Introdução
Pretendo aqui fazer algumas breves reflexões
sobre o uso das chamadas "Tecnologias de Comunicação
e de Informação - TCI" como suporte a ações
de educação a distância (EAD). Sem nenhuma pretensão
de esgotar o assunto, gostaria de refletir sobre possibilidades que
se abrem quando exploramos bem alguns dos recursos inerentes a estes
novos meios de comunicação e de produção
intelectual.
Este texto foi escrito assumindo que seu leitor pode
ter pouca ou nenhuma familiaridade com as Tecnologias de Comunicação
e de Informação (computadores, Internet etc.). Por isso
a preocupação em explicar com algum detalhe conceitos
cuja exata compreensão considero fundamental para avaliar a
contribuição destas tecnologias para a EAD.
Tecnologia, o que nos oferece?
O computador
A Internet, a chamada rede mundial de computadores,
permite hoje que cidadãos dos diversos cantos do mundo se comuniquem
de forma rápida, ágil e barata. Os requisitos para ter
acesso a esse meio de comunicação não são
muitos, nem caros. Mas infelizmente eles ainda estão pouco
disseminados entre nós. Os recursos necessários são
um computador e uma linha telefônica. O conhecimento necessário
se constrói rapidamente, bastando saber ler e escrever de forma
razoavelmente fluente.
Computadores são máquinas de produção
intelectual. Com computadores se produz textos, imagens, desenhos,
filmes, sons. Com computadores se operam cálculos em grande
quantidade e com rapidez. Com computadores é possível
experimentar com números e outras entidades abstratas como
nunca se fez antes.
E como fazer tudo isso? Com uma planilha de cálculos,
por exemplo, pode-se mostrar de forma clara e concreta a correlação
entre um gráfico e as quantidades (representadas por números)
que o geram. Usando uma planilha, estudantes podem modificar paulatinamente
os coeficientes de uma função numérica e verificar
as modificações que resultam tanto em seu gráfico
como no conjunto imagem da função. Esta experiência
pode trazer, digamos, uma certa concretude ao conceito de função.
Chamo a isso experimentar com números. É claro que a
mesma experiência era possível antes, mas cada gráfico
exigia um enorme trabalho de cálculo e, em seguida, de desenho
(plotagem) dos pontos sobre um papel quadriculado. Isso implicava
que o número de experimentações era obrigatoriamente
reduzido, restando aos alunos acreditar nas generalizações
propostas pelos professores, nunca descobri-las por si mesmos.
Este é apenas um exemplo de como esta máquina
de processar informações pode ser explorada como instrumento
de experimentação, de produção intelectual.
Poderia enumerar uma enorme lista de exemplos, incluindo simuladores,
linguagens de programação, editores de textos, de imagens,
de áudio, de vídeo etc. Mas não é o propósito
deste texto; a idéia é apenas ressaltar o papel que
pode ter o computador, como instrumento de pesquisa e experimentação
para o aprendiz, indo muito além da sofisticada máquina
de escrever e de imprimir que também é.
Computadores em rede
A ligação em rede mundial, por si só,
já indica que estas tecnologias reunidas ñ computadores e redes
de comunicação ñ têm grande potencial para a educação,
seja ela a distância ou presencial. Mas vamos pôr os pés
na terra e ver como esta cooperação pode-se dar concretamente,
como se realizam as colaborações e que ganhos podem
trazer para a educação a distância.
Já faz tempo que convivemos de forma natural
com meios de comunicação de massa. Rádio, jornais,
revistas e TVs estão presentes em nosso cotidiano como se existissem
desde sempre, fazem parte da vida. São meios que compreendemos
e que nos permitem pensar em formas variadas de dar-lhes função
educacional ou instrucional. Mas são todos meios de uma via
só: a expressão de poucos que chega a muitos. São
meios de produção cara, cujo investimento se justifica
porque se distribui para muitos. Isso divide o mundo em dois: de um
lado os que produzem o material intelectual, os formadores de opinião,
e, de outro, os leitores ou espectadores a quem cabe o papel de receptores.
Ainda que possam ser receptores críticos, sua opinião
chega a muito poucos.
A telefonia, por outro lado, é um meio em
que todos são receptores e emissores. Mas liga as pessoas uma
a uma. É um meio de comunicação bidirecional
e barato, mas não é de massa.
Pela primeira vez temos a possibilidade de um meio
de comunicação que é ao mesmo tempo de massa
ñ isto é, atinge a um enorme número de pessoas de uma
só vez ñ, de comunicação bidirecional ñ como
a telefonia ñ e de custo operacional acessível ao usuário
comum.
A Internet possibilita que textos, imagens, animações
etc., produzidos por qualquer pessoa, tenham alcance mundial. Hoje,
basta que se saiba como divulgá-los. Além disso, essas
produções, quando editadas em páginas na Internet,
podem ser atualizadas de forma muito ágil e sem quase nenhum
custo adicional além da geração da informação
em si. Em relação às edições em
papel, as produções no computador têm a enorme
vantagem de poderem ser corrigidas, modificadas e ampliadas a qualquer
instante, sem necessidade de produzir uma nova edição.
Isso abre para a EAD uma possibilidade ímpar:
os estudantes, estejam onde estiverem, podem interagir e trocar sua
produção, não só com os responsáveis
diretos pelo curso como com seus pares e com terceiros. Podem ter
acesso, a custo muito baixo, a farto material informacional, a fontes
de toda ordem e origem. Como decorrência, é fundamental
desenvolver estratégias para criticar e avaliar as informações
conseguidas na Internet, este mar infindável de dados, fatos
e versões, alguns bem fundamentados, outros completamente fantasiosos.
Hipertextos
Mas esta é apenas a faceta mais visível
das possibilidades que nos trazem as TCI. Há outras ainda mais
interessantes e que contribuem de forma decisiva para uma nova forma
de fazer e acessar conhecimento.
Entre elas, tendo a acreditar que a maior transformação
reside na forma como o conhecimento é representado na Internet,
na forma de hipertextos. Os hipertextos não nasceram com a
Internet, mas se popularizaram com ela.
E o que é um hipertexto? Vamos por comparação:
um texto tradicional é uma obra que, tipicamente, deve ser
lida começando-se pela primeira linha e seguindo de forma linear,
uma frase após a outra, até a última. Tem-se,
em geral, a sensação de se estar lendo na ordem em que
foi escrito pelo autor (a maior parte das pessoas que escrevem com
regularidade sabe que isto está muito longe da verdade; este
texto, por exemplo, comecei a escrever pela bibliografia). Um hipertexto,
ao contrário, não tem um ordem preferencial para ser
lido. Um bom exemplo de hipertexto são os dicionários;
outro, as enciclopédias. Em ambos procuramos diretamente o
verbete que nos interessa. E se, ao ler a definição
do verbete, encontramos termos que nos são desconhecidos, vamos
diretamente a eles. Não tenho notícia (mas certamente
existem) de pessoas que leiam dicionários seqüencialmente,
uma página após a outra, da primeira à última.
Os documentos que vemos pela Internet (também
chamados de web-pages) são tipicamente hipertextos.
Na grande maioria deles há diversos pontos, que podem ser palavras
ou imagens, sobre os quais podemos clicar com o mouse. Ao fazê-lo,
uma nova página se nos apresenta, uma imagem é mostrada,
uma música toca ou uma animação tem início.
Chamamos a isso de hiperdocumento, porque não precisa ser lido
de forma linear (em oposição aos textos e documentos
tradicionais). Clicando num ponto que seja vínculo (ou link)
para outro documento, saltamos a ele e a leitura prossegue por esta
nova via. A ordem de leitura depende da curiosidade momentânea
do leitor.
E porque considero os hipertextos uma faceta tão
especial? Porque são uma forma inferencial de representar o
conhecimento, são uma forma de representação
mais próxima de como pensamos. Pensamos, construímos
conhecimentos, construímos significados (e compreendemos as
coisas que nos rodeiam) estabelecendo correlações, fazendo
inferências. O hipertexto permite que estas correlações
(ou ao menos parte delas) sejam representadas de forma concreta e
operacional. Ao lermos um hiperdocumento seguindo uma via em especial,
temos uma visão particular, e estabelecemos algumas correlações.
Seguindo outras vias, percebemos outras relações, outras
inferências e formas de compreender o conhecimento ali representado.
Citamos dois exemplos de hipertextos que podem tomar
forma em meio impresso: o dicionário e a enciclopédia.
Em meio digital (computadores), o hipertexto ganha interatividade:
ao clicar sobre os links, novos textos são apresentados
na tela.
Na Internet, os hipertextos podem ganhar uma dimensão
planetária. Cada hipertexto pode fazer conexões com
quaisquer outras páginas da Internet. Assim, começa
a se esboçar a inteligência coletiva de que nos fala
Pierre Lévy. Cada autor de um hiperdocumento na Internet pode
lançar mão do conhecimento produzido por outros, colocando
vínculos no hipertexto que produz e agregando assim, à
sua produção, o trabalho de terceiros.
Para os que quiserem aprofundar esta questão,
há uma página na Internet, em http://penta.ufrgs.br/edu/telelab/10/cm.htm
onde se apresenta um programa sobre mapas conceituais e se discute
a relação entre hipertextos e representação
do conhecimento. Os textos estão em inglês, o que restringe
significativamente o público, mas coloco aqui a sugestão
porque ela é extensiva e trata de forma clara o assunto, apresentando
uma ferramenta gratuita para a construção de mapas conceituais
(representação do conhecimento por mapas que relacionam
conceitos).
Em http://www.pgie.ufrgs.br/webfolioead/mapas.html
há uma página que trata da mesma questão em português.
Outros recursos
Os hipertextos são recursos poderosos mas
não são os únicos que nos trazem as TCI. Há
uma coleção de outras ferramentas ou funcionalidades
(há quem chame de facilidades) que dão suporte à
interação e à cooperação. Vamos
abordar pelo menos as mais comuns.
Correio eletrônico ou e-mail
Ferramenta de correspondência pessoal (um para
um). A agilidade é sua maior riqueza para a EAD. Como as mensagens
de correio eletrônico chegam ao destinatário quase imediatamente,
são preciosas para manter contato freqüente e ágil
com os alunos. É comum que o estudante da modalidade a distância
estude sozinho e de forma solitária. A referência humana
que tem está, em geral, no tutor a distância. É
primordial que suas demandas sejam respondidas com presteza, que ele
perceba o tutor tão próximo quanto possível.
As demandas por correio eletrônico devem ser respondidas não
só com agilidade como com atenção pessoal. É
um meio de contato individualizado onde o aluno pode colocar suas
questões de forma privada e particular.
Fórum
Consiste numa coleção de comentários
feitos a partir de uma afirmação ou uma questão
inicial. É como um debate realizado de forma assíncrona.
Apresenta-se uma questão inicial, que é comentada a
seguir pelos demais participantes. Cada novo comentário pode
merecer respostas específicas e resultar em toda uma linha
de discussões. Os fóruns são uma das formas mais
ricas de cooperação e aprofundamento de idéias.
Ao contrário dos debates ao vivo, os participantes têm
o tempo de que necessitarem para elaborar suas contribuições,
o que pode resultar em discussões muito interessantes, se bem
mediadas pelos professores ou tutores.
Bate-papo ou chat
É uma forma de encontro em tempo real. Uma
sala de bate-papo é um espaço onde podem se encontrar
duas ou mais pessoas para uma "conversa por escrito". Em geral, como
numa conversa ao vivo, é pouco produtiva quando reúne
mais do que cinco ou seis pessoas. Útil para lançar
questões e para contatos informais que humanizam e amenizam
as relações de grupo. Este espaço de encontros
informais é fundamental em EAD, para construir coesão
dentro das turmas.
Finalmente
Os recursos tecnológicos nada significam em
si, nada fazem por si sós. Eles precisam estar a serviço
de um projeto pedagógico claro. Seu uso precisa ser planejado
de forma sistêmica e estar aliado a outros recursos. Seu papel
é limitado e, afora atividades de curta duração
e/ou pequena abrangência conceitual, deve estar aliado ao uso
de outros meios.
É fundamental entender os limites desta tecnologia.
Os textos para serem lidos em telas de computador devem ser curtos
e organizados em blocos pequenos. Textos maiores devem ser impressos
e lidos em papel. Ainda é muito pouco confortável e
pouco saudável ler por longo período de tempo em telas
de computador.
Como em qualquer outro meio, o material para EAD
deve apresentar objetivos claros, tarefas objetivas e formas de verificação
freqüentes do aprendizado.
Os simuladores podem ser extremamente úteis,
mas é imprescindível que os estudantes compreendam que
são simuladores e não substitutos dos fenômenos
reais. Simuladores nunca substituem experimentos em laboratórios.
Mas podem ser ricos para representar os fenômenos lá
verificados.
Por fim, cabe dizer que esta tecnologia será
útil para projetos de EAD se servir para encurtar distâncias
e contribuir para humanizar as relações. Robôs
são as máquinas, os que sentam em frente a elas são
seres humanos. Que sirvam para aproximar corações.
Bibliografia
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.
____________. Pedagogia da Indignação.
São Paulo: Unesp, 2000.
LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência:
o futuro do pensamento na era da informática. Tradução
de Carlos Irineu da Costa, do original francês publicado
em 1990. São Paulo: Editora 34, 1993.
___________. A inteligência coletiva:
por uma antropologia do ciberespaço. Tradução
de Luis Paulo Rouanet, do original francês publicado em
1994. São Paulo: Loyola, 1998.
PAPERT, Seymour. A máquina das crianças.
Porto Alegre: Artes Médicas.
_______________. Logo: computadores e educação.
2™ ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.
Webliografia
http://penta.ufrgs.br/edu/telelab/10/cm.htm
http://www.pgie.ufrgs.br/webfolioead/mapas.html
http://www.educacaopublica.rj.gov.br
http://penta2.ufrgs.br/edutools/tutcmaps/tutcmap.htm