PGM 3: Literatura e matemática

O prazeroso jogo de palavras que faz a leitura do mundo

Estela Kaufman Fainguelernt*

"Muitos e muitos poetas, na Antigüidade, exaltaram o número. Pois o número é de essência divina." ( M. A. Aubry, 1952)

A Matemática, como ciência em constante evolução, pode ser encarada como um corpo de conhecimento constituído por teorias bem determinadas, ou como um conjunto de processos característicos que devem ser desenvolvidos. O que está em foco não é como a Matemática deveria ser, mas sim como ela deve ser na prática diária dos aprendizes que serão, ou não serão, matemáticos.

Segundo o Aurélio, um dos significados dado à Literatura é que ela é "conjunto dos conhecimentos das obras ou dos autores literários", contos, romances, poesia, entre outras.

Existe hoje em dia uma quantidade de obras que descrevem uma aventura literária relatando a procura de solução de alguns mistérios matemáticos, usando "as palavras como arma", traduzindo o pensamento matemático para a linguagem coloquial. Estas obras ensinam aos leitores como se pode conversar sobre os números e descobrir a beleza de sua construção, destruindo a velha idéia de que a Matemática só é para os superdotados. Muitas delas, de modo saboroso e muitas vezes pitoresco, contam a vida dos maiores matemáticos do mundo e descrevem as suas obras. Elas proporcionam um entretenimento indispensável tanto para os que gostam de Matemática como para os que precisam descobrir a sua beleza e a sua utilização na leitura do mundo.

Já Fenelon, o grande pedagogo francês do século XVIII, dizia:

"Felizes aqueles que se divertem com problemas que educam a alma e elevam o espírito."

A Ciência Matemática é uma obra do espírito humano, e nenhuma outra construção tem a unidade e a harmonia desta ciência; nenhuma a iguala na solidez e no equilíbrio perfeito e na delicadeza dos detalhes, diz Amoroso Costa. Sendo ela uma obra construída pelo espírito humano, ela pode ser compreendida através das palavras.

"A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra apóia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o relatório comum do locutor e do interlocutor."

( Bakhtin, 1986, p. 195)

Parafraseando Bakhtin, a palavra é a ponte entre o aprendiz e a Matemática. Em uma extremidade ela se apóia no conhecimento do aprendiz, e na outra se apóia sobre o que ele precisa aprender de Matemática. Ao se introduzir um conceito matemático, podemos iniciar contando uma história, propondo enigmas para despertar a curiosidade, dando a possibilidade ao aprendiz de ler, compreender, interpretar, desenvolver o seu raciocínio e fazer descobertas.

Existe hoje em dia uma grande variedade de livros cujos temas envolvem curiosidades matemáticas de maior ou menor profundidade, de fácil leitura, podendo servir de subsídios para desmistificar o medo que a maioria das pessoas tem de Matemática e, por esta razão, apresentam dificuldade no seu aprendizado.

Por que não usar a Literatura para ensinar Matemática?

Hans Magnus Enzensberger (1997) estudou literatura, línguas e filosofia, e escreveu o livro, cujo título é muito significativo: O diabo dos números - Um livro de cabeceira para todos aqueles que têm medo de Matemática.

"Matemática? Aquela montanha de números sem sentido? Aqueles cálculos que não servem para calcular nada? Não, nem pensar. Robert, o menino de pijama azul, fazia parte dessa maioria que acha os números não só monstruosos, mas também absurdos e inúteis. Um dia, entretanto, ele começa a sonhar com um certo Teplotaxl, um diabo que pinta e borda com a Matemática. No total são doze sonhos e cada sonho o tal Teplotaxl faz malabarismos tão interessantes que os números simplesmente deixam de ser malditos. Ficam claros e diabolicamente divertidos." (Enzensberger, 1997)

O herói deste livro é um menino de onze anos chamado Robert, que vive assombrado por pesadelos que muito o atormentam. Um dia, os pesadelos se modificam, tornando-se uma seqüência de sonhos nos quais Robert convive com um certo Teplotaxl, um demônio que anda sempre de bengala, usando-a para fazer todo tipo de bruxaria com os números. No primeiro sonho, ele aparece como um senhor muito velho e baixinho, do tamanho de um gafanhoto, sentado em uma folha, balançando-se e observando o menino com olhos brilhantes, estabelecendo com ele o seguinte diálogo:

- Quem é você? - perguntou Robert.

O homenzinho respondeu: Sou o diabo dos números!

Robert retrucou:

- Em primeiro lugar, não existe nenhum diabo dos números.

- Ah, é ? E por que você está falando comigo, se eu não existo?

Robert continuou:

- Em segundo lugar, odeio tudo o que tenha a ver com a Matemática.

O diabo dos números não se intimidou com esta afirmação de Robert e perguntou:

- Por que você odeia tanto a Matemática?

Robert respondeu enunciando o tipo de problema que o seu jovem professor Bockel na escola sempre mandava resolver:

"Se 2 padeiros fazem 444 rosquinhas em 6 horas, de quanto tempo precisarão 5 padeiros para fazer 88 rosquinhas?"

- Coisa mais idiota - resmungou Robert - é um jeito estúpido de matar o tempo! - Este problema não despertava o interesse da turma.

Robert relata que, outras vezes, o professor mandava os alunos fazerem um grande número de contas totalmente fora de um contexto ou de uma situação interessante.

O diabo então comentou que isto não tem nada a ver com a Matemática. O que é diabólico nos números é que eles são simples. Para começar, você só precisa do 1 com o 1 para poder fazer quase todos os números, vejamos:

1

1 + 1

1 + 1 + 1

1 + 1 + 1 + 1

1 + 1 + 1 + 1 + 1

E assim por diante: toda vez que somarmos 1 ao número anterior, obteremos o seu sucessor. A partir desse ponto, conversando com o Robert sobre os números, de sonho em sonho, o diabo dos números consegue mostrar a beleza das construções numéricas, muitas vezes partindo das formas geométricas, relacionando as diferentes vertentes da Matemática e conseguindo vencer a resistência de Robert e desmistificar o seu pavor da Matemática.

Podemos perceber que o diabo dos números não é o vilão da historia, mas sim o medo que a Matemática provoca nas pessoas assim que elas entram pela primeira vez na escola.

É interessante observar que este livro foi escrito por um grande poeta alemão que combate esse medo da Matemática, usando as letras como arma, isto é, traduzindo e relacionando o pensamento matemático para "linguagem de gente".

Julio Cesar de Mello e Souza, engenheiro, professor de Matemática, usando o pseudônimo de Malba Tahan, escreveu O Homem que Calculava. Em um dos seus contos neste livro, narra uma singular aventura da divisão de uma herança recebida por três irmãos, que deveria ser repartida segundo um determinado critério.

Beremiz, personagem central deste conto, percebendo a discussão entre os três irmãos, procurou informar-se do que se tratava.

- Somos três irmãos - esclareceu o mais velho - e recebemos como herança, esses 35 camelos. Segundo a vontade expressa do meu pai, devo receber a metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte e ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35 camelos e a cada partilha proposta por um dos irmãos segue-se a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio. Como fazer a partilha se a terça parte e a nona parte de 35 também não são exatas?

- É muito simples - respondeu Beremiz. Posso fazer com justiça essa divisão se permitirem que junte aos 35 camelos da herança este belo animal que, em boa hora, aqui nos trouxe...

Beremiz, dirigindo-se aos três irmãos disse: - Vamos fazer a divisão justa e exata dos camelos, que são agora 36, como vocês podem ver. E dirigindo-se ao irmão mais velho, falou: - A você, de acordo com a vontade de seu pai, caberia a metade de 35, isto é, 17 e meio. Vai receber a metade de 36, que é 18. Não pode reclamar, pois percebe que saiu lucrando com esta divisão.

Dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou: - Você deveria receber a terça parte de 35, que dá 11 e um pouco. Vai receber a terça parte de 36, que é 12; também não tem reclamação a fazer, pois sai lucrando com esta divisão.

Disse, por fim ao mais moço: - Segundo a vontade de seu pai, a você caberia uma nona parte de 35, que seria três e tanto. Vai receber um nono de 36, que é 4. Você também lucrou com esta divisão e, portanto, vocês três só têm a agradecer

Concluiu, assim, com a maior segurança e serenidade, a partilha na qual todos os três irmãos saíram lucrando. Couberam 18 camelos ao herdeiro mais velho, 12 ao do meio e 4 ao mais jovem, o que dá um resultado: 18 + 12 + 4 = 34 camelos.

Dos 36 sobram dois camelos, um do amigo Beremiz e outro lhe coube por direito, por ter resolvido, a contento de todos, este complicado problema da herança...

Nesta história, estão implícitos os conceitos de divisão, de divisor de um número, de fração. Comentando o conto e fazendo algumas observações de contexto matemático, tudo resultou do seguinte: a metade de um todo mais a terça parte de um todo mais um nono de um todo não dá um inteiro, isto é, não é igual ao todo.

Podemos observar que para completar o todo falta 1/18 deste todo ou seja 2/36 do todo.

Beremiz, sabendo que 2; 3 e 9 eram divisores de 36, e 36 é o dobro de 18, usou o artifício que possibilitou as divisões exatas.

Podemos observar nestas duas histórias como a palavra foi a mediadora para, no primeiro, desmistificar o medo de aprender Matemática e, no segundo, um enigma para introduzir o conceito de divisor de um número, a partir de uma situação do cotidiano, e que pode ocorrer muitas vezes no dia-a-dia das pessoas.

Para concluirmos a nossa reflexão, só faz sentido alguém freqüentar a escola e aprender Matemática, se nessa escola se adquirem os meios para agir sobre o mundo e no mundo.

"A Matemática constitui um patrimônio cultural da humanidade e um modo de pensar. A sua apropriação é um direito de todos. Nesse sentido, seria impensável que não se proporcionasse a todos a oportunidade de aprender matemática de um modo realmente significativo, do mesmo modo seria inconcebível eliminar da escola básica a educação literária, científica, ou artística. Isso implica que todas as crianças e jovens devam ter a possibilidade de contatar, a um nível apropriado, as idéias e os métodos fundamentais da matemática e de aprender o seu valor e a sua natureza." (Abrantes, 1999, p 17)

Referências Bibliográficas

ABRANTES P. e outros. A Matemática na Educação Básica. Lisboa, Portugal, Ministério de Educação/Departamento de Educação Básica, 1999.

BAKHTIN, M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara F . Vieira. 3ª edição. São Paulo, Hucitec Editora, 1986.

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SMULLYAN, R. O Enigma de Sherazade. Trad. Sérgio Flaksman. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1997.

BRASIL. Ministério de Educação. Secretária de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN. Brasília, MEC/SEF, 1997.

NOTAS:

* Diretora da SBEM-RJ, Sociedade Brasileira de Educação Matemática e professora do Curso de Licenciatura em Matemática da Universidade Estácio de Sá.