PGM 1 - Educação Sexual ou Orientação Sexual?
José Augusto Alencar Moreira* Maria Thereza Alves Conforto*** "Faça o necessário; depois o possível. De repente, você estará fazendo o impossível." Francisco de Assis Compreendendo a sexualidade A proposta de se discutir o papel da escola nas questões que envolvam temas sexuais coloca-nos frente a frente com a necessidade de se conhecer mais sobre o assunto. Durante muito tempo, a sexualidade foi considerada de pouca importância para o desenvolvimento das pessoas e voltada para uma única finalidade: a reprodução. O assunto foi trazido aos debates, graças às mudanças socioculturais e aos estudos científicos que contribuíram para que essa importante dimensão humana ganhasse destaque. Muitos pesquisadores direcionaram estudos para o tema. Masters e Johnson1 , em um de seus livros - O relacionamento amoroso - trouxeram para o meio acadêmico a proposta de que a sexualidade tem "um sentido mais amplo, uma vez que se refere a todos os fenômenos da vida sexual". Constitui uma das dimensões do indivíduo: não se refere apenas ao seu potencial para reagir a estímulos eróticos. Desta forma, a sexualidade passou a ser entendida como um conjunto de fatos relacionados à vida sexual, que abrangem fenômenos biopsicossociais dos indivíduos. É importante pensar no contexto em que a sexualidade é vivenciada hoje. As mudanças tecnológicas ocorridas no séc. XIX e a revolução sexual, no séc. XX, provocaram mudanças nos processos de socialização e de educação dos indivíduos, substituindo antigos enfoques na expressão da sexualidade e nas suas formas de vivência. As referidas mudanças proporcionaram a configuração do que seria a Educação Sexual. Na maioria das escolas, quem normalmente apresentava o conteúdo era o professor de biologia, que abordava o tema reprodução, com enfoque puramente biológico. Não raramente, as instituições de ensino mais liberais, que se dispunham a tratar da sexualidade, deparavam-se com a resistência dos pais e da sociedade, e o assunto era tratado como tabu. Entretanto, a escola se reconheceu como espaço socialmente legitimado e responsável e resolveu encarar o desafio. Passou a promover a educação sexual apesar das dificuldades: falta de material didático específico, resistência familiar e despreparo técnico-científico dos professores. Pais, escola e sexualidade A escola vem assumindo, cada vez mais, a educação das novas gerações. Há diversas razões para isso: a universalidade do ensino; a democratização do acesso à escola; a necessidade de socialização das crianças e a promoção do seu processo formativo enquanto cidadãs; a demanda por uma educação continuada, que prepare crianças e jovens para as mudanças culturais e para a sociedade informatizada. Educar tem um sentido amplo, implicando comprometimento não somente com a instrução, ou seja, com o mero repasse de informações, mas, sobretudo, com a formação integral do indivíduo. E a escola é uma das instituições culturais que vem se orientando para cumprir esta função. No passado, a sexualidade era ignorada tanto pelos pais quanto pelos professores. Crianças e adolescentes eram tratados como seres assexuados; falar sobre sexo nas salas de aula era considerado um estímulo à atividade sexual. O aluno, de sua parte, também não reivindicava este espaço. Não poderia ser diferente. Afinal, não se sabia fazer de outra forma, pois toda a sociedade encarava a sexualidade de forma pouco transparente. Em suma, o sexo era assunto a ser tratado entre quatro paredes. Em não se discutindo o assunto, imaginava-se que o conhecimento viria naturalmente, trazendo respostas às indagações. Essa alienação quanto à maturidade dos filhos, a ausência da educação sexual e a propagação de informações errôneas acarretaram conseqüências nas gerações seguintes. Na atualidade, o número crescente de casos de gravidez não planejada entre adolescentes, os casos de abuso sexual, o aumento das doenças sexualmente transmissíveis - inclusive a AIDS - e o aumento do número de abortos demonstram a necessidade de discutir abertamente o assunto. Nesse contexto é que se ressalta a importância da implantação da orientação sexual nas escolas, contemplando-se, desta forma, o desenvolvimento global do ser humano. Educação Sexual Mas afinal, o que é educação sexual? Como diferenciá-la da orientação sexual? Segundo o Guia de Orientação Sexual2 , "educação sexual constitui-se no processo informal pelo qual aprendemos sobre a sexualidade ao longo da vida, seja através da família, da religião, da comunidade, dos livros ou da mídia." Seriam, portanto, aquelas informações transmitidas pelos pais à criança, desde o nascimento, por meio de atitudes, gestos ou idéias e que permitem ao indivíduo modificar conceitos e comportamentos. Não há dúvida de que os primeiros educadores sexuais seriam os próprios pais, porque a eles compete a maior parcela de responsabilidade na formação dos filhos. Entretanto, como os pais, via de regra, têm dificuldades em falar sobre sexo com os filhos (dificuldades estas, na maioria dos casos, de cunho cultural), foi deixado a cargo da escola a realização desta tarefa. O grande desafio é capacitar-se para desenvolver o trabalho, uma vez que a educação sexual não pode ser dissociada da educação como um todo. Portanto, faz-se necessária a preparação dos professores, tornando-os bem informados, prontos e conscientes da importância de sua atuação na área da sexualidade. O reconhecimento, por parte de pais e professores, de que a educação sexual é indispensável na formação integral do indivíduo fez com que fossem implantadas diretrizes da pedagogia sexual nas escolas. Orientação Sexual O Guia de Orientação Sexual3 nos diz que: "orientação sexual propõe-se a fornecer informações sobre sexualidade e organizar um espaço de reflexões, questionamentos sobre postura, tabus, crenças e valores a respeito dos relacionamentos e comportamentos sexuais (enfoque biopsicossocial)." Traz ainda o referido guia4 : "o trabalho de Orientação Sexual visa propiciar aos jovens a possibilidade do exercício de sua sexualidade de forma responsável e prazerosa. Seu desenvolvimento deve oferecer parâmetros para a discriminação de comportamentos ligados à sexualidade que demandam privacidade e intimidade, assim como reconhecimento das manifestações de sexualidade passíveis de serem expressas na escola." Orientador sexual, portanto, é aquele educador que para transmitir a seus alunos conhecimentos na área da sexualidade leva em conta o modo de vida deles, seus valores e suas idéias. Além de se dispor a trazer informações científicas, pode criar oportunidades para um permanente diálogo e para a discussão das questões que chegam à sala de aula, colaborando efetivamente para a formação de seus alunos como cidadãos, para que estes tenham uma vida melhor e mais saudável. O professor e a Orientação Sexual A orientação sexual, nos dias atuais, não pode ser ignorada pelas escolas. Embora ainda haja dificuldades para a implantação, sua relevância e necessidade já foram reconhecidas. Entretanto, quem é o profissional que atua hoje nas escolas? Estará ele capacitado para cumprir esta tarefa? Como a escola pode melhor promover a orientação sexual de seus alunos? O número de profissionais preparados para Orientação Sexual continua insuficiente, não obstante seja grande o número de estabelecimentos de ensino que procuram promovê-la. Em sua formação, seja nos cursos de magistério ou nas universidades, os professores não recebem qualquer orientação em educação sexual. As famílias anteriormente ofereciam resistência à orientação sexual no âmbito escolar. Hoje, porém, esse quadro foi alterado e os pais modernos consideram-na importante, indispensável até, na formação integral do jovem. Em 1993, o Instituto DataFolha realizou uma pesquisa que indicou que 86% dos pais de dez capitais do país se mostraram favoráveis à inclusão da orientação sexual no currículo escolar5 . Entretanto, falar sobre sexo na escola continua uma tarefa complicada. A proposta de incluir temas sobre sexualidade no plano pedagógico da escola facilita o desenvolvimento das ações, na sala de aula, pelo professor. "Isso implica uma definição clara dos princípios que deverão nortear o trabalho de Orientação Sexual e sua explicação para toda a comunidade escolar envolvida no processo educativo dos alunos. Esses princípios determinarão desde a postura que se deve ter em relação às questões relacionadas à sexualidade e suas manifestações na escola, até os conteúdos a serem trabalhados com os alunos. A coerência entre os princípios adotados e a prática cotidiana da escola deverá pautar todo o trabalho".6 Nas séries iniciais, os temas podem ser abordados, com naturalidade, quando, por exemplo, estiver sendo enfocado o estudo do corpo humano. A observação do funcionamento corporal, das diferenças entre meninos e meninas ou, ainda, a discussão a respeito de como os bebês nascem podem servir como ponto de partida. Estar atento ao nível de maturidade da turma é importante; ele indicará ao professor até que ponto poderá ir no aprofundamento dos temas. Perceber que é mais fácil lidar com coisas sobre as quais detemos maior conhecimento pode ser um dos caminhos para diminuir dificuldades. Buscar a capacitação profissional, ampliar a compreensão sobre a sexualidade, aprofundar conceitos, revisar valores e instrumentalizar-se com técnicas de dinâmica de grupo auxiliam na formação profissional dos professores. Contribuem, de outro modo, para diminuir a transmissão de preconceitos aos alunos. As dificuldades enfrentadas pelos pais não são menores. Falar com os filhos sobre sexualidade também requer preparação. Algumas das perguntas mais freqüentes são: Como falar? Quando começar? O que dizer? A educação sexual deve ser iniciada o mais cedo possível, pelos adultos que convivem com a criança, a partir de um diálogo franco e num clima de confiança e respeito mútuo. Não há necessidade, nem seria adequado, determinar-se um espaço de tempo especial para esse começo. As crianças, pela observação das diferenças biológicas entre o homem e a mulher (genitálias externas, caracteres secundários), logo começam a formar sua identidade sexual. Um menino percebe que é biologicamente igual ao pai e diferente da mãe e da irmã dando início, desta forma, ao processo da construção da identidade cultural . O mesmo acontece com as meninas. Diante da curiosidade infantil acerca de temas sexuais, algumas observações simples facilitam o processo de esclarecimento:
Não se deve esquecer que a família e a escola devem estar unidas na tarefa; ambas têm responsabilidade quando se trata de orientação sexual e, portanto, devem estar articuladas na sua realização. A orientação sexual deverá fazer parte do projeto pedagógico da escola e ser desenvolvida pelos próprios professores, em suas turmas. Os Parâmetros Curriculares Nacionais7 propõem que os temas sejam apresentados por meio da transversalidade dos conteúdos (isto é, presentes em todas as áreas do conhecimento). Uma vez discutidos, os assuntos devem voltar, com conteúdo mais aprofundado, todas as vezes que houver interesse, por parte dos alunos. Muitas escolas, por não se sentirem plenamente capacitadas para a discussão, convidam pessoas de fora do universo escolar (médicos, psicólogos, especialistas) para realizarem palestras aos alunos. A prática demonstrou que esse recurso é considerado ineficaz. Falar sobre sexualidade requer intimidade e ela só acontece entre pessoas conhecidas e confiáveis. Assim, aqueles profissionais podem contribuir, e muito, na capacitação dos professores para que estes possam, então, desenvolver ações com as crianças e com os adolescentes que objetivem a construção de uma visão positiva da sexualidade. A escola, ao oferecer a orientação sexual, estará contribuindo efetivamente para que seus alunos desenvolvam a comunicação clara nas relações interpessoais, elaborem valores a partir do pensamento crítico, compreendam o próprio comportamento e tomem decisões responsáveis a respeito de sua vida sexual, agora e no futuro. "A educação é um ato de amor, portanto um ato de valor, não pode temer o debate, a análise da realidade não pode fugir da discussão criadora sob pena de ser uma farsa. Creio que o principal objeto da educação deveria ser incitar os jovens a raciocinar sobre tudo o que lhes é apresentado.O importante é a independência do espírito" (Bertrand Russell). Pontos para reflexão
Sugestões de atividades EDUCAÇÃO/ORIENTAÇÃO SEXUAL: SIM OU NÃO? Objetivo:Proporcionar aos participantes a oportunidade de refletirem acerca da educação/orientação sexual. Material: Duas folhas de papel pardo e pincel atômico Desenvolvimento:Divida o grupo em dois subgrupos. Um deles deverá se posicionar contra a educação/orientação sexual ser realizada na escola e o outro, a favor. Peça que registrem nas duas folhas de papel pardo as razões apresentadas. Após o tempo de discussão, refletir sobre a importância da educação/orientação sexual. A MALA Objetivos: Desenvolver a criatividade. Refletir sobre os elementos indispensáveis para que o educador/facilitador possa conduzir adequadamente um grupo Material: Cartolinas cortadas no formato de maleta, tesouras, revistas, cola, canetas hidrocor Desenvolvimento: Distribua aos participantes o material. Oriente-os que confeccionem, com o material distribuído, uma maleta de educador em sexualidade. Eles deverão expressar, por meio de gravuras, palavras, desenhos, os elementos indispensáveis para que um educador desempenhe seu trabalho. Incentive a criatividade, a mútua ajuda e a troca de material, entre os participantes. Na segunda etapa do trabalho, peça aos participantes que formem um grande círculo e que cada um apresente a sua mala. Ao final, reforce a criatividade dos participantes e as características indispensáveis necessárias para um educador em sexualidade. Bibliografia BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria do Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília (DF), MEC, 1996. GUIA de Orientação Sexual: diretrizes e metodologia. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1994. LIMA, H. Educação sexual para adolescentes. 3ª ed. São Paulo, Iglu, 1994. MIELNIK, I. Educação sexual na escola e no lar. São Paulo, Ibrasa, 1993. PORTUGAL. Ministério da Educação e Ministério da Saúde. Educação sexual em meio escolar. Linhas Orientadoras.1a ed. Lisboa, 2000. RIBEIRO, M. Educação Sexual: novas idéias, novas conquistas. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1993. TIBA, I. Adolescência, o despertar do sexo. São Paulo, Gente, 1994.
* Psicodramatista e consultora do Ministério da Saúde na área de prevenção ao uso de drogas. ** Psicólogo. Psicoterapeuta e terapeuta sexual. *** Psicóloga. Psicoterapeuta e especialista em Educação Sexual.
|