ESPAÇOS
DE INCLUSÃO
Apresentação
Marta Gil*
"A deficiência é uma dentre
todas as possibilidades do ser humano e daí dever
ser considerada, mesmo se as suas causas e conseqüências
se modificam, como um fato natural que nós
mostramos e de que falamos, do mesmo modo que o fazemos
em relação a todas as outras potencialidades
humanas" (UNESCO, 1977).
"Nós não devemos deixar que
as incapacidades das pessoas nos impossibilitem de reconhecer
as suas habilidades. As características mais importantes
das crianças e jovens com deficiência são
as suas habilidades" (Hallahan e Kauffman, 1994).
"Uma criança deficiente não
é respeitada se for abandonada à sua deficiência,
do mesmo modo que não é respeitada se se negar
a realidade da sua deficiência. É respeitada
se a sua identidade, a sua originalidade, da qual a deficiência
também faz parte, for favorecida e quase provocada,
isto é, se ela for levada a desenvolver-se. Tal é
a atitude realista ativa, em situação e em
relação. Se for ao contrário, temos
o realismo inerte" (Canevaro, 1984).
Vivemos um momento histórico caracterizado
por mudanças, turbulências e crises, mas também
pelo surgimento de oportunidades.
Esta situação pode ser constatada
na área da Deficiência, entre outras. Basta olhar à
nossa volta: há mais pessoas com deficiência nas ruas
e locais públicos; elas aparecem com mais freqüência
no noticiário, inclusive no esportivo: nas últimas
Paraolimpíadas, conquistaram muito mais medalhas (inclusive
de ouro e prata) que os nossos atletas brasileiros ditos "normais"...
Elas se destacam na música (podemos citar o reggae d' "A
Tribo de Jah", por exemplo), ganham as passarelas, como modelos
fotográficos, como Mara Gabrilli e Ranulfo, e também
escrevem livros, como Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens
Paiva. O Pirata, que ganhou este apelido por ter uma prótese
na perna, continua surfando e ensinando portadores de deficiência
a surfar; a Equiperneta, composta por jovens com diferentes tipos
de deficiência física, foi praticar esportes radicais
no Nepal, há uns dois anos, façanha que foi mostrada
na televisão.
Estes exemplos (e muitos outros mais) indicam que
há um processo social em curso, denominado "inclusão"
pelos estudiosos: de um lado, a sociedade começa a perceber
a existência de pessoas portadoras de deficiência e
a se organizar, para acolhê-las e, de outro, as próprias
pessoas com deficiência começam a se mostrar, a reivindicar
seus espaços, a exercer seu papel de cidadãs.
Como todo processo social, este também é
complexo e acontece de forma gradual. Afinal, para que a inclusão
aconteça é preciso modificar séculos de história,
de preconceitos muito arraigados, de ambos os lados - e isso não
acontece de um dia para o outro.
A inclusão ocorre nas escolas, nas lanchonetes,
nos shopping centers, no trabalho, nas igrejas - enfim, em todos
os espaços de interação humana. Nesta série
do Salto para o Futuro/TV Escola, vamos focalizar principalmente
o que está acontecendo nas escolas, com a Educação
Especial, que passa a se chamar Educação Inclusiva.
É nosso propósito apresentar material para reflexão
dos que estão envolvidos com o processo pedagógico.
Como pensar em incluir e, mais ainda, como exercer
a inclusão, se não conhecemos estas pessoas, se não
temos informações sobre elas - enfim, se elas ainda
não existem para nós? Estes e outros temas serão
debatidos nos cinco programas da série Espaços de
inclusão, que será apresentada no programa Salto para
o Futuro, da TV Escola, de 22 a 26 de abril de 2002.
Temas que serão abordados na série Espaços de Inclusão
PGM 1: O QUE É INCLUSÃO SOCIAL?
Este termo "inclusão social" tem sido bastante
veiculado e discutido, em substituição ao conceito
utilizado anteriormente, de "integração social", em
muitos países, não apenas no Brasil. Porém,
há várias acepções deste termo, que
introduz um novo paradigma em nossa sociedade e assinala outra etapa
no processo de conquista dos direitos por parte das PPD - Pessoas
Portadoras de Deficiência e de simpatizantes desta causa.
Neste programa, abordaremos este conceito, através de perguntas
"provocadoras" e mantendo, sempre que possível, o foco sobre
a situação nas escolas: O que significa inclusão?
Quem são, realmente, as pessoas portadoras de deficiência?
Por que elas estavam "invisíveis", até há pouco
tempo?
PGM 2: DEFICIÊNCIA MENTAL E INCLUSÃO SOCIAL
Este programa focaliza a realidade das pessoas
com deficiência mental, que representam de 40 a 50% do segmento
das PPD. Dada a grande ênfase que nossa cultura coloca sobre
o desempenho e as habilidades cognitivas, percebidas até
mesmo em ditados populares como "O homem que lê vale mais",
as pessoas com este tipo de deficiência recebem a carga mais
expressiva de atitudes e sentimentos discriminatórios e são
consideradas "eternas crianças". Este programa focalizará
sua atuação em diversos ambientes sociais: na escola,
no trabalho, em atividades de lazer e tendo direito à expressão
de sua sexualidade.
PGM 3: DEFICIÊNCIA VISUAL E INCLUSÃO SOCIAL
A incidência de deficiência visual
corresponde a aproximadamente 20 a 30% dos casos de deficiência.
Infelizmente, estes números têm apresentado tendência
a aumentar, em decorrência do aumento da violência,
nas cidades de médio e grande porte. Este programa mostrará
portadores de deficiência visual parcial ou total desempenhando
tarefas profissionais, aprendendo o alfabeto Braille e tendo acesso
a museus.
PGM 4: DEFICIÊNCIA FÍSICA E INCLUSÃO
SOCIAL
Embora as pessoas utilizem o termo "deficiência
física" de forma genérica, para designar todos os
tipos de deficiência, para os que atuam na área ele
indica pessoas com comprometimentos motores e/ou de locomoção,
em braços e/ou pernas. Este tipo de deficiência também
tem aumentado, em grande parte como conseqüência da violência
urbana e da prática de esportes radicais. Este programa mostrará
alternativas de adaptações arquitetônicas que
proporcionam autonomia, situações de inclusão
em salas de aula e no trabalho.
PGM 5: DEFICIÊNCIA AUDITIVA E INCLUSÃO
SOCIAL
A situação das pessoas com deficiência
auditiva é, freqüentemente, minimizada tanto por familiares
quanto por medidas do Poder Público, que traduzem esta percepção
na frase: "Ora, mas ele/a é apenas surdo/a", sem se dar conta
do que esta deficiência afeta a capacidade de compreensão
e de comunicação destas pessoas. Assim, os estudos
e as iniciativas voltadas para a compreensão e o atendimento
deste segmento das PPD são em menor número. Este programa
vai mostrar a pessoa surda em diversos ambientes de aprendizagem
e exercendo o lazer.
PGM 1: O que é inclusão social?
Marta Gil*
Começando a conversa: quem são as PPD - Pessoas Portadoras
de Deficiência?
Há muitas maneiras de conceituar quem pode
ser classificado como portador de deficiência; estes conceitos
mudaram, ao longo da História, assim como as palavras utilizadas
para exprimi-los. Termos como: retardado, doentinho, aleijado,
surdo-mudo, surdinho, mudinho, excepcional, mongolóide, débil
mental e outros não são mais aceitos, atualmente,
pois carregam muitos preconceitos. E todos nós sabemos o quanto
as palavras são poderosas...
Atualmente, os termos adequados são: Pessoa
Portadora de Deficiência, Pessoa com Deficiência ou Pessoa
com Necessidades Especiais. Estes termos sinalizam que, em primeiro
lugar, referimo-nos a uma PESSOA que, dentre outros atributos
e características, tem uma deficiência, mas ela não
É esta deficiência. O que importa, em primeiro lugar,
é a pessoa.
Estes termos também despertam controvérsias;
cada um deles tem defensores, com argumentos próprios. Acreditamos
que o fundamental é referir-se a estas pessoas ou conversar
com elas de forma natural e respeitosa.
Em termos gerais, podemos definir que "Pessoa
Portadora de Deficiência" é a que apresenta, em comparação
com a maioria das pessoas, significativas diferenças físicas,
sensoriais ou intelectuais, decorrentes de fatores inatos e/ou adquiridos,
de caráter permanente e que acarretam dificuldades em sua interação
com o meio físico e social.
No Brasil, o Decreto n. 3.298 de 20 de dezembro de
1999 considera pessoa portadora de deficiência a que se enquadra
em uma das seguintes categorias:
Deficiência Física: "Alteração
completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando
o comprometimento da função física, apresentando-se
sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia,
tetraparesia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, amputação
ou ausência de membro, paralisia cerebral, membros com deformidade
congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas
e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções";
Deficiência Auditiva: "Perda parcial
ou total das possibilidades auditivas sonoras, variando em graus e
níveis" que vão de 25 decibéis (surdez leve)
à anacusia (surdez profunda);
Deficiência Visual: "Acuidade visual
igual ou menor que 20/200 no melhor olho, após a melhor correção,
ou campo visual inferior a 20 (tabela de Snellen), ou ocorrência
simultânea de ambas as situações";
Deficiência Mental: "Funcionamento intelectual
geral significativamente abaixo da média, oriundo do período
de desenvolvimento, concomitante com limitações associadas
a duas ou mais áreas da conduta adaptativa ou da capacidade
do indivíduo em responder adequadamente às demandas
da sociedade";
Deficiência Múltipla: "É
a associação, no mesmo indivíduo, de duas ou
mais deficiências primárias (mental/visual/auditiva/física),
com comprometimentos que acarretam conseqüências no seu
desenvolvimento global e na sua capacidade adaptativa".
Uma das possibilidades de ocorrência de deficiência
múltipla é a surdocegueira, na qual a pessoa
tem uma perda substancial de visão e audição,
de tal forma que a combinação das duas causa muita dificuldade
no dia-a-dia, demandando o emprego de metodologias próprias
para comunicação e aprendizagem.
No outro extremo da escala das habilidades intelectuais
estão as pessoas que são consideradas superdotadas
ou com altas habilidades, que se caracterizam por um notável
desempenho e elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos,
isolados ou combinados:
- Alta capacidade intelectual geral;
- Aptidão acadêmica específica;
- Pensamento criativo ou produtivo;
- Capacidade de liderança;
- Talento especial para artes;
- Capacidade psicomotora.
Além destes quatro tipos de deficiência
anteriormente citados, há um outro grupo de comportamentos
e atitudes que se diferencia do padrão considerado normal e
que recebe o nome de condutas típicas. Estas podem ser
definidas como manifestações de comportamento típicas
de portadores de síndromes e quadros psicológicos, neurológicos
ou psiquiátricos, que ocasionam atrasos no desenvolvimento
e prejuízos no relacionamento social, em grau que requeira
atendimento educacional especializado.
Vale a pena mencionar, ainda que brevemente, o autismo,
que é uma síndrome definida por alterações
presentes, em geral, por volta do 3º ano de vida e que se caracteriza
pela presença de desvios nas relações interpessoais,
linguagem/comunicação, jogos e comportamentos.
Dentre os sinais mais característicos do autismo,
podemos citar:
- Tendência ao isolamento;
- Movimentos repetitivos, aparentemente sem função
e sem objetivo (esteriotipia);
- Dificuldade no relacionamento com outras pessoas (não
mantém diálogo, mantém o olhar distante, rejeita
contatos físicos);
- Faz uso de seu nome quando se refere a si próprio;
- Repete palavras ou frases constantemente (ecolalia);
- Ausência de noção de perigo;
- Permanência em situação de fantasia desvinculada
da realidade;
- Hiperatividade intensa e permanente;
- Necessidade de manter rotinas obsessivas de comportamento, apresentando
reação de pânico quando há alguma interferência.
A série Espaços de Inclusão
trata da problemática referente aos portadores de deficiências
física, mental, auditiva e visual.
Gradações
É fácil perceber que, qualquer que
seja o tipo de deficiência, ele apresenta gradações:
há pessoas com comprometimentos maiores, que exigem equipamentos
como cadeira de rodas, e há outras cujas limitações
são menores; algumas conseguem aprender a ler e escrever, mas
outras não. A Organização Mundial da Saúde
define estes graus usando as seguintes classificações:
Desvantagem (handicap): "No domínio
da saúde, a desvantagem representa um impedimento sofrido por
um dado indivíduo, resultante de uma deficiência ou de
uma incapacidade, que lhe limita ou lhe impede o desempenho de uma
atividade considerada normal para ele, levando em conta a idade, o
sexo e os fatores sócio-culturais" (OMS, 1980, p. 37).
A situação de desvantagem só
se determina em relação a outros, sendo por isso um
fenômeno social. Caracteriza-se por uma discordância entre
o nível de desempenho do indivíduo e as expectativas
que o seu grupo social tem em relação a ele. A situação
de desvantagem expressa, pois, o conjunto de atitudes e respostas
dos que não sofrem de desvantagens.
Deficiência: "No domínio da saúde,
deficiência representa qualquer perda ou anormalidade da estrutura
ou função psicológica, fisiológica ou
anatômica". Dizer que um indivíduo "tem uma deficiência"
não implica, portanto, que ele tenha uma doença nem
que tenha de ser encarado como "doente".
Incapacidade: No campo da saúde, indica
uma desvantagem individual, resultante da desvantagem ou da deficiência,
que limita ou impede o cumprimento ou desempenho de um papel social,
dependendo da idade, sexo e fatores sociais e culturais.
A incapacidade, estabelecendo a conexão entre
a deficiência e a desvantagem, representa um desvio da norma
relativamente ao comportamento ou atividade habitualmente esperados
do indivíduo. A incapacidade não é um desvio
do órgão ou do mecanismo, mas sim um "desvio" em termos
de atuação global do indivíduo e pode ser temporária
ou permanente, reversível ou irreversível, progressiva
ou regressiva.
Estes conceitos da OMS são seguidos por praticamente
todas as organizações internacionais que abordam a problemática
da Deficiência: UNESCO, International Rehabilitation, OIT, ONU
e outras.
Trazendo estes conceitos para o contexto da inclusão
dos alunos com deficiências, podemos perceber que os aspectos
que adquirem maior relevância neste cenário são
as desvantagens funcionais que eles apresentam. Nem sempre a comunidade
escolar está preparada para lidar com elas e não sabe
o que fazer. Isso cria um desconforto na interação social,
fazendo com que muitos evitem as crianças com deficiência
ou façam piadinhas de mau gosto.
Estas atitudes mostram a existência de preconceitos
e de estigma.
Deficiência: verdades e mitos
Verdades
- Deficiência não é doença;
- Algumas crianças portadoras de deficiências podem
necessitar de escolas especiais;
- As adaptações são recursos necessários
para facilitar a integração dos educandos com necessidades
especiais nas escolas;
- Síndromes de origem genética não são
contagiosas;
- Deficiente mental não é louco.
Mitos
- Todo surdo é mudo;
- Todo cego tem tendência à música;
- Deficiência é sempre fruto de herança familiar;
- Existem remédios milagrosos que curam as deficiências;
- As pessoas com necessidades especiais são eternas crianças;
- Todo deficiente mental é dependente.
O que fazer, se suspeitar da ocorrência de deficiência?
- Entre em contato com a família, para verificar se estes
comportamentos estão presentes também em casa e se já
foi tomada alguma providência;
- Recomende que a criança seja encaminhada a serviços
especializados, para fins de avaliação.
Por que temos preconceitos?
É normal ter preconceito.
O preconceito faz parte da natureza humana, desde
o início dos tempos. O homem desconfia e tem medo de tudo o
que é diferente dele mesmo. O "outro" inspira receio, temor,
insegurança; daí para adotar atitudes defensivas e de
ataque é um passo.
Esses sentimentos eram importantes no tempo das cavernas,
quando os homens eram poucos e lutavam bravamente para sobreviver
em um ambiente hostil. Infelizmente, persistem até hoje, nas
lutas entre católicos e protestantes, árabes e judeus,
muçulmanos e cristãos, brancos e negros... A lista dos
pontos de divergência é grande mas, no fundo, o ponto
essencial reside na diferença entre Eu e o Outro.
A rotina das relações sociais nos leva,
mais ou menos conscientemente, a "classificar" as pessoas de acordo
com uma escala de valores a priori, como resultante da nossa
educação e das nossas referências culturais (do
lugar que ocupamos na "escala social"). Os critérios dessa
"classificação" são variados: a qualidade da
expressão, o modo de olhar, a maneira de comer, a forma de
andar, a forma de vestir, o senso de humor etc.
Muitas vezes, a segregação começa
a partir da colocação de "rótulos" ou de "etiquetas"
nas pessoas com deficiência, do tipo "não vai aprender
a ler", "não pode fazer tal movimento" e outros. Estas "etiquetas"
têm conseqüências sobre a forma como estas pessoas
são aceitas pela sociedade e não permitem que a própria
pessoa se exprima e mostre do que é capaz. A ênfase recai
sobre a INcapacidade, sobre a Deficiência e não
sobre a Eficiência, a Capacidade, a Possibilidade.
"O normal e o estigmatizado não são
pessoas concretas e sim, perspectivas que são geradas em situações
sociais. Assim, nenhuma diferença é em si mesma vantajosa
ou desvantajosa, pois a mesma característica pode mudar sua
significação, dependendo dos olhares que se lançam
sobre elas" (Proposta Curricular de Santa Catarina - 1998).
Felizmente, esta postura começa a ser alterada
e os profissionais, principalmente na área da Educação,
estão voltando o diagnóstico e a atuação
para as possibilidades e os recursos que a pessoa portadora de deficiência
tem.
E, deste ponto de vista, a heterogeneidade,
característica presente em qualquer grupo humano, passa a ser
vista como fator imprescindível para as interações
na sala de aula.
A partir do reconhecimento e da aceitação
de nossos preconceitos e desconfianças, estamos aptos a mudar
nosso comportamento e a aceitar que o objeto destes sentimentos é
uma pessoa como nós, ou seja, começaremos a identificar
os pontos comuns entre nós e não mais a acentuar as
diferenças. Poderemos, então, identificar o que nos
une e constatar que nossa essência é a mesma: somos seres
humanos, cuja diversidade indica riqueza de situações
e possibilidade de intercâmbio de vivências e de aprendizagem.
Os diferentes ritmos, comportamentos, experiências,
trajetórias pessoais, contextos familiares, valores e níveis
de conhecimento de cada criança (e do professor) imprimem ao
cotidiano escolar a possibilidade de troca de repertórios,
de visão de mundo, bem como os confrontos e a ajuda mútua,
e a conseqüente ampliação das capacidades individuais.
Por que as pessoas portadoras de deficiência são "invisíveis"?
Às vezes, até parece que as pessoas
com deficiência não existem, são fantasmas...
Elas não são muito vistas nas ruas, ou na televisão,
ou na política... Como se explica isso?
Na verdade, desde que o mundo é mundo sempre
houve pessoas com deficiência. Mas, nem sempre estas pessoas
foram consideradas da mesma maneira.
No passado, a sociedade freqüentemente colocou
obstáculos à integração das pessoas deficientes.
Receios, medos, superstições, frustrações,
exclusões, separações estão, lamentavelmente,
presentes desde os tempos da antiga Grécia, em Esparta, onde
essas pessoas eram jogadas do alto de montanhas, ou em Atenas, onde
elas eram abandonadas nas florestas.
Adotando esta atitude de "longe dos olhos, longe
do pensamento", Platão chegou mesmo a ponto de afirmar, quando
dizia como deveria ser a sociedade ideal:
"As mulheres dos nossos militares são pertença
da comunidade, assim como os seus filhos, e nenhum pai conhecerá
o seu filho e nenhuma criança os seus pais. Funcionários
preparados tomarão conta dos filhos dos bons pais, colocando-os
em certas enfermarias de educação, mas os filhos dos
inferiores, ou dos melhores, quando surjam deficientes ou deformados,
serão postos fora, num lugar misterioso e desconhecido, onde
deverão permanecer."
Na Idade Média, eram freqüentes os apedrejamentos
ou a morte nas fogueiras da Inquisição das pessoas com
deficiência, pois eram consideradas como possuídas pelo
demônio.
No séc. XIX e princípios do séc.
XX a esterilização foi usada como método para
evitar a reprodução desses "seres imperfeitos". O nazismo
promoveu a aniquilação pura e simples das pessoas com
deficiência, porque não correspondiam à "pureza"
da raça ariana.
Paralelamente a estas atitudes extremas de aniquilamento,
outras atitudes eram adotadas, como o isolamento destas pessoas em
grandes asilos (como na Inglaterra), além de comportamentos
marcados por rejeição, vergonha e medo.
Foi apenas a partir da Revolução Francesa
e das suas bandeiras de liberdade, igualdade e fraternidade que estas
pessoas passaram a ser objeto de assistência (mas ainda não
de educação) e entregues aos cuidados de organizações
caritativas e religiosas.
Após a 2a
Guerra Mundial, os direitos humanos começaram a ser valorizados;
surgem os conceitos de igualdade de oportunidades, direito à
diferença, justiça social e solidariedade nas novas
concepções jurídico-políticas, filosóficas
e sociais de organizações como a ONU - Organização
das Nações Unidas, a UNESCO, a OMS - Organização
Mundial de Saúde, a OIT - Organização Internacional
do Trabalho e outras. As pessoas com deficiência passaram a
ser consideradas como possuidoras dos mesmos direitos e deveres dos
outros cidadãos e, entre eles, o direito à participação
na vida social e à sua conseqüente integração
escolar e profissional.
Segundo a UNESCO (1977, p. 5-6), pode-se dividir
a história da humanidade em cinco fases, de acordo com o modo
como os deficientes foram tratados e considerados:
1. Fase filantrópica - em que
as pessoas com deficiência são consideradas doentes
e portadoras de incapacidades permanentes inerentes à sua
natureza. Portanto, precisavam ficar isoladas para tratamento e
cuidados de saúde;
2. Fase da "assistência pública"
- em que o mesmo estatuto de "doentes" e "inválidos"
implica a institucionalização da ajuda e da assistência
social;
3. Fase dos direitos fundamentais, iguais
para todas as pessoas, quaisquer que sejam as suas limitações
ou incapacidades. É a época dos direitos e liberdades
individuais e universais de que ninguém pode ser privado,
como é o caso do direito à educação;
4. Fase da igualdade de oportunidades - época
em que o desenvolvimento econômico e cultural acarreta a massificação
da escola e, ao mesmo tempo, faz surgir o grande contingente de
crianças e jovens que, não tendo um rendimento escolar
adequado aos objetivos da instituição escolar, passam
a engrossar o grupo das crianças e jovens deficientes mentais
ou com dificuldades de aprendizagem;
5. Fase do direito à integração
- se na fase anterior se "promovia" o aumento das "deficiências",
uma vez que a ignorância das diferenças, o não
respeito pelas diferenças individuais mascarado como defesa
dos direitos de "igualdade" agravava essas diferenças, agora
é o conceito de "norma" ou de "normalidade" que passa a ser
posto em questão.
Mas, como diz ainda a UNESCO, estas fases só
aparentemente se sucedem de forma cronológica. Na verdade,
o que acontece é que estas diferentes atitudes e concepções
face às pessoas com deficiência se sobrepõem,
mesmo nos nossos dias.
Atitudes que contribuem para a integração da pessoa
com necessidades especiais
- Acesso ao conhecimento e à informação;
- Convivência, que estimula o relacionamento;
- rompimento de padrões de comportamentos estabelecidos.
Estratégias para facilitar mudança de atitudes
- Filmes mostrando como pessoas com necessidades especiais podem
viver integradas em sua comunidade;
- Palestras com pessoas com necessidades especiais relatando suas
experiências;
- Palestras com profissionais acerca da problemática das
deficiências;
- Livros e folhetos informativos sobre a deficiência.
Quando você encontrar uma pessoa com deficiência
Segundo o CEDIPOD - Centro de Documentação
e Informação do Portador de Deficiência e a CORDE-
Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora
de Deficiência, aqui vão algumas dicas de comportamento.
Muitas pessoas não deficientes ficam confusas
quando encontram uma pessoa com deficiência. Isso é natural.
Todos nós podemos nos sentir desconfortáveis diante
do "diferente".
Esse desconforto diminui e até desaparece
quando há convivência entre pessoas deficientes e não
deficientes.
Não faça de conta que a deficiência
não existe. Se você se relacionar com uma pessoa deficiente
como se ela não tivesse uma deficiência, você vai
estar ignorando uma característica muito importante dela. Dessa
forma, você não estará se relacionando com ela,
mas com outra pessoa, uma que você inventou, que não
é real.
Aceite a deficiência. Ela existe e você
precisa levá-la na sua devida consideração.
Não subestime as possibilidades, nem superestime
as dificuldades e vice-versa.
As pessoas com deficiência têm o direito,
podem e querem tomar suas próprias decisões e assumir
a responsabilidade por suas escolhas.
Ter uma deficiência não faz com que
uma pessoa seja melhor ou pior do que uma pessoa não deficiente.
Provavelmente, por causa da deficiência, essa
pessoa pode ter dificuldade para realizar algumas atividades e, por
outro lado, poderá ter extrema habilidade para fazer outras
coisas. Exatamente como todo mundo.
A maioria das pessoas com deficiência não
se importa de responder perguntas, principalmente aquelas feitas por
crianças, a respeito da sua deficiência e como ela transforma
a realização de algumas tarefas. Mas, se você
não tem muita intimidade com a pessoa, evite fazer perguntas
íntimas.
Quando quiser alguma informação de
uma pessoa deficiente, dirija-se diretamente a ela e não a
seus acompanhantes ou intérpretes.
Sempre que quiser ajudar, ofereça ajuda. Espere
sua oferta ser aceita, antes de ajudar. Pergunte a forma mais adequada
para fazê-lo.
Mas não se ofenda se seu oferecimento for
recusado, pois nem sempre as pessoas com deficiência precisam
de auxílio. Às vezes, uma determinada atividade pode
ser mais bem desenvolvida sem assistência.
Se você não se sentir confortável
ou seguro para fazer alguma coisa solicitada por uma pessoa deficiente,
sinta-se livre para recusar. Neste caso, seria conveniente procurar
outra pessoa que possa ajudar.
As pessoas com deficiência são pessoas
como você. Têm os mesmos direitos, os mesmos sentimentos,
os mesmos receios, os mesmos sonhos.
Você não deve ter receio de fazer ou
dizer alguma coisa errada. Aja com naturalidade e tudo vai dar certo.
Se ocorrer alguma situação embaraçosa,
uma boa dose de delicadeza, sinceridade e bom-humor nunca falha.
Como a PPD tem sido vista pela Educação
Em termos educativos, o conceito de Deficiência
tem evoluído ao longo dos tempos, acompanhando as concepções
de desenvolvimento e de aprendizagem.
Durante a primeira metade do séc. XX, os conceitos
de "deficiência" / "diminuição" / handicap /inadaptação
incluíam as características de inatismo e de determinismo,
implicando a concepção de que "uma vez deficiente, deficiente
para sempre".
Esta compreensão impulsionou muitos estudos,
que tinham por objetivo organizar em diferentes categorias todos os
possíveis distúrbios que pudessem ser detectados.
Esta fase de categorização e etiquetagem,
que via a "deficiência" ou o "distúrbio" como uma característica
inerente à criança, trouxe consigo duas conseqüências
fundamentais:
- A necessidade de uma "detecção precisa" da deficiência,
com o conseqüente desenvolvimento dos Testes de Inteligência
e outras técnicas de diagnóstico quantitativo;
- A generalização da idéia de que, sendo
as "deficiências" irrecuperáveis, as crianças
por elas afetadas deveriam ser "colocadas" num sistema educacional
à parte (escolas especiais).
De acordo com esta compreensão da Deficiência,
os efeitos das deficiências físicas e sensoriais eram
deterministicamente atribuídos ao próprio indivíduo
e as dificuldades sentidas por este tipo de alunos na escola eram
concebidas em termos de deficiência mental; crianças
ou jovens com marcadas dificuldades físicas, sensoriais, mentais,
comportamentais ou de comunicação eram considerados
como qualitativamente diferentes dos outros alunos, com características
consideradas inalteráveis e permanentes e, como tal, fazia
sentido a existência de um sistema educacional separado do ensino
regular.
Nos anos 40 e 50 surgem profundas e importantes alterações
com o fortalecimento das correntes "ambientalistas" e "comportamentalistas".
Questionando amplamente a "constitucionalidade" e a "incurabilidade"
dos distúrbios, os partidários destas teorias afirmavam
que a "deficiência" podia ser "provocada" pela "ausência
de estimulação adequada ou por processos de aprendizagem
incorretos".
Ao assim pensar, os adeptos destas correntes não
só acabaram por incluir os conceitos de "adaptação
social" e de aprendizagem na definição de "atraso mental",
por exemplo, como permitiram consideráveis avanços na
compreensão de que "todas as crianças são educáveis"
e deram um profundo golpe nas concepções da "incurabilidade"
das deficiências.
Entretanto, a partir dos anos 60 e principalmente
da década de 70, em decorrência da contribuição
de muitas disciplinas e ramos da ciência, uma grande "revolução"
se deu no conceito de "deficiência" aplicado às crianças
e jovens em idade escolar. Tal alteração tem por base
uma mudança de perspectiva, colocando no centro do problema
não a deficiência do indivíduo, mas as suas necessidades
particulares, para procurar o meio ambiente no qual se poderá
desenvolver melhor.
Assim, durante a década de 70, por todo o
mundo ocidental, um amplo movimento de alargamento da escolaridade
obrigatória a todas as crianças faz com que os diferentes
países prestassem uma atenção particular à
organização dos seus serviços de educação
especial, chamando a si a responsabilidade de garantirem também
às crianças com deficiências um processo educativo
adaptado às suas necessidades individuais.
Marco relevante nesta nova abordagem da deficiência,
tendente a modificar não só o sistema das classificações,
mas também, e sobretudo, a prática da "integração"
foi o "Warnock Report", um relatório britânico publicado
em 1978 e realizado por uma comissão dirigida por Mary Warnock,
encarregada de elaborar propostas para a melhoria da educação
de jovens com deficiências. É o "Warnock Report" que
introduz, pela primeira vez, o conceito de "aluno com necessidades
educativas especiais".
Este conceito é bastante amplo e enfatiza
aspectos instrumentais e funcionais, ou seja: o que fazer para receber
e tratar este aluno no ambiente escolar comum, da melhor forma possível?
De acordo com este conceito e efeitos da sua educação,
as crianças e jovens com dificuldades especiais, ou com necessidades
educativas especiais (NEE), são aquelas que requerem educação
especial e serviços específicos de apoio para a realização
total do seu potencial humano. Eles podem ser muito diferentes dos
outros por terem atraso mental, dificuldades de aprendizagem, desordens
emocionais ou comportamentais, incapacidades físicas, problemas
de comunicação, autismo, lesões cerebrais, deficiência
auditiva, deficiência visual, ou mesmo dotes e talentos especiais,
no caso dos superdotados. São exatamente estas diferenças
que devem ser levadas em conta, para que eles possam freqüentar
a escola comum.
Segundo alguns estudiosos, entre os quais Hallahn
e Kauffman, esta definição de crianças e jovens
com necessidades especiais mostra algo muito importante, que merece
destaque:
Estas pessoas apresentam uma extraordinária
diversidade de características, o que impede
a generalização de medidas para tratá-los como
se fossem um grupo homogêneo.
A partir de meados da década de 70 e claramente
assumida nos anos 80, surge uma filosofia de "integração"
educativa como opção principal da grande maioria dos
países, defendendo-se que o ensino das crianças e jovens
com dificuldades especiais deve ser feito, pelo menos tanto quanto
possível, no âmbito da escola regular.
Por que incluir crianças com deficiência na escola regular?
Em muitos países do mundo ocidental, os professores
vêm fazendo esta pergunta, às vezes em voz alta, às
vezes consigo mesmos, em diversas ocasiões.
Para muitos, a integração escolar de
alunos com deficiência é uma provocação
ao profissionalismo do professor. A lógica da inclusão
(veja-se a Declaração de Salamanca) constitui a essência
do ideal democrático.
Os benefícios da inclusão de
alunos com necessidades educativas especiais na escola regular são
evidentes (apesar das dificuldades) e TODOS os autores desta integração
"lucram" com ela.
Vários estudos comparativos realizados principalmente
nos EUA e nos países escandinavos, onde este movimento existe
há mais tempo, revelam a seguinte situação:
Benefícios para os alunos com deficiências
- Eles encontram modelos positivos nos colegas;
- Contam com assistência por parte dos colegas;
- A criança cresce e aprende a viver em ambientes integrados;
Benefícios para os alunos que não são deficientes
- A melhor forma de aprenderem a lidar com as diferenças
individuais;
- Oportunidade para praticar e partilhar as aprendizagens;
- Diminuição da ansiedade face aos fracassos ou
insucessos.
Benefícios para todos os alunos
- Compreensão e aceitação dos outros;
- Reconhecimento das necessidades e competências dos colegas;
- Respeito por todas as pessoas;
- Construção de uma sociedade solidária;
- Desenvolvimento de apoio e assistência mútua;
- Desenvolvimento de projetos de amizade;
- Preparação para uma comunidade de suporte e apoio.
A caminho da inclusão
Segundo Steinemann: "Integração significa
o (re)-estabelecer de formas comuns de vida, de aprendizagem e de
trabalho entre pessoas deficientes e não-deficientes. Integração
significa ser participante, ser considerado, "fazer parte de", ser
levado a sério e ser encorajado. A integração
requer a promoção das qualidades próprias de
um indivíduo, sem estigmatização e sem segregação.
Realizar pedagogicamente a integração significa, seja
no jardim de infância, na escola ou no trabalho, que todas as
crianças e adultos (deficientes ou não) brinquem/aprendam/trabalhem
de acordo com o seu nível próprio de desenvolvimento
em cooperação com os outros" (Steinemann, 1994).
As palavras "integrado" e "integração"
derivam do latim "integrare" que vem do adjetivo "integer",
que originalmente significa intacto, não tocado, sem mácula,
são, virgem, inteiro, completo.
Portanto, a palavra "integração", neste
sentido, deve ser interpretada como alguma coisa de original e natural,
sendo a "segregação" (o estado de não-integração)
algo anormal, construído, artificial.
Mas o mais interessante da história da palavra
integração é que o termo latino "integer"
(intacto) parece ter derivado em duas direções nas línguas
modernas. Enquanto que em uma delas está muito próximo
do seu sentido original (aparecendo em termos como "integridade",
"íntegro", "integral"), a outra direção vai mais
no sentido de "compor", "fazer um conjunto", "juntar as partes separadas
no sentido de reconstruir uma totalidade".
Quando se aborda o tema da educação
de crianças e jovens com dificuldades especiais, nomeadamente
devidas às suas deficiências físicas, mentais
ou sensoriais, parece ser mais no segundo sentido acima indicado que
se utiliza o termo "integração", querendo significar
a colocação de pessoas com deficiência juntamente
com pessoas não-deficientes no mesmo lugar.
Neste contexto, a integração escolar
pode ser vista como um "fim" em si, como uma forma de "associação"
entre o grupo de alunos "especiais" e a escola regular ou então
como um "processo" de "estruturação organizacional",
de modificação da própria escola regular no sentido
de atender a todas as diferenças.
Segundo Romeu K. Sassaki:
"(...) a integração social, afinal de contas, tem consistido
no esforço de inserir na sociedade pessoas com deficiência
que alcançaram um nível de competência compatível
com os padrões sociais vigentes. A integração
tinha e tem o mérito de inserir o portador de deficiência
na sociedade, sim, mas desde que ele esteja de alguma forma capacitado
a superar as barreiras físicas, programáticas e atitudinais
nela existentes. Sob a ótica dos dias de hoje, a integração
constitui um esforço unilateral tão somente da pessoa
com deficiência e seus aliados (a família, a instituição
especializada e algumas pessoas da comunidade que abracem a causa
da inserção social), sendo que estes tentam torná-la
mais aceitável no seio da sociedade."1
Continuando, Sassaki mostra que a prática
da integração social vem ocorrendo, desde a década
de 80, de 3 formas:
1. Pela inserção pura e
simples daquelas pessoas com deficiência que conseguiram ou
conseguem, por méritos pessoais e profissionais próprios,
utilizar os espaços físicos e sociais, bem como seus
programas e serviços, sem nenhuma modificação
por parte da sociedade, ou seja, da escola comum, da empresa comum,
do clube comum, etc.;
2. Pela inserção daqueles
portadores de deficiência que necessitavam ou necessitam de
alguma adaptação específica no espaço
físico comum ou no procedimento da atividade comum, a fim
de poderem, só então, estudar, trabalhar, ter lazer,
enfim, conviver com pessoas não-deficientes;
3. Pela inserção de pessoas
com deficiência em ambientes separados dentro dos sistemas
gerais. Por exemplo: escola especial junto à comunidade;
classe especial numa escola comum; setor separado dentro de uma
empresa comum; horário exclusivo para pessoas deficientes
num clube comum, etc. Esta forma de integração, mesmo
com todos os méritos, não deixa de ser segregativa.
Embora estas formas representem um avanço
em relação às atitudes do passado, de segregação,
ainda não respondem plenamente aos anseios e direitos das PPD,
pois elas pouco exigem da sociedade em termos de modificação
de comportamentos, leis, adaptações arquitetônicas
e outras. O esforço da integração fica quase
que exclusivamente sobre os ombros das PPD.
O ano de 1981 foi designado, pela ONU - Organização
das Nações Unidas, de Ano Internacional das Pessoas
Portadoras de Deficiência e assinalou um marco fundamental na
luta pelos direitos das PPD no mundo todo. Na esteira do conceito
de integração vieram outros, como os de autonomia, independência,
empowerment e equiparação de oportunidades, que
podem ser considerados passos em direção ao conceito
atualmente vigente, de inclusão social.
Vamos recorrer novamente
à autoridade de Romeu Sassaki 2
para definir, brevemente, estas palavras.
Autonomia é a condição
de domínio no ambiente físico e social, preservando
ao máximo a privacidade e a dignidade da pessoa que a exerce.
Ter maior ou menor autonomia significa que a pessoa com deficiência
tem maior ou menor controle nos ambientes que ela freqüenta;
rampas facilitam a autonomia no espaço físico, por exemplo.
Independência é a faculdade de
decidir sem depender de outras pessoas, como familiares ou profissionais
especializados. Uma pessoa com deficiência pode ser mais ou
menos independente em decorrência da quantidade e da qualidade
de informações a que tiver acesso, mas também
de sua autodeterminação e/ou prontidão para tomar
decisões em uma determinada situação.
Empowerment significa o processo pelo qual
uma pessoa ou um grupo de pessoas usa o seu poder pessoal, inerente
à sua condição, para fazer escolhas e tomar decisões,
assumindo assim o controle de sua(s) vida(s). Neste sentido, independência
e empowerment são conceitos interdependentes. Não se
outorga este poder às pessoas; o poder pessoal está
em cada ser humano desde o seu nascimento.
O termo equiparação de oportunidades
é definido pela Disabled Peoples' International (1981) como
"o processo mediante o qual os sistemas gerais da sociedade, tais
como o meio físico, a habitação e o transporte,
os serviços sociais e de saúde, as oportunidades de
educação e trabalho, e a vida cultural e social, incluídas
as instalações esportivas e de recreação,
são feitos acessíveis para todos. Isto inclui a remoção
das barreiras que impedem a plena participação das pessoas
deficientes em todas estas áreas, permitindo-lhes assim alcançar
uma qualidade de vida igual à de outras pessoas".
Nesta definição está implícito
o princípio da igualdade de direitos: "O princípio
de direitos iguais implica que as necessidades de cada um e de todos
são de igual importância e que essas necessidades devem
ser utilizadas como base para o planejamento das comunidades e que
todos os recursos precisam ser empregados de tal modo que garantam
que cada pessoa tenha oportunidade igual de participação."
A igualdade de oportunidades em educação
é na verdade essencial dada a importância da educação
na transmissão de atitudes, conhecimentos e competências
que a sociedade como um todo encara como importantes para todas as
crianças e jovens.
Como bem enfatiza Sassaki: "É fundamental
equipararmos as oportunidades para que todas as pessoas, incluindo
portadoras de deficiência, possam ter acesso a todos os serviços,
bens, ambientes construídos e ambientes naturais, em busca
da realização de seus sonhos e objetivos."
Na seqüência destes movimentos e conquistas
é elaborado o conceito de inclusão social, processo
que funciona em mão dupla: a sociedade e os segmentos até
então excluídos (inclusive o das PPD) buscam equacionar
soluções e alternativas, para garantir a equiparação
de oportunidades e de direitos. Os valores que norteiam este processo
são:
- A aceitação e a valorização da diversidade;
- O exercício da cooperação entre diferentes;
- A aprendizagem da multiplicidade.
De acordo com estudiosos deste processo social, o
momento atual caracteriza-se pela transição da
fase da integração para a da inclusão, que pressupõe
um novo paradigma, um novo modelo de sociedade.
Momentos de transição, como este, despertam
debates e dúvidas; surgem várias opções
e alternativas, cada uma com seus defensores. É difícil
adotar novos conceitos e modificar padrões de comportamento
já consolidados. Além disso, estamos tratando de seres
humanos, que merecem ser tratados com respeito e delicadeza.
No campo da Educação, vemos surgir
diversas posições: a mais radical, que defende que todos
os alunos devem ser educados apenas na escola regular (Escola para
Todos) até a idéia de que a diversidade de características,
verificada no grupo de alunos com necessidades educativas especiais,
implica a existência e manutenção de um contínuo
de serviços e uma diversidade de opções. Essas
opções podem ir da inclusão na classe regular
até a colocação em instituições
residenciais especializadas, passando pelas salas de apoio e classes
especiais na escola regular ou pelo recurso a escolas especiais.
Se se trata de uma questão de direitos cívicos,
um dos principais direitos de qualquer minoria é o seu direito
de escolha e, conforme prevê a legislação, os
pais ou tutores destes alunos têm liberdade de escolher o que
acham melhor para os seus educandos. Nesse sentido, é importante
que haja diferentes alternativas, para que possam escolher a que melhor
se ajusta ao seu caso.
Desta forma, os educadores e profissionais da educação
devem preservar a oferta de diferentes tipos de serviços de
forma que, sempre que possível, seja garantida a possibilidade
de escolha. Alguns autores propõem um contínuo de serviços
organizados em cascata e numa ordem progressiva de pequenos "saltos"
no sentido da maior proximidade entre os alunos com dificuldades especiais
na escola e os seus colegas não deficientes.
Não se trata simplesmente de transferir
os alunos da escola especial para a escola regular, mas sim de remodelar
e modificar a escola regular para que esta possa atender a uma mais
ampla variedade de alunos.
Não podemos nos esquecer de que as interações
sociais não acontecem automaticamente; num grupo social, as
pessoas tendem a escolher os parceiros com interesses e valores semelhantes,
evitando as diferenças. O fato de estarem na mesma sala não
faz com que as crianças imediatamente comecem a interagir com
colegas que têm alguma diferença.
Além das mudanças arquitetônicas,
que são necessárias em quase todos os edifícios
escolares para acolher a criança com deficiência, a escola
regular tem normalmente uma estrutura curricular, a organização
dos horários, os padrões de socialização
e todo um conjunto de normas e regulamentos verdadeiramente segregadores
dos alunos com deficiências, estando mais voltada para o acumular
de conhecimentos e para a criação de elites qualificadas.
Portanto, entre as alternativas possíveis
e os níveis de integração desejados interpõe-se
a necessidade de desenvolver um conjunto de métodos e estratégias
educativas (em nível curricular) de importância fundamental
para o sucesso da integração dos alunos com deficiências
na escola.
Alguns tipos de alunos (com deficiências sensoriais
ou graves problemas de comunicação, por exemplo) requerem
o uso de equipamentos ou materiais específicos e não
utilizados pela generalidade dos alunos da escola. Assim sendo, a
escola deve se adaptar e modificar, no sentido de atender às
necessidades de uma grande variedade e diversidade de alunos.
Para que uma criança "especial" possa ser
"incluída" numa situação em que todos a sintam
"mais normal" e em que a sua auto-estima seja aumentada, em que se
desenvolvam relações interpessoais e interações
com seus colegas (com ou sem dificuldades especiais) é necessário
desenvolver estratégias adequadas e devidamente planejadas,
como a pesquisa desenvolvida por McNamara e Moreton, em 1993 evidencia.
Os seguintes aspectos devem ser levados em conta:
- A planificação e o desenvolvimento de arranjos no
ambiente físico e no ambiente social;
- A escolha dos materiais e equipamentos da sala de aula;
- A disposição e a adequação do espaço
disponível para os alunos ("densidade social" e "densidade
espacial");
- A revisão do papel do professor como iniciador das interações
sociais ou como mero gestor dessas interações;
- A maior ou menor estruturação das atividades propostas
na sala de aula.
Concluindo...
Resumindo o caminho percorrido até aqui, podemos
dizer que uma das principais lições que podemos tirar
é que não há um formato padronizado para a integração
de alunos diferentes/deficientes na escola regular. Cada um dos aspectos
da integração - definição, motivos, objetivos,
níveis, dificuldades, vantagens e desvantagens etc. - apresenta
uma enorme diversidade e, como diz o documento publicado pela Comissão
Européia, em 1996:
"Deve reconhecer-se que a integração
dos alunos com necessidades educativas especiais implica muito mais
do que colocar simplesmente o aluno numa escola regular. Trata-se
de um processo em que o aluno tem oportunidades para se desenvolver
e progredir em termos educativos para uma autonomia econômica
e social. A integração é igualmente um processo
em que as próprias escolas necessitam de mudar e de se desenvolver
com o objetivo de proporcionar um ensino de elevado nível a
todos os alunos e o máximo de acesso aos que têm necessidades
educativas especiais"
Segundo a Declaração de Salamanca:
"As escolas devem ajustar-se a todas as crianças,
independentemente das suas condições físicas,
sociais, lingüísticas ou outras. Neste conceito devem
incluir-se crianças com deficiência ou superdotadas,
crianças da rua ou crianças que trabalham, crianças
de populações imigradas ou nômades, crianças
de minorias lingüísticas, étnicas ou culturais
e crianças de áreas ou grupos desfavorecidos ou marginais."
Declaração de Salamanca: UNESCO,
1994.
Assim, principalmente na área pedagógica,
não parece correto ter-se como ponto de referência
as deficiências ou incapacidades (atitude infelizmente ainda
freqüente nas nossas escolas) mas sim compreender que o que
é importante é o ser humano. Tal como a ergonomia
já faz no domínio do trabalho - com a adaptação
do posto de trabalho à pessoa, às suas habilidades
e características individuais - no campo da pedagogia teremos
de evitar que a deficiência se coloque entre o professor e
o aluno, impedindo-nos de ver a pessoa que está por detrás
dessa deficiência.
Talvez seja este o momento de se passar da idéia
de que "todos devem ter as mesmas oportunidades" para a noção
de que "todos deveriam ter oportunidades diferentes" para desenvolver
as suas potencialidades e satisfazer as suas necessidades, dadas as
nossas diferenças individuais. Fica aí o pensamento
para reflexão...
Ao iniciarmos um novo século e um novo milênio,
está na hora de abandonarmos etiquetas e rótulos e de
olharmos além deles.
Os professores e o processo de inclusão
Estudos indicam que a atitude do professor é
um dos fatores que mais contribui para o sucesso de qualquer medida
de integração da criança com deficiência.
De fato, como o comprovam as práticas do dia-a-dia nas nossas
escolas, não basta determinar legalmente a integração
para que ela aconteça.
A integração é, em última
instância, um processo de fornecer aos alunos com deficiência
uma educação com o máximo de qualidade e de eficácia,
no sentido da satisfação das suas necessidades individuais.
Ora, este objetivo depende fundamentalmente do papel do professor,
nomeadamente de variáveis como a sua vontade em levar a cabo
as tarefas de ensino destes alunos e a sua formação
ou preparação pedagógica para o fazer.
Estratégias para a integração/inclusão
Gostaríamos de sugerir estratégias
que estão sendo utilizadas para a integração
de crianças e jovens com deficiência na escola regular,
em outros países. Algumas ainda estão em fase de experimentação.
Esperamos que possam trazer idéias aplicáveis em suas
escolas.
Equipe de pré-classificação
Trata-se de equipes compostas por uma variedade de
profissionais, especialmente professores de ensino regular e professores
de ensino especial, que trabalham em conjunto com o professor da classe
no sentido de elaborar, recomendar e desenvolver estratégias
para ensinar as crianças ou jovens com deficiência dessa
classe.
O principal objetivo destas equipes é o de
influenciar o professor da classe regular, para que ele assuma a responsabilidade
pela educação de todos os seus alunos, tentando todas
as estratégias de ensino necessárias e possíveis,
antes de enviar qualquer aluno para um programa de ensino especial.
Apoio consultivo
Trata-se de um professor especializado ou com experiência
no ensino especial que colabora com o professor da classe regular,
no sentido de descobrir e implementar estratégias de ensino
eficazes para os casos de alunos com deficiência.
Neste modelo, as relações entre o professor
do ensino especial e o professor da classe regular baseiam-se nos
princípios da mutualidade - ou seja, da partilha de responsabilidades
entre os dois profissionais pela escolha e implementação
das estratégias adotadas - e da reciprocidade - o que significa
que qualquer um dos dois profissionais tem idêntica autoridade,
igualdade no acesso à informação e as mesmas
oportunidades para participarem na identificação, discussão,
tomada de decisão e implementação das medidas
adotadas.
Ensino cooperativo
Trata-se de uma estratégia em que o professor
da classe regular e o professor do ensino especial trabalham em conjunto,
dentro da sala de aula regular composta por alunos com deficiência
e por alunos ditos normais. Neste modelo existem, pelo menos, três
formas diferentes de organização:
1. Atividades complementares - enquanto
o professor do ensino regular assume, por exemplo, as atividades
da área acadêmica (conteúdos acadêmicos),
o professor do ensino especial ensina alguns alunos a identificar
as idéias principais de um texto, a fazer resumos - enfim,
a dominar técnicas de estudo;
2. Atividades de apoio à aprendizagem
- os dois professores ensinam os conteúdos acadêmicos,
mas enquanto o professor do ensino regular é responsável
pelo núcleo central do conteúdo, pela matéria
essencial, o professor do ensino especial encarrega-se de dar apoio
suplementar a qualquer aluno que dele necessite, individualmente
ou em pequenos grupos;
3. Ensino em equipe - o professor da
classe regular e o professor do ensino especial planificam e ensinam
em conjunto todos os conteúdos a todos os alunos, responsabilizando-se
cada um deles por uma determinada parte do currículo ou por
diferentes aspectos das matérias de ensino.
O sucesso do "ensino cooperativo" depende de dois
fatores fundamentais:
- Necessidade de bastante tempo nos horários dos professores
para fazerem o planejamento em conjunto;
- Compatibilidade entre os estilos de trabalho e personalidades
dos dois professores.
Aprendizagem Cooperativa
Trata-se de uma estratégia em que o professor
da classe regular coloca os alunos em grupos de trabalho, organizando-os
na base da heterogeneidade das suas habilidades (por exemplo, juntando
alunos com dificuldades especiais numa determinada área com
alunos mais habilidosos no assunto em estudo).
De acordo com os dados de investigação
conhecidos, as estratégias de aprendizagem cooperativa levam
a uma melhoria significativa das atitudes por parte dos alunos não-deficientes
face aos seus colegas com dificuldades especiais ou mesmo com deficiências
graves, ao mesmo tempo em que permite a estes um aumento significativo
da sua auto-estima e das suas atitudes em face de si mesmos.
Ensino por colegas
Trata-se de um método baseado na noção
de que os alunos podem efetivamente ensinar os seus colegas. Neste
método, o papel de aluno ou de professor pode ser atribuído
a qualquer aluno, com deficiência ou não, e alternadamente,
conforme as matérias em estudo ou as atividades a desenvolver.
No entanto, quando um aluno com deficiência assume o papel de
mestre (professor), o aprendiz (aluno) é geralmente um aluno
mais novo e menos desenvolvido, ainda que sem dificuldades especiais
em relação ao seu nível de desenvolvimento.
Participação parcial
Trata-se de uma estratégia em que os alunos
com dificuldades especiais, quando freqüentam uma sala de aula
regular, se envolvem em algumas atividades com os seus colegas sem
deficiência, embora numa reduzida dimensão. Neste tipo
de estratégia, o professor faz algumas adaptações
nas atividades a desenvolver, no sentido de facilitar o mais possível
a participação dos alunos com mais dificuldades, alterando
as regras do "jogo", modificando a forma de apresentação
ou de organização da tarefa a fazer ou, mesmo, dando
alguma ajuda individual aos alunos com dificuldades nas partes mais
difíceis da atividade em causa.
Materiais curriculares específicos para a mudança de
atitudes
Trata-se de uma estratégia em que o professor
organiza alguns materiais (como, por exemplo, marionetes) ou desenvolve
atividades de simulação em que os alunos ditos normais
representam o papel de alunos com deficiência, para levar os
alunos sem deficiência a modificar as suas atitudes face aos
seus colegas com dificuldades especiais.
NOTAS:
* Socióloga. Gerente da Rede SACI - Solidariedade,
Apoio, Comunicação e Informação (www.saci.org.br).
Consultora desta série.
- Sassaki, Romeu. K. Inclusão - construindo uma sociedade
para todos. Rio de Janeiro: WVA, 1997, p. 34.
- Sassaki, op. cit.. pág. 36 a 41..
PGM 2: Deficiência mental e inclusão social
Marta Gil*
"Uma criança com necessidades educacionais
especiais, antes de ser alguém impedido por uma deficiência,
é alguém capaz de aprender."
(Prof. Dr.
Hugo Otto Beyer
Universidade Federal doRio Grande do Sul)
Apresentando a deficiência mental
Segundo as estimativas da Organização
Mundial de Saúde, válidas para países do Terceiro
Mundo, em tempos de paz, as pessoas com deficiência mental correspondem
a, aproximadamente, 50% do total das PPD - Pessoas Portadoras de Deficiência.
A definição de deficiência mental
que é mais aceita, atualmente, é a da American Association
of Mental Retardation, datada de 1992:
Deficiência mental é um funcionamento
intelectual significativamente abaixo da média, coexistindo
com limitações relativas a duas ou mais das seguintes
áreas de habilidades adaptativas: comunicação,
autocuidado, habilidades sociais, participação familiar
e comunitária, autonomia, saúde e segurança,
funcionalidade acadêmica, de lazer e de trabalho. Manifesta-se
antes dos 18 anos de idade.
Lendo com atenção esta definição,
podemos concluir que deficiência mental é uma
condição diferente da doença mental, embora
esta confusão seja feita freqüentemente pelas pessoas.
A doença mental caracteriza-se por distúrbios de ordem
emocional, psicoses e outros.
Ao longo dos séculos, a pessoa com deficiência
mental era, muitas vezes, discriminada e segregada, pois era considerada
como "detentora de poderes sobrenaturais", "fruto de tragédia
familiar", "sangue ruim", "depositária do mal" e outros rótulos,
todos muito negativos.
Até o século XVIII, a própria
ciência confundia deficiência mental com doença
e, portanto, procurava tratamentos que trouxessem uma "cura" para
esta condição. A partir do século XIX surgiu
a abordagem educacional, que leva em conta as possibilidades
e potencialidades da pessoa portadora de deficiência mental.
Curiosamente, esta abordagem foi uma iniciativa de médicos...
Aos poucos, educadores,
psicólogos e pedagogos se envolveram com esta questão
e a compreensão sobre este tipo de deficiência vem aumentando.
Infelizmente, vários "mitos" 1
e conceitos errados ainda persistem, como:
- Toda pessoa com deficiência mental é doente;
- Pessoas com deficiência mental morrem cedo, devido a "graves"
e "incontornáveis" problemas de saúde;
- Pessoas com deficiência mental precisam usar remédios
controlados;
- Pessoas com deficiência mental são agressivas e
perigosas, ou dóceis e cordatas;
- Pessoas com deficiência mental são, em geral, incompetentes;
- Existe um "culpado" pela condição de deficiência;
- O meio ambiente pouco pode fazer pelas pessoas com deficiência;
- Pessoas com deficiência mental só estão
"bem" com seus "iguais";
- Para o aluno com deficiência mental, a escola é
apenas um lugar para exercer alguma ocupação fora de
casa.
Como identificar a deficiência mental?
A deficiência mental pode ser identificada
precocemente (às vezes, ainda durante a gestação);
porém, é bastante comum que a suspeita surja na escola,
quando se espera mais da criança e de sua capacidade de aprendizagem.
Nestes casos, é de fundamental importância
confirmar este diagnóstico, antes de enviar a criança
para a sala especial e de começar a tratá-la de forma
pejorativa ou discriminatória. O diagnóstico de deficiência
mental deve ser feito por uma equipe de profissionais especializados
(médico e psicólogo) e confirmado por um pedagogo. Além
dos testes específicos, estes profissionais devem levar em
conta o momento de vida que a criança atravessa e verificar
o ambiente sociocultural em que ela vive.
Se for confirmada a condição de deficiência
mental, após todos estes procedimentos, a criança tem
direito a receber apoio especializado e sua família deve ser
orientada, a fim de favorecer sua aprendizagem e seu desenvolvimento.
Que sinais podem ser observados?
É importante tornar a enfatizar que o
diagnóstico de deficiência mental só pode
ser feito por especialistas, após a realização
de exames. Há casos, que assumem aspectos trágicos,
de pessoas que passam pela vida carregando este "rótulo",
sem que sejam realmente portadoras de deficiência mental.
Porém, ao observar que a criança apresenta
um comportamento diferente do de outras crianças - como dificuldades
em estabelecer relações de aprendizagem no seu cotidiano
(na sala de aula e em outros espaços, como no pátio,
na aula de Educação Física, nos passeios) - tal
fato deve ser relatado ao especialista e o professor e a família
devem buscar orientação junto aos serviços especializados
de sua comunidade.
Estas dificuldades são um sinal de alerta,
que nos informa que algo talvez não vá bem.
Alertamos, ainda, que há uma variedade e uma
complexidade de situações abrangidas pelo conceito "deficiência
mental". Assim, os sinais acima mencionados não esgotam o assunto.
A escala da deficiência mental
O grau de comprometimento intelectual das pessoas
com deficiência mental pode ser distribuído em uma escala.
Em uma ponta estão as crianças que:
- Desenvolvem habilidades sociais e de comunicação de
forma eficiente e funcional;
- Têm um prejuízo mínimo nas áreas sensório-motoras;
- Podem ter comportamentos similares aos das crianças de sua
idade, não deficientes;
- Representam, aproximadamente, 85% dos portadores de deficiência
mental.
- No centro da escala estão as crianças que:
- Têm nível de comprometimento intelectual mais acentuado;
- Podem adquirir habilidades sociais e de comunicação;
- Precisam de apoio e de acompanhamento mais constantes;
- Representam, aproximadamente, 10% dos portadores de deficiência
mental.
- Na outra ponta da escala estão as crianças
- Com rebaixamento intelectual significativo;
- Este rebaixamento está, freqüentemente, associado a
outros comprometimentos;
- Nos primeiros anos de vida adquirem pouca (ou nenhuma) fala comunicativa;
- Seu desenvolvimento sensório-motor também é
bastante comprometido
- Precisam de estimulação multissensorial;
- Precisam de um ambiente estruturado, com apoio e acompanhamento
constantes.
Concluindo: a maioria das crianças com
deficiência mental apresenta baixo comprometimento
cognitivo e, portanto, pode se beneficiar muito do processo de
aprendizagem.
Assim, se a criança com deficiência
mental for corretamente estimulada, desde cedo e se o ambiente educacional
for receptivo e lançar mão de recursos educacionais
adequados, ela poderá absorver conhecimentos.
Segundo a Profa. Lígia
A. Amaral2:
"Se a deficiência for leve, a criança
é capaz de atingir uma estrutura cognitiva que lhe possibilite
realizar operações lógicas de nível
concreto, com apoio em objetos. Portanto, consegue operar mentalmente
e abstrair, tal como a criança que não é deficiente.
Piaget se refere à estrutura cognitiva da criança
como uma 'construção mental inacabada'. No caso da
deficiência leve, a estrutura cognitiva não chega ao
estágio das operações formais, ou seja, não
chega à construção final - quarto e último
estágio das estruturas do conhecimento. Daí a expressão
'construção mental inacabada'.
Se a criança com deficiência mental
leve é capaz de operar mentalmente, embora numa idade posterior
à das crianças não deficientes, ela é
também capaz de ser alfabetizada e de ter acesso a outros conhecimentos
das sucessivas seriações escolares.
Progressivamente, práticas inovadoras e integradas
têm confirmado que, devidamente 'trabalhadas', as crianças
com deficiência mental leve podem surpreender."
A experiência de professores tem demonstrado
que, ao buscar recursos educacionais que concretizem os conceitos
expostos, toda a classe se beneficia, não apenas o aluno portador
de deficiência.
Retomando a idéia de que a "educação
não é uma fórmula de escola, mas sim uma obra
de vida", como dizia Freinet, lembramos que Educação
é um processo abrangente e complexo, que ultrapassa a escolarização
e que tem, por objetivo final, preparar a pessoa para a vida na família,
na escola, no trabalho, no mundo....
É importante que o professor e toda a
comunidade escolar (diretor, funcionários, alunos) se lembrem
de que todo aluno pode, a seu modo e respeitando seu tempo, beneficiar-se
de programas educacionais, desde que tenha oportunidades adequadas
para desenvolver sua potencialidade.
Como tratar pessoas com deficiência
mental 3
- Aja naturalmente ao dirigir-se a uma pessoa com deficiência
mental;
- Trate-a com respeito e consideração, de acordo com
sua idade;
- Não a ignore. Cumprimente e despeça-se dela normalmente,
como faria com qualquer pessoa;
- Dê atenção a ela, converse e vai ver como pode
ser agradável;
- Não superproteja. Deixe que ela faça ou tente fazer
sozinha tudo o que puder. Ajude apenas quando for realmente necessário;
- Não subestime sua inteligência. As pessoas com deficiência
mental levam mais tempo para aprender, mas podem adquirir muitas habilidades
intelectuais e sociais.
É possível prevenir a deficiência mental?
Após a Ciência ter superado a noção
de que a deficiência mental é uma doença, estudos
têm sido realizados para conhecer os fatores de risco que podem
vir a determinar esta condição. Esta mentalidade de
prevenção está se instalando gradualmente em
todas as áreas da Deficiência, além da mental.
Isso é muito importante, porque a Organização
Mundial de Saúde estima que aproximadamente 30% dos casos de
deficiência poderiam ser evitados, se medidas adequadas de prevenção
fossem adotadas.
A origem da condição de deficiência
mental é complexa, pois envolve múltiplos fatores. Assim
sendo, conhecê-los e identificá-los é fundamental,
para que programas de prevenção possam ser estabelecidos.
Porém, é importante lembrar que:
- Muitas pessoas expostas a condições de risco não
apresentam deficiência mental;
- Muitas vezes, ainda não é possível identificar
qual foi o fator causal da deficiência, infelizmente.
- Recorrendo mais uma vez à autoridade da Organização
Mundial de Saúde, aprendemos que a prevenção
pode acontecer em três níveis:
- Prevenção primária: medidas que podem ser tomadas
antes de o fato acontecer;
- Prevenção secundária: medidas que reduzem a
duração dos problemas já existentes ou revertem
seus efeitos;
- Prevenção terciária: medidas voltadas para
possibilitar o desenvolvimento da potencialidade da pessoa com deficiência
mental, diminuindo defasagens causadas por esta condição.
A seguir, vamos enumerar
algumas medidas recomendadas pela Organização Mundial
de Saúde4,
em relação a estes níveis de prevenção:
Prevenção primária
As medidas de prevenção primária
visam diminuir a incidência de doenças e causas
prováveis de deficiência; seu público-alvo é
a população em geral. Elas são de responsabilidade
do Poder Público, nas esferas municipal, estadual e federal.
Compete aos governantes implantar programas preventivos, que estão
garantidos no ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente e
outros dispositivos legais, fazer campanhas, distribuir material de
divulgação e tomar outras medidas semelhantes.
Medidas pré-natais
- Condições adequadas de saneamento básico;
- Cuidados especiais em regiões de risco radiativo;
- Planejamento familiar;
- Aconselhamento genético pré-natal;
- Acompanhamento da gestação (saúde e nutrição
materna);
- Diagnóstico pré-natal.
Medidas perinatais 5
- Atendimento médico - hospitalar de qualidade na situação
de parto;
- Atendimento de qualidade ao recém-nascido;
- PKU (teste do pezinho).
Medidas pós-natais
- Condições de saneamento básico;
- Serviços de puericultura adequados (incluindo campanhas de
vacinação);
- Prevenção de acidentes domésticos.
Prevenção secundária
Este nível de prevenção se refere
às medidas que visam reduzir a duração
dos problemas existentes ou os seus efeitos. Dirigem-se às
pessoas que já apresentam uma deficiência ou manifestam
problemas que, se não forem tratados adequadamente, podem resultar
em deficiência.
Neste nível de prevenção são
oferecidos programas voltados para conter a evolução
de doenças que podem causar deficiência mental ou programas
de estimulação que visam minimizar as conseqüências
de uma situação de deficiência. Podemos citar,
como exemplo: diagnóstico precoce, estimulação
essencial, orientação de dietas para crianças
com fenilcetonúria, leis que determinem a obrigatoriedade de
rótulos nos alimentos, alertando para a presença de
glúten e seus derivados e outros.
Prevenção terciária
Este nível de prevenção está
voltado para as pessoas que já possuem a deficiência
mental e visa garantir o pleno desenvolvimento de suas potencialidades,
como indivíduos. São exemplos destas medidas: atendimento
clínico, atendimento pedagógico (pré-escolar,
escolar, preparação para o trabalho etc.).
Apesar de todos os esforços de profissionais
e familiares, infelizmente ainda é pouco o que se oferece à
maior parte das pessoas com deficiência mental. Segundo alguns
estudos, mais da metade dos portadores de deficiência mental
não recebem atendimento algum, o que é um índice
muito preocupante.
Educação Especial
"A educação, direito de todos e dever
do Estado e da família, será promovida e incentivada,
com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento
da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho." (Constituição
Federal, 19, Capítulo III, art. 205.)
Podemos concluir que, se a Constituição
assegura que a educação é um direito de todos,
a pessoa portadora de deficiência mental está aí
incluída. Esta conclusão é reforçada pelo
artigo 208, inciso III, que enfatiza:
"(...) o atendimento educacional especializado
aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular
de ensino".
Segundo a Profa. Lígia
Assumpção Amaral 6
"Compreende-se que, no contexto da Educação Especial,
o termo 'educacional' se refere a todo espaço institucional
voltado para o desenvolvimento e a aprendizagem do indivíduo.
Esse espaço é comprometido com os múltiplos e
interdependentes aspectos do desenvolvimento - cognitivo, afetivo,
socioemocional - tendo como referência as diferenças
individuais e as possibilidades socioeducacionais de seus sujeitos.
Acredita-se que toda criança deve ter o direito
de estar inserida em um programa educacional, independente de suas
possibilidades de aprendizagem acadêmica, até porque
o sentido aqui atribuído ao processo educacional ultrapassa,
e muito, os limites impostos a um programa restrito à educação
formal, acadêmica.
Todo espaço educacional pressupõe a
convivência entre os pares. A possibilidade de conviver, trocar
e vivenciar situações do cotidiano é um objetivo
implícito no processo de aprendizagem, bem como no desenvolvimento
humano."
Direitos iguais/oportunidades diferenciadas
Como assegurar o direito à educação
para pessoas que são diferentes?
O Prof. Marcos Mazzota, estudioso desta área,
nos ensina que assegurar oportunidades iguais não significa
garantir tratamento igual para todos; é preciso oferecer meios
adequados às características e necessidades de cada
pessoa, para que ela possa desenvolver sua potencialidade. Assim,
a escola deve oferecer oportunidades educacionais diversificadas,
para assegurar a igualdade de oportunidades de acesso à educação.
Temos presenciado, nos últimos anos, um debate
sobre a questão da inclusão das pessoas com deficiência,
com ênfase em sua inclusão no ambiente escolar. Os professores,
em especial, têm-se deparado com esta questão, que fica
mais aguda no caso de alunos com deficiência mental.
Esta questão é realmente complexa e
merece ser tratada com cuidado.
Os professores, em geral, fazem perguntas e observações
como estas:
- Como posso receber um aluno com deficiência mental na minha
sala, onde há 30 (ou mais) alunos?
- Não tenho habilitação em deficiência
mental.
- Como os outros colegas vão recebê-lo?
Não pretendemos dar "receitas prontas" ou
"soluções mágicas" para estas perguntas, pois
não existem. Elas merecem nossa reflexão, pois refletem
uma situação que vem mudando ao longo da História.
Como o professor faz parte da sociedade e da época em que vive,
ele também partilha as opiniões vigentes. Vale a pena,
pois, tentar descobrir o que está na raiz destas perguntas.
Preconceito e discriminação
As pessoas com deficiência, especialmente mental,
foram perseguidas, maltratadas, segregadas e discriminadas, durante
séculos.
A partir do século XIX, esta situação
começa a mudar; médicos e educadores interessam-se por
estas pessoas e percebem que elas têm capacidade de aprendizagem.
Passam, então, a desenvolver métodos educacionais. As
atitudes preconceituosas começam a ser revistas.
Para a Cooperativa de
Vida Independente de Estocolmo (Suécia), entidade formada por
pessoas portadoras de deficiência: " (...) uma das razões
pelas quais as pessoas deficientes estão expostas à
discriminação é que os diferentes são
freqüentemente declarados doentes. Este modelo médico
da deficiência nos designa o papel desamparado e passivo de
pacientes, no qual somos considerados dependentes do cuidado de outras
pessoas, incapazes de trabalhar, isentos dos deveres normais, levando
vidas inúteis, como está evidenciado na palavra ainda
comum ' inválido' [sem valor, em latim]."7
Integração social
Gradualmente, este conceito tem sido modificado;
posteriormente, surgiu o conceito de "integração social",
para derrubar a prática de exclusão social a que as
pessoas portadoras de deficiência estavam submetidas, em relação
a qualquer atividade.
O movimento pela integração social
surgiu por volta do final da década de 60 e procurava inserir
as pessoas com deficiência no trabalho, na escola, no lazer.
A década de 80 impulsionou este movimento; a ONU - Organização
das Nações Unidas - decretou 1981 como o Ano Internacional
das Pessoas Deficientes; a luta pelos direitos ganhou força.
Em conseqüência das conquistas e da experiência
acumuladas neste processo, estudiosos e organizações
compostas por pessoas com deficiência começaram a perceber
que a prática da integração social era insuficiente
para acabar com a discriminação e para garantir a verdadeira
participação, com oportunidades iguais.
Isto porque a integração social representa
o esforço de inserir o portador de deficiência na sociedade,
SE ele estiver capacitado a superar as barreiras existentes.
Assim, o esforço era feito apenas por parte do deficiente,
sua família e profissionais especializados - a sociedade permanece
do mesmo jeito, alterando pouco (ou nada) suas atitudes, espaços
físicos e práticas sociais.
É a partir destas constatações
que surgem outros conceitos e movimentos, que falam de autonomia,
independência, empowerment e equiparação
de oportunidades, que foram objeto de normas e resoluções
internacionais, como as Normas sobre o Programa Mundial de Ação
Relativo às Pessoas com Deficiência (ONU, 1982), a Equiparação
de Oportunidades para Pessoas com Deficiência (ONU, 1993), entre
outros.
De forma geral, podemos dizer que estes conceitos,
que apontam para a inclusão social, consideram que a
sociedade deve ser modificada para atender às necessidades
de todos os seus membros. O desenvolvimento das pessoas com deficiência
deve ocorrer no processo de inclusão e não como um pré-requisito
para que estas pessoas possam fazer parte da sociedade, como se elas
precisassem "pagar ingresso para integrar a comunidade", como diz
o Dr. Antonio S. Clemente Filho.
Educação e inclusão no Brasil
Voltando para a questão da Educação
no Brasil, podemos constatar que a inclusão de pessoas com
deficiência na educação geral está sendo
implementada no Brasil há pouco tempo, mas já há
discussões e uma significativa produção intelectual
sobre este tema, que é bastante desafiador para os educadores.
É consenso que temos um longo caminho a percorrer,
por parte da sociedade e da própria pessoa com deficiência,
e, principalmente, da portadora de deficiência mental, para
que ela possa ser considerada socialmente incluída, |