PGM 2
– No cotidiano escolar
(in)disciplina:
questão de entendimento
Maria
Salett Biembengut*
Qual
o principal problema que vocês enfrentam no ensino?
Essa foi a pergunta que fiz a professores e dirigentes de uma escola pública,
na qual pretendia promover ações que atendessem aos professores nas
questões de natureza metodológica. Por supor que um dos principais
problemas dos professores era saber o quê, quanto e como
ensinar e avaliar os conteúdos programáticos, elaborei um projeto com a
finalidade de contribuir nessas questões.
Para minha surpresa, a resposta rápida e quase unânime foi: indisciplina
dos alunos. Afirmaram que a maioria dos alunos não
respeitava os professores, conversava durante as aulas, não se
interessava por aprender, rabiscava as carteiras, destruía objetos da
escola, não utilizava uniforme, saía correndo das salas de aula ou da
escola no instante do sinal, dentre outras coisas. Tal resposta deixou-me
sem ação. Não me considerava apta para lidar com atitudes ou
comportamento dos alunos. O projeto que tinha não se aplicaria nessa
escola, ou pelo menos não com a adesão e o interesse dos professores.
Mesmo assim, devido ao interesse da direção em implantar o projeto, após
essa reunião fui conhecer as instalações físicas da escola.
Ao passar algumas horas na escola para conhecer a estrutura e a dinâmica,
algumas coisas chamaram-me a atenção:
1. Imagem interna e externa da
escola
ü
pintura das paredes em tom mostarda e já desgastada;
ü
jardim e várias instalações destruídos;
ü
sujeira, lixo em diversas instalações;
ü
salas dos professores, da administração, da coordenação apáticas,
sem identidade, sem expressão;
2. Atitude de alguns
professores
ü
desleixados em sua aparência física;
ü
falta de dinamismo em suas aulas permanecendo sentados o tempo
todo;
ü
descaso com a sala na qual descansavam e faziam lanche deixando
xícaras de café por todos os lados, cascas de frutas sobre a mesa, migalhas de lanches pelo chão,
pontas de cigarro nos pires;
ü
negligência com o horário caminhando lentamente para as
salas, parando na porta para dar continuidade à conversa com o colega e,
vez por outra, gritando com os alunos, devido à algazarra, para que
o aguardassem em silêncio;
3. Postura de alunos,
professores e funcionários ao final das atividades do dia – saíam em
disparada, quase todos ao mesmo instante, causando transtorno com manobras
de carros em meio à correria de crianças, jovens e adultos.
Essas, dentre outras coisas que observei naquele momento, levaram-me a
refletir sobre a questão levantada pelos professores – indisciplina.
Mas, o que é indisciplina? Pelo dicionário, indisciplina significa:
desordem, desobediência, não cumprimento das normas. Nestes termos, quem
não cumpre as normas? O que se entende por desordem, desobediência? Em
que óptica?
Para esses professores, os alunos não recebiam a devida educação da família
e, portanto, que a atitude deles era reflexo da atitude familiar. Sem dúvida
a atitude das pessoas é reflexo da convivência familiar, mas também da
convivência com os demais seres do meio em que vivem. Assim, como a
escola é parte dessas pessoas, ela tem boas e legítimas razões para
também auxiliar os alunos a terem atitudes que estejam em sintonia
com as que a sociedade requer como condição de boa convivência. O que
exige uma atitude coerente dos partícipes da escola (professores, funcionários,
coordenadores, dirigentes).
A convivência ocorre em ambiente de respeito e cooperação. Não há
como conviver socialmente sem que haja normas de conduta. Desse modo, a
disciplina precisa ser trabalhada, caso contrário, não há como conviver
em harmonia.
Essas observações e reflexões levaram-me a (re)estruturar o projeto e
promover algumas ações nessa escola. Passei a entender que, embora
necessário, não é suficiente promover cursos de formação
continuada de conteúdos e propostas metodológicas, implantar
tecnologias, reduzir carga horária de trabalho e melhorar o salário, sem
antes buscar meios para que os partícipes da escola tenham um mínimo de
respeito às normas de convivência. E mais, é necessário que esses partícipes
assumam o que fazem com responsabilidade.
Dessa forma, iniciei por sensibilizar a todos, inclusive, os pais sobre a
importância dessa postura, e juntos estabelecermos uma série de ações
visando promover o prazer e o bem-estar na escola.
Começamos por (re)formar e embelezar o espaço físico, promovendo
diversas campanhas – da estética, do verde, do lixo, da limpeza com a
coordenação de alunos, pais e professores. A partir de apoio recebido de
empresas circunvizinhas e de pais, foi feita a reforma de alguns ambientes
e a seguir, a escola foi pintada com cor clara. A campanha do verde junto
aos alunos garantiu a formação de jardins. A maioria contribuiu não
apenas para trazer plantas de suas casas como também para ajudar a plantá-las.
Na campanha da estética, alguns alunos e professores buscaram,
inicialmente, aprender algumas regras essenciais e promoveram cursos aos
demais alunos e desfiles de moda. A campanha do lixo e da limpeza não
apenas sensibilizou a todos sobre a necessidade do respeito ao meio
ambiente, como também sobre a importância da reciclagem, promovendo, por
exemplo, a aquisição de
vasilhames para a coleta e separação dos materiais a serem reciclados. O
estacionamento dos carros passou a ser de ré para facilitar a saída, uma
vez que saem todos no mesmo momento, para evitar transtornos e possíveis
acidentes.
A mudança da imagem da escola e dos professores, sem dúvida, contribuiu
para a imagem dos alunos. O aspecto físico do espaço escolar cor das
paredes, sujeiras, móveis ou objetos destruídos, ausência de harmonia e
de estética não pode ser fator relevante da falta de disciplina dos
dirigentes? E a falta de estética de alguns professores, também, não
pode ser considerada desrespeito com aqueles que se espera “educar”?
Tenho claro que as escolas públicas não dispõem de recursos suficientes
para a manutenção, bem como os professores não recebem salários que
lhes permitam se apresentar com vestuário melhor. Mas, entendo que
desleixo é questão de atitude. Alguns cuidados simples podem mudar essa
condição. O descuido, com certeza, contribui para que o aluno não
respeite a estrutura escolar, induzindo-o a dar continuidade destruindo os
demais participantes da escola. Como podemos esperar que os alunos
respeitem o ambiente escolar, gostem da Escola, tenham interesse por ela
se nem mesmo nós temos este respeito, gosto, interesse?
Em meio a esse movimento pela “identidade” da escola, procurei
promover algumas atividades, como palestras e reuniões, a fim de
discutir, dentre outras coisas, sobre como somos reconhecidos. A razão
dessas atividades era o problema enfrentado pela escola, com relação às
atitudes de alguns professores, como: ausências constantes (apresentando
atestado médico), não cumprimento do horário e, ainda, a não promoção
de atividades que pudessem estimular os alunos à aprendizagem.
Sabemos que só aprende quem quer. Assim, o professor precisa estar atento
aos meios que permitam “conquistar” os alunos a quererem aprender. E
ainda, o professor precisa gostar do que faz, gostar do ambiente em que
atua. Essas são condições mínimas, no meu entendimento, para ser um
partícipe da Escola. Como podemos esperar que os alunos cumpram as
tarefas, se não a cumprimos? Como queremos que os alunos aprendam, se não
nos esforçamos para buscar meios que os motivem para isso? Como esperamos
que eles nos respeitem, se não os respeitamos? E, como estamos sendo
reconhecidos por eles?
Na tentativa de amenizar esses problemas,
procurei por meio de palestras e reuniões, refletir sobre a importância
de ser reconhecido de forma positiva. Afinal, a forma com que nos
apresentamos, expressamos, agimos, mantemos, o ambiente delineia nossa
identidade. Somos responsáveis pela imagem que criamos de nós mesmos. Há
um dito popular que diz “que a primeira impressão é a que fica”.
Assim, podemos não ter a oportunidade de causar uma segunda boa impressão.
Acredito que é através do olhar do outro que podemos ter ou não o
reconhecimento de alunos, familiares, comunidade. Se educar é
transferir às gerações o que conhecemos e fazemos, naturalmente os
alunos não estão agindo de acordo com o que estamos lhes representando?
Será que os alunos não estão mostrando a forma como nos reconhecem?
Essas e tantas outras ações levaram muitos professores, funcionários e
dirigentes dessa escola a mudarem a postura em relação à escola; conseqüentemente,
a postura de muitos alunos também mudou. Talvez, a promoção da beleza,
em sentido amplo, dos participantes da escola seja o caminho para
reconhecerem-se e serem reconhecidos.
Afirmo que o interesse que temos pelo conhecimento acadêmico advém do
interesse pelo que representamos, percebemos e sentimos.
NOTAS:
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Universidade Regional de Blumenau. salett@furb.br.
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