PGM 3 - A visão

Com os olhos, olhamos a vida - O desenho, a pintura, a fotografia e o cinema - Artes Visuais e os diferentes modos de ver

Ana Elisabete Lopes*

Com os olhos olhamos a vida e o olho do artista releva o que nem sempre vemos, permitindo novos olhares sobre a realidade. Este texto tem como objetivo abordar a linguagem plástica e visual, como forma de olhar e ver o mundo. O prazer estético, a arte como produção social capaz de dar visibilidade ao que nos cerca. O apreciador, contemplador, telespectador, que pode ressignificar o que vê pelo que percebeu do olhar do outro, como num jogo de espelhos, no qual o mundo se revela, é revelado e ganha novos tons e significados. Traz a escola como um espaço onde é possível propiciar o convívio e o diálogo entre o acervo imagético, trazido pelos alunos de sua experiência cotidiana, com as produções artísticas e culturais reconhecidas universalmente e pertencentes a diferentes épocas e contextos socioculturais.

Comunicando por imagens: entre o prazer e a percepção estética

"As coisas são porque as vemos,
e o que vemos, e como vemos,
depende das artes que tenham influído em nós." Oscar Wilde (Intentions, 1891)

Acompanhando a história das civilizações, observamos que o desejo do homem de se comunicar por imagens esteve sempre presente. Seus registros mais antigos foram realizados através de uma linguagem visual. Desde a Pré-história, trabalhando com o material disponível na época, pedra sobre pedra, o homem deixa sua marca no interior das cavernas. Esses registros, formas simbólicas de comunicação e expressão do homem, permanecem conservados até os dias de hoje e nos revelam o modo mítico e mágico de compreensão da realidade que caracterizava a forma de ser e estar no mundo desta civilização.

Dentro do processo de transformações históricas, o homem descobre que pode fabricar objetos e passa a criar utensílios que, inicialmente, serviam para auxiliá-lo na superação de suas dificuldades e, posteriormente, passam a ser criados também com o fim de expressar potencialidades. Dentre essas invenções, destacamos como fundamental a criação do arco e da flecha, pois foi uma das poucas que sobreviveram até os nossos dias. Como instrumentos de defesa e de caça, dão maior autonomia ao homem que a partir daí passa a estabelecer uma nova relação com os instrumentos bélicos, pois "toda energia é concentrada num só ponto e num só instante, mas a parte essencial da arma permanece em poder do caçador". (De Masi, 2000, p.24)

O primeiro objeto decorado pelo homem, que chegou ao nosso tempo, são pontas de flechas em forma de amêndoa ornamentadas com um desenho de folhas, como as de louro. Observando estes objetos, podemos afirmar que, desde a Idade da Pedra, o homem manifesta uma preocupação com a produção e o prazer estético. Não se contenta em esculpir a lâmina, mas se dedica a gastar um longo tempo decorando este objeto com um enfeite. Naquele momento, essas incisões sobre as lanças provavelmente foram realizadas por acreditarem no poder mágico das representações realizadas sobre os objetos. Sugerem a idéia de que para o homem agradar aos deuses deve ultrapassar o censo utilitário da criação, procurando realizar algo que, além de útil, seja belo. Este trabalho não implica uma melhor eficiência da flecha, porém está associado ao poder do homem de interferir sobre o objeto e embelezá-lo. Podemos nos apropriar desta descoberta como a primeira expressão estética do ser humano de que encontramos um rastro.

O prazer estético, ou seja, a capacidade do homem em sentir prazer com o belo, é uma busca incessante do homem. Esta dimensão estética está presente nos diferentes períodos da história e se expressa de diversas formas, seja no universo reconhecido e valorizado das produções artísticas e culturais, como dentro das ações mais simples das experiências cotidianas. Na concretização do desejo de experienciar esteticamente o mundo, descobrimos as múltiplas possibilidades de sua realização nas diferentes formas de percepção e de linguagens.

Uma das formas de nos aproximarmos deste processo é acompanhando as manifestações do ser humano que se concretizam na linguagem visual. A percepção visual é um dos modos possíveis de aproximação da realidade; centra-se nos sentidos da visão, mas se amplia nos envolvendo como um todo. O universo das artes visuais é um campo particular de conhecimento e o processo de fazer ou apreciar o produto artístico propicia uma experiência subjetiva de conhecimento do mundo, uma vez que, "nas marcas do visível, é possível ver os efeitos das opções culturais" (Meira, 1999, p.130). No contexto educacional, educadores e educandos podem encontrar neste universo um caminho de desenvolvimento do aprendizado e de criação pessoal envolvendo as linguagens da arte. Partindo das experiências mais particulares com a produção artística e cultural do meio sociocultural no qual estão inseridos, podem buscar ampliá-las conhecendo e interagindo com as manifestações produzidas em diferentes contextos e épocas. Nesta perspectiva, apontamos para a possibilidade de construção de uma proposta de ensino-aprendizagem em Artes Visuais que tenha como objetivo principal desenvolver no aluno a percepção visual do mundo e da obra de arte, ampliando seu repertório visual e gráfico, contribuindo para a construção de um olhar crítico no exercício de sua cidadania.

A arte é uma produção social e, desta forma, está inserida dentro de um contexto histórico-cultural. Através das produções artísticas, podemos nos aproximar da realidade a partir de um outro ponto de vista, que se organiza não a partir da lógica objetiva, mas está intimamente relacionada aos domínios do imaginário. A produção em Artes Visuais envolve a criação de formas artísticas materialmente visíveis, que sintetizam o olhar de quem cria e, ao mesmo tempo, estão abertas para uma multiplicidade de formas de ver e compreender esta produção. As Artes Visuais nos sensibilizam prioritariamente pelos sentidos da visão e aquele que cria procura materializar suas idéias e sentimentos numa forma apreensível visualmente. Através da combinação dos diferentes elementos constitutivos da linguagem visual - linhas, formas, cores, texturas, movimento, etc. - encontramos uma maneira de nos comunicar e revelar nosso modo particular de significar o mundo.

Através da percepção estética, entramos em contato com o fenômeno artístico, percebendo-o como objeto de cultura inserido num contexto histórico e que apresenta um determinado conjunto de relações formais. Assim sendo, podemos afirmar que a riqueza da arte como campo de conhecimento está de nela encontrarmos "a marca do conhecimento daquele artista, num processo de desenvolvimento de estratégias pessoais para fazer e apreciar objetos e idéias que expressam os mais diferentes tipos de questões humanas, desde as mais universais até aquelas relativas ao tempo em que viveu." (PCN - Artes Visuais). A obra de arte tem um caráter particular e universal, contém o todo e a parte, ou seja, é ao mesmo tempo um produto cultural de uma determinada época e uma criação individual, fruto da imaginação de um ser humano.

Há uma diversidade de modos de produção de sentido, de modos de entrar numa obra em busca de construir significados. Os diferentes modos de ver são construídos na relação do homem com o meio natural, social e intersubjetivo. Envolvem as diferentes potencialidades do ser humano de percepção, imaginação, observação e sensibilidade que contribuem para a construção de conhecimentos, significados e valores. O contato com as diferentes produções imagéticas pode contribuir para a ampliação do nosso olhar, para a variação dos modos de ver e para a alteração das nossas visões da realidade.

Trago as palavras do poeta Rilke sobre a produção do artista Rodin, para falar das transformações provocadas no olhar a partir da fruição da obra de arte e da contribuição deste contato na construção de outras formas de ver e estar no mundo. O poeta reflete sobre a necessidade de uma educação do olhar que nos motive a prestar mais atenção ao que nos cerca e que nos aproxime das entrelinhas da realidade. Segundo Rilke (1995, p.15), devemos transformar o nosso olhar para recuperar o encanto, o espanto e a maravilha de ver o belo onde menos o esperamos. O artista consegue atuar neste sentido, pois aceita o desafio e "trazendo tudo à superfície aparente da pedra, ou da palavra, põe todas as coisas como que em meio a um furacão, transferindo-as de seu lugar habitual para um plano onde poderemos vê-las desde outros ângulos, desde outros sentidos."

Nas palavras do poeta Rilke, podemos encontrar o germe de uma discussão bastante pertinente e atual em relação à apreciação artística e aos processos de ensino-aprendizagem em Arte. Ele apresenta uma proposta de educação do olhar, que se afasta de uma visão tecnicista, adestradora e alienante de ensino das Artes Visuais. Ao mesmo tempo, enfatiza a riqueza da possibilidade de se estabelecer uma relação dialógica entre produtor-obra-espectador que pode se dar através da produção e fruição do objeto artístico. Esta discussão é bastante pertinente ao contexto atual e vem ao encontro da necessidade urgente de repensarmos o lugar da arte na educação e sua contribuição na construção de um olhar mais inteligente e sensível sobre a realidade.

Arte e modernidade: redimensionando as formas de expressão e de comunicação

Sabemos que, com o advento da modernidade, inúmeras e velozes foram as transformações ocorridas nos diferentes campos da sociedade que, conseqüentemente, afetaram os diferentes modos de subjetivação do homem e suas manifestações na arte e na cultura. Para melhor entendermos este processo, é preciso compreender como a apropriação das novas tecnologias redimensionou as formas de expressão e comunicação do homem moderno e como repercutem, ainda hoje, nas formas de organização da sociedade contemporânea. Jobim e Souza (2000) nos fala que, para construirmos uma consciência plena dessas transformações, devemos elaborar uma história do olhar, visando à compreensão das formas de mediação dos novos instrumentos e tecnologias. Isto porque, segundo sua reflexão, estes instrumentos atuam como mediadores deste olhar ao se interporem entre o sujeito e o modo como passou a se acercar da materialidade do mundo, de suas manifestações culturais e subjetivas.

Exemplos disso são as transformações ocorridas na modernidade, tema amplamente abordado pelo filósofo Walter Benjamin (1996b): na era da reprodutibilidade técnica, percebemos que a invenção da fotografia veio alterar radicalmente este quadro, afetando diretamente a relação do homem com a arte e a produção de imagens. A superação do caráter único das coisas, através da possibilidade de sua reprodução, permitiu ao homem moderno o crescimento de seu desejo de possuir o objeto o mais próximo possível, o que concretamente tornou-se viável com a representação da imagem na fotografia. Essa descoberta inaugura toda uma nova concepção da arte, na qual sua aura - entendida como o caráter único, singular das obras de arte - é destruída. A obra de arte deixa de ser única, pois as novas técnicas de reprodução passam a permitir multiplicações infinitas do objeto, lhe conferindo uma "existência serial".

Os avanços tecnológicos desencadearam um movimento de democratização da imagem que permitiu a um maior número de pessoas a concretização do desejo antigo de fixar e guardar imagens. A descoberta da fotografia inaugura uma nova era em que o processo manual de fixação da imagem passa a ser substituído pelo mecânico. O sonho de ter o rosto retratado, que só era possível de ser realizado pela elite, devido ao alto custo dos serviços de um pintor, passa a ser mais acessível com o processo fotográfico. Se antes a inscrição da imagem dependia do pintor, com a fotografia o homem passa a dividir esse lugar com a máquina.

Após a fotografia, surgiram muitos outros processos de fixação, produção e multiplicação da imagem. Os avanços tecnológicos da era moderna contribuíram para tornar mais dinâmico o modo de produção de imagens. Através do cinema, TV, vídeo, computação gráfica, um novo campo de produção foi definido e denominado como o da linguagem audiovisual. Passam a conviver novas e múltiplas linguagens no campo de produção e comunicação de conhecimentos e idéias. Este novo contexto imagético requer um outro olhar sobre a realidade que nos cerca, a fim de que possamos desvelar seus mistérios e significados, compreendendo como nos são traduzidos e revelados os modos de ser na chamada "civilização da imagem". Podemos assim afirmar que, "depois da fotografia a experiência humana não é mais a mesma, pois conquistamos uma consciência cultural e subjetiva do mundo que nos transformou de forma radical" (Jobim e Souza, 2000). Um dos percursos que podem nos levar à compreensão destas relações é a análise das transformações ocorridas nas linguagens visuais, nos modos de ver e representar o homem e o mundo.

Aumont (1995) define a sociedade moderna como "civilização da imagem" e nos chama atenção para as características de um mundo onde a quantidade, as modalidades e o intercâmbio de imagens são cada vez mais numerosos. As passagens de um tipo de imagem a outro são também cada vez mais facilitadas pelo avanço tecnológico, o que nos permite ver, por exemplo, o cinema na televisão, a pintura na fotografia e muitos outros cruzamentos entre imagens. Aponta para a necessidade de se desenvolver uma outra forma de relação com as imagens visuais como forma de resistência ao bombardeio imagético que sofremos, diariamente, na sociedade contemporânea - são tantas as imagens que nos cercam que acabamos por não diferenciá-las, não vê-las, de fato.

Escola e "civilização da imagem": por uma pedagogia da imaginação

Neste contexto, nos perguntamos: qual o papel da imagem no contexto educacional da sociedade contemporânea? É possível pensar no desenvolvimento de uma cultura visual, que amplie as experiências estéticas e sensíveis, visando à transformação da ação criadora do homem nos diferentes contextos sociais em que atua?

O escritor Ítalo Calvino (1990) constrói uma crítica ao processo de massificação visual característico do mundo atual e nos apresenta uma "pedagogia da imaginação". Esta proposta surge como uma forma de resistência ao empobrecimento humano do poder de evocar imagens, ocorrido como conseqüência da inundação de imagens pré-fabricadas na qual nos encontramos submersos. Evoca a visibilidade como um dos valores que devemos cuidar e preservar, pois corremos o risco de perder a faculdade humana fundamental de "pôr em foco visões de olhos fechados, de saber brotar cores e formas de um alinhamento de caracteres alfabéticos negros sobre uma página branca, de pensar por imagens." (Calvino, 1990, p.108). Estaríamos, assim, empobrecendo nosso potencial de lidar com a imaginação e a fantasia como vias de acesso ao conhecimento dos significados profundos da existência humana e com isso limitando nossas possibilidades de ação sobre o mundo.

Buscando lutar contra este possível empobrecimento da experiência contemporânea e visando à ampliação dos modos de apropriação do conhecimento é que ressaltamos a relevância do trabalho com diferentes tipos de imagens no contexto educacional. Acreditamos ser possível desenvolver uma educação visual que propicie uma interação de modo mais informado, criativo e crítico com as imagens e mensagens que nos rodeiam no mundo contemporâneo (Pinto, 1994). A escola se apresenta, assim, como um espaço onde é possível propiciar o convívio e o diálogo entre o acervo imagético, trazido pelos alunos de sua experiência cotidiana, com as produções artísticas e culturais reconhecidas universalmente e pertencentes a diferentes épocas e contextos socioculturais.

Para atingirmos tais objetivos, consideramos que uma proposta de ensino-aprendizado em Artes Visuais deve envolver o fazer, o conhecer e a fruição da obra artística, assim como deve envolver o conhecimento e a manipulação das diferentes modalidades de produção de imagens que encontramos no mundo contemporâneo. Desta forma, podemos construir uma proposta pedagógica que propicie o conhecimento específico da linguagem, assim como, o desenvolvimento de diferentes tipos de conhecimento reflexivos, analíticos e imaginativos que visam à criação de significados e a transformação social (Barbosa, 1990,1991,1993; Buoro,1996); Ferraz & Fusari,1993; Pillar, 1999; Szpigel, 1995).

Nesta perspectiva, a educação visual deve considerar as técnicas, procedimentos, informações históricas, produtores, relações culturais e sociais envolvidas no processo de produção artística e cultural. Abordando a complexidade dos modos de produção de imagem, pode contribuir para a formação de um olhar mais crítico e criativo sobre o contexto imagético no qual estamos inseridos no mundo contemporâneo. Com a ampliação deste universo perceptivo, podemos melhor selecionar, distinguir qualidades, compreender criticamente e nos comunicar por imagens. Este exercício do olhar, de ver o diferente, de desvelar significados e critérios exige um trabalho continuado de educação do olhar que articule percepção, imaginação, conhecimento, produção artística e, ao mesmo tempo valorize e respeite a multiplicidade e diversidade de pontos de vista, dos modos de ver e estar no mundo. Percebemos a realidade de forma distinta porque somos diferentes. Nossas emoções e conhecimentos interferem nas formas de ver e acarretam diferentes olhares sobre a realidade.

Cabe ressaltar a importância do educador e seu papel de mediador na busca de novas formas de comunicação, de expressão, de construção de conhecimento e alteridade no espaço escolar. Na parceria entre educador-educando, somos desafiados constantemente a ultrapassar as limitações, a pesquisar novas alternativas e diferentes estratégias visando à construção de uma prática pedagógica consciente e sensível, atenta às particularidades de cada indivíduo, ao contexto, à história vivida e construída a cada encontro. Aceitando o desafio, transformando o nosso olhar para recuperar o encanto e o espanto de ver as possibilidades onde menos esperamos, podemos descobrir novos ângulos e dar outros sentidos ao cotidiano escolar.

Bibliografia

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NOTAS

 

* Doutoranda da PUC/Rio - Psicologia.