PGM 2 - Gestão de programas de EAD

Texto 3 - A gestão de um programa de educação a distância em universidade pública presencial e multi-campi

Selma Dias *

1. Como foi concebida a gestão da EAD na UFPA?

Pensar a gestão de um programa de cursos a distância em uma universidade tradicionalmente presencial multi-campi como a Universidade Federal do Pará é tarefa complexa, desafiadora, que exige, sobretudo, vontade política. As demais ações decorrem dessa vontade de fazer e da disposição dos gestores, de investir no Programa.

Algumas fases do processo de implantação e gestão da educação a distância nortearam a equipe técnica responsável pela implementação dos projetos que integram o Programa de EAD, tais como:

  • Fase de planejamento: articulação política que implica interação infra e extra-institucional (diálogo entre administração superior, docentes e técnicos envolvidos), concepção do sistema de educação a distância a ser implementado, público alvo, custos da infra-estrutura de acordo com os meios e metodologia a ser utilizada e do custeio necessário à fase de implementação; metas a alcançar e cronograma de execução físico e financeiro.
  • Fase de execução: constituição e treinamento das equipes técnicas para produção de materiais e tutoria, acompanhamento e avaliação sistemática do curso e da aprendizagem.

Além das fases de planejamento e execução, foram considerados os elementos melhor visualizados no gráfico a seguir:

Partiu-se da missão da educação a distância no contexto institucional e regional, qual seja a de democratizar o acesso ao ensino superior, por parte de uma população excluída, sobretudo de adultos que se encontram residindo fora dos centros que ofertam cursos presenciais ou de trabalhadores que não dispõem de tempo disponível para freqüentar as aulas no sistema tradicional. Contudo, a missão só pode se tornar viável e exeqüível, na medida em que os (a):

1. princípios norteadores do funcionamento estiverem claros para toda equipe,

2. estrutura organizativa que, no caso da UFPA, é o Departamento de Educação a Distância (DEAD), trabalhando integrado com as pró-reitorias fim e as unidades acadêmicas que compreendem centros, departamentos, núcleos e coordenações de cursos nos quais estão localizados os professores conteudistas, os tutores e o apoio administrativo.

3. instrumentos de planejamento, tais como o projeto pedagógico, a definição do público alvo, da demanda, dos meios que a universidade precisa colocar à disponsição da equipe e dos usuários, que no caso são os cursistas, do cronograma físico financeiro.

4. adequação ao contexto sócio-educativo que envolve aspectos importantes de políticas públicas, de cultura local e outras relativas ao entorno ambiental que, na Amazônia, merece atenção especial, tendo em vista suas peculiaridades e dificuldades de várias ordens, que interferem diretamente na execução do projeto e, conseqüentemente, no cumprimento da missão.

Vale ressaltar que a Universidade Federal do Pará executa cursos desde 1998 e, embora sejam poucos, estes têm representado um espaço de conquista e superação de preconceitos, que têm sido grandes obstáculos, pouco a pouco superados, no interior da instituição, pois os cursos a distância ainda são vistos, por alguns grupos mais fechados, como uma espécie de "aligeiramento" da educação. Dos cursos em extensão (apenas 4, sendo que dois deles do Consórcio UniRede), um deles, Alfabetização com Base Lingüística para professores, já implantado desde 1998, conta com cerca de 1.300 alunos em todo o estado do Pará. Outro curso, de Planejamento e Gestão do Desenvolvimento Regional, qualificou 248 técnicos para a produção de projetos voltados para o interesse da Região e do estado em particular. Cada um desses cursos possui uma gestão singular que se adapta às características do projeto e da clientela a que se propõem atender e trabalha em sintonia com a equipe do DEAD. Não existe, portanto, um modelo único de gestão para esses cursos.

Em se tratando de cursos que certificam, como no caso da graduação, a experiência tem sido mais complexa, sobretudo, porque o curso precisa ser assimilado por um sistema de gestão do ensino presencial que absorve menos alunos, cresce mais lentamente, não exige a presencialidade como forma de controle da aprendizagem mas, em compensação, exige um acompanhamento quase que individualizado por parte de tutores que acompanham os cursistas semanalmente, e que precisam, de um lado, conhecer muito bem os conteúdos das disciplinas para orientar os alunos e, de outro, entender o sistema de gestão e acompanhamento que difere do modelo por ele já introjetado, qual seja, o sistema presencial centrado na figura do professor que transmite o conhecimento. Romper com esse paradigma tem sido um dos grandes desafios da gestão do DEAD na UFPA.

O sistema de gestão da EAD na UFPA, diversamente do de outras instituições federais de ensino superior brasileiras, que criaram Núcleos integradores de ações, com maior grau de liberdade administrativa que um Departamento, foi criado no âmbito da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação e Administração Acadêmica, em função do interesse da administração superior em dar ênfase aos cursos e/ou disciplinas da graduação. Porém o trabalho é sempre desenvolvido em colaboração com outras pró-reitorias, como já foi mencionado.

2. Como está organizada a gestão do DEAD?

O Departamento está constituído por diretoria responsável pelas articulações, negociações e orientações gerais e que participa do planejamento e das avaliações, e de duas divisões técnicas, sendo uma responsável pelo apoio tecnológico e desenvolvimento de ambientes para cursos e/ou disciplinas em rede e de outra divisão que apóia e orienta na produção de materiais didáticos (impresso e áudio). As equipes dos centros trabalham em cooperação com estas divisões, porém elas devem ficar mais autônomas tão logo dominem o processo de produção, de modo a liberar a equipe central para apoiar projetos em fase inicial de implantação. Depois de capacitadas essas equipes, existe um acompanhamento sistemático do processo, através de pesquisa avaliativa.

2.1 Organização e objetivos do Departamento de Educação a Distância - DEAD

  • Coordenação geral: negociação dos projetos, captação de recursos, orientação aos treinamentos, divulgação de resultados, acompanhamento dos projetos de pesquisa, otimização e socialização dos recursos, sensibilização de grupos de produção, identificação de necessidades.
  • Equipe responsável pelo desenvolvimento de softwares educativos; web design; home page; atualizações do sistema e capacitação de pessoal para o uso do meio.
  • Equipe responsável pela capacitação de tutores, logística da distribuição dos materiais, editoração dos materiais impressos, vídeos e áudio e apoio à equipe de gestão dos projetos.

Para fazer face às demandas que começam a surgir, desde o início, houve a preocupação com a descentralização da gestão do Programa, de modo a possibilitar a otimização dos recursos humanos qualificados e disseminar os treinamentos necessários antes e durante a implementação dos cursos. Isto quer dizer que cada unidade pedagógica (Centro ou Colegiado de Curso) precisa constituir sua equipe de professores que vão trabalhar na elaboração dos materiais didáticos, eleger uma coordenação e esta equipe que trabalhará sob a orientação da equipe do DEAD.

A organização de uma equipe compreende a identificação tanto de um perfil do profissional que se quer, quanto das habilidade e competências que ele tem ou que precisa adquirir. A rigor, devem constituir uma equipe técnicos de várias áreas do conhecimento mas, algumas vezes, é freqüente ver alguns deles desempenhando vários papéis. Isso permite agilizar e tornar a ação mais eficiente e eficaz, desde que ele seja competente e responsável, pois a experiência tem revelado que os cursos a distância exigem muito mais dos professores e tutores que os cursos presenciais, tanto no que diz respeito à preparação de materiais, quanto no acompanhamento individualizado dos cursistas e, ainda, pelo maior número de avaliações formativas, enquanto estratégia de fixação de aprendizagem.

  • A composição de uma equipe técnica:

Exemplo de composição de uma equipe técnica interdisciplinar para produção de material impresso e de áudio e web:

Orientador Pedagógico

Conteudista/Especialista

Suporte/Administrativo

Revisão da língua

Ilustrador

Programador visual

Roteirista de vídeo/ áudio

Diretor e equipe de gravação de áudio e vídeo

Para Cursos WEB

Web designer

Analista de Sistema

Web Master

HTML

Programador

Entretanto, em função de custos e da UFPA ainda não dispor de vários cursos, esses técnicos, em sua maioria, prestam serviços ao projeto, recebem uma bolsa e, dependendo do momento e da necessidade, eles podem ser dispensados da prestação de serviços.

  • A Escolha dos Meios:

Os meios são escolhidos de acordo com a população alvo e com os recursos disponíveis no orçamento do projeto.

2.2 Um exemplo concreto: funcionamento do curso de Licenciatura em Matemática

O Projeto de Licenciatura de Matemática foi implantado junto ao Centro de Ciências Exatas, assim como os demais cursos presenciais, e os professores estão vinculados ao Departamento de Matemática, como anteriormente já referido.

Foi estratégico, na gestão, identificar professores motivados para o trabalho de produção de materiais didáticos, já que o ingresso no curso será feito via curso preparatório e o acesso durante quatro meses, o que implica uma revisão de conteúdos do Ensino Fundamental e Médio e uma avaliação presencial final.

Identificar e propor parcerias para uma gestão compartilhada não foi um trabalho fácil, tendo em vista o modelo centralizador, composto pela justaposição de territórios bem demarcados, que em nada favorece o trabalho em grupo e interdisciplinar exigido pela EAD. No espaço institucional, foi necessário desde identificar espaços físicos ociosos para alojar o novo curso, até definir estratégias de captação de recursos para investimentos.

Ser uma universidade multicampi favorece, em muito, o apoio dos alunos que residem no interior do estado, posto que, devido às distâncias, o custo com os deslocamentos de professores é muito mais elevado. Deste modo, a UFPA vai dispor de professores tutores já previamente treinados para o acompanhamento remoto ou presencial, dependendo da disponibilidade e opção do cursista.

  • A tutoria

Constitui-se num sistema vital para a garantia de acompanhamento e melhor rendimento da aprendizagem a distância. Na UFPA, um tutor será responsável por um grupo de 30 cursistas. Este tutor, depois de selecionado e capacitado para o desempenho da função, será acompanhado e avaliado pelo coordenador do curso. Todos os tutores terão que ter concluído a graduação em Matemática.

Considerando-se a grande dimensão territorial do Pará e a precariedade da infra-estrutura de acesso à maioria dos municípios do interior, a UFPA selecionou, previamente, a implantação do curso em três municípios, incluindo Belém, a saber: Marabá, Santarém, Altamira. Contudo, o que se verificou foi que já foi solicitada a implantação do curso em mais de 10 municípios, que serão atendidos pela monitoria do campus mais próximo.

  • Tipos de Monitoria utilizadas pela UFPA:

- Monitoria Presencial;

- Em grupo;

- Via correio,

- Telefone, fax;

- E-mail;

- Fórum;

- Chat.

  • sistema de comunicação

Para que a comunicação se torne mais eficiente, estão sendo implantas duas linhas 0800, porém, o atendimento aos cursistas poderá ser presencial ou em grupos pequenos, por ocasião do plantão dos tutores. Para aqueles que dispõem de um computador conectado na rede, o atendimento poderá ser pela rede através do correio eletrônico ou do fórum de debate e ainda do chat, cujos software em sendo livres, não geram ônus para a instituição.

  • sistema de financiamento

Em se tratando de autarquia pública, a UFPA oferece os cursos de graduação sem ônus para o cursista, porém o custeio do curso será via Prefeituras/ FUNDEF, através de contratos que regulamentam a relação entre a Fundação de Amparo e Pesquisa (FADESP) a UFPA e as Prefeituras ou Secretarias de Estado. Esse instrumento viabiliza o pagamento dos materiais didáticos, de bolsas para os tutores e o custeio de materiais, passagens e diárias, nos casos em que os professores coordenadores ou pesquisadores necessitam de deslocamento intermunicipal.

  • sistema de seleção dos candidatos

O candidato ao curso de Matemática ingressa na licenciatura propriamente dita, depois de passar por um curso preparatório de revisão de conteúdos do currículo dos cursos fundamental e médio. Após quatro meses de curso, será realizada uma avaliação somativa, que classificará dentre os 1.000 inscritos os 250 primeiros colocados, que ingressam imediatamente no curso de graduação. Nesta fase, os cursistas também são acompanhados por tutores designados e treinados pela equipe da UFPA (todo o material será impresso e foi produzido inteiramente pela equipe da UFPA).

  • Clientela Alvo

O aluno do curso de Matemática será o professor da rede pública estadual ou municipal do Estado do Pará, que esteja trabalhando com a disciplina Matemática nesses sistemas de ensino. A UFPA não irá oferecer, pelo menos na fase experimental do curso e enquanto houver demanda do Estado, para outros estados ou municípios.

 

  • Os materiais impressos da Licenciatura

Tendo em vista uma primeira tentativa de contrato com a Open University da Inglaterra ter sido frustrada após 4 anos de negociações e dos problemas que, finalmente, a equipe técnica concluiu que se teria em adaptações dos cursos da OU, e tendo em vista a aprovação de um curso de Matemática inteiramente produzido no Brasil pelo Consórcio Estadual das Universidades Públicas do Rio de Janeiro (CEDERJ), a UFPA, com o parecer técnico da equipe do Colegiado do Curso de Matemática, decidiu trabalhar com os materiais produzidos pelo CEDERJ e fazer as adequações que se fizerem necessárias, na medida em que as avaliações indicarem (o curso utilizará apenas material impresso, tendo em vista as características da clientela alvo e as condições reais de infra-estrutura dos campi).

NOTAS:

* Universidade Federal do Pará.