Complexidade e seus reflexos na educação

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Debates: Complexidade e seus reflexos na educação

Ubiratan D’Ambrosio* 

Estamos vivendo um momento de contestação e de renovação do conhecimento, que se originou no Renascimento, resultado de insuficiências e fragilidades da sociedade moderna, em especial no que se refere à ciência.

O progresso, baseado no conhecimento científico, sobre o qual se fundou a civilização moderna, prometeu relações éticas entre todos os seres humanos.

As promessas não foram cumpridas!

Estaremos vivendo um novo renascimento? Talvez. Mas o fato incontestável é que se está buscando a superação do paradigma da ciência moderna. Várias denominações destacam focos distintos para essa superação: novos paradigmas, era da consciência, transdisciplinaridade, nova era, holismo, complexidade.

O paradigma da ciência moderna estabelece um determinismo na explicação da realidade, que se expressa mediante uma relação de causa ®  efeito e estabelece critérios de verdade, como promessa de um pretendido conhecimento final.

O novo pensar reconhece a insuficiência do conhecimento e os desacertos do comportamento e procura entender a indissolubilidade do quaterno COSMOS, NATUREZA, INDIVÍDUO, O OUTRO, e das intermediações criadas pelo homem.

Insuficiência do conhecimento

O paradigma da ciência moderna repousa em três pilares:

1. o determinismo newtoniano, que procura leis universais, estabelecendo uma relação de causa e efeito;

2. a lógica clássica, cujo fundamento deriva do princípio do terceiro excluído, o TERTIUM NON DATUR, e que permite estabelecer critérios para afirmar é OU não é, sim OU não, verdadeiro OU falso;

3. os sistemas formais, fechados em seu universo, que dão validade a proposições sobre objetos desse universo.

Uma resposta à insuficiência do conhecimento pode ser sintetizada em três grandes avanços em direção ao novo pensamento.

O primeiro avanço foi a introdução da mecânica quântica, por Max Planck, em 1900, que diz que um estado físico requer, para a sua descrição, variáveis selecionadas a partir de uma variedade de observações possíveis. A relação entre instinto e consciência foi repensada e, também em 1900, surge A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud. Ambas propostas sugerem percepções de diferentes níveis de realidade e uma nova visão do universo material e do universo psíquico.

O segundo avanço se refere à lógica clássica. O matemático holandês Luitzen Brouwer publicou importante trabalho em 1905, no qual contesta a total subordinação do pensamento lógico ao princípio do terceiro excluído, dizendo que ele não corresponde à nossa intuição. Há sistemas que necessitam uma lógica mais geral, poderíamos dizer mais flexível, nos seus critérios de decisão. A proposta de Brouwer ficou conhecida como intuicionismo.

O terceiro avanço, com importantes implicações filosóficas, foi dado em 1935 pelo matemático Kurt Gödel. Estudando sistemas formais da aritmética, Gödel enunciou um teorema que não pode ser demonstrado no próprio sistema. Isto é, esses sistemas só podem ser estudados num contexto mais amplo, com considerações fora do sistema. Conseqüentemente, é necessário considerar sistemas abertos de conhecimento.

Desacertos do comportamento

O comportamento humano revela um inaceitável índice de arrogância, prepotência, fanatismo, ganância, inveja, presunção e tantas outras manifestações de desacerto.

O ser humano tem se perguntado:

QUEM É?

e se vê como o favorito de algum deus

     O QUE É?

     e se vê como um sistema complexo de músculos, ossos, nervos e humores

          COMO É?

          e se explica como uma anatomia com vontade

              QUANTO É?

               e se acredita sem limitações à sua vontade e ambição.

mas evita perguntar  por que é?

É necessário reconhecer o valor intrínseco do indivíduo:

VALE PORQUE É, NÃO PELA MANEIRA COMO É

e a essencialidade do outro, para que o indivíduo possa ser.

Para se encaminhar uma nova proposta de conhecimento e de comportamento, devemos fazer uma reflexão sobre a relação meios-fim. E uma discussão sobre educação tampouco pode escapar dessa relação, que se traduz em afirmações sobre a importância da educação. São valores associados à ação educativa. Espera-se o efeito da ação educativa no comportamento dos indivíduos. E a estratégia da ação educativa, que é o currículo, tem, portanto, como finalidade, o comportamento dos indivíduos que passam pelo processo. Como o currículo é baseado em conhecimento, em saberes e fazeres, somos levados a uma questão maior: como se relacionam conhecimento e comportamento?

Sempre ficamos chocados quando vemos uma pessoa com um bom nível de conhecimento comportando-se de maneira criticável, algumas vezes até abominável. Porque o conhecimento não influi no seu comportamento? Paradoxalmente, o conhecimento é muitas vezes utilizado para um comportamento ainda mais criticável.

Quando pensamos no comportamento social, no qual o consumismo irresponsável, a ganância desmedida e a corrupção são comuns nas classes média e alta, perguntamos: por que indivíduos que tiveram educação esmerada e adquiriram um bom nível de conhecimento não são capazes de ter um comportamento adequado? Para abordar essas questões devemos entender a natureza humana e o conhecimento humano. 

Ao longo da sua curta história, o ser humano tem avançado muito no conhecimento a respeito de si mesmo. Mas a grande angústia existencial, que resulta de não se encontrar uma resposta satisfatória à questão maior “por que sou?”, dá origem a contradições na qualidade de ser humano.

As distorções na maneira como o homem tem se acreditado o induziram a atitudes de poder, prepotência, ganância, inveja, avareza, arrogância, indiferença. O combate a esses antivalores deve ser o objetivo maior dos sistemas educacionais.

Para entender o fenômeno vida devemos reconhecer a essencialidade dos três componentes absolutamente interdependentes, o indivíduo, o outro e o ambiente, habitat natural das espécies vivas. Os três fatos, conjugados e indissolúveis, constituem o fenômeno vida. Vida é uma tríade representada pelo triângulo:

[Subentende-se indivíduo e outro como sendo da mesma espécie e ambiente como a totalidade planetária e cósmica.]

A complexidade da vida está sintetizada nesse triângulo, que chamo triângulo da vida. Os três fatos – o INDIVÍDUO, o OUTRO e o AMBIENTE – são mutuamente essenciais, e a vida se realiza somente na sua conjugação. NENHUM DOS TRÊS PODE EXISTIR SEM OS DEMAIS, e as relações entre esses fatos são reguladas por mecanismos fisiológicos e ecológicos.

Em todas as espécies, o indivíduo se sujeita, na busca de sobrevivência, a comportamentos vitais básicos [meios], associados a um tipo de conhecimento que resulta da memória individual [experiências anteriores] e coletiva [genética]. Os acertos e equívocos nos comportamentos vitais, obviamente associados a essa forma de conhecimento, são o que se denomina INSTINTO.

Exemplo de comportamentos dessa natureza são:

¨       reconhecer o outro,

¨       aprender,

¨       ser ensinado,

¨       adaptar-se

¨       e cruzar

cujos objetivos [fins] são SOBREVIVER e dar CONTINUIDADE À ESPÉCIE.

Uma questão maior, ainda não respondida, é “QUAIS AS FORÇAS QUE LEVAM OS SERES VIVOS A ESSES COMPORTAMENTOS VITAIS?”.

O homem, como todo organismo vivo, é complexo na sua definição e no seu funcionamento, e está sujeito aos mesmos comportamentos vitais básicos de todo ser vivo. Busca sobrevivência.

Mas, diferentemente dos demais seres vivos e mesmo das espécies mais próximas, busca algo além da sobrevivência. Algumas vezes até rejeita sua sobrevivência. Onde se situa a diferença entre a espécie humana e as demais espécies?

A diferença essencial está na criação de MEDIADORES para a resolução do triângulo da vida: INSTRUMENTOS e TECNOLOGIA entre o indivíduo e o seu ambiente, COMUNICAÇÃO e EMOÇÕES entre o indivíduo e o outro e a sociedade como um todo; e TRABALHO e PRODUÇÃO entre o indivíduo e a sociedade e o seu ambiente. Os acertos e equívocos na produção dessas intermediações resultam do encontro do COMPORTAMENTO e do CONHECIMENTO, que é o que se denomina CONSCIÊNCIA.

Esses mediadores permitem ao homem transcender o momento da sobrevivência, buscando, no passado, explicações para o presente, e se preparar, prover, para o futuro. O presente se torna o encontro de passado e futuro, e a característica mais importante da espécie humana se torna transcender o presente.

O comportamento humano resulta de duas grandes pulsões:

1. a sobrevivência, do indivíduo e da espécie que, como em toda espécie viva, se situa na dimensão do momento;

2. a transcendência do momento que, diferentemente das demais espécies, se situa numa outra dimensão, levando o homem a indagar “por quê?”,”como?”,”onde?”,”quando?”.

Sobrevivência e transcendência guardam uma relação simbiótica e distinguem o ser humano das demais espécies. Essa simbiose é a consciência.

Na resposta à pulsão de sobrevivência, o homem define suas relações com a natureza e com o outro e desenvolve as intermediações já mencionadas acima. Na resposta à pulsão de transcendência, incursiona no passado e no futuro, desenvolvendo mitos e artes, religiões e ciências.

O conhecimento de cada indivíduo resulta das informações percebidas da realidade, o que inclui fatos e memórias, de seu processamento e de ações que obedecem a estratégias definidas pela sua vontade.

No encontro com o outro, que também está em busca de sobrevivência e de transcendência, desenvolve-se a COMUNICAÇÃO. O indivíduo e o outro, mesmo próximos, percebem a realidade de modo diferente, processam essa informação diferentemente e, portanto, definem estratégias diferentes de ação. Indivíduo e outro têm conhecimentos e comportamentos distintos. Através da comunicação é possível compartilhar conhecimentos e compatibilizar comportamentos.

O comportamento de cada indivíduo é aceito pelos seus próximos quando subordinados a parâmetros, que se denominam valores e que determinam os acertos e equívocos na produção e utilização das intermediações criadas pelo homem para sua sobrevivência e transcendência.

Valores, assim conceituados, relacionam os meios com os fins. Os fins constituem as grandes utopias de indivíduos e de sociedades, dos sistemas de explicações e dos mitos, da cultura. Os meios dependem dos instrumentos materiais e intelectuais de que dispomos, também dependentes da cultura. Assim, os valores são manifestações culturais.

Uma excursão pela história revela que novos meios de sobrevivência e de transcendência fazem com que valores mudem. Mas alguns valores permanecem:

¨       respeito pelo outro,

¨       solidariedade com o outro,

¨        cooperação com o outro.

Esses valores constituem uma ética maior, sem a qual a qualidade de ser humano se dilui.

Mas por que a humanidade caminha em direção contrária a essa ética, sem a qual a espécie humana não pode sobreviver?

Essa questão maior tem sido a motivação dos grandes modelos filosóficos, religiosos e científicos.

Os modelos filosóficos, religiosos, científicos propõem “verdades” que têm sido aceitas como absolutas e que constituem sistemas de valores que guiam o comportamento humano.

A prioridade passa então a ser a defesa do sistema de valores. A questão fundamental, que é a busca de sobrevivência associada à transcendência, passa a ser subordinada à defesa do sistema de valores [fundamentalismos].

Os sistemas de valores, da mesma maneira que as ciências e as religiões, são vistos na cultura ocidental como saberes concluídos.

O conhecimento disciplinar, e conseqüentemente a educação, têm priorizado a defesa de saberes concluídos, inibindo a criação de novos saberes e determinando um comportamento social a eles subordinado.

O conhecimento disciplinar evoluiu para a multidisciplinaridade, praticada nas escolas tradicionais, e para a interdisciplinaridade, ainda difícil de ser conseguida. O avanço efetivo, abrindo novas possibilidades para o conhecimento e para o entendimento humano, é a transdisciplinaridade.

Exemplos de saber concluído são as ciências como apresentadas nas escolas. Há poucas oportunidades de explorar o novo. Trata-se prioritariamente de aprender o que é ensinado pelo professor.

Da mesma maneira que os sistemas de valores e as religiões, o ensino das ciências desencoraja novos enfoques. A transdisciplinaridade, assumindo a inconclusão do conhecimento e do próprio ser humano, rejeita o saber concluído e as certezas convencionadas e propõe uma busca permanente.

O comportamento humano responde às pulsões de sobrevivência e de transcendência, que estão intimamente ligados. Vai além de comportamento orientado pelo cérebro. Existe algo mais: a mente, que tem intrigado os filósofos desde a Antigüidade, e a consciência, igualmente intrigante. Onde se situam mente e consciência? No cérebro, que vem sendo tão bem estudado pelos neurologistas? Ou no que se costuma chamar inteligência, hoje bem estudada no âmbito de uma disciplina que se denomina inteligência artificial? E o que é inteligência?

As teorias vão surgindo, vão sendo aceitas ou recusadas, algumas marginalizadas e outras refutadas. Algumas idéias, que são aceitas por se desviarem pouco das anteriores, se tornam as novas explicações e encontram seu espaço nas universidades. Outras idéias se desviam dos chamados paradigmas e criam novos paradigmas.

Os paradigmas newtonianos e os chamados novos paradigmas

No século XVII, Galileo Galilei (1564-1642), Francis Bacon (1561-1626) e René Descartes (1596-1650) criaram as bases conceituais sobre as quais Isaac Newton (1642-1726) produziu seu trabalho monumental, que explica certos fenômenos naturais, e que foi rapidamente ampliado para explicar o comportamento humano. Esse sistema de explicações repousa sobre uma Matemática muito elaborada, principalmente o Cálculo Diferencial, que se estabeleceu como a linguagem por excelência do paradigma científico proposto por Newton.

A Matemática se tornou o protótipo das chamadas ciências exatas, deu origem a valores que são considerados importantes no pensamento moderno, como precisão, rigor, certeza, verdade. Mas na busca de um conhecimento mais amplo não será possível rejeitar outros modos de pensar e outras visões da natureza do mundo mental, físico e social que são parte de “outras” maneiras de formular e organizar conhecimento. Refiro-me especificamente a culturas que foram excluídas, subordinadas e marginalizadas no processo de dominação colonial. Valores mudam, subordinados ao que prevalece nos sistemas sociais e econômicos.

O maior equívoco da filosofia ocidental tem sido considerar o homem como um corpo MAIS uma mente, e separar o que sentimos do que somos. O conhecimento tem focalizado CORPO e MENTE, muitas vezes privilegiando um sobre o outro.

¨       PENSO, LOGO EXISTO?

¨       NÃO! EXISTO PORQUE RESPIRO, BEBO, COMO, EXCRETO,

                                            INTUO, CHORO E RIO, e PENSO.

Fazemos tudo isso diferentemente das demais espécies vivas, porque subordinamos essas ações a sistemas de valores.

Somos ao mesmo tempo um ser SENSORIAL, INTUITIVO, EMOCIONAL e RACIONAL. Mas o sistema de valores que prevalece é focalizado no intelectual, identificado com o “penso”. Possivelmente aí encontraremos a razão da valorização desmesurada do trabalho intelectual sobre o manual e a busca de satisfação das necessidades materiais como uma mera questão de sobrevivência. O valor solidariedade fica, assim, totalmente deturpado como mera satisfação de necessidades materiais. Esse valor, na forma de caridade, era freqüente nas sociedades escravocratas. O escravo devia ser bem alimentado para produzir. Mas era privado de liberdade nesse sistema de valores. Muitas das propostas sociais e econômicas ainda carregam esse tom de paternalismo que, em última instância, poderá degenerar em confronto e violência.

A proposta da complexidade ou da transdisciplinaridade procura responder o “como?” e o “por quê?” dessas diferenças. Outras maneiras de expressar essa mesma mudança de paradigma vêm surgindo de muitas áreas do conhecimento. A visão holística, o pensamento complexo, as teorias da consciência, as ciências da mente, a inteligência artificial, e inúmeras outras propostas transdisciplinares vêm sendo elaboradas e vão se tornando conhecidas.

Essa proposta equivale a um sistema de valores e constitui a essência de uma outra maneira de estar no mundo.

Vivenciar na escola sistemas de valores e acompanhar a sua transformação é o desafio do educador. Propor e defender um sistema de valores subordinado à ética maior de respeito, solidariedade e cooperação é a missão do educador.

Nesta série de programas, vamos examinar como isso tudo se manifesta nas relações humanas, em algumas situações específicas:

ü na busca de paz,

ü no cotidiano escolar,

ü nas relações humanas,

ü na busca de novo conhecimento,

ü nas relações ambientais.

Estes são os temas da série Debates: Complexidade e seus reflexos na educação