PGM
1 - Um
caleidoscópio de possibilidades
Edite
Resende Vieira 1
Eloísa Sabóia Ribeiro˛
Manoel
de Barros, poeta do pantanal mato-grossense, referindo-se às relações
existentes entre arte e vida, afirma-nos:
"Tudo,
creio, já foi pensado e dito por tantos e tontos, ou quase tudo.
Então,
o que se pode fazer de melhor é dizer de outra forma. É
"des-ter" o assunto.
Se
for para tirar gesto poético, vai bem perverter a linguagem...
Temos
que molecar o idioma para que ele não morra de clichês.
O nosso paladar de ler anda com tédio.
É
preciso propor novos enlaces para as palavras.
Há
que se encontrar a primeira vez numa frase para ser-se poeta nela.
O
poeta, como todo artista, é aquele alguém capaz de descobrir
nas pequenas coisas da vida cotidiana, nas "ordinariedades da vida",
como diria Manoel de Barros, singularidades capazes de transformá-las
em objetos repletos de significados, seja através das palavras,
dos gestos, do movimento, das cores e das formas, dos sons ou de outros
infinitos recursos.
Ao
realizar tal proeza, o artista cria um campo inesgotável de relações
perceptivas, racionais, críticas, afetivas e imaginárias,
que se desdobra em múltiplas leituras e em novas visibilidades
para seus leitores, conferindo ao antes "ordinário" o
status de "extraordinário".
A
obra de arte 3, independente da linguagem artística escolhida
por seu autor, nunca se reduzirá a si mesma, enquanto produção,
pois se torna capaz de sintetizar referências históricas,
marcas culturais e questões político-sociais do espaço
e do tempo de sua criação; traz o único e o universal
engendrados de tal maneira que, ao fechar-se o processo de criação
do artista, abre-se processo de fruição 4 dos leitores,
num renascer estético intemporal, que se estende à própria
existência humana.
"A
verdade é que a arte não envelhece porque o ser humano
que a contempla é sempre novo, ou terá um olhar outro
e estará realizando uma infinidade de leituras porque infinita
é a capacidade do homem de perceber, sentir, pensar, imaginar,
emocionar-se e construir significações diante das formas
artísticas.
Nesse sentido, a obra de arte, mesmo tendo data e procedência, transcende
o tempo e transpõe fronteiras, por isso é patrimônio
cultural da Humanidade. Pertence a quem dela fruir, seja um operário
egípcio dos tempos dos faraós, seja o habitante de uma plataforma
espacial do ano de 2075." (Mirian Celeste et alli)
Os
processos estéticos continuarão a atuar por meio daqueles
que se relacionarão com a obra. Assim, o observável terá
sempre a marca do conhecimento e da imaginação de quem observa.
Chamamos esse processo de reflexão estética.
A
reflexão estética é o modo como funciona o
pensamento estético que, ao contrário do que muitos
pensam, não apresenta apenas uma dimensão cognitiva ou técnica.
Ao contrário, o pensamento estético, por sua riqueza e complexidade,
é capaz de ultrapassar a cognição e a técnica,
abrindo-se ao imaginário e a outros saberes da inteligência
humana, relacionando-os aos saberes do corpo, da memória, da percepção,
dos desejos e dos afetos.
Mas
afinal, o que é estética?
Existe
alguma relação entre estética, arte e matemática?
Segundo
Pareyson, a estética, enquanto disciplina, poderia ser definida
como o conjunto de conhecimentos especulativos e reflexivos sobre a experiência
artística, entendendo-se como tal toda e qualquer experiência
que tenha a ver com o belo e com a arte: a experiência do artista,
do leitor da obra, do crítico, do historiador, do técnico
da arte e de todo aquele que desfrute do belo, em qualquer área
do conhecimento humano. A estética aborda, em suma, a contemplação
da beleza, quer seja esta artística, natural ou intelectual.
Sabemos
que a necessidade estética não se configura como um privilégio
da contemporaneidade. Inúmeros exemplos de produção
e do comportamento humano comprovam o quanto, desde os primeiro tempos,
ela se confunde com a gênese do próprio homem.
O
pensamento estético é, sem dúvida, uma das muitas
maneiras que o homem encontrou não só para responder às
questões que o mundo lhe impunha, mas também para responder
a si mesmo, saciando-se no desejo do equilíbrio, na busca da eqüidade
e da simetria, na necessidade de produzir algo aprazível ao ver,
ao tocar, ao sentir e ao pensar. Por isso, a estética estende-se
a todos os conhecimentos humanos, configura-se como uma fonte ancestral
que atravessa os conhecimentos artísticos, científicos e
religiosos, hoje desdobrados em disciplinas, pelas inúmeras transformações
histórico-sociais e tecnológicas que ocorreram ao longo
dos séculos.
E
é justamente sob o viés da estética que teremos a
oportunidade de descortinar grandes encontros entre a arte e a matemática,
pois ambas fazem parte do mesmo gesto com que o homem buscou o mundo,
o outro e a si próprio.
O
cristal encontrado na natureza apresenta delicada simetria 5 das
faces.
A
pirita ou sulfureto de ferro, geralmente denominado "ouro dos tolos",
ocorre na natureza como cubos entrelaçados.
Algumas
plantas e árvores crescem de acordo com a seqüência
de Fibonacci 6.
A
seção de um favo de mel de abelhas consiste de hexágonos
que favorecem a máxima armazenagem.
O
Nautilus 7 constrói a sua casa e, à medida que cresce,
vai construindo um novo compartimento. Cada compartimento é maior
que o anterior, na proporção da seqüência de
Fibonacci. No espiral da concha do Nautilus observa-se uma propriedade
bastante interessante: o animal cresce numa mesma proporção,
a proporção áurea 8.
Na
música, Pitágoras descobriu que os intervalos musicais são
determinados por meio de relações entre números inteiros.
O som, dividido de diversas maneiras, diferencia os padrões musicais
de diferentes culturas.
A
presença da matemática torna-se ainda mais flagrante nas
relações entre som/cadência/ritmo, na gramática
das escalas musicais e na maneira como os sons encadeiam-se na música,
o que nos ajuda a identificar influências matemáticas e artísticas
na essência do que podemos considerar como música.
A
produção artística indígena, africana e de
diversas outras culturas mostra claramente que mesmo as pessoas que não
possuem conhecimento matemático acadêmico podem ter um sentido
inato das formas geométricas. Não com a consciência
geométrica da Grécia, mas com uma visão intuitiva
da Geometria em suas produções artesanais.
Na
pintura, os artistas constataram que a geometria era de vital importância
na obtenção da perspectiva ótica, que lhe conferia
o efeito tridimensional.
Pintores,
escultores e arquitetos fizeram obras incríveis, usando a proporção
áurea. Usavam-na não por acaso, mas porque sabiam intuitivamente
que os objetos com esta proporção eram os mais agradáveis
esteticamente.
Pesquisadores
e historiadores descobriram, também, que o retângulo de ouro 9,
por ser a forma mais agradável à visão, já
era utilizado pelos gregos em seus projetos arquitetônicos, construções
monumentais e obras de arte diversas.
A
utilização de números, proporções,
simetria, ilusão de óptica, geometria projetiva, perspectiva
linear e razão áurea em expressões artísticas
de diferentes linguagens das artes visuais - das linguagens tradicionais
como a pintura, a gravura, a escultura e a arquitetura às linguagens
contemporâneas, digitais e de síntese, como as instalações,
as infografias 10, a holografia 11 ou os simuladores 12
- são alguns exemplos que evidenciam o uso intuitivo ou intencional
de conceitos matemáticos por artesãos e artistas na busca
do equilíbrio e da harmonia estética.
Em
literatura, observamos na estrutura da própria linguagem interseções
entre a arte e a matemática, que se fazem presentes no uso da métrica
ou no uso do ritmo existente nos poemas, cujas estrofes traduzem uma idéia
de harmonia, beleza e sentimento. Esta procura de harmonia é na
verdade uma busca de simetria que não é vista mas é
sentida.
Novos
encontros entre arte e matemática também podem ser observados
na criação de poemas concretos, que brincam com a ambigüidade
plástica e significativa das palavras ou na montagem de poemóbiles
- figuras tridimensionais que se encaixam e desencaixam, dando origem
a novos significados.
A
dança e o teatro tradicionalmente nos oferecem, na própria
estrutura de suas linguagens, um destaque às dimensões temporais,
espaciais e cinéticas, pertinentes aos conhecimentos artístico
e matemático.
O
uso da espacialidade do palco, em diferentes planos e marcações
pelo ator ou bailarino, a harmonia de formas que exploram o espaço,
o corpo que evolui em voz, tempo e movimento, a simetria e a assimetria,
que dão dinamicidade à coreografia ou à representação
dramática, redimensionando a expressão corpórea,
em sua relação com o público, são alguns exemplos
que marcam a presença das estética artística e matemática
nestas linguagens.
Ao
termos a oportunidade de analisar as diferentes linguagens artísticas
- artes visuais, literatura, teatro, dança e música - poderemos
vislumbrar uma infinidade de encontros, proporcionados por estas duas
áreas do conhecimento. Isto lembrou-nos sugestivamente a beleza
e a multiplicidade do caleidoscópio 13, brinquedo capaz de
reinventar imagens a cada encontro de seus fragmentos, oferecendo-nos
o novo em diferentes modos de ver e em diferentes possibilidades de pensar.
Seria
provavelmente impossível esgotar todas as relações
existentes entre a arte e a matemática contudo, o que nos interessa,
em especial, é a possibilidade de sermos capazes de lançar
um novo olhar sobre o nosso tempo e sobre as nossas práticas, descobrindo
e sendo capazes de proporcionar novos encontros entre a arte e a matemática
em nossas próprias vidas.
As
múltiplas relações existentes entre os saberes de
nosso tempo, sensibilizam-nos para a complexidade que o conhecimento humano
nos denuncia hoje, fazendo-nos reconhecer o quanto são tênues
as fronteiras existentes entre as descobertas científicas, as invenções
matemáticas e tecnológicas e as produções
artísticas de nosso tempo.
Arte &
Matemática
Um
encontro possível na escola?
"A
aprendizagem em Matemática está ligada à compreensão
do significado: apreender significado de um objeto ou acontecimento
pressupõe vê-lo em suas relações com outros
objetos e acontecimentos." (Parâmetros Curriculares Nacionais,
Matemática, MEC, p.19)
Grandes
mudanças começam a solicitar a reestruturação
de todo o sistema de aprendizagem, exigindo novas performances não
só do aluno, mas também do professor.
Segundo
Candau:
"Os
professores são os principais agentes de inovação
educacional. Sem eles, nenhuma mudança persiste, nenhuma transformação
é possível."
O
cotidiano escolar se coloca cada vez mais comprometido com a formação
de um indivíduo em sintonia com seu tempo. Neste sentido, cabe
à escola oferecer oportunidades para que os alunos vivenciem atividades
contextualizadas e significativas, objetivando o alcance das múltiplas
relações existentes entre a vida dos alunos, em suas necessidades,
potencialidades, vivências e desejos e as práticas educativas
desenvolvidas na escola.
A
educação ganha, aqui, responsabilidade fundamental, trazendo
à tona a complexidade do pensamento humano, ao oferecer
práticas interdisciplinares que abordem diferentes linguagens e
áreas de conhecimento, de forma integrada, dinâmica e interativa.
Promover
situações em que os alunos possam, de maneira lúdica,
prazerosa, crítica e criativa, ter acesso à arte, sendo
capazes de identificar o uso das relações matemáticas
em diferentes produções artísticas, pode constituir-se
como mais uma possibilidade de encontro aos novos paradigmas que se impõem
na contemporaneidade, congregando forças para um ampliar de referências,
dentro e fora da escola, que venha a ressignificar a vida, de forma coletiva
e dialógica.
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www.educ.fc.ul.pt/icm/icm2000/icm33/art_mat.htm
NOTAS:
- Licenciada
e Bacharel em Matemática. Especialista em Informática
Educativa, em Metodologia do Ensino Superior, Mestranda em Educação
e Professora do Colégio Pedro II -RJ. Consultora dessa série.
- Pedagoga,
Licenciada em Educação Artística, Especialista
em Didática do Ensino Superior, em Educação Artística,
em Teoria da Arte e em Tecnologia da Imagem, Mestre em Educação.
Professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e do Colégio
Pedro II - RJ, Diretora do Espaço Cultural do Colégio
Pedro II, Coordenadora e Professora da Pós-Graduação
em Ensino da Arte das Faculdades Bennett. Consultora dessa série.
- O conceito
de obra de arte ao qual nos referimos inclui produções
artísticas de diferentes linguagens e oriundas dos mais diferentes
tempos, espaços e culturas.
- Fruição
é aqui considerada como um processo dinâmico e individual,
através do qual nos relacionamos com a obra de arte, atualizando-a,
segundo nossas formas de interpretação, nossas sensibilidades
e nosso contexto socio-histórico e cultural.
- Correspondência
em grandeza, forma e posição relativa de partes que estão
em lados opostos de uma linha ou plano médio, ou que ainda estão
distribuídos em torno de um centro ou eixo; harmonia resultante
de certas combinações e proporções regulares.
- A série
de Fibonacci é produzida começando pelo número
1 e somando os dois números anteriores, encontra-se 1, 1, 2,
3, 5, 8, 13, 21, 34...
- Molusco
cefalópode que tem a concha dividida em muitos compartimentos.
- É
a mais agradável proporção entre dois segmentos
ou duas medidas. Essa proporção é representada
pelo número de ouro (Phi) ??= 16180...
- Retângulo
em que a razão entre o lado maior e o lado menor é igual
ao número de ouro. É considerado a mais estética
das formas retangulares.
- Técnica
de produção de imagens, elaboradas a partir de programas
digitais, combinando ou intervindo em desenhos, fotos, gráficos,
etc.
- Holografia
é um processo fotográfico para obtenção
de imagens tridimensionais, mediante utilização de laser.
- Aparelhos
cibernéticos que reproduzem ou imitam aspectos de uma determinada
situação de modo controlado, provocando sensações.
- Caleidoscópio
é um brinquedo montado a partir de um tubo espelhado em seu interior.
Este tubo contém fragmentos de vidros coloridos que, a cada movimento,
se encontram, realizando combinações variadas numa sucessão
rápida de impressões

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