anos 60 e principalmente
da década de 70, em decorrência da contribuição
de muitas disciplinas e ramos da ciência, uma grande "revolução"
se deu no conceito de "deficiência" aplicado às crianças
e jovens em idade escolar. Tal alteração tem por base
uma mudança de perspectiva, colocando no centro do problema
não a deficiência do indivíduo, mas as suas necessidades
particulares, para procurar o meio ambiente no qual se poderá
desenvolver melhor.
Assim, durante a década de 70, por todo o
mundo ocidental, um amplo movimento de alargamento da escolaridade
obrigatória a todas as crianças faz com que os diferentes
países prestassem uma atenção particular à
organização dos seus serviços de educação
especial, chamando a si a responsabilidade de garantirem também
às crianças com deficiências um processo educativo
adaptado às suas necessidades individuais.
Marco relevante nesta nova abordagem da deficiência,
tendente a modificar não só o sistema das classificações,
mas também, e sobretudo, a prática da "integração"
foi o "Warnock Report", um relatório britânico publicado
em 1978 e realizado por uma comissão dirigida por Mary Warnock,
encarregada de elaborar propostas para a melhoria da educação
de jovens com deficiências. É o "Warnock Report" que
introduz, pela primeira vez, o conceito de "aluno com necessidades
educativas especiais".
Este conceito é bastante amplo e enfatiza
aspectos instrumentais e funcionais, ou seja: o que fazer para receber
e tratar este aluno no ambiente escolar comum, da melhor forma possível?
De acordo com este conceito e efeitos da sua educação,
as crianças e jovens com dificuldades especiais, ou com necessidades
educativas especiais (NEE), são aquelas que requerem educação
especial e serviços específicos de apoio para a realização
total do seu potencial humano. Eles podem ser muito diferentes dos
outros por terem atraso mental, dificuldades de aprendizagem, desordens
emocionais ou comportamentais, incapacidades físicas, problemas
de comunicação, autismo, lesões cerebrais, deficiência
auditiva, deficiência visual, ou mesmo dotes e talentos especiais,
no caso dos superdotados. São exatamente estas diferenças
que devem ser levadas em conta, para que eles possam freqüentar
a escola comum.
Segundo alguns estudiosos, entre os quais Hallahn
e Kauffman, esta definição de crianças e jovens
com necessidades especiais mostra algo muito importante, que merece
destaque:
Estas pessoas apresentam uma extraordinária
diversidade de características, o que impede
a generalização de medidas para tratá-los como
se fossem um grupo homogêneo.
A partir de meados da década de 70 e claramente
assumida nos anos 80, surge uma filosofia de "integração"
educativa como opção principal da grande maioria dos
países, defendendo-se que o ensino das crianças e jovens
com dificuldades especiais deve ser feito, pelo menos tanto quanto
possível, no âmbito da escola regular.
Por que incluir crianças com deficiência na escola regular?
Em muitos países do mundo ocidental, os professores
vêm fazendo esta pergunta, às vezes em voz alta, às
vezes consigo mesmos, em diversas ocasiões.
Para muitos, a integração escolar de
alunos com deficiência é uma provocação
ao profissionalismo do professor. A lógica da inclusão
(veja-se a Declaração de Salamanca) constitui a essência
do ideal democrático.
Os benefícios da inclusão de
alunos com necessidades educativas especiais na escola regular são
evidentes (apesar das dificuldades) e TODOS os autores desta integração
"lucram" com ela.
Vários estudos comparativos realizados principalmente
nos EUA e nos países escandinavos, onde este movimento existe
há mais tempo, revelam a seguinte situação:
Benefícios para os alunos com deficiências
- Eles encontram modelos positivos nos colegas;
- Contam com assistência por parte dos colegas;
- A criança cresce e aprende a viver em ambientes integrados;
Benefícios para os alunos que não são deficientes
- A melhor forma de aprenderem a lidar com as diferenças
individuais;
- Oportunidade para praticar e partilhar as aprendizagens;
- Diminuição da ansiedade face aos fracassos ou
insucessos.
Benefícios para todos os alunos
- Compreensão e aceitação dos outros;
- Reconhecimento das necessidades e competências dos colegas;
- Respeito por todas as pessoas;
- Construção de uma sociedade solidária;
- Desenvolvimento de apoio e assistência mútua;
- Desenvolvimento de projetos de amizade;
- Preparação para uma comunidade de suporte e apoio.
A caminho da inclusão
Segundo Steinemann: "Integração significa
o (re)-estabelecer de formas comuns de vida, de aprendizagem e de
trabalho entre pessoas deficientes e não-deficientes. Integração
significa ser participante, ser considerado, "fazer parte de", ser
levado a sério e ser encorajado. A integração
requer a promoção das qualidades próprias de
um indivíduo, sem estigmatização e sem segregação.
Realizar pedagogicamente a integração significa, seja
no jardim de infância, na escola ou no trabalho, que todas as
crianças e adultos (deficientes ou não) brinquem/aprendam/trabalhem
de acordo com o seu nível próprio de desenvolvimento
em cooperação com os outros" (Steinemann, 1994).
As palavras "integrado" e "integração"
derivam do latim "integrare" que vem do adjetivo "integer",
que originalmente significa intacto, não tocado, sem mácula,
são, virgem, inteiro, completo.
Portanto, a palavra "integração", neste
sentido, deve ser interpretada como alguma coisa de original e natural,
sendo a "segregação" (o estado de não-integração)
algo anormal, construído, artificial.
Mas o mais interessante da história da palavra
integração é que o termo latino "integer"
(intacto) parece ter derivado em duas direções nas línguas
modernas. Enquanto que em uma delas está muito próximo
do seu sentido original (aparecendo em termos como "integridade",
"íntegro", "integral"), a outra direção vai mais
no sentido de "compor", "fazer um conjunto", "juntar as partes separadas
no sentido de reconstruir uma totalidade".
Quando se aborda o tema da educação
de crianças e jovens com dificuldades especiais, nomeadamente
devidas às suas deficiências físicas, mentais
ou sensoriais, parece ser mais no segundo sentido acima indicado que
se utiliza o termo "integração", querendo significar
a colocação de pessoas com deficiência juntamente
com pessoas não-deficientes no mesmo lugar.
Neste contexto, a integração escolar
pode ser vista como um "fim" em si, como uma forma de "associação"
entre o grupo de alunos "especiais" e a escola regular ou então
como um "processo" de "estruturação organizacional",
de modificação da própria escola regular no sentido
de atender a todas as diferenças.
Segundo Romeu K. Sassaki:
"(...) a integração social, afinal de contas, tem consistido
no esforço de inserir na sociedade pessoas com deficiência
que alcançaram um nível de competência compatível
com os padrões sociais vigentes. A integração
tinha e tem o mérito de inserir o portador de deficiência
na sociedade, sim, mas desde que ele esteja de alguma forma capacitado
a superar as barreiras físicas, programáticas e atitudinais
nela existentes. Sob a ótica dos dias de hoje, a integração
constitui um esforço unilateral tão somente da pessoa
com deficiência e seus aliados (a família, a instituição
especializada e algumas pessoas da comunidade que abracem a causa
da inserção social), sendo que estes tentam torná-la
mais aceitável no seio da sociedade."1
Continuando, Sassaki mostra que a prática
da integração social vem ocorrendo, desde a década
de 80, de 3 formas:
1. Pela inserção pura e
simples daquelas pessoas com deficiência que conseguiram ou
conseguem, por méritos pessoais e profissionais próprios,
utilizar os espaços físicos e sociais, bem como seus
programas e serviços, sem nenhuma modificação
por parte da sociedade, ou seja, da escola comum, da empresa comum,
do clube comum, etc.;
2. Pela inserção daqueles
portadores de deficiência que necessitavam ou necessitam de
alguma adaptação específica no espaço
físico comum ou no procedimento da atividade comum, a fim
de poderem, só então, estudar, trabalhar, ter lazer,
enfim, conviver com pessoas não-deficientes;
3. Pela inserção de pessoas
com deficiência em ambientes separados dentro dos sistemas
gerais. Por exemplo: escola especial junto à comunidade;
classe especial numa escola comum; setor separado dentro de uma
empresa comum; horário exclusivo para pessoas deficientes
num clube comum, etc. Esta forma de integração, mesmo
com todos os méritos, não deixa de ser segregativa.
Embora estas formas representem um avanço
em relação às atitudes do passado, de segregação,
ainda não respondem plenamente aos anseios e direitos das PPD,
pois elas pouco exigem da sociedade em termos de modificação
de comportamentos, leis, adaptações arquitetônicas
e outras. O esforço da integração fica quase
que exclusivamente sobre os ombros das PPD.
O ano de 1981 foi designado, pela ONU - Organização
das Nações Unidas, de Ano Internacional das Pessoas
Portadoras de Deficiência e assinalou um marco fundamental na
luta pelos direitos das PPD no mundo todo. Na esteira do conceito
de integração vieram outros, como os de autonomia, independência,
empowerment e equiparação de oportunidades, que
podem ser considerados passos em direção ao conceito
atualmente vigente, de inclusão social.
Vamos recorrer novamente
à autoridade de Romeu Sassaki 2
para definir, brevemente, estas palavras.
Autonomia é a condição
de domínio no ambiente físico e social, preservando
ao máximo a privacidade e a dignidade da pessoa que a exerce.
Ter maior ou menor autonomia significa que a pessoa com deficiência
tem maior ou menor controle nos ambientes que ela freqüenta;
rampas facilitam a autonomia no espaço físico, por exemplo.
Independência é a faculdade de
decidir sem depender de outras pessoas, como familiares ou profissionais
especializados. Uma pessoa com deficiência pode ser mais ou
menos independente em decorrência da quantidade e da qualidade
de informações a que tiver acesso, mas também
de sua autodeterminação e/ou prontidão para tomar
decisões em uma determinada situação.
Empowerment significa o processo pelo qual
uma pessoa ou um grupo de pessoas usa o seu poder pessoal, inerente
à sua condição, para fazer escolhas e tomar decisões,
assumindo assim o controle de sua(s) vida(s). Neste sentido, independência
e empowerment são conceitos interdependentes. Não se
outorga este poder às pessoas; o poder pessoal está
em cada ser humano desde o seu nascimento.
O termo equiparação de oportunidades
é definido pela Disabled Peoples' International (1981) como
"o processo mediante o qual os sistemas gerais da sociedade, tais
como o meio físico, a habitação e o transporte,
os serviços sociais e de saúde, as oportunidades de
educação e trabalho, e a vida cultural e social, incluídas
as instalações esportivas e de recreação,
são feitos acessíveis para todos. Isto inclui a remoção
das barreiras que impedem a plena participação das pessoas
deficientes em todas estas áreas, permitindo-lhes assim alcançar
uma qualidade de vida igual à de outras pessoas".
Nesta definição está implícito
o princípio da igualdade de direitos: "O princípio
de direitos iguais implica que as necessidades de cada um e de todos
são de igual importância e que essas necessidades devem
ser utilizadas como base para o planejamento das comunidades e que
todos os recursos precisam ser empregados de tal modo que garantam
que cada pessoa tenha oportunidade igual de participação."
A igualdade de oportunidades em educação
é na verdade essencial dada a importância da educação
na transmissão de atitudes, conhecimentos e competências
que a sociedade como um todo encara como importantes para todas as
crianças e jovens.
Como bem enfatiza Sassaki: "É fundamental
equipararmos as oportunidades para que todas as pessoas, incluindo
portadoras de deficiência, possam ter acesso a todos os serviços,
bens, ambientes construídos e ambientes naturais, em busca
da realização de seus sonhos e objetivos."
Na seqüência destes movimentos e conquistas
é elaborado o conceito de inclusão social, processo
que funciona em mão dupla: a sociedade e os segmentos até
então excluídos (inclusive o das PPD) buscam equacionar
soluções e alternativas, para garantir a equiparação
de oportunidades e de direitos. Os valores que norteiam este processo
são:
- A aceitação e a valorização da diversidade;
- O exercício da cooperação entre diferentes;
- A aprendizagem da multiplicidade.
De acordo com estudiosos deste processo social, o
momento atual caracteriza-se pela transição da
fase da integração para a da inclusão, que pressupõe
um novo paradigma, um novo modelo de sociedade.
Momentos de transição, como este, despertam
debates e dúvidas; surgem várias opções
e alternativas, cada uma com seus defensores. É difícil
adotar novos conceitos e modificar padrões de comportamento
já consolidados. Além disso, estamos tratando de seres
humanos, que merecem ser tratados com respeito e delicadeza.
No campo da Educação, vemos surgir
diversas posições: a mais radical, que defende que todos
os alunos devem ser educados apenas na escola regular (Escola para
Todos) até a idéia de que a diversidade de características,
verificada no grupo de alunos com necessidades educativas especiais,
implica a existência e manutenção de um contínuo
de serviços e uma diversidade de opções. Essas
opções podem ir da inclusão na classe regular
até a colocação em instituições
residenciais especializadas, passando pelas salas de apoio e classes
especiais na escola regular ou pelo recurso a escolas especiais.
Se se trata de uma questão de direitos cívicos,
um dos principais direitos de qualquer minoria é o seu direito
de escolha e, conforme prevê a legislação, os
pais ou tutores destes alunos têm liberdade de escolher o que
acham melhor para os seus educandos. Nesse sentido, é importante
que haja diferentes alternativas, para que possam escolher a que melhor
se ajusta ao seu caso.
Desta forma, os educadores e profissionais da educação
devem preservar a oferta de diferentes tipos de serviços de
forma que, sempre que possível, seja garantida a possibilidade
de escolha. Alguns autores propõem um contínuo de serviços
organizados em cascata e numa ordem progressiva de pequenos "saltos"
no sentido da maior proximidade entre os alunos com dificuldades especiais
na escola e os seus colegas não deficientes.
Não se trata simplesmente de transferir
os alunos da escola especial para a escola regular, mas sim de remodelar
e modificar a escola regular para que esta possa atender a uma mais
ampla variedade de alunos.
Não podemos nos esquecer de que as interações
sociais não acontecem automaticamente; num grupo social, as
pessoas tendem a escolher os parceiros com interesses e valores semelhantes,
evitando as diferenças. O fato de estarem na mesma sala não
faz com que as crianças imediatamente comecem a interagir com
colegas que têm alguma diferença.
Além das mudanças arquitetônicas,
que são necessárias em quase todos os edifícios
escolares para acolher a criança com deficiência, a escola
regular tem normalmente uma estrutura curricular, a organização
dos horários, os padrões de socialização
e todo um conjunto de normas e regulamentos verdadeiramente segregadores
dos alunos com deficiências, estando mais voltada para o acumular
de conhecimentos e para a criação de elites qualificadas.
Portanto, entre as alternativas possíveis
e os níveis de integração desejados interpõe-se
a necessidade de desenvolver um conjunto de métodos e estratégias
educativas (em nível curricular) de importância fundamental
para o sucesso da integração dos alunos com deficiências
na escola.
Alguns tipos de alunos (com deficiências sensoriais
ou graves problemas de comunicação, por exemplo) requerem
o uso de equipamentos ou materiais específicos e não
utilizados pela generalidade dos alunos da escola. Assim sendo, a
escola deve se adaptar e modificar, no sentido de atender às
necessidades de uma grande variedade e diversidade de alunos.
Para que uma criança "especial" possa ser
"incluída" numa situação em que todos a sintam
"mais normal" e em que a sua auto-estima seja aumentada, em que se
desenvolvam relações interpessoais e interações
com seus colegas (com ou sem dificuldades especiais) é necessário
desenvolver estratégias adequadas e devidamente planejadas,
como a pesquisa desenvolvida por McNamara e Moreton, em 1993 evidencia.
Os seguintes aspectos devem ser levados em conta:
- A planificação e o desenvolvimento de arranjos no
ambiente físico e no ambiente social;
- A escolha dos materiais e equipamentos da sala de aula;
- A disposição e a adequação do espaço
disponível para os alunos ("densidade social" e "densidade
espacial");
- A revisão do papel do professor como iniciador das interações
sociais ou como mero gestor dessas interações;
- A maior ou menor estruturação das atividades propostas
na sala de aula.
Concluindo...
Resumindo o caminho percorrido até aqui, podemos
dizer que uma das principais lições que podemos tirar
é que não há um formato padronizado para a integração
de alunos diferentes/deficientes na escola regular. Cada um dos aspectos
da integração - definição, motivos, objetivos,
níveis, dificuldades, vantagens e desvantagens etc. - apresenta
uma enorme diversidade e, como diz o documento publicado pela Comissão
Européia, em 1996:
"Deve reconhecer-se que a integração
dos alunos com necessidades educativas especiais implica muito mais
do que colocar simplesmente o aluno numa escola regular. Trata-se
de um processo em que o aluno tem oportunidades para se desenvolver
e progredir em termos educativos para uma autonomia econômica
e social. A integração é igualmente um processo
em que as próprias escolas necessitam de mudar e de se desenvolver
com o objetivo de proporcionar um ensino de elevado nível a
todos os alunos e o máximo de acesso aos que têm necessidades
educativas especiais"
Segundo a Declaração de Salamanca:
"As escolas devem ajustar-se a todas as crianças,
independentemente das suas condições físicas,
sociais, lingüísticas ou outras. Neste conceito devem
incluir-se crianças com deficiência ou superdotadas,
crianças da rua ou crianças que trabalham, crianças
de populações imigradas ou nômades, crianças
de minorias lingüísticas, étnicas ou culturais
e crianças de áreas ou grupos desfavorecidos ou marginais."
Declaração de Salamanca: UNESCO,
1994.
Assim, principalmente na área pedagógica,
não parece correto ter-se como ponto de referência
as deficiências ou incapacidades (atitude infelizmente ainda
freqüente nas nossas escolas) mas sim compreender que o que
é importante é o ser humano. Tal como a ergonomia
já faz no domínio do trabalho - com a adaptação
do posto de trabalho à pessoa, às suas habilidades
e características individuais - no campo da pedagogia teremos
de evitar que a deficiência se coloque entre o professor e
o aluno, impedindo-nos de ver a pessoa que está por detrás
dessa deficiência.
Talvez seja este o momento de se passar da idéia
de que "todos devem ter as mesmas oportunidades" para a noção
de que "todos deveriam ter oportunidades diferentes" para desenvolver
as suas potencialidades e satisfazer as suas necessidades, dadas as
nossas diferenças individuais. Fica aí o pensamento
para reflexão...
Ao iniciarmos um novo século e um novo milênio,
está na hora de abandonarmos etiquetas e rótulos e de
olharmos além deles.
Os professores e o processo de inclusão
Estudos indicam que a atitude do professor é
um dos fatores que mais contribui para o sucesso de qualquer medida
de integração da criança com deficiência.
De fato, como o comprovam as práticas do dia-a-dia nas nossas
escolas, não basta determinar legalmente a integração
para que ela aconteça.
A integração é, em última
instância, um processo de fornecer aos alunos com deficiência
uma educação com o máximo de qualidade e de eficácia,
no sentido da satisfação das suas necessidades individuais.
Ora, este objetivo depende fundamentalmente do papel do professor,
nomeadamente de variáveis como a sua vontade em levar a cabo
as tarefas de ensino destes alunos e a sua formação
ou preparação pedagógica para o fazer.
Estratégias para a integração/inclusão
Gostaríamos de sugerir estratégias
que estão sendo utilizadas para a integração
de crianças e jovens com deficiência na escola regular,
em outros países. Algumas ainda estão em fase de experimentação.
Esperamos que possam trazer idéias aplicáveis em suas
escolas.
Equipe de pré-classificação
Trata-se de equipes compostas por uma variedade de
profissionais, especialmente professores de ensino regular e professores
de ensino especial, que trabalham em conjunto com o professor da classe
no sentido de elaborar, recomendar e desenvolver estratégias
para ensinar as crianças ou jovens com deficiência dessa
classe.
O principal objetivo destas equipes é o de
influenciar o professor da classe regular, para que ele assuma a responsabilidade
pela educação de todos os seus alunos, tentando todas
as estratégias de ensino necessárias e possíveis,
antes de enviar qualquer aluno para um programa de ensino especial.
Apoio consultivo
Trata-se de um professor especializado ou com experiência
no ensino especial que colabora com o professor da classe regular,
no sentido de descobrir e implementar estratégias de ensino
eficazes para os casos de alunos com deficiência.
Neste modelo, as relações entre o professor
do ensino especial e o professor da classe regular baseiam-se nos
princípios da mutualidade - ou seja, da partilha de responsabilidades
entre os dois profissionais pela escolha e implementação
das estratégias adotadas - e da reciprocidade - o que significa
que qualquer um dos dois profissionais tem idêntica autoridade,
igualdade no acesso à informação e as mesmas
oportunidades para participarem na identificação, discussão,
tomada de decisão e implementação das medidas
adotadas.
Ensino cooperativo
Trata-se de uma estratégia em que o professor
da classe regular e o professor do ensino especial trabalham em conjunto,
dentro da sala de aula regular composta por alunos com deficiência
e por alunos ditos normais. Neste modelo existem, pelo menos, três
formas diferentes de organização:
1. Atividades complementares - enquanto
o professor do ensino regular assume, por exemplo, as atividades
da área acadêmica (conteúdos acadêmicos),
o professor do ensino especial ensina alguns alunos a identificar
as idéias principais de um texto, a fazer resumos - enfim,
a dominar técnicas de estudo;
2. Atividades de apoio à aprendizagem
- os dois professores ensinam os conteúdos acadêmicos,
mas enquanto o professor do ensino regular é responsável
pelo núcleo central do conteúdo, pela matéria
essencial, o professor do ensino especial encarrega-se de dar apoio
suplementar a qualquer aluno que dele necessite, individualmente
ou em pequenos grupos;
3. Ensino em equipe - o professor da
classe regular e o professor do ensino especial planificam e ensinam
em conjunto todos os conteúdos a todos os alunos, responsabilizando-se
cada um deles por uma determinada parte do currículo ou por
diferentes aspectos das matérias de ensino.
O sucesso do "ensino cooperativo" depende de dois
fatores fundamentais:
- Necessidade de bastante tempo nos horários dos professores
para fazerem o planejamento em conjunto;
- Compatibilidade entre os estilos de trabalho e personalidades
dos dois professores.
Aprendizagem Cooperativa
Trata-se de uma estratégia em que o professor
da classe regular coloca os alunos em grupos de trabalho, organizando-os
na base da heterogeneidade das suas habilidades (por exemplo, juntando
alunos com dificuldades especiais numa determinada área com
alunos mais habilidosos no assunto em estudo).
De acordo com os dados de investigação
conhecidos, as estratégias de aprendizagem cooperativa levam
a uma melhoria significativa das atitudes por parte dos alunos não-deficientes
face aos seus colegas com dificuldades especiais ou mesmo com deficiências
graves, ao mesmo tempo em que permite a estes um aumento significativo
da sua auto-estima e das suas atitudes em face de si mesmos.
Ensino por colegas
Trata-se de um método baseado na noção
de que os alunos podem efetivamente ensinar os seus colegas. Neste
método, o papel de aluno ou de professor pode ser atribuído
a qualquer aluno, com deficiência ou não, e alternadamente,
conforme as matérias em estudo ou as atividades a desenvolver.
No entanto, quando um aluno com deficiência assume o papel de
mestre (professor), o aprendiz (aluno) é geralmente um aluno
mais novo e menos desenvolvido, ainda que sem dificuldades especiais
em relação ao seu nível de desenvolvimento.
Participação parcial
Trata-se de uma estratégia em que os alunos
com dificuldades especiais, quando freqüentam uma sala de aula
regular, se envolvem em algumas atividades com os seus colegas sem
deficiência, embora numa reduzida dimensão. Neste tipo
de estratégia, o professor faz algumas adaptações
nas atividades a desenvolver, no sentido de facilitar o mais possível
a participação dos alunos com mais dificuldades, alterando
as regras do "jogo", modificando a forma de apresentação
ou de organização da tarefa a fazer ou, mesmo, dando
alguma ajuda individual aos alunos com dificuldades nas partes mais
difíceis da atividade em causa.
Materiais curriculares específicos para a mudança de
atitudes
Trata-se de uma estratégia em que o professor
organiza alguns materiais (como, por exemplo, marionetes) ou desenvolve
atividades de simulação em que os alunos ditos normais
representam o papel de alunos com deficiência, para levar os
alunos sem deficiência a modificar as suas atitudes face aos
seus colegas com dificuldades especiais.
NOTAS:
* Socióloga. Gerente da Rede SACI - Solidariedade,
Apoio, Comunicação e Informação (www.saci.org.br).
Consultora desta série.
- Sassaki, Romeu. K. Inclusão - construindo uma sociedade
para todos. Rio de Janeiro: WVA, 1997, p. 34.
- Sassaki, op. cit.. pág. 36 a 41..
PGM 2: Deficiência mental e inclusão social
Marta Gil*
"Uma criança com necessidades educacionais
especiais, antes de ser alguém impedido por uma deficiência,
é alguém capaz de aprender."
(Prof. Dr.
Hugo Otto Beyer
Universidade Federal doRio Grande do Sul)
Apresentando a deficiência mental
Segundo as estimativas da Organização
Mundial de Saúde, válidas para países do Terceiro
Mundo, em tempos de paz, as pessoas com deficiência mental correspondem
a, aproximadamente, 50% do total das PPD - Pessoas Portadoras de Deficiência.
A definição de deficiência mental
que é mais aceita, atualmente, é a da American Association
of Mental Retardation, datada de 1992:
Deficiência mental é um funcionamento
intelectual significativamente abaixo da média, coexistindo
com limitações relativas a duas ou mais das seguintes
áreas de habilidades adaptativas: comunicação,
autocuidado, habilidades sociais, participação familiar
e comunitária, autonomia, saúde e segurança,
funcionalidade acadêmica, de lazer e de trabalho. Manifesta-se
antes dos 18 anos de idade.
Lendo com atenção esta definição,
podemos concluir que deficiência mental é uma
condição diferente da doença mental, embora
esta confusão seja feita freqüentemente pelas pessoas.
A doença mental caracteriza-se por distúrbios de ordem
emocional, psicoses e outros.
Ao longo dos séculos, a pessoa com deficiência
mental era, muitas vezes, discriminada e segregada, pois era considerada
como "detentora de poderes sobrenaturais", "fruto de tragédia
familiar", "sangue ruim", "depositária do mal" e outros rótulos,
todos muito negativos.
Até o século XVIII, a própria
ciência confundia deficiência mental com doença
e, portanto, procurava tratamentos que trouxessem uma "cura" para
esta condição. A partir do século XIX surgiu
a abordagem educacional, que leva em conta as possibilidades
e potencialidades da pessoa portadora de deficiência mental.
Curiosamente, esta abordagem foi uma iniciativa de médicos...
Aos poucos, educadores,
psicólogos e pedagogos se envolveram com esta questão
e a compreensão sobre este tipo de deficiência vem aumentando.
Infelizmente, vários "mitos" 1
e conceitos errados ainda persistem, como:
- Toda pessoa com deficiência mental é doente;
- Pessoas com deficiência mental morrem cedo, devido a "graves"
e "incontornáveis" problemas de saúde;
- Pessoas com deficiência mental precisam usar remédios
controlados;
- Pessoas com deficiência mental são agressivas e
perigosas, ou dóceis e cordatas;
- Pessoas com deficiência mental são, em geral, incompetentes;
- Existe um "culpado" pela condição de deficiência;
- O meio ambiente pouco pode fazer pelas pessoas com deficiência;
- Pessoas com deficiência mental só estão
"bem" com seus "iguais";
- Para o aluno com deficiência mental, a escola é
apenas um lugar para exercer alguma ocupação fora de
casa.
Como identificar a deficiência mental?
A deficiência mental pode ser identificada
precocemente (às vezes, ainda durante a gestação);
porém, é bastante comum que a suspeita surja na escola,
quando se espera mais da criança e de sua capacidade de aprendizagem.
Nestes casos, é de fundamental importância
confirmar este diagnóstico, antes de enviar a criança
para a sala especial e de começar a tratá-la de forma
pejorativa ou discriminatória. O diagnóstico de deficiência
mental deve ser feito por uma equipe de profissionais especializados
(médico e psicólogo) e confirmado por um pedagogo. Além
dos testes específicos, estes profissionais devem levar em
conta o momento de vida que a criança atravessa e verificar
o ambiente sociocultural em que ela vive.
Se for confirmada a condição de deficiência
mental, após todos estes procedimentos, a criança tem
direito a receber apoio especializado e sua família deve ser
orientada, a fim de favorecer sua aprendizagem e seu desenvolvimento.
Que sinais podem ser observados?
É importante tornar a enfatizar que o
diagnóstico de deficiência mental só pode
ser feito por especialistas, após a realização
de exames. Há casos, que assumem aspectos trágicos,
de pessoas que passam pela vida carregando este "rótulo",
sem que sejam realmente portadoras de deficiência mental.
Porém, ao observar que a criança apresenta
um comportamento diferente do de outras crianças - como dificuldades
em estabelecer relações de aprendizagem no seu cotidiano
(na sala de aula e em outros espaços, como no pátio,
na aula de Educação Física, nos passeios) - tal
fato deve ser relatado ao especialista e o professor e a família
devem buscar orientação junto aos serviços especializados
de sua comunidade.
Estas dificuldades são um sinal de alerta,
que nos informa que algo talvez não vá bem.
Alertamos, ainda, que há uma variedade e uma
complexidade de situações abrangidas pelo conceito "deficiência
mental". Assim, os sinais acima mencionados não esgotam o assunto.
A escala da deficiência mental
O grau de comprometimento intelectual das pessoas
com deficiência mental pode ser distribuído em uma escala.
Em uma ponta estão as crianças que:
- Desenvolvem habilidades sociais e de comunicação de
forma eficiente e funcional;
- Têm um prejuízo mínimo nas áreas sensório-motoras;
- Podem ter comportamentos similares aos das crianças de sua
idade, não deficientes;
- Representam, aproximadamente, 85% dos portadores de deficiência
mental.
- No centro da escala estão as crianças que:
- Têm nível de comprometimento intelectual mais acentuado;
- Podem adquirir habilidades sociais e de comunicação;
- Precisam de apoio e de acompanhamento mais constantes;
- Representam, aproximadamente, 10% dos portadores de deficiência
mental.
- Na outra ponta da escala estão as crianças
- Com rebaixamento intelectual significativo;
- Este rebaixamento está, freqüentemente, associado a
outros comprometimentos;
- Nos primeiros anos de vida adquirem pouca (ou nenhuma) fala comunicativa;
- Seu desenvolvimento sensório-motor também é
bastante comprometido
- Precisam de estimulação multissensorial;
- Precisam de um ambiente estruturado, com apoio e acompanhamento
constantes.
Concluindo: a maioria das crianças com
deficiência mental apresenta baixo comprometimento
cognitivo e, portanto, pode se beneficiar muito do processo de
aprendizagem.
Assim, se a criança com deficiência
mental for corretamente estimulada, desde cedo e se o ambiente educacional
for receptivo e lançar mão de recursos educacionais
adequados, ela poderá absorver conhecimentos.
Segundo a Profa. Lígia
A. Amaral2:
"Se a deficiência for leve, a criança
é capaz de atingir uma estrutura cognitiva que lhe possibilite
realizar operações lógicas de nível
concreto, com apoio em objetos. Portanto, consegue operar mentalmente
e abstrair, tal como a criança que não é deficiente.
Piaget se refere à estrutura cognitiva da criança
como uma 'construção mental inacabada'. No caso da
deficiência leve, a estrutura cognitiva não chega ao
estágio das operações formais, ou seja, não
chega à construção final - quarto e último
estágio das estruturas do conhecimento. Daí a expressão
'construção mental inacabada'.
Se a criança com deficiência mental
leve é capaz de operar mentalmente, embora numa idade posterior
à das crianças não deficientes, ela é
também capaz de ser alfabetizada e de ter acesso a outros conhecimentos
das sucessivas seriações escolares.
Progressivamente, práticas inovadoras e integradas
têm confirmado que, devidamente 'trabalhadas', as crianças
com deficiência mental leve podem surpreender."
A experiência de professores tem demonstrado
que, ao buscar recursos educacionais que concretizem os conceitos
expostos, toda a classe se beneficia, não apenas o aluno portador
de deficiência.
Retomando a idéia de que a "educação
não é uma fórmula de escola, mas sim uma obra
de vida", como dizia Freinet, lembramos que Educação
é um processo abrangente e complexo, que ultrapassa a escolarização
e que tem, por objetivo final, preparar a pessoa para a vida na família,
na escola, no trabalho, no mundo....
É importante que o professor e toda a
comunidade escolar (diretor, funcionários, alunos) se lembrem
de que todo aluno pode, a seu modo e respeitando seu tempo, beneficiar-se
de programas educacionais, desde que tenha oportunidades adequadas
para desenvolver sua potencialidade.
Como tratar pessoas com deficiência
mental 3
- Aja naturalmente ao dirigir-se a uma pessoa com deficiência
mental;
- Trate-a com respeito e consideração, de acordo com
sua idade;
- Não a ignore. Cumprimente e despeça-se dela normalmente,
como faria com qualquer pessoa;
- Dê atenção a ela, converse e vai ver como pode
ser agradável;
- Não superproteja. Deixe que ela faça ou tente fazer
sozinha tudo o que puder. Ajude apenas quando for realmente necessário;
- Não subestime sua inteligência. As pessoas com deficiência
mental levam mais tempo para aprender, mas podem adquirir muitas habilidades
intelectuais e sociais.
É possível prevenir a deficiência mental?
Após a Ciência ter superado a noção
de que a deficiência mental é uma doença, estudos
têm sido realizados para conhecer os fatores de risco que podem
vir a determinar esta condição. Esta mentalidade de
prevenção está se instalando gradualmente em
todas as áreas da Deficiência, além da mental.
Isso é muito importante, porque a Organização
Mundial de Saúde estima que aproximadamente 30% dos casos de
deficiência poderiam ser evitados, se medidas adequadas de prevenção
fossem adotadas.
A origem da condição de deficiência
mental é complexa, pois envolve múltiplos fatores. Assim
sendo, conhecê-los e identificá-los é fundamental,
para que programas de prevenção possam ser estabelecidos.
Porém, é importante lembrar que:
- Muitas pessoas expostas a condições de risco não
apresentam deficiência mental;
- Muitas vezes, ainda não é possível identificar
qual foi o fator causal da deficiência, infelizmente.
- Recorrendo mais uma vez à autoridade da Organização
Mundial de Saúde, aprendemos que a prevenção
pode acontecer em três níveis:
- Prevenção primária: medidas que podem ser tomadas
antes de o fato acontecer;
- Prevenção secundária: medidas que reduzem a
duração dos problemas já existentes ou revertem
seus efeitos;
- Prevenção terciária: medidas voltadas para
possibilitar o desenvolvimento da potencialidade da pessoa com deficiência
mental, diminuindo defasagens causadas por esta condição.
A seguir, vamos enumerar
algumas medidas recomendadas pela Organização Mundial
de Saúde4,
em relação a estes níveis de prevenção:
Prevenção primária
As medidas de prevenção primária
visam diminuir a incidência de doenças e causas
prováveis de deficiência; seu público-alvo é
a população em geral. Elas são de responsabilidade
do Poder Público, nas esferas municipal, estadual e federal.
Compete aos governantes implantar programas preventivos, que estão
garantidos no ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente e
outros dispositivos legais, fazer campanhas, distribuir material de
divulgação e tomar outras medidas semelhantes.
Medidas pré-natais
- Condições adequadas de saneamento básico;
- Cuidados especiais em regiões de risco radiativo;
- Planejamento familiar;
- Aconselhamento genético pré-natal;
- Acompanhamento da gestação (saúde e nutrição
materna);
- Diagnóstico pré-natal.
Medidas perinatais 5
- Atendimento médico - hospitalar de qualidade na situação
de parto;
- Atendimento de qualidade ao recém-nascido;
- PKU (teste do pezinho).
Medidas pós-natais
- Condições de saneamento básico;
- Serviços de puericultura adequados (incluindo campanhas de
vacinação);
- Prevenção de acidentes domésticos.
Prevenção secundária
Este nível de prevenção se refere
às medidas que visam reduzir a duração
dos problemas existentes ou os seus efeitos. Dirigem-se às
pessoas que já apresentam uma deficiência ou manifestam
problemas que, se não forem tratados adequadamente, podem resultar
em deficiência.
Neste nível de prevenção são
oferecidos programas voltados para conter a evolução
de doenças que podem causar deficiência mental ou programas
de estimulação que visam minimizar as conseqüências
de uma situação de deficiência. Podemos citar,
como exemplo: diagnóstico precoce, estimulação
essencial, orientação de dietas para crianças
com fenilcetonúria, leis que determinem a obrigatoriedade de
rótulos nos alimentos, alertando para a presença de
glúten e seus derivados e outros.
Prevenção terciária
Este nível de prevenção está
voltado para as pessoas que já possuem a deficiência
mental e visa garantir o pleno desenvolvimento de suas potencialidades,
como indivíduos. São exemplos destas medidas: atendimento
clínico, atendimento pedagógico (pré-escolar,
escolar, preparação para o trabalho etc.).
Apesar de todos os esforços de profissionais
e familiares, infelizmente ainda é pouco o que se oferece à
maior parte das pessoas com deficiência mental. Segundo alguns
estudos, mais da metade dos portadores de deficiência mental
não recebem atendimento algum, o que é um índice
muito preocupante.
Educação Especial
"A educação, direito de todos e dever
do Estado e da família, será promovida e incentivada,
com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento
da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho." (Constituição
Federal, 19, Capítulo III, art. 205.)
Podemos concluir que, se a Constituição
assegura que a educação é um direito de todos,
a pessoa portadora de deficiência mental está aí
incluída. Esta conclusão é reforçada pelo
artigo 208, inciso III, que enfatiza:
"(...) o atendimento educacional especializado
aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular
de ensino".
Segundo a Profa. Lígia
Assumpção Amaral 6
"Compreende-se que, no contexto da Educação Especial,
o termo 'educacional' se refere a todo espaço institucional
voltado para o desenvolvimento e a aprendizagem do indivíduo.
Esse espaço é comprometido com os múltiplos e
interdependentes aspectos do desenvolvimento - cognitivo, afetivo,
socioemocional - tendo como referência as diferenças
individuais e as possibilidades socioeducacionais de seus sujeitos.
Acredita-se que toda criança deve ter o direito
de estar inserida em um programa educacional, independente de suas
possibilidades de aprendizagem acadêmica, até porque
o sentido aqui atribuído ao processo educacional ultrapassa,
e muito, os limites impostos a um programa restrito à educação
formal, acadêmica.
Todo espaço educacional pressupõe a
convivência entre os pares. A possibilidade de conviver, trocar
e vivenciar situações do cotidiano é um objetivo
implícito no processo de aprendizagem, bem como no desenvolvimento
humano."
Direitos iguais/oportunidades diferenciadas
Como assegurar o direito à educação
para pessoas que são diferentes?
O Prof. Marcos Mazzota, estudioso desta área,
nos ensina que assegurar oportunidades iguais não significa
garantir tratamento igual para todos; é preciso oferecer meios
adequados às características e necessidades de cada
pessoa, para que ela possa desenvolver sua potencialidade. Assim,
a escola deve oferecer oportunidades educacionais diversificadas,
para assegurar a igualdade de oportunidades de acesso à educação.
Temos presenciado, nos últimos anos, um debate
sobre a questão da inclusão das pessoas com deficiência,
com ênfase em sua inclusão no ambiente escolar. Os professores,
em especial, têm-se deparado com esta questão, que fica
mais aguda no caso de alunos com deficiência mental.
Esta questão é realmente complexa e
merece ser tratada com cuidado.
Os professores, em geral, fazem perguntas e observações
como estas:
- Como posso receber um aluno com deficiência mental na minha
sala, onde há 30 (ou mais) alunos?
- Não tenho habilitação em deficiência
mental.
- Como os outros colegas vão recebê-lo?
Não pretendemos dar "receitas prontas" ou
"soluções mágicas" para estas perguntas, pois
não existem. Elas merecem nossa reflexão, pois refletem
uma situação que vem mudando ao longo da História.
Como o professor faz parte da sociedade e da época em que vive,
ele também partilha as opiniões vigentes. Vale a pena,
pois, tentar descobrir o que está na raiz destas perguntas.
Preconceito e discriminação
As pessoas com deficiência, especialmente mental,
foram perseguidas, maltratadas, segregadas e discriminadas, durante
séculos.
A partir do século XIX, esta situação
começa a mudar; médicos e educadores interessam-se por
estas pessoas e percebem que elas têm capacidade de aprendizagem.
Passam, então, a desenvolver métodos educacionais. As
atitudes preconceituosas começam a ser revistas.
Para a Cooperativa de
Vida Independente de Estocolmo (Suécia), entidade formada por
pessoas portadoras de deficiência: " (...) uma das razões
pelas quais as pessoas deficientes estão expostas à
discriminação é que os diferentes são
freqüentemente declarados doentes. Este modelo médico
da deficiência nos designa o papel desamparado e passivo de
pacientes, no qual somos considerados dependentes do cuidado de outras
pessoas, incapazes de trabalhar, isentos dos deveres normais, levando
vidas inúteis, como está evidenciado na palavra ainda
comum ' inválido' [sem valor, em latim]."7
Integração social
Gradualmente, este conceito tem sido modificado;
posteriormente, surgiu o conceito de "integração social",
para derrubar a prática de exclusão social a que as
pessoas portadoras de deficiência estavam submetidas, em relação
a qualquer atividade.
O movimento pela integração social
surgiu por volta do final da década de 60 e procurava inserir
as pessoas com deficiência no trabalho, na escola, no lazer.
A década de 80 impulsionou este movimento; a ONU - Organização
das Nações Unidas - decretou 1981 como o Ano Internacional
das Pessoas Deficientes; a luta pelos direitos ganhou força.
Em conseqüência das conquistas e da experiência
acumuladas neste processo, estudiosos e organizações
compostas por pessoas com deficiência começaram a perceber
que a prática da integração social era insuficiente
para acabar com a discriminação e para garantir a verdadeira
participação, com oportunidades iguais.
Isto porque a integração social representa
o esforço de inserir o portador de deficiência na sociedade,
SE ele estiver capacitado a superar as barreiras existentes.
Assim, o esforço era feito apenas por parte do deficiente,
sua família e profissionais especializados - a sociedade permanece
do mesmo jeito, alterando pouco (ou nada) suas atitudes, espaços
físicos e práticas sociais.
É a partir destas constatações
que surgem outros conceitos e movimentos, que falam de autonomia,
independência, empowerment e equiparação
de oportunidades, que foram objeto de normas e resoluções
internacionais, como as Normas sobre o Programa Mundial de Ação
Relativo às Pessoas com Deficiência (ONU, 1982), a Equiparação
de Oportunidades para Pessoas com Deficiência (ONU, 1993), entre
outros.
De forma geral, podemos dizer que estes conceitos,
que apontam para a inclusão social, consideram que a
sociedade deve ser modificada para atender às necessidades
de todos os seus membros. O desenvolvimento das pessoas com deficiência
deve ocorrer no processo de inclusão e não como um pré-requisito
para que estas pessoas possam fazer parte da sociedade, como se elas
precisassem "pagar ingresso para integrar a comunidade", como diz
o Dr. Antonio S. Clemente Filho.
Educação e inclusão no Brasil
Voltando para a questão da Educação
no Brasil, podemos constatar que a inclusão de pessoas com
deficiência na educação geral está sendo
implementada no Brasil há pouco tempo, mas já há
discussões e uma significativa produção intelectual
sobre este tema, que é bastante desafiador para os educadores.
É consenso que temos um longo caminho a percorrer,
por parte da sociedade e da própria pessoa com deficiência,
e, principalmente, da portadora de deficiência mental, para
que ela possa ser considerada socialmente incluída, ou seja,
possa assumir-se como indivíduo, que conhece e aceita suas
potencialidades e limites.
Para trilhar este caminho, o ideal é começar
o mais cedo possível, no momento em que as relações
iniciais são estabelecidas entre a criança e a família
e, posteriormente, na escola e na vizinhança. Ora, para construir
relações e vivências de caráter inclusivo,
é preciso que a diversidade seja aceita, como parte integrante
da natureza humana. Até gêmeos são diferentes...
A Profa. Maria Teresa
Mantoan 8
nos adverte que:
"A inclusão causa uma mudança de
perspectiva educacional, pois não se limita a ajudar somente
os alunos que apresentam dificuldades na escola, mas apóia
a todos: professores, alunos, pessoal administrativo, para que obtenham
sucesso na corrente educativa geral."
Assim, é importante que a diversidade seja
aceita com naturalidade e tranqüilidade, desde o momento em que
a deficiência é detectada; se a família agir desta
forma, a tendência é que "contaminará" as pessoas
ao redor.
Como a escola pode se preparar para incluir o aluno portador de deficiência
- Sensibilizando e capacitando toda a comunidade escolar;
- Reorganizando seus recursos materiais e físicos;
- Sensibilizando os pais de alunos deficientes e não deficientes,
sobre a questão da inclusão;
- Envolvendo entidades e órgãos da comunidade no processo
da inclusão.
Vale a pena enfatizar a importância da comunicação
entre a escola e a família da criança portadora
de deficiência. Para isso, reproduzimos as palavras de Maria
Salomé Soares Dallan, mãe de uma criança surda
e aluna do curso de Pedagogia da PUC/Pontifícia Universidade
Católica de Campinas, SP:
"Hoje, na tentativa de assegurar
a permanência de algumas crianças com necessidades
especiais no ensino regular, percebo mais fortemente a importância
de um trabalho junto às mães da população
de baixa renda, uma vez que pobreza, infelizmente, está associada
à falta de escolaridade e de acesso a determinadas informações,
visando ao esclarecimento acerca da deficiência de seus filhos.
Em meu dia-a-dia, tenho encontrado desde mães que acham que
o problema de seu filho não tem solução, àquelas
que acham que seu filho não tem problema algum, o que é
muito mais grave. Os pais que não aceitam a deficiência
de seu filho e nem acreditam em sua capacidade para superar as limitações,
impedem que este tenha acesso à estimulação
e ao atendimento educacional especializado."9
Benefícios da educação
inclusiva para todos os estudantes 10
Estudantes com deficiência:
- Desenvolvem a apreciação pela diversidade individual;
- Adquirem experiência direta com a variação
natural das capacidades humanas;
- Demonstram crescente responsabilidade e melhorada aprendizagem
através do ensino entre os alunos;
- Estão mais bem preparados para a vida adulta em uma sociedade
diversificada, através da educação em salas de
aula diversificadas;
- Freqüentemente experenciam apoio acadêmico adicional
da parte do pessoal de Educação Especial;
- Podem participar como aprendizes sob condições
instrucionais diversificadas (aprendizado cooperativo, uso de tecnologia
baseada em centros de aprendizagem etc.).
Estudantes sem deficiência:
- Têm acesso a uma gama mais ampla de modelos de papel social,
atividades de aprendizagem e redes sociais;
- Desenvolvem, em escala crescente, o conforto, a confiança
e a compreensão da diversidade individual deles e de outras
pessoas;
- Demonstram crescente responsabilidade e crescente aprendizagem,
através do ensino entre os alunos;
- Estão mais bem preparados para a vida adulta em uma sociedade
diversificada, através da educação em salas de
aula diversificadas;
- Recebem apoio instrucional adicional, por parte dos profissionais
da Educação Especial;
- Beneficiam-se da aprendizagem sob condições instrucionais
diversificadas.
Analisando os benefícios que a Educação
Inclusiva pode trazer para todos os envolvidos, portadores ou não
de deficiência, podemos concluir que eles apontam para as seguintes
práticas, que são benéficas para todos:
- Aprendizado cooperativo;
- Instrução baseada em projeto/atividade;
- A Educação deve reconhecer e ensinar pessoas de
várias culturas, com inteligências múltiplas e
envolvendo diferentes estilos de aprendizagem;
- A Educação deve contribuir para a construção
do "senso de comunidade" nas salas de aula e nas escolas como um todo.
Sugestões para adaptar salas comuns para receber alunos com
deficiência
- Todos os estudantes, não importa se tiverem deficiência
ou não, irão beneficiar-se de aulas que se basearem
menos em livros e mais em experiências e vivências, que
forem mais cooperativas e mais multissensoriais.
- Se for necessário adaptar o espaço físico
da sala para receber alunos com deficiência, estas adaptações
devem ser feitas com o máximo de boa vontade e hospitalidade.
Na maioria das vezes, estas adaptações também
irão beneficiar os alunos não deficientes. A deficiência
não deve ser apontada de uma forma constrangedora, não
deve ser enfatizada nem ignorada.
Para estudantes com deficiência mental, medidas
como estas podem ser proveitosas:
- Adotar o sistema de "companheiro", ou seja, envolver os colegas
com o processo de aprendizagem do aluno portador de deficiência
mental;
- Formar grupos cooperativos de aprendizagem;
- Contar histórias e utilizar materiais para ensinar conceitos
abstratos;
- Preparar versões simplificadas do material didático;
- O professor deve evitar o "discurso do não", que enfatiza
o que o aluno não pode, não sabe, não faz. É
importante fazer um investimento pedagógico nas possibilidades
de aprendizagem do aluno.
A deficiência mental e as novas tecnologias
Ao ingressarem na escola, seja regular ou especial,
as crianças com deficiência mental freqüentemente
vivem situações que reforçam uma postura de passividade
diante do ambiente. Assim, ao invés de serem educadas para
exercitar a independência e a autonomia, na medida de suas possibilidades,
desenvolvem atitudes de dependência e submissão.
É exatamente pelas dificuldades e atrasos
que estes alunos apresentam em seu desenvolvimento global que é
necessário oferecer-lhes um ambiente de aprendizagem onde sua
criatividade e iniciativa possam ser estimuladas e valorizadas, permitindo
maior interação com as pessoas que os rodeiam e seu
meio ambiente.
Dentre os recursos educacionais à disposição,
gostaríamos de destacar o computador, que está se tornando,
cada vez mais, um instrumento presente no nosso quotidiano.
Segundo o Prof. Fausto
José Villanova, que leciona Música e Informática
para alunos deficientes auditivos, visuais, mentais e físicos
no Instituto N. S. de Lourdes, na cidade do Rio de Janeiro11,
"A Informática, hoje tão presente em, nossas vidas,
é extremamente necessária aos portadores de necessidades
educacionais especiais. (...)É necessário que a comunidade
escolar, o corpo docente, a família e os próprios alunos
tenham consciência da importância de sua participação
efetiva nesta nova área, que engloba a educação,
a tecnologia e o mercado de trabalho".
O Prof. Fausto divide a utilização
da Informática nas seguintes modalidades:
1. Informática educativa
Ela visa desenvolver o raciocínio lógico,
a percepção, a coordenação motora, a
noção de lateralidade, o reconhecimento de espaço,
noções de conhecimentos gerais, estímulos visuais
e auditivos, estímulos competitivos e cooperativos, aquisição
de conhecimentos e outras habilidades.
O ideal é que o aluno tenha acesso à
Informática desde a pré-escola, através de
jogos educativos. O computador também pode atuar no reforço
escolar.
2. Informática musical
Utilizando um software para visualizar as freqüências
sonoras, o aluno consegue distinguir sons graves, médios
e agudos, facilitando a aprendizagem de um instrumento musical.
3. Informática de parceria
Nesta modalidade, a família tem acesso
às aulas de seus filhos, havendo uma troca entre os softwares
educativos usados em sala de aula e os utilizados em casa, permitindo
que a família reveja os conteúdos ministrados em sala
de aula.
4. Informática participativa
Visa estimular a navegação na
Internet, estimulando o aluno a participar de fóruns e debates.
5. Informática integradora social
Permite aos alunos atuar de forma produtiva,
criativa e eficiente na realização de trabalhos, utilizando
o computador. Assim, a pessoa com deficiência pode provar
sua capacidade de realização, muitas vezes posta em
dúvida, devido a preconceitos.
6. Informática de comunicação
Vários softwares são desenvolvidos,
no Brasil e em outros países, visando facilitar a aprendizagem
e a comunicação de pessoas com paralisia cerebral,
deficiência visual ou outras necessidades especiais.
7. Informática terapêutica
Esta modalidade beneficia especialmente alunos
com deficiência física e auditiva, que utilizam o computador
como uma "prótese" de comunicação. Esse processo
acontece em função da interação terapeuta/paciente/computador.
8. Informática profissionalizante
escolar
Tendo o professor como orientador, o aluno
pode atuar como monitor no laboratório de informática
ou como auxiliar de outros professores no preparo de aulas e testes.
Importa ressaltar
que já há experiências sobre a utilização
da Informática com alunos portadores de deficiência
mental, com resultados positivos, como os obtidos pela equipe do
NIED - Núcleo de Informática aplicada à Educação,
da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas.12
A transição da escola para o trabalho
"Toda sociedade que exclui pessoas do trabalho
por qualquer motivo - sua deficiência ou sua cor ou seu gênero
- está destruindo a esperança e ignorando talentos.
Se fizermos isso, colocaremos em risco o futuro."
Robert White, 1994.
Constatamos que, gradualmente, o mercado de trabalho
está mais receptivo às pessoas com deficiência.
Porém, ainda há muito a ser conquistado, especialmente
quando tratamos com pessoas portadoras de deficiência mental.
Em geral, a carga de preconceitos e discriminação que
recebem é maior que a recebida por portadores de deficiência
física, auditiva ou visual.
Além disso, a família também
contribui para esta situação, pois tem uma forte tendência
a proteger o filho dos preconceitos sociais, tratando-o como uma "eterna
criança", tentando prolongar a infância e adiando a passagem
para a vida adulta. Às vezes, os profissionais das escolas
e das oficinas também adotam este comportamento.
Ao assim fazerem, eles estão prejudicando
o portador de deficiência mental e não o ajudando, pois
ele não conquistará a autonomia possível desta
forma; ao contrário, será sempre dependente dos que
o rodeiam.
Ao atingir a adolescência, é fundamental
que a escola e a instituição busquem alternativas de
propostas pedagógicas de atividades adequadas a sua idade cronológica
e que possibilitem conquistar a maior autonomia possível e
independência em relação ao seu meio ambiente.
Há diversas modalidades de trabalho para a
pessoa com deficiência mental: em empresas, desempenhando trabalhos
de cunho repetitivo, na equipe de jardinagem, limpeza, como office
boy interno; em oficinas ocupacionais, na área rural ou em
iniciativas familiares.
O fundamental é que a dignidade da pessoa
seja preservada, ou seja, o trabalho que ela executa deve ser remunerado,
o ambiente deve ter condições adequadas de salubridade
e o tratamento deve ser respeitoso.
Na área do trabalho o "discurso do não"
também deve ser evitado: podemos testar possibilidades de trabalho,
testar recursos atuais, como a informática, antes de decidir
se determinado trabalho pode ou não ser desempenhado por portadores
de deficiência mental. Como exemplo, podemos citar o Zoológico
do Rio de Janeiro, que contratou jovens com deficiência mental
leve para trabalhar na cozinha, preparando alimentos para os animais.
Cada espécie animal precisa que o alimento seja cortado sempre
do mesmo jeito. Muitos profissionais não deixariam que portadores
de deficiência mental usassem facas, mas a experiência
tem demonstrado que eles são cuidadosos e não sofreram
acidentes.
Assim, a escola deve estar atenta à modernização
e à diversidade, adotando uma atitude positiva, com o compromisso
de valorizar a potencialidade individual e preparando seus alunos
para a vida adulta.
NOTAS:
* Socióloga. Gerente da Rede SACI - Solidariedade,
Apoio, Comunicação e Informação (www.saci.org.br).
Consultora desta série.
- Fonte: Cadernos da TV Escola - Educação Especial.
Deficiência mental. Brasília, SEF/MEC, 1998, p. 9.
- Op. Cit., p. 37.
- Folheto "Quando você encontrar uma pessoa deficiente...",
publicado pelo CEDIPOD- Centro de Documentação e Informação
do Portador de Deficiência.
- In Cadernos da TV Escola, op. cit., p. 11 e 12.
- Estas medidas correspondem ao momento do parto.
- Cadernos da TV Escola. Deficiência mental e deficiência
física. Brasília, MEC/Secretaria de Educação
a distância, 1998, p. 13.
- STIL. Independent living: a Swedish definition. In: RATZKA, Adolf.
Tools for power. Estocolmo: Independent Living Committee of
Disabled Peoples' International, 1990, p. 30.
- MANTOAN, Maria Teresa Egler. A integração de pessoas
com deficiência: contribuições para uma reflexão
sobre o tema. São Paulo, Memnon/SENAC, 1997, p. 145.
- Dallan, Maria Salomé Soares. Fazendo do problema um desafio.
In: Revista Integração, v. 13, p. 51, 2001.
- Fonte: Programa da ONU em Deficiências Severas, 1994.
- "As diversas utilidades da informática, sua importância
e influência no desenvolvimento, na educação,
terapia, comunicação, integração e socialização
dos portadores de necessidades especiais", Revista Integração,
v. 13, n. 23/2001, p. 20-23.
- VALENTE, José Armando. (org.). Liberando a mente: computadores
na educação especial. Campinas: UNICAMP, 1991. E
também: Computadores e conhecimento: repensando a educação.
Campinas: UNICAMP, 1993.
PGM 3: Deficiência visual e inclusão social
Marta Gil*
Braille
Markiano
Charam Filho1
Da
França para o mundo
Palavras
tocadas
Seis
pontos amigos
Parece
um bordado
Bordado
da vida
Nem
todos entendem
Mas
ele está aí.
Deficiência visual: alguns conceitos
Se quisermos utilizar poucas palavras, podemos definir
deficiência visual como a perda total ou parcial da capacidade
de enxergar.
Explicando melhor: os graus de visão abrangem
uma ampla escala de situações, que vão desde
a cegueira total até a visão perfeita, também
total. A expressão "deficiência visual" se refere à
escala que vai da cegueira (ausência total de visão)
até a visão subnormal.
Chama-se visão subnormal (ou baixa
visão, como preferem alguns especialistas) à alteração
da capacidade funcional decorrente de fatores como rebaixamento significativo
da acuidade visual, redução importante do campo visual
e da sensibilidade aos contrastes e limitação de outras
capacidades visuais.
"Traduzindo" a definição acima,
podemos dizer que a visão subnormal é a incapacidade
de enxergar com clareza suficiente para contar os dedos da mão
a uma distância de 3 metros, à luz do dia; em outras
palavras, a pessoa conserva resíduos de visão, não
sendo totalmente cega.
Usando auxílios
ópticos2
como óculos, lupas etc.,
a pessoa com baixa visão distingue vultos, a claridade ou objetos
a pouca distância. A visão se apresenta embaçada,
diminuída, restrita em seu campo visual ou prejudicada de algum
modo.
Até recentemente,
não se levava em conta a existência destes resíduos
visuais; a pessoa era tratada como se fosse cega, aprendendo a ler
e escrever em Braille3,
a movimentar-se com o auxílio de bengala etc. Hoje em dia oftalmologistas,
terapeutas e educadores trabalham no sentido de aproveitar este resíduo
visual nas atividades educacionais, na vida cotidiana e no lazer.
Estão sendo desenvolvidas técnicas
para trabalhar o resíduo visual, assim que a deficiência
é constatada. Isso melhora significativamente a qualidade de
vida da pessoa, embora não elimine a deficiência.
Em termos quantitativos, sabemos que a maioria das
pessoas com deficiência visual possui algum grau residual de
visão: poucas são totalmente cegas. Infelizmente, muitas
das que têm algum grau de visão são consideradas
cegas e tratadas como tal; dessa forma, perdem os benefícios
que o uso da visão residual poderia trazer a seu processo de
desenvolvimento e à sua qualidade de vida.
Entre os dois extremos da capacidade visual estão
situadas patologias como miopia, estrabismo, astigmatismo, ambliopia,
hipermetropia, que não constituem necessariamente deficiência
visual, mas que devem ser identificadas e tratadas o mais rapidamente
possível, pois podem interferir negativamente no processo de
desenvolvimento e na aprendizagem da criança.
Que sinais podem ser observados?
- Irritação constante nos olhos;
- Aproximação do papel junto ao rosto, quando escreve
e lê;
- Dificuldade para copiar bem da lousa a distância;
- Olhos franzidos para ler o que está escrito na lousa;
- Cabeça inclinada para ler ou escrever, como se procurasse
um ângulo melhor para enxergar;
- Tropeços freqüentes por não enxergar pequenos
obstáculos no chão;
- Nistagmo (olho trêmulo);
- Estrabismo (vesgo);
- Dificuldade de enxergar em ambientes muito claros.
O que o professor pode fazer?
- Orientar os pais para que os mesmos procurem
um médico especialista em visão (oftalmologista);
- Aplicar o Teste de Acuidade Visual no início
do ano letivo, preferencialmente nas primeiras séries do
Ensino Fundamental;
- Não usar colírio ou outros
medicamentos sem recomendação médica.
A importância da visão
A visão é o meio mais importante de
relacionamento com o mundo exterior. Ela capta registros próximos
ou distantes e permite organizar, no nível cerebral, as informações
trazidas pelos outros órgãos dos sentidos. Calcula-se
que 80% dos nossos conhecimentos chegam até nós pelos
olhos, que podem ser considerados a nossa "janela para o mundo".
Estudos recentes revelam que enxergar não
é uma habilidade inata, ou seja, ao nascer ainda não
sabemos enxergar; precisamos aprender a ver. Não é um
processo consciente. Embora nem pensemos nisso, estamos ensinando
um bebê a enxergar, ao carregá-lo no colo e ir mostrando:
Olha o gatinho; Onde está o seu irmão?
O desenvolvimento das funções visuais
ocorre nos primeiros anos de vida. Graças a testes de acuidade
visual recentemente desenvolvidos, hoje é possível fazer
a avaliação funcional da visão de um recém-nascido,
ainda no berçário.
O que significa perder a visão?
A cegueira (ou perda total da visão) pode
ser adquirida ou congênita (existente desde o
nascimento).
O impacto da deficiência visual (congênita
ou adquirida) sobre o desenvolvimento individual e psicológico
varia muito, de pessoa para pessoa. Depende da idade em que ocorre,
do grau da deficiência, da dinâmica geral da família,
das intervenções que foram tentadas, da personalidade
da pessoa - enfim, de muitos fatores. Quando a pessoa perde a visão
mais tarde na vida, guarda memórias visuais: ela se lembra
de cores, rostos, paisagens, objetos e isso é útil para
sua readaptação.
Além da perda do sentido da visão,
a cegueira adquirida também traz outras perdas: emocionais,
das habilidades básicas (mobilidade, execução
das atividades diárias), da atividade profissional, da comunicação
e da personalidade como um todo. É uma experiência traumática,
que deve ser acompanhada por terapeutas, que tratem da pessoa e da
família.
Quando a deficiência visual acontece na infância,
pode trazer prejuízos ao desenvolvimento neuropsicomotor, com
repercussões educacionais, emocionais e sociais, que podem
continuar ao longo da vida, se não houver um tratamento adequado,
o mais cedo possível.
Causas dos problemas da visão
As causas mais freqüentes de cegueira e baixa
visão são:
- Retinopatia da prematuridade - causada pela imaturidade da retina,
em decorrência de parto prematuro ou de excesso de oxigênio
na incubadora;
- Catarata congênita - em conseqüência de rubéola
ou de outras infecções durante a gestação;
- Glaucoma congênito - pode ser hereditário ou causado
por infecções.
A cegueira e a baixa visão também podem
resultar de doenças como diabetes, descolamento de retina ou
traumatismos oculares.
Os especialistas estimam que os casos de deficiência
visual poderiam ser reduzidos em até 30%, se fossem adotadas
medidas preventivas eficientes nas áreas de educação
e saúde e se houvesse mais informação disponível
para a população.
Saber cuidar de si: caminhos para a autonomia
Durante muitos anos, uma pessoa cega que falasse
bem, tivesse desempenho acadêmico satisfatório e bom
nível de informação e verbalização
era muito valorizada pela sociedade. Nada mais se esperava dela, em
termos de autonomia e de independência. Assim, a educação
de uma criança portadora de deficiência visual se voltava
basicamente para os aspectos intelectuais.
Analisando essa valorização de apenas
uma parte da potencialidade total da pessoa, percebemos que a expectativa
quanto às possibilidades de uma pessoa com deficiência
visual era baixa: o preconceito impedia que a pessoa fosse considerada
capaz de executar todas as atividades que fazem parte do nosso
dia-a-dia: andar com independência, cuidar-se e vestir-se de
modo adequado, alimentar-se, interagir socialmente, competir no mercado
de trabalho, casar-se - enfim, exercer seu papel de cidadão.
Felizmente, esta compreensão está mudando,
gradualmente. Muitos serviços de atendimento às crianças
portadoras de deficiência visual já incorporam a seus
programas um trabalho voltado para as atividades de vida diária
e para a orientação e mobilidade.
Desde cedo, as crianças que enxergam vão
aprendendo a lidar com as mais diversas situações, observando
o ambiente a seu redor e relacionando-se com as pessoas. É
preciso possibilitar essa mesma relação com o meio à
criança que não enxerga ou enxerga pouco.
A independência alcançada graças
a um bom programa de Atividades da Vida Diária vai muito além
das necessidades pessoais básicas, como higiene, alimentação,
hábitos à mesa e etiqueta, cuidados com a casa e atividades
sociais. Significa desenvolvimento de autoconfiança e valorização
das próprias capacidades, agir com naturalidade e eficiência
no universo social. Ao assumir esta postura de dignidade e autonomia,
a pessoa com deficiência visual contribui para conscientizar
a sociedade em relação à sua potencialidade.
Há crianças que, além da deficiência
visual, apresentam outros comprometimentos - da fala, da audição
etc. Por isso, o primeiro passo em qualquer atendimento consiste em
fazer uma avaliação global, por uma equipe multidisciplinar,
para decidir qual é o melhor caminho a seguir, na estimulação.
A partir do diagnóstico, é elaborado
um programa de Educação Precoce, que inclui atividades
lúdicas, de acordo com a idade da criança. A participação
da família é fundamental para o bom desempenho da criança.
Orientação e mobilidade
A deficiência visual, em qualquer grau, compromete
a capacidade da pessoa de se orientar e de se movimentar no espaço,
com segurança e independência.
Na idade pré-escolar, quando a criança
está desenvolvendo sua capacidade de socialização,
isso prejudica (ou até mesmo impede) o conhecimento do mundo
ao seu redor e seu relacionamento com outras pessoas. É uma
fase em que ela gosta de ter amigos, brincar e compartilhar os brinquedos.
Se não puder desempenhar estes papéis, ficará
insatisfeita e isolada, e isso trará prejuízos à
sua aprendizagem.
Para alguns autores, a limitação na
orientação e na mobilidade pode ser considerada o efeito
mais grave da cegueira.
Nos programas de estimulação precoce
há técnicas especializadas para desenvolver o sentido
de orientação usando o tato, a audição
e o olfato, para que a criança possa se relacionar com os objetos
significativos que estão ao seu redor.
O treinamento da orientação e da mobilidade
permite que a pessoa se movimente e se oriente com segurança
na escola, em casa, no trânsito, de acordo com sua idade.
O papel da família
Embora não seja fácil, a família
precisa entender que o portador de deficiência é, antes
de mais nada e acima de tudo, uma pessoa total, evitando focalizar
a atenção na sua condição visual. Assim,
ela deve oferecer condições para seu crescimento como
indivíduo, tornando-o capaz de ser feliz e produtivo dentro
de sua realidade, de sua potencialidade e seus limites.
O depoimento da Profa.
Rosana Glat é esclarecedor: "De fato, a minha experiência
de 20 anos lidando com pessoas portadoras de deficiência e suas
famílias tem mostrado que os indivíduos mais integrados
socialmente, isto é, que levam uma vida mais 'normalizada',
são aqueles que são tratados de maneira mais natural,
mais 'normal' por suas famílias, que estão, enfim, mais
integrados na constelação familiar. Isto é válido
não apenas para os casos de deficiências congênitas,
mas também para os que por doença ou acidente vieram
a se tornar deficientes na idade adulta. Canejo (1996), em recente
estudo com pessoas portadoras de cegueira adquirida, constatou que
os sujeitos que pareciam ter maior grau de integração
social eram justamente aqueles que tinham um bom esquema de suporte
familiar." 4
A primeira atitude consiste em acreditar na potencialidade
da criança, considerando-a capaz de estudar, de ser independente,
de trabalhar, praticar esportes e tantas outras coisas que seus amigos
fazem.
Para muitos portadores de deficiência,
a maior dificuldade está na falta de oportunidades.
O professor e o desenvolvimento da criança
portadora de deficiência visual
Para entender o que acontece com o processo de desenvolvimento
da criança com deficiência visual, o professor deve considerar,
entre outros fatores:
- A idade em que a deficiência aconteceu;
- Associação (ou não) com outras deficiências;
- Aspectos hereditários;
- Aspectos ambientais;
- Tratamento recebido.
A criança portadora de deficiência visual
(com cegueira ou com baixa visão) deve ser avaliada por profissionais
da área da saúde e da educação, num trabalho
conjunto.
É errado achar que uma criança com
deficiência visual também tenha deficiência mental,
por sua eventual dificuldade ou atraso em realizar algumas tarefas.
A escola e a sociedade
Ao abrir suas portas para receber os que enxergam
e os que não enxergam, a escola se torna um espaço de
inclusão, promovendo trocas enriquecedoras entre toda a equipe
escolar, os alunos e suas famílias.
A fonte de informações mais importante
para o professor é o próprio aluno e sua família.
É fundamental saber como ele é, como percebe, fala e
sente. O deficiente visual percebe a realidade que está a sua
volta por meio de seu corpo, na sua maneira própria de ter
contato com o mundo que o cerca.
Para conhecer o deficiente visual, seus interesses
e habilidades, o professor deve prestar atenção ao referencial
perceptual que ele revela. A partir daí, o professor pode oferecer-lhe
oportunidades para entrar em contato com novos objetos, pessoas e
situações, facilitando seu processo de aprendizagem.
Para a Profa. Elcie Masini, estudiosa da temática
da deficiência visual:
"Aprender é aqui entendido
como a capacidade humana de receber, colaborar, organizar novas
informações e, a partir desse conhecimento transformado,
agir de forma diferente do que se fazia antes. Aprende-se numa relação
com o outro ser humano e/ou com as coisas a seu redor." 5
A escola pode adotar diversas medidas, para capacitar
os professores e a comunidade escolar para lidar com a deficiência
visual, como:
- Promover reuniões para discutir as dificuldades encontradas;
- Convidar especialistas para fazer palestras a professores e alunos;
- Ter material bibliográfico de apoio;
- Exibir vídeos sobre o assunto;
- Convidar pais de crianças com deficiência ou professores
que já tiveram esta experiência para dar depoimentos.
Mãos: os "olhos" dos deficientes visuais
As informações chegam até as
pessoas com deficiência visual por dois canais principais: pela
linguagem e pela exploração tátil, que envolve
especialmente as mãos.
Como as mãos são os "olhos" das pessoas
com deficiência visual, seu uso como instrumento de percepção
deve ser intensamente estimulado, incentivado e aprimorado.
Desde o nascimento, é preciso despertar na
criança cega o desejo de conhecer e aprender. Os pais devem
estimular e conversar mais com um bebê portador de deficiência
do que se conversa, geralmente, com os não deficientes.
Durante toda a vida da pessoa com deficiência
visual, as mãos serão um instrumento privilegiado de
conhecimento. Mas, nos primeiros anos de vida, enquanto a linguagem
ainda está se desenvolvendo, elas têm uma função
ainda mais importante.
Educação pré-escolar
Nesta etapa da vida - 4 a 6 anos - a aprendizagem
se dá pelas vivências corporais no espaço e no
tempo; daí a importância de brincadeiras e jogos que
estimulem a imaginação, de atividades lúdicas
e recreativas. A criança desta faixa etária gosta de
ouvir histórias e de ter amiguinhos; as atividades em grupo
são muito importantes.
Estas atividades, jogos e brincadeiras ajudam a conhecer
a potencialidade de cada um, a desenvolver o raciocínio, a
usar os gestos para exprimir idéias, pensamentos e emoções.
Elas permitem que a criança entre em contato com o seu próprio
corpo e com suas possibilidades de movimentação, desenvolvendo
assim sua consciência corporal e seu autoconhecimento.
A adequação e a adaptação
das atividades para incluir a criança com deficiência
visual serão feitas de acordo com a organização
do cotidiano da escola. Para isso, é indispensável que
o professor de apoio e o professor da classe comum trabalhem em conjunto.
Defasagens no processo de desenvolvimento
Nesta faixa etária (4 a 6 anos), é
natural que a criança com deficiência visual severa,
ou com cegueira, apresente defasagens no seu processo de desenvolvimento,
em relação às crianças que enxergam.
Em geral, ela começa a compensar as discrepâncias
a partir dos 6 ou 7 anos, com o estabelecimento da linguagem conceptual.
O Ensino Fundamental
Entre 7 e 11 anos, a principal atividade da criança,
com ou sem deficiência, é estudar.
A aprendizagem das técnicas de leitura e escrita
depende do desenvolvimento simbólico e conceitual do aluno,
de sua maturidade mental, psicomotora e emocional. Esse processo não
acontece de forma espontânea: é resultado da orientação
e do estímulo oferecidos pelo professor, que escolhe um método
e um processo de alfabetização.
Logo de início, o aluno com deficiência
visual apresenta uma desvantagem básica: a perda (ou a redução)
da visão. Falando de modo genérico, podemos destacar
algumas características de seu processo de desenvolvimento,
nesta faixa etária:
- Ele precisa de mais tempo para assimilar alguns conceitos, especialmente
os abstratos;
- Ele precisa ter estimulação contínua;
- Ele tem dificuldade de interação, de apreensão,
de exploração e domínio do meio físico;
- Ele desenvolve mais lentamente a consciência corporal.
É importante que o professor e a família
levem em conta as inevitáveis diferenças em relação
à criança que enxerga, evitando fazer comparações.
A experiência e o aprendizado da criança
portadora de deficiência visual dependem muito de seus outros
órgãos dos sentidos. A falta de estímulos e de
experiências que mobilizam os outros sentidos pode prejudicar
a compreensão das relações espaciais e temporais
e a aquisição de conceitos necessários ao processo
de alfabetização.
Braille ou tipos ampliados?
A criança com baixa visão deve utilizar
auxílios ópticos adequados e materiais pedagógicos
adaptados, como textos com letras ampliadas. Ela também deve
sentar-se na melhor posição possível na sala
de aula, de onde tenha o melhor ângulo de visão da lousa.
Não há uma única regra que seja
boa para todos os alunos: tudo depende do grau de visão e do
tipo de patologia de cada um. Alguns terão maior facilidade
com o sistema Braille e outros, com os tipos ampliados, que são
letras de tamanho maior que o comum e com mais espaço entre
uma linha e outra.
É preciso saber que a criança cega
demora mais para conceber a idéia da leitura e da escrita.
A criança que enxerga se habitua a ver letras, rótulos,
palavras, a manusear livros e material impresso desde cedo; já
a criança deficiente visual não tem esta mesma oportunidade.
Ela geralmente só entra em contato com o mundo das letras no
período escolar, o que retarda seu processo de alfabetização.
O aprendizado da leitura e da escrita em Braille
requer um elevado desenvolvimento das habilidades motoras finas, além
de flexibilidade nos punhos e agilidade nos dedos.
Se tiver um aluno cego em sua sala, o professor deve
tomar alguns cuidados:
- Ler o que está escrito na lousa;
- Sempre que possível, passar a mesma lição
para ele que foi dada para a classe;
- Buscar o apoio do professor especializado, que ensinará
à criança o sistema Braille e acompanhará o processo
de aprendizagem;
- Os estudantes e professores devem ter o cuidado de não
criarem baixas expectativas, apenas com base na deficiência
visual;
- A mobilização de recursos pedagógicos para
o aluno com deficiência deve ser considerada um direito dele;
- O apoio ao aluno com deficiência deve ser considerado
de responsabilidade de todos;
- Disponibilizar com antecedência os textos e livros para
o curso, considerando que a transcrição deste para formatos
alternativos (por exemplo, a transcrição de textos para
áudio, Braille ou disquete) demanda tempo adicional;
- Se possível, o material de estudo deverá ser fornecido
sob a forma de textos ampliados, textos em Braille, textos e aulas
gravadas em áudio ou em disquete, de acordo com as necessidades
do aluno e a possibilidade da escola. O aluno poderá ainda
precisar utilizar auxiliares ópticos e equipamento informático
adaptado, assim como apoio para trabalho de laboratório e do
pessoal da biblioteca;
- Durante as aulas, é útil identificar os conteúdos
de uma figura e descrever a imagem e a sua posição relativa
a itens importantes;
- Substituir os gráficos, fluxogramas e tabelas por outras
questões ou utilizar gráficos simples em relevo;
- Transcrever em Braille as provas e outros materiais;
- Possibilitar usar formas alternativas nas provas: o aluno pode
ler o que escreveu em Braille; fazer gravação em fita
cassete ou escrever com tipos ampliados;
- Ampliar o tempo disponível para a realização
das provas;
- Evitar dar um exame diferente, pois isso pode ser considerado
discriminatório e dificulta a avaliação comparativa
com os outros estudantes;
- Ajudar só na medida do necessário;
- O professor deve ter um comportamento o mais natural possível,
não devendo super proteger o aluno, ou pelo contrário,
ignorá-lo.
Como o aluno deficiente visual aprende Matemática?
O aluno com deficiência visual tem as mesmas
condições para aprender Matemática que uma criança
não deficiente. Porém, é preciso que o professor
adapte as representações gráficas e os recursos
didáticos que vai utilizar.
É importante ressaltar que, ao adaptar recursos
didáticos para facilitar o aprendizado de alunos com deficiência,
o professor acaba beneficiando todos os alunos, pois recorre a materiais
concretos, que são bons para a compreensão dos conceitos.
Para ensinar Matemática, o instrumento mais
utilizado é o ábaco - ou sorobã -
que é de origem japonesa. Seu manuseio é fácil
e pode ajudar até mesmo os alunos que enxergam, pois ele concretiza
as operações matemáticas.
Outra técnica complementar que pode ser utilizada
com bons resultados é o cálculo mental, que deve
ser estimulado desde o início da aprendizagem e que será
útil, posteriormente, quando o aluno estudar álgebra.
A Informática na educação
A área da Informática traz recursos
valiosos para o processo de ensino - aprendizagem: softwares que ampliam
o tamanho das letras ou o próprio texto (circuitos fechados
de televisão) e softwares com sintetizadores de voz, que lêem
o que está na tela do computador.
Há impressoras especiais, que imprimem em
Braille, para uso individual ou para produzir livros, em grande escala.
A informática tem-se revelado fundamental
para a educação, para a comunicação entre
as pessoas e para a sua profissionalização.
Como tratar pessoas com deficiência visual
- Nem sempre as pessoas cegas ou com deficiência visual
precisam de ajuda. Mas, se encontrar alguma que pareça estar
em dificuldades, identifique-se. Faça-a perceber que você
está falando com ela e ofereça seu auxílio. Nunca
ajude sem perguntar antes como deve fazê-lo;
- Caso sua ajuda como guia seja aceita, coloque a mão da
pessoa no seu cotovelo dobrado. Ela irá acompanhar o movimento
do seu corpo enquanto você vai andando;
- É bom avisar antecipadamente a existência de degraus,
pisos escorregadios, buracos e obstáculos em geral durante
o trajeto;
- Num corredor estreito, onde só passa uma pessoa, coloque
o seu braço para trás, de modo que a pessoa cega possa
continuar a seguir você;
- Para ajudar uma pessoa cega a sentar-se, você deve guiá-la
até a cadeira e colocar a mão dela sobre o encosto da
cadeira, informando se esta tem braço ou não. Deixe
que a pessoa se sente sozinha;
- Ao explicar direções para uma pessoa cega, seja
o mais claro e específico possível; de preferência,
indique a distância em metros;
- Algumas pessoas, sem perceber, falam em tom de voz mais alto
quando conversam com pessoas cegas. A menos que a pessoa tenha também
uma deficiência auditiva que justifique isso, não faz
nenhum sentido gritar. Fale em tom de voz normal;
- Por mais tentador que seja acariciar um cão-guia, lembre-se
de que esses cães têm a responsabilidade de guiar um
dono que não enxerga. O cão nunca deve ser distraído
do seu dever de guia;
- As pessoas cegas ou com visão subnormal são como
você, só que não enxergam. Trate-as com o mesmo
respeito e consideração com que você trata todas
as pessoas;
- No convívio social ou profissional, não exclua
as pessoas com deficiência visual das atividades normais. Deixe
que elas decidam como podem ou querem participar;
- Proporcione às pessoas cegas ou com deficiência
visual a mesma chance que você tem de ter sucesso;
- Fique à vontade para usar palavras como "veja"
e "olhe". As pessoas cegas as usam com naturalidade;
- Quando for embora, comunique isto sempre ao deficiente visual.
NOTAS:
* Socióloga. Gerente da Rede SACI - Solidariedade,
Apoio, Comunicação e Informação (www.saci.org.br).
Consultora desta série.
- Corpo, Alma & Cia., Projeto Arte sem Limites, São
Paulo, 1997, p. 61.
- "Recursos ou auxílios ópticos para visão subnormal
são lentes especiais ou dispositivos formados por um conjunto
de lentes, geralmente de alto poder, que se utilizam do princípio
da magnificação da imagem, para que possa ser reconhecida
e discriminada pelo portador de baixa visão. Os auxílios
ópticos estão divididos em dois tipos, de acordo com
sua finalidade: recursos ópticos para perto e recursos ópticos
para longe."
- Braga, Ana Paula. "Recursos ópticos para visão subnormal
- seu uso pela criança e adolescente". Revista Con-tato,
São Paulo, Laramara, agosto de 1997, p. 12.
- Braille: sistema de escrita e de impressão para deficientes
visuais, no qual as letras do alfabeto são feitas de pontos
em relevo, que as pessoas reconhecem pelo toque das pontas dos dedos.
O sistema foi inventado por Louis Braille, em 1829.
- GLAT, Rosana. O papel da família na integração
do portador de deficiência. Revista Brasileira de Educação
Especial, v. 2, 1996, n.4.
- MASINI, Elcie F. Salzano. "Conversas sobre deficiência visual".
Revista Con-tato. São Paulo, Laramara, n. 3, p. 24,
1993.
PGM 4: Deficiência física e inclusão social
Marta Gil*
Bem-vindo à Holanda
Freqüentemente me pedem para descrever
a experiência de dar à luz uma criança
com deficiência.
Seria como...
Ter um bebê é como planejar
uma fabulosa viagem de férias PARA A ITÁLIA.
Você compra montes de guias e faz
planos maravilhosos ! O Coliseu. O Davi de Michelangelo.
As gôndolas em Veneza. Você pode até
aprender algumas frases em italiano. É tudo muito
excitante.
Após meses de antecipação,
finalmente chega o grande dia! Você arruma as malas
e embarca. Algumas horas depois, você aterrissa. O
comissário de bordo chega e diz: Bem-vindo à
Holanda!
Holanda ?? diz você. O que quer dizer
com Holanda?? Eu escolhi a Itália ! Eu devia ter
chegado à Itália. Toda a minha vida eu quis
conhecer a Itália !
Mas houve uma mudança no plano de
vôo. Eles aterrissaram na Holanda e é lá
que você deve ficar.
O mais importante é que eles não
levaram você para um lugar horrível e desagradável,
com sujeira, fome e doença. É apenas um lugar
diferente.
Você precisa sair e comprar outros
guias. Deve aprender uma nova língua. E irá
encontrar pessoas que jamais imaginara.
É apenas um lugar diferente. É
mais baixo e menos ensolarado que a Itália. Mas,
após alguns minutos, você pode respirar fundo
e olhar ao redor. Começa a notar que a Holanda tem
moinhos de vento, tulipas e até Rembrandts e Van
Goghs.
Mas, todos os que você conhece estão
ocupados indo e vindo da Itália, comentando a temporada
maravilhosa que passaram lá. E por toda a sua vida
você dirá: Sim, era onde eu deveria estar.
Era tudo o que eu havia planejado.
A dor que isso causa nunca, nunca irá
embora. Porque a perda desse sonho é uma perda extremamente
significativa.
Porém, se
você passar toda a vida remoendo o fato de não
ter chegado à Itália, nunca estará
livre para apreciar as coisas belas e muito especiais existentes
na Holanda. (Emily Perl
Knisley, 1987)
Definição
A deficiência física pode ser definida
como uma desvantagem, resultante de um comprometimento ou de uma incapacidade,
que limita ou impede o desempenho motor de uma determinada pessoa,
ocasionando alterações ortopédicas e/ou neurológicas.
Ou, dito de outra forma:
A deficiência física abrange uma variedade
de condições não sensoriais que afetam o indivíduo
em termos de mobilidade, de coordenação motora geral
ou da fala, como decorrência de lesões neurológicas,
neuromusculares e ortopédicas, ou ainda, de más-formações
congênitas ou adquiridas.
Assim, são considerados portadores de deficiência
física os indivíduos que apresentam comprometimento
da capacidade motora, nos padrões considerados normais para
a espécie humana.
É importante salientar que a deficiência
física não tem nada a ver com deficiência
mental; a deficiência física afeta as funções
motoras e não a parte cognitiva da pessoa. Na maioria dos
casos, a inteligência fica preservada.
Que sinais podem ser observados, nas pessoas com deficiência
física?
- Movimentação sem coordenação ou
atitudes desajeitadas de todo o corpo ou parte dele;
- Anda de forma não coordenada, pisa na ponta dos pés
ou manca;
- Pés tortos ou qualquer deformidade corporal;
- Pernas em tesoura (uma estendida sobre a outra);
- Dificuldade em controlar os movimentos, desequilíbrios
e quedas constantes;
- Dor óssea, articular ou muscular;
- Segura o lápis com muita ou pouca força;
- Dificuldade para realizar encaixe e atividades que exijam coordenação
motora fina.
O que fazer?
Se o professor perceber algo de diferente na movimentação
da criança, ele deve:
- Orientar os pais para que procurem profissionais especializados
na área (ortopedista, fisiatra e fisioterapeuta);
- Providenciar as adaptações necessárias,
visando ao conforto e à independência da criança.
Causas da deficiência física
A deficiência física pode ter várias
causas e várias formas de manifestação.
Podemos agrupá-las em:
Causas pré-natais: problemas durante
a gestação (remédios tomados pela mãe,
tentativas de aborto malsucedidas, perdas de sangue durante a gestação,
crises maternas de hipertensão, problemas genéticos
e outras);
Causas perinatais: problema respiratório
na hora do nascimento, prematuridade, bebê que entra em sofrimento
na hora do nascimento por ter passado da hora, cordão umbilical
enrolado no pescoço e outras;
Causas pós-natais: parada cardíaca,
infecção hospitalar, meningite ou outra doença
infecto-contagiosa ou quando o sangue do bebê não combina
com o da mãe (se esta for Rh negativo), traumatismo craniano
ocasionado por uma queda muito forte e outras.
No caso de jovens e adultos, a deficiência
física pode ocorrer após uma lesão medular, aneurisma,
acidente vascular cerebral ou outros problemas.
É importante destacar o papel que a violência
tem, como causa de deficiência física: a violência
urbana, que tem sido tão focalizada pela mídia, acidentes
no trânsito ou de trabalho estão se tornando as principais
causas da deficiência física.
No verão, a incidência de casos de deficiência
física aumenta, principalmente entre os rapazes, que praticam
esportes radicais, sem tomar as devidas medidas de segurança.
Uma das doenças que já foi a maior
causa de deficiência física no Brasil é a paralisia
infantil (poliomielite), que atualmente está erradicada,
graças às campanhas de vacinação e à
tomada de consciência dos pais, que compreenderam a importância
desta vacina.
Medidas de prevenção
- Fazer acompanhamento médico pré-natal;
- Infra-estrutura adequada nos berçários, para atender
recém-nascidos (UTI para bebês com risco de vida, aparelhagem
moderna, assepsia para evitar infecção hospitalar);
- Pessoal treinado no resgate de vítimas de acidentes de
trânsito;
- Conscientização dos riscos da hipertensão
e da diabetes;
- Adotar medidas de segurança no trânsito, no ambiente
de trabalho e na prática de esportes.
Tipos de deficiência física
Hemiplegia: quando a metade esquerda ou direita
do corpo fica paralisada, em decorrência da lesão de
células nervosas do cérebro que comandam o movimento
desta parte do corpo;
Paraplegia: paralisia dos membros inferiores
(pernas);
Tetraplegia: paralisia dos membros superiores
(braços) e dos inferiores (pernas).
Hemiplégicos,
paraplégicos e tetraplégicos sofrem lesões no
sistema nervoso (no cérebro ou na medula espinhal)1,
que alteram o controle neurológico sobre os músculos,
afetando os movimentos do corpo. Se a lesão afetar a área
da linguagem, a pessoa pode não falar ou falar com dificuldade.
As pessoas amputadas também são
incluídas no grupo das portadoras de deficiência física,
tanto as que nasceram sem um membro, perderam-no em um acidente ou
precisaram tirá-lo por motivo de saúde, como um problema
circulatório ou de gangrena.
As pessoas com paralisia cerebral pertencem
a esta categoria de deficiência física. A paralisia cerebral
é um distúrbio do movimento e/ou da postura que ocorre
em conseqüência de uma lesão que pode ter ocorrido
no cérebro durante a gestação, na hora do parto
ou logo após o nascimento, devido a uma interrupção
no fornecimento de oxigênio para o cérebro. Esta denominação
- "paralisia cerebral" - nos leva a acreditar que estas pessoas têm
suas funções cognitivas afetadas, o que nem sempre é
verdade. A lesão afeta, em graus variados, a fala, a coordenação
motora ou a locomoção. Por falta de informações,
as pessoas acham que, porque a fala ficou alterada, estas pessoas
têm também uma deficiência mental.
Há outros tipos de deficiência física,
como a esclerose múltipla (uma doença degenerativa
que ataca o sistema nervoso, provocando enrijecimento dos membros
e dificuldades de locomoção), espinha bífida
(ocasionada pela má formação da coluna vertebral
e da medula espinhal, durante a formação do feto), poliomielite,
que está considerada erradicada, aqui no Brasil, distrofia
muscular, que abrange um grupo de disfunções musculares
com alguns sintomas em comum, resultantes de falhas no desenvolvimento
de fibras musculares e outras.
O desenvolvimento muscular
Uma vez constatada a deficiência física,
a criança deve ser encaminhada para um programa de estimulação;
alguns profissionais usam o termo "estimulação precoce"
e, outros, "estimulação essencial".
É muito importante começar a estimular
o bebê o mais cedo possível, com o objetivo de desenvolver
suas capacidades e sua independência nas atividades quotidianas,
de acordo com a fase de desenvolvimento que ele está.
O tônus dos músculos, isto é,
sua elasticidade e sua capacidade de se contrair e de se esticar,
obedecendo às ordens que o cérebro dá, é
o que permite nossos movimentos. À medida que os músculos
são exercitados, o tônus muscular vai se fortalecendo.
Para que o desenvolvimento motor do bebê aconteça,
é preciso que o tônus muscular se fortaleça, juntamente
com o desenvolvimento do sistema nervoso. Algumas crianças
com deficiência física são hipotônicas:
seus músculos são flácidos, "moles".
Em alguns casos de paralisia cerebral, acontece o
oposto: os músculos ficam muito rígidos, causando espasticidade.
O ser humano obedece um padrão de desenvolvimento
motor, de acordo com sua idade. Este padrão não é
igual para todos; há crianças que têm um desenvolvimento
mais rápido, enquanto outras são mais "preguiçosas".
A criança com algum tipo de deficiência física
tem mais dificuldade de seguir estas etapas; daí a necessidade
de fazer exercícios de estimulação e de usar
equipamentos e aparelhos, que são de grande ajuda no seu dia-a-dia.
Há diversos tipos de aparelhos e adaptações
para o deficiente físico. Alguns são muito caros; neste
caso, os portadores de deficiência física ou profissionais
habilidosos vêem-se levados a usar a criatividade e fazer improvisações,
utilizando materiais disponíveis. O fundamental é que
funcionem e garantam autonomia à pessoa que os utiliza.
O papel da família
Segundo a psicóloga Rosana Glat: "A influência
da família no processo de integração social do
deficiente é uma questão que deve ser analisada levando-se
em consideração dois ângulos: a facilitação
ou impedimento que a família traz para a integração
da pessoa portadora de deficiência na comunidade e a integração
da pessoa com deficiência na própria família.
Estes dois aspectos são,
sem dúvida, interdependentes: quanto mais integrada em sua
família uma pessoa com deficiência for, mais esta família
vai tender a tratá-la de maneira natural ou "normal" deixando
que, na medida de suas possibilidades, participe e usufrua dos recursos
e serviços gerais da sua comunidade; conseqüentemente,
mais integrada na vida social esta pessoa será. Paralelamente,
quanto mais ela estiver participando das atividades da comunidade
e levando uma vida "normal" equivalente à de outras pessoas
da sua faixa etária, mais ela será vista pelos membros
de sua família como "igual aos demais". 2
Entrando na escola
É muito importante que a criança com
deficiência física freqüente a escola, onde ela
pode desenvolver seu potencial intelectual e interagir com outras
crianças.
A família desempenha um papel fundamental
no processo de adaptação da criança à
escola: ela deve conversar com a professora e com a equipe escolar,
orientando sobre como tratar a criança, seus limites e potencialidades.
Pode ser necessário adaptar a carteira, verificar
qual é a melhor posição em relação
à lousa e se o banheiro tem condições de ser
utilizado. É importante consultar a criança sobre suas
necessidades, com naturalidade.
Pequenas adaptações podem fazer muita
diferença: por exemplo, se a criança não consegue
segurar o papel para escrever, este pode ser preso na carteira com
fita crepe.
Como a criança com deficiência física
em geral escreve mais lentamente, a professora pode esperar mais tempo
para apagar a lousa ou estimular o trabalho cooperativo, no qual os
colegas colaboram sem, porém, fazer as tarefas pela criança
com deficiência. Outra alternativa possível é
a professora preparar fichas com o texto escrito na lousa, que a criança
possa levar para casa.
Na fase inicial de aprendizagem da leitura, da escrita
e do cálculo, as diferenças entre crianças com
deficiência física e crianças não deficientes
é pequena, em geral. O desenvolvimento intelectual é
bastante semelhante, principalmente se a criança teve uma estimulação
adequada; ela vai precisar de auxílio para se locomover e para
manusear o material escolar. Esta constatação é
verdadeira também para as etapas posteriores do processo de
aprendizagem.
Segundo Maria Christina
B. T. Maciel 3:
"É muito importante para uma criança
portadora de deficiência física aprender, desde pequena,
a não se autolimitar. Ela precisa ter em mente que não
é doente e que, apesar destas limitações,
pode ter uma boa convivência na sociedade.
A sociedade, por sua vez, precisa aprender a conviver
com as diferenças individuais de cada um. O professor e toda
a equipe escolar devem criar uma relação de confiança
com o aluno, descartando a hipótese de ele vir a ter medo ou
vergonha de não aprender imediatamente o que está sendo
ensinado.
Na verdade, a diferença de ritmo pode acontecer
com qualquer criança, portadora ou não de necessidades
especiais. Assim, é fundamental criar uma relação
de confiança com todos os alunos."
A escola é muito importante para qualquer
criança, mas é ainda mais importante para a criança
com deficiência. É na escola que a criança aprende
a confiar em si mesma, percebendo que é capaz de realizar a
maioria das atividades, embora levando um pouco mais de tempo.
Sugestões para adaptar o ambiente escolar aos portadores de
deficiência física
A Secretaria de Educação Especial do
Ministério da Educação sugere:
- O acesso físico é a preocupação
fundamental no que diz respeito a estes estudantes, devido a dificuldades
de locomoção ou ao uso de cadeira de rodas. Isto implica
a existência de percursos em que o aluno se possa movimentar
mais facilmente de uma aula para as outras, ou seja, em que não
tenha de se defrontar com barreiras arquitetônicas;
- Estes estudantes podem eventualmente atrasar-se, ao ir de uma
sala para outra, principalmente quando as aulas não são
todas no mesmo complexo. Pode também haver a necessidade de
fazer alguns ajustes que permitam ao aluno freqüentar aulas laboratoriais;
- As aulas em laboratórios podem requerer algumas adaptações
do material e local de trabalho (altura do balcão, mesa, cadeiras,
entre outros). Se puder proporcionar estas modificações,
trabalhe diretamente com o aluno para criar um local o mais acessível
possível, promovendo a participação dele em todas
as tarefas;
- Na elaboração de viagens de estudo, o aluno deverá
assistir à seleção dos locais a visitar e à
seleção dos meios de transporte;
- Sempre que houver muita gente (em corredores, bares, restaurantes)
e estiver ajudando um colega em cadeira de rodas, avance a cadeira
com prudência; o aluno poder-se-á sentir incomodado se
esbarrar em outras pessoas.
" A praça é do povo..."
Embora a escola seja um espaço fundamental
para todas as pessoas, portadoras ou não de deficiência,
ela não é o único; a vida também acontece
em outros espaços, igualmente ricos em oportunidades de convivência
e outros tipos de aprendizagem.
Para a pessoa com deficiência física,
o acesso a estes outros lugares é, muitas vezes, problemático,
pois nem sempre eles foram construídos levando em conta suas
necessidades. No caso de edifícios de uso público, há
uma legislação determinando que eles sejam adaptados.
Infelizmente, nem sempre estas leis são cumpridas. É
hora, então, de municiar-se com informações e
reivindicar seus direitos de cidadão.
As adaptações arquitetônicas facilitam o acesso
de muitas pessoas:
- Pessoas com deficiência física
- Idosos
- Gestantes
- Mães com carrinho de bebê
- Pessoas que quebraram a perna
- Obesos
- Cardíacos
Portanto, vale a pena investir em adaptações
arquitetônicas que, muitas vezes, são de baixo custo
(fazer uma rampa, por exemplo) e vão beneficiar muitas pessoas.
Mas, para conseguir isso, é preciso sair e ser visto pelos
demais. Muitas vezes, as pessoas não providenciam estas facilidades
em seus estabelecimentos porque não pensaram no assunto e não
perceberam que o portador de deficiência também é
um consumidor.
Se as cidades fossem planejadas para atender às
necessidades de todas as pessoas, incluindo os grupos acima enumerados,
elas seriam assim:
- Os edifícios teriam os elevadores, sanitários
e corredores acessíveis e utilizáveis por portadores
de deficiência;
- Os deficientes físicos poderiam participar de eventos
políticos, sociais e culturais;
- Os meios de transporte seriam adaptados;
- As cabinas telefônicas permitiriam sua utilização
por pessoas em cadeira de rodas.
No dia em que estas mudanças ocorrerem, a
cidade realmente será do povo, como sonhava o poeta, há
muitos anos atrás...
Além da escola, o mundo!
O portador de deficiência física é,
em primeiro lugar, uma pessoa, com sonhos, desejos, receios...
Embora a escola ocupe um lugar importante em sua
vida, como na de outras crianças, não é o único
espaço de convivência e de aprendizagem. E, à
medida que ele entra na adolescência, também quer ter
uma "turma", paquerar, se vestir da mesma forma. Estes desejos são
naturais e saudáveis.
Aqui vai um depoimento de um jovem portador de deficiência
física e de como ele viveu esta situação.
" Meus pais perceberam que eu andava triste, mais
quieto que o normal, e nem sempre aceitava convites para ir às
festas. Um dia, consegui me abrir com eles e falar de meus medos
e preocupações. (...)
Minha mão tomou providências: começou
a convidar meus amigos para freqüentar minha casa, às
vezes organizava festinhas e sempre nos deixava à vontade.
Ela procurava fazer com que a turma me visse como um rapaz igual
aos outros, para que eu também me sentisse igual aos outros.
(...) Porém, persistiam as dúvidas
quanto a uma namorada. Será que eu precisaria namorar uma
menina também com deficiência física? Será
que um dia eu poderia me casar? E ter filhos?
(...) Aos poucos, fui descobrindo que desejos e
manifestações sexuais surgem naturalmente em todas
as pessoas, sejam ou não portadoras de deficiência
física. E que a necessidade de satisfazer estes impulsos
é igualmente natural. Fiquei sabendo que nada impede os deficientes
físicos de gerar filhos, criá-los e educá-los.
Descobri que, quanto maior fosse meu círculo
de amizades, maior seria minha participação em atividades
para jovens e, conseqüentemente, maiores seriam minhas chances
em relação ao amor.
Comecei a participar de festas,
a ir passear no shopping, freqüentar barzinhos e lanchonetes.
Às vezes meu pai não podia me levar e então
aprendi a sair de ônibus, com um amigo. Quase morri de medo
na primeira vez!" 4
Dicas para se relacionar com pessoas com deficiência física
- Para uma pessoa sentada em cadeira de rodas, é incômodo
ficar olhando para cima por muito tempo. Portanto, se a conversa for
demorar mais do que alguns minutos, se for possível sente-se,
para que você e ela fiquem com os olhos no mesmo nível;
- A cadeira de rodas (assim como bengalas e muletas) é parte
do espaço corporal da pessoa, quase uma extensão do
seu corpo. Agarrar ou apoiar-se na cadeira de rodas é como
agarrar ou apoiar-se numa pessoa sentada numa cadeira comum. Isso
muitas vezes é simpático, se vocês forem amigos,
mas não deve ser feito se vocês não se conhecem;
- Nunca movimente a cadeira de rodas sem antes pedir permissão
para a pessoa;
- Empurrar uma pessoa em cadeira de rodas não é como
empurrar um carrinho de supermercado. Quando estiver empurrando uma
pessoa sentada numa cadeira de rodas, e parar para conversar com alguém,
lembre-se de virar a cadeira de frente, para que a pessoa também
possa participar da conversa;
- Ao empurrar uma pessoa em cadeira de rodas, faça-o com cuidado.
Preste atenção para não bater nas pessoas que
caminham na frente. Para subir degraus, incline a cadeira para trás,
levante as rodinhas da frente e apoie-as sobre o degrau. Para descer
um degrau, é mais seguro fazê-lo de marcha à ré,
sempre apoiando para que a descida seja sem solavancos. Para subir
ou descer mais de um degrau em seqüência, será melhor
pedir a ajuda de mais uma pessoa;
- Se você estiver acompanhando uma pessoa deficiente que anda
devagar, com auxílio ou não de aparelhos ou bengalas,
procure acompanhar o passo dela;
- Mantenha as muletas ou bengalas sempre próximas à
pessoa deficiente;
- Se achar que ela está em dificuldades, ofereça ajuda.
Caso seja aceita, pergunte como deve fazê-lo. As pessoas têm
suas técnicas pessoais para subir escadas, por exemplo e, às
vezes, uma tentativa de ajuda inadequada pode até mesmo atrapalhar.
Outras vezes, a ajuda é essencial. Pergunte e saberá
como agir. Não se ofenda se a ajuda for recusada;
- Se você presenciar um tombo de uma pessoa com deficiência,
ofereça ajuda imediatamente. Mas nunca ajude sem perguntar
se e como deve fazê-lo;
- Esteja atento para a existência de barreiras arquitetônicas
quando for escolher uma casa, restaurante, teatro ou qualquer outro
local que queira visitar com uma pessoa com deficiência física;
- Pessoas com paralisia cerebral podem ter dificuldades para andar,
podem fazer movimentos involuntários com pernas e braços
e podem apresentar expressões estranhas no rosto. Não
se intimide com isso. São pessoas comuns como você. Geralmente,
têm inteligência normal ou, às vezes, até
acima da média;
- Quando conversar com um estudante em cadeira de rodas lembre-se
de que uma pessoa sentada tem um ângulo de visão diferente.
Se quiser mostrar-lhe qualquer coisa, abaixe-se para que ela efetivamente
a veja;
- Se a pessoa tiver dificuldade na fala e você não compreender
imediatamente o que ela está dizendo, peça para que
repita. Pessoas com dificuldades desse tipo não se incomodam
de repetir quantas vezes seja necessário para que se façam
entender;
- Não se acanhe em usar palavras como "andar" e "correr". As
pessoas com deficiência física empregam naturalmente
essas mesmas palavras;
- Trate a pessoa com deficiência física com a mesma consideração
e respeito que você usa com as demais pessoas.
NOTAS:
* Socióloga. Gerente da Rede SACI - Solidariedade,
Apoio, Comunicação e Informação (www.saci.org.br).
Consultora desta série.
- A medula espinhal fica dentro da coluna e dela partem as terminações
nervosas que vão para os braços e pernas. Se há
uma lesão na parte superior, os quatro membros podem ficar
sem movimentação. Se a lesão ocorrer em uma área
mais baixa, somente a perna perde o movimento.
- Glat, Rosana. O papel da família na integração
do portador de deficiência. In: Revista Brasileira de Educação
Especial, v. 2, n. 4, p. 111, 1996.
- Deficiência física, In: Cadernos da TV Escola,
p. 83.
- Maria Christina B. T. Maciel, op. cit., p. 86 e 87.
PGM 5: Deficiência auditiva
Marta Gil*
Arco
da flecha
Suely Barbosa
O arqueiro
Retesa
O arco.
Dentro do arco
O limite
Que salta
Para o infinito.
Quem pode ser considerado surdo?
Se houver um problema em uma das partes do ouvido,
a audição ficará prejudicada, em maior ou menor
grau. Há diferentes tipos de perda auditiva, conforme o local
da perda (se foi no ouvido médio, no interno etc.). Conseqüentemente,
a conduta médica também será diferente, conforme
o caso.
"Surdo é o indivíduo
que tem a perda total ou parcial, congênita ou adquirida, da
capacidade de compreender a fala através do ouvido. De acordo
com o grau de perda auditiva, avaliada em decibéis (dB), a
surdez manifesta-se como leve (perda entre 20 e 40 dB), moderada
(entre 40 e 70 dB), severa (entre 70 e 90 dB) e profunda
(acima de 90 dB de perda) - impede o indivíduo de ouvir a voz
humana e de adquirir, espontaneamente, o código da modalidade
oral da língua, mesmo com o uso de prótese auditiva."1
Os graus de deficiência auditiva são
caracterizados de diferentes formas, por diferentes autores.
O que importa, aqui, é enfatizar que a escala
da audição tem diferentes graus; portanto, há
pessoas que escutam muito pouco, sendo incapazes de ouvir um avião
passando; outras conseguem ouvir a voz humana, mas não conseguem
discriminá-la.
Pelo menos uma em cada mil crianças nasce
profundamente surda. Muitas pessoas desenvolvem problemas auditivos
ao longo da vida, por causa de acidentes ou doenças.
A deficiência auditiva traz muitas limitações
para o desenvolvimento do indivíduo. Considerando que a audição
é essencial para a aquisição da linguagem falada,
sua deficiência influi no relacionamento com os outros e cria
lacunas nos processos psicológicos de integração
de experiências, afetando o equilíbrio e a capacidade
normal de desenvolvimento do indivíduo.
Identificação da surdez
Quando é possível detectar que uma
criança tem perda auditiva?
O ideal seria avaliar a capacidade auditiva do bebê
ainda na maternidade.
Há alguns sinais que podem ser observados
logo nas primeiras semanas após o nascimento, se o pediatra
e os familiares estiverem atentos às reações:
- O bebê não acorda ou não se assusta com
um barulho forte e súbito;
- O bebê não pára de chorar, quando a mãe
usa apenas a voz para acalmá-lo;
- O bebê não procura a origem do barulho, virando
a cabeça na direção da fonte sonora, isso já
numa fase posterior do desenvolvimento;
- O bebê é exageradamente quieto.
Quando a criança tem mais de 1 ano
Alguns sinais podem ser observados, quando a criança
tem mais de 1 ano de idade:
- As primeiras palavras aparecem tarde (3 a 4 anos);
- Não responde ao ser chamada em voz normal;
- Quando de costas, não se volta para a pessoa que lhe
dirige a palavra;
Apresenta:
- Excesso de comunicação gestual e pouca emissão
de palavras;
- Fala extremamente alta ou baixa;
- Cabeça virada para ouvir melhor;
- Olhar dirigido para os lábios de quem fala e não
para os olhos;
- Troca e omissão de fonemas na fala e na escrita.
É mais fácil descobrir uma perda de
audição de nível severo ou profundo do que uma
perda leve ou moderada.
Avaliação audiológica
Quando há suspeita de perda de audição,
deve-se procurar um médico, para que ele faça exames
específicos, para avaliar a situação do bebê
ou da pessoa.
A avaliação audiológica, para
constatar se realmente houve perda de audição, pode
ser feita de mais de uma forma, dependendo da idade da criança.
O aparelho de amplificação sonora individual
Em alguns casos, o exame audiométrico indica
a possibilidade de usar um aparelho de amplificação
sonora individual (A.A.S.I.). Este é um equipamento pequeno,
usado junto ao ouvido da criança, que amplia a intensidade
dos sons e os traz para um nível confortável para quem
precisa usá-lo. Atualmente, ele possui um nível bastante
alto de sofisticação, ampliando o som de maneira cada
vez mais seletiva, isto é, os sons da fala têm "prioridade"
sobre os ruídos ambientais, nos momentos de comunicação.
Os benefícios advindos do uso do aparelho
auditivo não são percebidos de imediato; é necessário
um período de aprendizagem e de adequação auditiva
que, às vezes, desanima a criança e seus familiares.
Os pais precisam entender o que esse aparelho pode
representar para o filho, os benefícios que pode trazer e suas
limitações. Ele costuma gerar expectativas, como se
fosse capaz de realizar milagres. Muitos pais imaginam que, usando
o aparelho, seu filho deixará de ser surdo e se transformará
em ouvinte.
O desenvolvimento auditivo na criança com
perda auditiva não acontece logo após a colocação
e o uso do aparelho. Ele vai se dar com o passar do tempo. Mas os
pais e os profissionais não podem desanimar.
Não é suficiente usar o aparelho auditivo
durante algumas horas por dia. Deve-se colocá-lo ao acordar
e retirá-lo para dormir (com exceção do banho).
O aparelho é tão importante quanto comer.
Causas da deficiência auditiva
A deficiência auditiva pode ser congênita
ou adquirida.
As principais causas da deficiência congênita
são: hereditariedade, viroses maternas (rubéola, sarampo),
doenças tóxicas da gestante (sífilis, citomegalovírus,
toxoplasmose), ingestão de medicamentos ototóxicos (que
lesam o nervo auditivo) durante a gravidez.
A deficiência auditiva pode ser adquirida,
quando existe uma predisposição genética (otosclerose),
quando ocorre meningite, ingestão de remédios ototóxicos,
exposição a sons impactantes (explosão) ou viroses,
por exemplo.
Outra forma de classificar as causas potenciais da
deficiência auditiva ou a ela associadas é a seguinte:
Causas pré-natais: a criança
adquire a surdez através da mãe (no período de
gestação), devido à presença destes fatores,
entre outros:
- Desordens genéticas ou hereditárias;
- Causas relativas à consangüinidade;
- Causas relativas ao fator Rh;
- Causas relativas a doenças infecto-contagiosas, como
a rubéola;
- Sífilis, citomegalovírus, toxoplasmose, herpes;
- Ingestão de remédios ototóxicos
- Ingestão de drogas, alcoolismo materno;
- Desnutrição/subnutrição/carências
alimentares;
- Pressão alta, diabetes;
- Exposição à radiação.
Causas perinatais: a criança fica
surda, em decorrência de problemas no parto:
- Pré-maturidade, pós-maturidade, anóxia,
fórceps;
- Infecção hospitalar.
Causas pós-natais: a criança
fica surda, em decorrência de problemas após seu nascimento:
- Meningite;
- Remédios ototóxicos, em excesso ou sem orientação
médica;
- Sífilis adquirida;
- Sarampo, caxumba;
- Exposição contínua a ruídos ou sons
muito altos;
- Traumatismos cranianos.
Devemos salientar que, atualmente, sabemos que são
várias e diferenciadas as causas que originam a surdez, embora
o conhecimento científico atual seja ainda insuficiente para
identificar todas elas.
O diagnóstico médico permite, em muitos
casos, que se identifique a causa mais provável da perda auditiva,
mas infelizmente nem sempre isso é possível. A ocorrência
de gestações e partos com histórico complicado,
bem como a manifestação de doenças maternas no
período próximo ao nascimento da criança podem
inviabilizar a identificação dessa causa.
Por isso mesmo, em cerca de 50% dos casos, a origem
da deficiência auditiva é atribuída a 'causas
desconhecidas'. Quando se consegue descobrir a causa, o mais freqüente
é que ela se deva a doenças hereditárias, rubéola
materna e meningite.
Surdocegueira
Vale a pena mencionar a surdocegueira, que é
uma deficiência múltipla. Ela caracteriza-se pela perda
parcial ou total da visão e da audição, de tal
forma que a combinação das duas deficiências causa
extrema dificuldade na conquista de metas educacionais, vocacionais,
de lazer e sociais.
Mas, apesar das dificuldades, é possível
educar a criança portadora desta deficiência, através
de métodos especializados.
Que sinais podem ser observados na surdocegueira?
- Déficit de audição e visão;
- Atraso significativo no desenvolvimento global (motor e cognitivo);
- Ausência de fala;
- Dificuldade em estabelecer relações com outro;
- Tendência ao isolamento pela falta de comunicação;
- Comportamentos estereotipados ou autistas;
- Utilização do choro, gemidos e movimentos corporais
como formas de comunicação.
Quando a família percebe a surdez
É freqüente que os pais confirmem a existência
da surdez por volta de 1 ou 2 anos de idade da criança.
Isso implica uma dificuldade maior na transmissão
de significados simbólicos às experiências do
bebê. Um exemplo: o bebê chora, e a mãe procura
acalmá-lo conversando com ele - sem que ela saiba, sua voz
não chega até ele para tranqüilizá-lo, acalmá-lo
e marcar a presença materna. Somente ao vê-la ele pode
se assegurar de sua proximidade.
À medida que se repetem experiências
desse tipo, o bebê pode desenvolver sentimentos de insegurança
e abandono, o que mais tarde pode ter como conseqüência
uma auto-estima rebaixada.
Por outro lado, quando descobre a surdez do filho,
a grande maioria das mães passa a usar menos a voz para se
comunicar com ele ou até deixam de utilizar a palavra. Todos
caem no silêncio.
As atitudes maternas de desânimo ou de superproteção
podem ser compreensíveis, mas não incentivam o desenvolvimento
da criança.
Os pais (e, principalmente, a mãe, pois ela
tem contato mais intenso e freqüente com o bebê) devem
compreender que há muitas formas de comunicação
com o bebê, além da linguagem oral: toques, sorrisos,
carinhos. Todas essas linguagens devem ser utilizadas no trato com
o bebê, inclusive a oral. Deve-se falar sempre de frente, para
que a criança possa ir percebendo que esta forma de comunicação
também existe.
O diagnóstico precoce
É de grande importância que a surdez
seja diagnosticada o mais cedo possível. Assim que é
constatada, é possível começar seu atendimento,
que inclui o trabalho não só com a criança, mas
também com os pais.
No trabalho de estimulação precoce,
o primeiro aspecto a ser lembrado é que a criança surda,
em seus primeiros meses de vida, é um bebê com necessidades
peculiares, pois a ausência da audição, interferindo
na aquisição da linguagem e na maneira de conhecer o
mundo, deixará marcas para o resto da vida.
Principalmente nos casos em que se pode suspeitar
desse tipo de quadro - como nascimento de alto risco, casos de surdez
hereditária na família, casamentos consangüíneos,
ocorrência de rubéola na gravidez ou um quadro de meningite
após o nascimento - é fundamental que o bebê seja
encaminhado para avaliação médica o quanto antes.
Como evitar/prevenir a perda auditiva em crianças?
Quando pensamos sobre a surdez e as limitações
que lhe são associadas, é natural que procuremos conhecer
as causas que a provocam e os meios de evitá-las.
O estudo das causas da deficiência auditiva
demonstra a importância da prevenção primária
na área da saúde uma vez que, segundo dados da Organização
Mundial de Saúde - OMS, 1,5% da população dos
países em desenvolvimento têm problemas relativos à
audição.
A prevenção primária
refere-se às ações que antecedem o problema da
surdez, evitando sua ocorrência e deve ser realizada por meio
de:
- Campanhas de vacinação das jovens contra a rubéola;
- Acompanhamento à gestante (pré-natal);
- Campanhas de vacinação infantil contra: sarampo,
meningite, caxumba etc.;
- Não dar remédio sem receita médica; se
for antibiótico, verificar se contém aminoglicosídeo,
substância que geralmente prejudica a audição
de forma irreversível;
- Palestras e orientações às mães.
Já a prevenção secundária
refere-se às ações que atenuam as conseqüências
da surdez e são realizadas tanto na área da Saúde,
como na área da Educação:
- Na área da Saúde, por meio do diagnóstico,
da protetização precoce da criança (colocação
do aparelho auditivo) e do atendimento fonoaudiológico;
- Na área da Educação, por meio do atendimento
na Educação Infantil, principalmente através
do Programa de Estimulação Precoce (para crianças
de zero a três anos).
A prevenção terciária
refere-se às ações que limitam as conseqüências
do problema da surdez e melhoram o nível de desempenho da pessoa
como, por exemplo, aquelas que compõem o atendimento realizado
pela Educação Especial.
Depois do diagnóstico, o que fazer?
É fundamental que a surdez seja diagnosticada
o mais cedo possível. Quando a perda auditiva é detectada
precocemente, a preocupação inicial do profissional
(médico, psicólogo ou fonoaudiólogo) deve ser
a de fornecer informações aos pais, para que eles saibam
o que fazer e, principalmente, possam acolher este filho e aprender
a lidar com esta situação inesperada.
A estimulação precoce realizada no
ambiente doméstico, aliada ao trabalho educacional de profissionais,
permitirá que a criança adquira condições
de se comunicar da melhor forma possível, situando-se melhor
na sociedade.
Após o médico fazer o diagnóstico
de que a criança tem uma perda auditiva e de que grau, a família
deve tomar as seguintes medidas:
- Iniciar o tratamento fonoaudiológico integrado, feito
pelo fonoaudiólogo e a equipe que for considerada necessária;
- Utilizar o aparelho auditivo, se for adequado para o caso.
Infelizmente, nem sempre essa avaliação
é feita precocemente; na maior parte das vezes, a criança
fica sem atendimento até o momento de ir para a escola. Quanto
mais tempo passa, maiores são as dificuldades de desenvolvimento
- tanto no campo da linguagem quanto nos níveis social, psíquico
e cognitivo.
Inicialmente, a criança não precisa
utilizar a linguagem oral para comunicar-se com sua família;
o fundamental é utilizar a sensibilidade, que se traduz em
um toque, uma expressão de felicidade. Os pais devem compreender
que, ao invés de ficarem desesperados, podem e devem participar
da educação de sua criança e que o futuro dela
vai depender de sua atuação em parceria com profissionais,
como fonoaudiólogo e otorrinolaringologista.
O processo de desenvolvimento da criança surda
Durante muito tempo e ainda mesmo em nossos dias,
a deficiência auditiva tem sido confundida com a deficiência
mental; seus portadores são chamados erroneamente de "mudos"
ou "surdos-mudos". Sabemos, hoje, que a surdez não afeta
o desenvolvimento cognitivo das pessoas e que estas pessoas não
são mudas, isto é, elas emitem sons; muitas vezes não
falam, por medo que caçoem delas, por não ouvirem, por
não terem recebido treinamento para falar ou outro motivo.
Saber em que momento se instalou a surdez é
fundamental para planejar as necessidades de estimulação
da criança, seja qual for a idade. Mas também são
necessárias outras informações, tais como:
- Se a surdez foi detectada nos primeiros anos de vida e em que
fase isso aconteceu;
- Se aconteceu antes ou depois do nascimento ou durante o parto;
- Qual o grau da perda auditiva - leve, moderada, severa ou profunda;
- Se recebeu atendimento especializado (e se foi indicada a utilização
de aparelho de amplificação sonora individual);
- Como a audição foi estimulada, desde o início;
- Qual a reação da família e que tipo de
assistência ela recebeu nesse momento;
- Se a surdez está ou não associada a outra deficiência
ou a problemas de saúde.
O profissional precisa conhecer a história
de cada pessoa - época em que ocorreu a surdez e qual foi o
grau da perda, tipo de atendimento reabilitacional recebido, oral
ou oral com sinais/gestos, estimulação feita para a
aquisição da linguagem, aproveitamento dos resíduos
auditivos e outras informações mais, para poder prestar
o melhor atendimento possível, tanto na área da Educação
quanto na de Saúde.
Assim, o grau e o tipo da perda de audição,
assim como a idade em que esta ocorreu, vão determinar importantes
diferenças em relação ao tipo de atendimento
que o aluno irá receber. Quanto maior for a perda auditiva,
maiores serão os problemas lingüísticos e maior
será o tempo em que o aluno precisará receber atendimento
especializado.
Existe uma diferença significativa no desenvolvimento
da linguagem e da comunicação de crianças que
sofrem perda auditiva antes dos 2 anos de idade, em comparação
com as que ficam surdas após terem adquirido a linguagem (por
exemplo, no caso de surdez causada por meningite, depois dos 4 anos
de idade). As maiores já tiveram a oportunidade de estruturar
a memória auditiva e um sistema lingüístico próprio.
"Embora não se possa afirmar que a surdez
afete o desenvolvimento intelectual dos indivíduos, provoca
neles, sem dúvida, dificuldades de conceituação,
pela ausência do código lingüístico normalmente
usado no contexto social dos ouvintes. O pensamento, em decorrência,
se organiza de forma bem distinta da usual dos ouvintes, da mesma
idade, devido à privação da audição
ou por experiências frustrantes vividas pelos surdos desde
o contexto sócio-familiar."
Que língua ensinar para a criança surda?
Esta é uma pergunta difícil e polêmica.
As respostas são várias e dependem da postura assumida
pelo profissional, das expectativas da família, da natureza
da criança, do grau de deficiência auditiva e dos recursos
existentes no lugar onde que ela mora.
A educação da criança surda
em fase de socialização, nos seus primeiros anos de
vida, precisa se adequar a suas características pessoais. A
observação de suas respostas aos primeiros atendimentos
escolares e clínicos (estimulação auditiva, sociabilização
etc.), servirá para indicar o caminho a seguir: optar pelo
ensino especializado (escola e classe especial), ou pelo ensino comum.
Cada criança deve receber atendimento
de acordo com sua realidade, para poder vivenciar e explorar ao
máximo suas potencialidades.
Algumas crianças surdas têm possibilidade
de adquirir e desenvolver a linguagem oral, utilizando a fala para
se comunicar. Outras, por características pessoais e também
em decorrência do ambiente familiar em que cresceram, apresentam
linguagem oral mínima, que deve ser complementada com outras
formas de comunicação (escrita e por sinais).
A construção da linguagem oral no indivíduo
com surdez profunda é uma tarefa longa e bastante complexa,
envolvendo aquisições como: tomar conhecimento do mundo
sonoro, aprender a utilizar todas as vias perceptivas que podem complementar
a audição, perceber e conservar a necessidade de comunicação
e de expressão, compreender a linguagem e aprender a expressar-se.
Na abordagem oralista, ainda hoje adotada
por algumas instituições, a comunicação
se baseia na fala; não se aceita a utilização
dos gestos ou sinais para representar ou indicar coisas, objetos etc.
No oralismo, os resíduos de audição servem como
parâmetros para a aquisição da fala e da linguagem,
sendo associados à leitura da expressão facial.
O bilingüismo é a abordagem mais recente
e defende a idéia de que ambas as línguas - de sinais
(LSB - Língua de Sinais Brasileira) e a oral (português)
sejam ensinadas e usadas sem que uma interfira/prejudique a outra,
em situações diferentes.
Entre os mais jovens, e particularmente entre aqueles
que apresentam perdas auditivas severas e profundas, existe um movimento
para que assumam a própria surdez. Lutam por seus direitos
e buscam divulgar a Língua de Sinais Brasileira,
mostrando que se trata de uma língua com regras próprias,
como a Língua Portuguesa.
Os que adotam essa linha valorizam sua fala, levando
em conta que é uma fala diferente e valorizam também
seu direito de usar recursos variados para se comunicar, na busca
de uma melhor participação social. Rejeitam o termo
'deficiente', que embute um conceito de déficit, e defendem
uma atitude na qual seja dado valor ao indivíduo e não
à deficiência da qual ele é portador.
A educação dos surdos no Brasil
Até a década de 60, como na maioria
dos países, o Brasil seguia a orientação dominante,
considerando como melhor alternativa, para o ensino de crianças
surdas, o atendimento em separado, já que seus problemas lingüísticos
as diferenciavam das crianças ouvintes.
Assim, apareceram muitas escolas especiais para surdos,
onde os portadores de deficiência auditiva eram educados, predominantemente,
sob o aspecto da reabilitação oral.
A partir dos anos 80, seguindo a tendência
mundial de integração, adotou-se nova orientação
no campo da educação dos surdos: a meta que as escolas
passaram a se colocar ultrapassava o campo clínico/terapêutico,
englobando o campo pedagógico e lingüístico, numa
perspectiva integracionista que encontrou respaldo filosófico,
legal e político-educacional na Constituição
da República Federativa do Brasil (1988) que garante, em seu
artigo 208, inciso III, "o atendimento educacional especializado aos
portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular
de ensino"; na Convenção sobre os Direitos da Criança
(1989); na Declaração de Salamanca, resultante da "Conferência
Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: Acesso e Qualidade"
(1994); na Política Nacional de Educação Especial
(1994); no Plano Decenal de Educação para Todos (1994).
Assim, a integração do aluno surdo
ao sistema regular de ensino, entendida como um processo resultante
da evolução histórica da Educação
Especial, calcada nos direitos humanos, constitui uma tendência
que vem se acentuando nestes últimos anos, no Brasil e em outros
países.
Considerando que a meta atual da educação
dos portadores de deficiência auditiva passou a enfocar também
o aspecto acadêmico e lingüístico, as diretrizes
que têm sido traçadas conduzem às seguintes conclusões:
- A educação dos surdos deve desenvolver-se, preferencialmente,
na rede regular de ensino;
- O conteúdo programático a ser desenvolvido é
o mesmo do ensino regular;
- A orientação educacional permite o acesso, pelo
aluno, a duas línguas: a Língua de Sinais Brasileira
e a Língua Portuguesa;
- A reabilitação é parte do aprendizado de
Língua Portuguesa, em sua modalidade oral, própria,
principalmente, para o caso de alunos que iniciaram sua educação
na faixa etária de zero a seis anos;
- A aprendizagem da modalidade oral e principalmente da modalidade
escrita do Português constitui tarefa cotidiana dos professores
da classe especial, da sala de recursos e de classe comum do ensino
regular.
Sabe-se que a integração do portador
de deficiência auditiva no sistema regular de ensino representa
um processo individual (para o aluno) e acarreta uma reorganização
institucional (para a escola).
Em se tratando do aluno, faz-se necessário
estabelecer, para cada caso, o momento oportuno para que ele comece
a freqüentar a classe comum do ensino regular, se esta for a
sua opção.
Aprendendo a conviver na escola
O principal objetivo da educação infantil
é favorecer o desenvolvimento físico, motor, emocional,
cognitivo e social de todas as crianças - ouvintes ou surdas.
A escola promove experiências e conhecimentos, por meio de jogos
e brincadeiras, bem como do convívio com outras crianças
e outros adultos, fora do ambiente doméstico.
A socialização, que se inicia antes
dos 3 anos, vai se consolidando entre os 4 e os 6 anos de idade. Para
que possa expressar seus desejos e suas necessidades, utilizando gestos
e/ou sons, a criança surda deve ser exposta a uma linguagem
compreensível para ela, contribuindo assim para sua socialização.
O desafio do trabalho precoce com a criança
surda está em criar situações de comunicação
que favoreçam sua expressão e sua interação
contínua com as pessoas, utilizando-se do olhar, dos gestos,
dos sinais, da linguagem oral etc.
A escola, comum ou especializada, deve preparar a
criança surda para a vida em sociedade, oferecendo-lhe condições
de aprender um código de comunicação que permita
seu ingresso na realidade sociocultural, com efetiva participação
na sociedade.
O trabalho de linguagem, tanto em Língua Portuguesa
(oral) quanto na Língua de Sinais Brasileira (LSB),
é desenvolvido de forma a dar à criança surda
um instrumento lingüístico que a torne capaz de se comunicar.
Os principais recursos utilizados nesse trabalho
são atividades de imitação, jogos, desenho, dramatizações,
brincadeiras de faz-de-conta, histórias infantis etc. Tais
atividades possibilitam, ao mesmo tempo, a aquisição
de linguagem e a aprendizagem de conceitos e regras de um código
de comunicação, aspectos importantíssimos para
o processo de integração escolar.
A criança surda adquire sua linguagem ao relacionar
a experiência que está vivendo com a verbalização
e/ou os sinais que ela observa em outra pessoa (colega, pais, professores
etc.), bem como ao relacionar o que está sendo falado pelo
outro com suas próprias experiências e também
ao comunicar seus pensamentos e experiências de forma oral,
escrita ou com sinais.
Qualquer situação comum, especialmente
as que se vinculam às idéias e aos interesses da criança
surda, pode ser útil para estimular e desenvolver seu processo
de comunicação. Por exemplo: se ela gosta de carros,
de motos, ou de bonecas, seu brinquedo predileto pode servir de motivação
para que aprenda seus nomes, reproduza o ruído que fazem, experimente
sentir as vibrações quando os veículos passam
pela rua, observe as cores das diferentes motos ou reproduza com suas
bonecas o cuidado materno, dando nome aos sentimentos - 'eu gosto',
'eu choro', 'eu estou triste', 'eu estou alegre' etc.
É através da repetição
das palavras e da vivência que as crianças aprendem a
compreender uma língua e a usá-la. Isto vale para crianças
ouvintes e para as com perda auditiva. Mas as crianças com
perda auditiva precisam de mais estímulos, de mais repetições
e de mais vivências. A partir do momento em que a criança
surda percebe que cada objeto tem um nome, o progresso torna-se mais
rápido.
A inclusão da criança surda na escola
Quando recebe em sua classe (de ouvintes) um aluno
surdo, é freqüente que a primeira reação
do professor seja: Como vou falar com esse aluno? Não sou
especialista! Como posso ensiná-lo?
Não se pode 'jogar' a criança surda
em uma escola ou em uma classe comum, alegando a necessidade de 'inseri-la'
na escola regular; essa atitude mostra que não há um
reconhecimento da necessidade da criança surda de ter um atendimento
cuidadoso, para que desenvolva suas habilidades comunicativas.
Na proposta atual, mais inclusiva, a criança
com surdez participa do sistema educacional, não
está fora dele. É esperado que ela, bem como os professores
e toda a escola, conte com dispositivos que auxiliem seu pleno desenvolvimento
escolar, sem sacrifícios.
No entanto, a inclusão na escola comum, principalmente
no Ensino Fundamental, não é a única realidade
para todos os portadores de deficiência. Deve constituir um
processo gradativo, que respeite as diferentes necessidades e interesses
de cada um.
A inclusão da criança com surdez
em classe comum da escola regular terá mais chances de
sucesso se for gradativa e resultar de um estudo de cada caso,
individualmente.
Inicialmente, é necessário verificar
se a criança surda está preparada para freqüentar
uma classe comum, na qual as diferenças, principalmente as
que se referem à linguagem, serão evidenciadas pela
comparação com os colegas ouvintes.
Para isso, o aluno, sua família e seus professores
precisam dispor de dados - parecer médico, resultados das avaliações
audiológicas periódicas, informações da
fonoaudióloga e da família etc. - que permitam entender
melhor o que a falta de audição pode acarretar e que
tipo de reação a criança terá no ambiente
escolar.
Como condição para participar de uma
classe comum, o aluno surdo precisa ter adquirido um nível
de linguagem suficiente para permitir um diálogo, mesmo que
simples, com professores e colegas, além de contar com um bom
vocabulário e com certo domínio de leitura e escrita.
Com esse domínio da linguagem, ele pode expressar seus pensamentos
e sentimentos, e consegue ainda compreender os conceitos utilizados
nas diferentes disciplinas.
A escola comum, por sua vez, também precisa
dispor de recursos que tornem viável o processo de inclusão,
como por exemplo:
- Assessoria em relação à língua de
sinais, se a criança tiver linguagem oral restrita e às
estratégias adequadas para propiciar o diálogo, na linguagem
oral e/ou escrita;
- Material concreto e visual que sirva de apoio para garantir
a assimilação de conceitos novos;
- Contato com professores que tenham vivenciado situações
semelhantes;
- Orientação de professores da Educação
Especial - itinerantes ou de salas de recursos. Podem ser feitas reuniões
para trocar experiências e esclarecer dúvidas.
O que caracteriza o aluno (surdo ou não)
é sua capacidade de aprendizagem e não a deficiência
que apresenta. Existe um sujeito com potencial, no qual se deve
investir.
"O obstáculo sensorial
auditivo cria situações comunicativas específicas
para o surdo, porém não o impede de adquirir uma linguagem,
nem o desenvolvimento de sua capacidade de representação.
Este processo envolve mecanismos mentais diferentes daqueles da
pessoa ouvinte e, por isso, tornam-se responsáveis pela construção
de esquemas de pensamento e estratégias intelectuais que
dependem da natureza do desenvolvimento lingüístico-cognitivo
que lhes é próprio".2
Tanto no ensino comum quanto no especializado, o
aluno precisa se sentir envolvido no processo de aprendizagem, participar
de fato e ser capaz de fazer escolhas com responsabilidade, programando-se
para o futuro.
O conteúdo curricular a ser desenvolvido para
o aluno surdo é exatamente o mesmo trabalhado com os alunos
ouvintes, com base nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN).
São necessárias adaptações curriculares
para atender à especificidade da clientela, seja na escola
especial ou na regular. O uso de materiais variados (jornais, revistas,
propagandas, noticiários de TV, computadores etc.) contribui
para motivar os alunos, mantê-los atualizados em relação
aos acontecimentos do mundo e dar-lhes uma visão ampla dos
acontecimentos.
Todos os alunos serão beneficiados se o professor
proporcionar atividades a partir de centros de interesse, integrando
diferentes disciplinas.
Na visão inclusiva, a criança com perda
auditiva deve ser acolhida a partir de uma proposta globalizadora,
que valorize a escolaridade, os hábitos e as atitudes preparatórios
para a vida adulta e que possibilite a ela se tornar responsável
pelo próprio processo escolar e consciente de seus direitos,
que são os mesmos dos ouvintes.
Os educadores devem considerar, além da metodologia,
as necessidades específicas dos alunos, com o objetivo de favorecer
sua adaptação e sua integração.
O papel do professor
Compete ao professor:
- Desenvolver o processo ensino-aprendizagem com
o aluno surdo, adotando a mesma proposta curricular do ensino regular,
com adaptações que possibilitem:
- O acesso ao currículo, utilizando sistemas de comunicação
alternativos, como a Língua Brasileira de Sinais, a mímica,
o desenho, a expressão corporal;
- A utilização de técnicas, procedimentos
e instrumentos de avaliação compatíveis com as
necessidades do aluno surdo, sem alterar os objetivos da avaliação
e o seu conteúdo, como, por exemplo, maior valorização
do conteúdo em detrimento da forma da mensagem expressa;
- A supressão de atividades que não possam ser alcançadas
pelo aluno surdo devido à sua deficiência, substituindo-as
por outras mais acessíveis, significativas e básicas.
Por exemplo: O "ditado" cujo objetivo para os alunos ouvintes é
verificar a ortografia das palavras, para o surdo transforma-se em
"teste de leitura labial". Porém, não se justifica a
eliminação de conteúdos curriculares.
Sugestões de apoio ao aluno com deficiência auditiva
- Os alunos com deficiências auditivas devem ficar sempre
na primeira fila na sala de aula. Se possível, o aluno deve
utilizar um recurso acústico (Prótese Auditiva e/ou
Sistema de FM), para amplificar o som da sala;
- Há alunos que conseguem ler os movimentos dos lábios.
Assim, o professor e os colegas devem falar o mais claramente possível,
evitando voltar-se de costas enquanto fala. É extremamente
difícil para estes alunos anotarem nas aulas, durante a exposição
oral da matéria, principalmente aqueles que fazem leitura labial
enquanto o professor fala;
- É sempre útil fornecer uma cópia dos textos
com antecedência, assim como uma lista da terminologia técnica
utilizada na disciplina, para o aluno tomar conhecimento das palavras
e do conteúdo da aula a ser lecionada. Pode também justificar-se
a utilização de um intérprete (uso de linguagem
sinais);
- Este estudante poderá necessitar de tempo extra para
responder aos testes;
- O professor deve falar com naturalidade e clareza, não
exagerando no tom de voz;
- O professor deve evitar estar em frente à janela ou outras
fontes de luz, pois o reflexo pode obstruir a visão;
- Quando falar, não bloqueie a área à volta
da boca;
- Quando utilizar o quadro ou outros materiais de apoio audiovisual,
primeiro exponha os materiais e só depois explique ou vice-versa
(ex.: escreva o exercício no quadro ou no caderno e explique
depois e não simultaneamente);
- Repita as questões ou comentários durante as discussões
ou conversas e indique (por gestos) quem está a falar, para
uma melhor compreensão por parte do aluno;
- Escreva no quadro ou no caderno do aluno datas e informações
importantes, para assegurar que foram entendidas;
- Durante os exames, o aluno deverá ocupar um lugar na
fila da frente para melhor ouvir esclarecimentos do docente. Um pequeno
toque no ombro do aluno poderá ser um bom sistema para lhe
chamar a atenção, antes de fazer um esclarecimento.
Como tratar pessoas surdas
- Não é correto dizer que alguém é
surdo-mudo. Muitas pessoas surdas não falam porque não
aprenderam a falar. Muitas fazem a leitura labial, outras não;
- Quando quiser falar com uma pessoa surda, se ela não
estiver prestando atenção em você, acene para
ela ou toque em seu braço levemente;
- Quando estiver conversando com uma pessoa surda, fale de maneira
clara, pronunciando bem as palavras, mas não exagere. Use a
sua velocidade normal, a não ser que lhe peçam para
falar mais devagar;
- Use um tom normal de voz, a não ser que lhe peçam
para falar mais alto. Gritar nunca adianta;
- Fale diretamente com a pessoa, não de lado ou atrás
dela. Faça com que a sua boca esteja bem visível. Gesticular
ou segurar algo em frente à boca torna impossível a
leitura labial. Usar bigode também atrapalha;
- Se você souber alguma linguagem de sinais, tente usá-la.
Se a pessoa surda tiver dificuldade em entender, avisará. De
modo geral, suas tentativas serão apreciadas e estimuladas;
- Seja expressivo ao falar. Como as pessoas surdas não
podem ouvir mudanças sutis de tom de voz que indicam sentimentos
de alegria, tristeza, sarcasmo ou seriedade, as expressões
faciais, os gestos e o movimento do seu corpo serão excelentes
indicações do que você quer dizer;
- Enquanto estiver conversando, mantenha sempre contato visual,
se você desviar o olhar, a pessoa surda pode achar que a conversa
terminou;
- Nem sempre a pessoa surda tem uma boa dicção.
Se tiver dificuldade para compreender o que ela está dizendo,
não se acanhe em pedir para que repita. Geralmente, as pessoas
surdas não se incomodam de repetir para que sejam entendidas;
- Se for necessário, comunique-se através de bilhetes.
O importante é se comunicar. O método não é
tão importante;
- Quando a pessoa surda estiver acompanhada de um intérprete,
dirija-se à pessoa surda, não ao intérprete.
NOTAS:
* Socióloga. Gerente da Rede SACI - Solidariedade,
Apoio, Comunicação e Informação (www.saci.org.br).
Consultora desta série.
1
Carvalho, Rosita Edler. "Integração, inclusão
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2
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4)
BEVILACQUA, Maria Cecília & BALIEIRO,
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SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: construindo
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FIGUEIRA, Emílio. Vamos conversar sobre
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1982.
MORAES, Zulca Rossetto de. Temas sobre desenvolvimento,
v. 5 (27): 18-26. Francisco Alves, 1983.
Revistas
- Revista Integração
- Editada pelo Ministério da Educação e do Desporto
- Secretaria de Educação Especial
- Cadernos da TV Escola
- Editados pelo Ministério da Educação
- Secretaria de Educação a Distância
- Revista da FENEIS
- Editada pela Federação Nacional de Educação
e Integração de Surdos
- Revista Brasileira de Educação Especial
- Editada pela Associação Brasileira de Pesquisadores
em Educação Especial
- Revista Con-Tato
- Editada por Laramara - Associação Brasileira de Assistência
ao Deficiente Visual
- Revista Benjamin Constant
- Editada pelo Instituto Benjamin Constant
- Jornal SuperAção
- Editado pelo Centro de Vida Independente do Rio de Janeiro
- Revista Distúrbios da Comunicação
- Editada pela Faculdade de Fonoaudiologia PUC/SP.
Sites
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- www.mec.gov.br
- www.mec.gov.br/seed/tvescola/cadernos/default.shtm
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- www.entreamigos.com.br
- www.feneis.com.br
- www.terravista.pt/copacabana/
- www.niee.ufrgs.br/~lucila
- http://penta.ufrgs.br:80/edu/telelab/edusurdos
- www.ibcnet.org.br
- www.fundacaodorina.org.br
- www.apae.org.br
- www.aacd.org.br
- www.mj.gov.br/corde/webcorde.htm
NOTAS:
*
Socióloga.
Gerente da Rede SACI - Solidariedade, Apoio, Comunicação
e Informação (www.saci.org.br). Consultora desta
série.

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