PGM
3 - Materiais e sistemas de comunicação em EAD
Texto 2 - Materiais escritos nos processos
formativos a distância
Leda
Maria Rangearo Fiorentini *
Neste texto procuramos
discutir as possibilidades de interferência nas estratégias
de organização, análise e compreensão
de textos escritos a partir do aproveitamento de suas características
expressivas e da organização das mensagens. Procuramos
também clarificar o papel ativo do sujeito aprendiz e a conseqüente
responsabilidade docente sobre a aprendizagem de estratégias
cognitivas e metacognitivas que favorecem a compreensão e a
aquisição de conhecimentos a partir de textos e que
requerem ação consciente, crítica e teleologicamente
orientada.
Todos observamos o modo como as tecnologias vêm
afetando a produção, a energia, as comunicações,
o comércio, o transporte, o trabalho, a família, assim
como nossa maneira de viver, de trabalhar, de aprender, de comunicar-nos,
de sistematizar o que conhecemos, e todas as atividades relacionadas
com a educação e a formação (Unesco,1998).
Nesse contexto ressalta o fato de que a informação não
é estática e está acessível em múltiplos
lugares (open learning) e até mesmo de forma gratuita,
obtida por meio de enlaces virtuais (hiperlinks), além
de estar organizada de múltiplas formas: escrita, gráfica,
audiovisual, o que requer novos perfís pessoais e profissionais,
num processo contínuo de aprendizagem ao longo da vida (lifelong
learning), provocando um desafio constante e crescente aos educadores
e aos sistemas formativos.
As tecnologias da informação e da comunicação
(TIC) introduziram importantes possibilidades de interação,
intercâmbio de idéias e materiais, entre alunos e professores,
dos alunos entre si, e dos professores entre si, o que favorece a
formação de comunidades cooperativas de aprendizagem,
presenciais ou virtuais, que influem sobre o aprender.
Que podemos aprender/ensinar?
Essa maneira de conceber a prática social
nos obriga a incluir nos temas de estudo, nos processos de trabalho,
na estrutura de apoio pedagógico e nos materiais usados para
aprender, algumas dimensões importantes, como nossas "inteligências
múltiplas" (Lévy, 1993) e distintos "saberes"
(Morin, 1999): o saber (enquanto conhecimento dos fatos, conceitos,
teorias, princípios, fundamentos, nomenclaturas, personagens,
etc.), o saber fazer (como nível procedimental relativo
à construção do conhecimento e ao domínio
de habilidades e destrezas), o ser (como ação
propriamente dita, que inclui atitudes, valores, acepções),
o saber ser (que se configura como nível de práxis)
e o saber fazer junto (que se organiza em termos da construção
do conhecimento por meio de interações cooperativas
e colaborativas com outros atores sociais).
Na sociedade do conhecimento
e da aprendizagem nada mais significativo que trabalhar com problemas
reais, adotar posições variadas de interpretação,
estimular a vivência de múltiplos papéis em contextos
realistas, articular o conhecimento declarativo, procedimental, atitudinal,
fomentar múltiplas formas de representação dos
conhecimentos, a consciência do processo de aprendizagem [metacognição].
Podemos estimular a busca de soluções em grupo, por
meio de diálogo entre alunos e professores e do estudo sistemático,
promover o desenvolvimento de habilidades e destrezas cognitivas complexas,
como as de projetar, avaliar, analisar, sintetizar, investir nos processos
de memória [armazenamento e recuperação de experiências
e informações] que subsidiam a aprendizagem, ao invés
de estimular a memorização vazia. Desenvolver flexibilidade
cognitiva1
na aprendizagem favorece o pensamento crítico e a metacognição,
explorando-se a capacidade espontânea de reestruturar o próprio
conhecimento diante de situações em constante mudança,
pela forma de representar o conhecimento ou pelos processos mentais
que nela operam, facilitando a participação social e
a inserção profissional.
O que cabe ao professor autor de materiais didáticos?
Decidir como interligar as perspectivas do sujeito
aprendiz, da sociedade e a sua própria, no sentido de que as
experiências educativas por ele organizadas possam ser significativas
e relevantes para os aprendizes.
Aproveitar as contribuições científicas
sobre o desenvolvimento humano, o ensino, a aprendizagem, que têm
evidenciado a presença de estruturas básicas no ato
de aprender, das quais destacamos duas, a incorporar nos processos
e materiais de aprendizagem: a estrutura cognitiva da tarefa a
realizar e a estrutura social de participação,
nas quais são claramente especificados os modos de atuar recomendados,
incentivados, reprimidos e ou passíveis de extinção
["as regras do jogo"; "o caminho das pedras"].
E estar consciente de que, subjacente a elas, se
desenvolve uma prática social implícita ou oculta, tão
ou mais forte que a curricularmente prevista, pela poderosa influência
pedagógica que o vivenciar repetido de determinadas formas
de relacionamento entre estudantes, destes com seus professores, exerce
sobre as relações com os conhecimentos, o contexto sociocultural,
a transmissão do patrimônio cultural e científico
da humanidade e a construção, sistematização,
ressignificação desse mesmo conhecimento por meio de
diversas linguagens, meios de comunicação e ambientes
tecnológicos.
É relevante e significativo que as informações
e os materiais de estudo sejam usados de modo intencional e orientado
de acordo com os propósitos e metas educativas nas atividades
de ensino-aprendizagem, pois não possuem um valor de per si.
Sua possível relevância e significação
apresentam-se em função dos propósitos (intencionalidade),
das concepções norteadoras das ações e
da influência que possam exercer para lograr a aprendizagem
pretendida, na medida em que mediam os sujeitos (professor-alunos-comunidade)
e o conhecimento, organizando-se num dado contexto.
Como promover a compreensão de textos?
Partindo do fato de que a leitura, em particular
de textos escritos, não somente tem sido meio de entretenimento
mas magnífica ferramenta de transmissão de informações,
construção de conhecimentos e de cultura, os professores
autores precisam preocupar-se com a melhora das habilidades para compreender,
reter e recuperar a informação contida nos textos concomitantemente
à sua elaboração.
Sabemos que o leitor de um texto elabora uma representação
de seu significado articulando seus conhecimentos prévios,
a familiaridade com padrões organizativos de textos, além
das características do texto em si, do que nele se descreve
e de suas possíveis relações com o mundo e circunstância
de quem o lê/estuda. A compreensão de um discurso (texto
escrito) pressupõe a transformação de símbolos
lingüísticos, icônicos, pictóricos em mentais,
num percurso que vai da linguagem ao pensamento, numa evidência
da enorme relevância dos meios de comunicação
e da organização de um texto sobre a aprendizagem do
sujeito que realiza a leitura (Madruga et al., 1994).
Cabe ao professor/formador, enquanto leitor da realidade
e organizador de seu próprio conhecimento [que corresponde
a uma leitura cultural a partir de sua própria experiência
vital, baseada em suas concepções, referências
e teorias explicativas] organizar o processo educativo de forma consciente,
crítica e compromissada com o desenvolvimento do aprendiz,
de modo que os textos que organiza ou utiliza favoreçam o ato
de ler, a apreensão e construção do conhecimento
e a aprendizagem, além da participação ativa
e compromissada com a democracia na sociedade.
Se estudar constitui "um ato de criar e recriar
idéias" (Freire, 1969), podemos afirmar a dialética
do ato docente: o professor ensina porque aprende e aprende enquanto
ensina (Sacristán, 1992). A observação e análise
dessa mesma prática pode ajudar a transformá-la e a
definir consciente e criticamente as estratégias de atuação
mediadas por meios de comunicação e ambientes tecnológicos.
Como os professores autores podem promover a aprendizagem?
Fomentando o protagonismo, a interlocução
e o lúdico, baseando suas decisões pedagógicas
em aspectos/fases distintos de mediação pedagógica:
no tema, na aprendizagem e na forma (Gutierrez
& Prieto, 1994). Sabemos que o uso de múltiplos esquemas,
conceitos e perspectivas temáticas na abordagem dos conteúdos
educativos favorece representar e apreciar experiências e construir
conhecimentos, de sorte que maior variedade de casos melhora a base
conceitual sobre a qual se apóiam, como contextos de vida real
(Jonassen et al., 1997:122).
Um dos procedimentos pode ser a inclusão de
ajudas intratextuais, como por exemplo: questões para
reflexão; atividades exploratórias iniciais; de aplicação,
de auto-avaliação; ativar experiências e conhecimentos
prévios; usar seqüências dedutivas e ou indutivas;
propor atividades concretas para o estudante realizar; usar frase
temática inicial sobre o assunto tratado; apresentar visão
panorâmica do material e do que se vai estudar; indicar como
estão estruturados os conhecimentos abordados no material;
especificar outros materiais que o estudante precisa para estudar;
sugerir o melhor caminho para estudar; especificar os critérios
de avaliação do desempenho do estudante; incluir atividades
para fomentar a transferência de aprendizagem; enunciar a informação
principal ao início do parágrafo, apresentando a perspectiva
do autor; destacar a informação relevante; orientar
como realizar as atividades e como elaborar suas respostas; estimular
a organização de horários de estudos individuais
e coletivos semanais, além de estimular o uso do que forem
aprendendo em sua prática profissional e/ou pedagógica.
Podem ser ajudas extratextuais, como por exemplo,
usar capa contextualizada; apresentar os créditos editoriais;
apresentar a equipe; usar fonte tipográfica variada e sinalização
gráfica para indicar e separar atividades; organizar a página
em uma coluna; usar títulos e esquemas numerados, objetivos
e perguntas; incluir organizadores prévios, esquemas, sumários,
mapas conceituais, gráficos, quadros; diagramas, tabelas, ilustrações,
ícones; utilizar margem direita maior que a usual em cada página
para que nela os estudantes possam anotar suas idéias e observações,
revisando, de tempos em tempos as idéias que forem surgindo
na leitura e no estudo, as dúvidas, o que experimentaram em
suas atividades, os avanços, as soluções encontradas,
e os comentários pessoais.
Também podem contribuir para desenvolver
hábitos de estudo recomendando o percurso mais adequado para
aprender, que pode ser, por exemplo, iniciar pela introdução
geral de cada módulo; conhecer os objetivos geral e específicos
e suas unidades; leitura atenta, procurando compreender o que estiver
estudando em cada unidade; realizar todas as atividades solicitadas,
se possível por escrito; fazer resumos sempre que necessitar
organizar a informação estudada; sublinhar palavras
que não conhecer e procurar seu significado no glossário,
em outras fontes e em um dicionário, com o que podem ampliar
terminologia técnica, vocabulário, entre outras atividades.
Além de prever outros materiais incluídos no curso,
como fitas de audiocassete, programas de rádio e televisão,
músicas, vídeos, Internet, correio eletrônico,
usando ícones ou palavras para indicar o momento e o modo adequado
de utilizá-los, com o que também se fomenta o raciocínio
intuitivo e a atividade do aprendiz.
O ideal é que
o próprio professor responsável pelo curso/disciplina
realize a orientação acadêmica, seja por meio
de sua inclusão nos textos didáticos do curso ("tutoria
em papel")2
seja pelo atendimento individual/coletivo descentralizado, por meio
dos meios de comunicação disponibilizados pela instituição.
Se forem necessários professores tutores, como parceiros no
processo de aprendizagem, poderão prestar informações
de natureza científica, orientações metodológicas
de como abordar os conteúdos, de como organizar-se para estudar,
estimular o prosseguimento dos trabalhos apesar das dificuldades no
caminho, colher informações sobre o estudante, com o
intuito de reduzir a distância acadêmica entre o estudante
e os professores-autores.
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NOTAS:
* Universidade de Brasília-
Faculdade de Educação ledafior@unb.br http://www.fe.unb.br
1
Teoria formulada por Spiro & Jehng (1991).
2
Expressão trabalhada por Derek Rowntree: Cómo
escribir una lección de auto-aprendizaje. In Rodríguez,
E.M. e Quintillán, M.A. La educación a distancia
en tiempos de cambios: nuevas generaciones, viejos conflictos. Madrid:
Ediciones de la Torre, 1999, p.85-135.
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