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Nossa língua portuguesa - possibilidades de trabalho Eliane Mingues* Será que o trabalho de alfabetização, com jovens e adultos pode ter como pano de fundo a variedade de textos que circulam socialmente para que estes pensem sobre a leitura e a escrita? Como? De onde retirar esta diversidade? O que propor que façam com tais textos? Como não transformá-los em cartilha, repetindo com estes escritos aqueles mesmos exercícios mecânicos e sem sentido que pressupõem que o sujeito nada sabe sobre este objeto com o qual ele interage quotidianamente através dos escritos espalhados pelo mundo e que estão bem na frente de seus olhos e ao alcance de suas mãos? Mas o que podemos afirmar e pensar que estes indivíduos não sabem? Não sabem juntar as letras? Desenhá-las? Saber como estas se chamam? E se pensarmos no contrário, ou seja na experiência que eles têm com a escrita que está no mundo? O que podemos afirmar e pensar que sabem? Será que sabem o que é um jornal e o que encontrar nele? Será que sabem só de olhar se um escrito pode ser uma receita ou uma carta? Será que podem ler nos grandes painéis espalhados pela cidade onde vivem o nome dos produtos que consomem? E o nome dos bancos onde podem ter conta, será que sabem identificar os diferentes bancos que existem lendo seus nomes e sabem entrar e resolver seus problemas no banco certo? E as contas de consumo que costumam receber em suas casa? O que será que podem retirar de informações destas contas? Será que identificam a escrita de seus nomes? São capazes de pegar o ônibus certo para determinado lugar que precisam ir? E comprar um disco do cantor que gostam? Será que podem fazê-lo sem errar, ou "trocam todas as bolas", ou seja todos os nomes? Estas e outras questões costumam aparecer com freqüência quando o assunto tratado diz respeito ao "como é possível alfabetizar com textos?" Pensar no conceito - ou seja, o que se entende por alfabetização - é determinante neste contexto. Se entendermos que para aprender o sujeito deve pensar e ter bons problemas para resolver, deve poder ter acesso a informações e a um bom modelo da língua que se lê e que se escreve, e que o objeto a ser conhecido deve manter suas características de objeto social de conhecimento, faz todo sentido organizar situações e trazer para dentro da sala de aula os textos de verdade, aqueles retirados do cotidiano e que costumamos usar para retirar informações, comunicar, nos divertir, fazer pensar. São os textos retirados dos jornais, das legendas de fotos, os poemas, os textos informativos, as piadas, as receitas, regras de jogos, enfim aqueles que mesmo sem saber ler e escrever os estudantes, jovens e adultos, têm contato, acesso e conhecimento prévio. Se por outro lado, o que ainda se acredita é que o sujeito nada sabe e precisa começar do zero, aprendendo primeiro o desenho de letras, o som que estas possuem e seus nomes , ai fica inviável pensar em situações de verdade, ou seja situações em que os textos apareçam inteiros, e carregados de significado e com os quais já se construiu uma boa experiência durante a vida . Então o que significa mesmo ser um sujeito alfabetizado nos dias de hoje? É sabido atualmente que, cada vez mais, torna-se crescente a necessidade de possibilitar a melhoria na qualidade das competências leitora e escritora dos indivíduos que atuam em nossa sociedade. Mesmo quando estes passaram pela educação formal é possível observar que a qualidade dessa educação, muitas vezes, não corresponde às expectativas e qualificações esperadas para um bom desempenho de determinadas funções. Vivemos num mundo letrado e todo processo educacional deve estar vinculado a esta realidade, tendo como objetivo uma Educação Integral que possibilite a inserção desses indivíduos neste mundo letrado, tornando-os bons leitores e escritores, usuários competentes da língua materna. Concordar com estes desafios significa formatar um projeto de trabalho nada fácil, no qual a tarefa principal seria a de colocar jovens e adultos em contato com situações contextualizadas de leitura e de escrita, possibilitando o desenvolvimento de novos conhecimentos, contribuindo para o acesso e participação neste mundo letrado, seja para o exercício da cidadania, seja para a resolução dos problemas da vida cotidiana e a melhoria da qualidade do trabalho. Neste contexto, possibilitar estas conquistas significa então dar forma a um projeto pedagógico em que os envolvidos serão convidados diariamente a ler, escrever, contar, ouvir, resolver problemas, refletir sobre acontecimentos do mundo, argumentar... Atividades que vão muito além do treino, da repetição e da memorização. Considerando que um grupo de jovens e adultos, reunidos para aprender a ler e escrever ou, ainda, reunidos para retomar e melhorar sua competência leitora e escritora, sempre será um grupo de composição bastante heterogênea, não só em relação aos conhecimentos prévios dos diferentes tipos de conteúdos, mas também quanto à disponibilidade para uma aprendizagem significativa e para as diferentes formas de construção de novos conhecimentos, talvez, algumas perguntas instigantes sejam: Como possibilitar que todos aprendam?; Como selecionar os conteúdos mais adequados? Como avaliar?... Possíveis conteúdos A partir dessa concepção, algumas sugestões de conteúdos para esse trabalho são: Leitura diária, do professor e dos alunos, dos textos de circulação social: para apreciação e diversão; para a busca de novas informações; para aprender mais sobre um assunto; para revisar os textos, para observar como um autor resolve suas questões em relação à escrita etc. Escrita diária, do professor e dos alunos, dos textos de circulação social: para saber escrever considerando a função e a estrutura dos diferentes tipos de textos; para saber utilizar a escrita como recurso no desempenho de suas funções; para aprender a resolver questões impostas no ato da escrita (ortografia, pontuação, gramática etc.); para desenvolver o papel de revisor, através do estudo de bons modelos de textos; da escrita em duplas, individual ou em grupos; da revisão coletiva, individual ou com o apoio da professora. Participação em eventos de oralidade: aprender a ouvir e aprender a participar expressando opiniões de forma crítica. Avaliação A avaliação neste processo de ensino e de aprendizagem torna-se constante a partir das produções dos alunos; da observação em relação à participação, ao interesse e ao desempenho na realização das atividades, da postura enquanto membro de grupo, considerando-se sempre os avanços individuais e do grupo. Os instrumentos mais utilizados são: as tabulações das aprendizagens ocorridas nas seqüências de atividades feitas através de um quadro no qual se pontua o que é mais significativo da produção de cada aluno; provas que sistematizam conteúdos aprendidos; bilhetes individuais que apontam problemas a serem resolvidos ou salientam as boas soluções encontradas; observação e registro do desempenho dos alunos. Traduzindo em miúdos... A partir de tudo que já foi dito, como então o trabalho pode ganhar forma, contorno, vida? É no dia-a-dia, encontro após encontro, nas atividades, discussões, leituras e produções que os alunos vão tendo problemas a resolver. Pode-se estruturar uma rotina que compreenda: Língua Portuguesa: Atividade permanente: leitura compartilhada da obra de um autor consagrado; Leitura individual: diversidade textual; Escrita individual ou em pequenos grupos: diversidade textual; Análise e reflexão sobre a língua: revisão textual. Exemplo de trabalho com a leitura: Em que situações, além daquelas vivenciadas por leitores particulares, pode-se ouvir em voz alta e acompanhar o texto, numa situação de leitura compartilhada de livros como: O Conto da Ilha Desconhecida de José Saramago, prêmio Nobel de literatura; Alexandre e Outros Heróis de Gracialiano Ramos, conhecido autor regionalista; Morte e Vida Severina, do consagrado João Cabral de Melo Neto; As janelas do Parati, escrito por Amir Klink e O Xangô de Baker Street de Jô Soares, entre outras histórias? Com muita sorte, em algum momento da escolaridade, quando conscientes do papel da leitura de autores consagrados, professores, bibliotecários ou outros compartilham com os alunos suas experiências leitoras, fazendo "rodas" ou seções de leitura em voz alta. Com jovens e adultos que retomaram seus estudos, esta oportunidade poderá ser única, portanto os responsáveis por este trabalho não deveriam deixar de fora a literatura. Aquela que o professor aprecia, gosta e que se não for pela voz dele, o professor, estes alunos jamais terão tal oportunidade de conhecer, gostar e mergulhar no mundo das letras.. Ter bons livros na sala de aula, ter acesso aos mesmos e poder conhecer alguns clássicos é sem duvida uma situação privilegiada de transitar pelo mundo dos livros e aprender com eles. Os textos citados acima são só algumas possibilidades de concretizar este trabalho. Estas leituras, realizadas pelo professor, se diárias e de boa qualidade, podem comunicar aos alunos comportamentos leitores muito importantes, além de servir como matéria-prima para produções futuras. Um aluno que tem um modelo pobre da língua que escreve, normalmente tende a reapresentar uma produção pobre como resultado do que vivenciou. Já um aluno que tem contato com o que há de melhor no mundo da escrita poderá, quando solicitado, produzir textos de muito melhor qualidade.
A elaboração de murais, para o refeitório da escola, seus corredores, sua porta de entrada ou, ainda, um mural ambulante, que coloca à disposição das outras pessoas que freqüentam a escola parte do que estão aprendendo, pesquisando, descobrindo podem ser ótimas situações de produção de escrita e uso desta ... Organizar um caderno de receitas, uma coletânea dos poemas mais apreciados pela turma, um baralho com dicas culturais da cidade, um livro de "o que é o que é", ou de piadas, um jornal, um álbum de família, entre outros, podem ser situações de uso da escrita bastante interessantes. Os jogos, como as cruzadinhas, a forca, o caça-palavras, podem ser situações interessantes de aprendizagem para se pensar nas letras, seus sons e suas posições nas palavras e não deixam de ser situações de verdade do uso da língua. Mas como propor tudo isto se estes jovens e adultos ainda não lêem e não escrevem? O papel do professor como aquele que vai ajudando, colocando problemas, dando forma ao que os alunos pensam é fundamental. Ele será uma peça fundamental pois dele dependerá, em muitas ocasiões, a escrita do que os alunos podem produzir oralmente, a leitura do que eles sozinhos ainda não podem fazer, enfim ele é um organizador de tudo que for proposto. O que não se pode perder de vista é que o cardápio que se vai oferecer não muda nunca, ou seja, vamos continuar a propor que os estudantes leiam, escrevam, copiem, façam ditado, interpretem o que estão lendo. O que vai mudar é a qualidade do que será proposto, ou seja, a leitura e produção de textos bem escritos e de verdade, a interferência constante do professor durante todo o processo e a consciência de que se aprende a ler lendo, e a escrever escrevendo, tendo como pano de fundo bons problemas a se resolver e boas questões para pensar. Anexos Exemplos de produções escritas de um grupo de Jovens Adultos estudantes A produção de autobiografias inspiradas no texto "AUTO-RETRATO" de Graciliano Ramos, realizada também pelo mesmo grupo, possibilitou uma brincadeira divertida com a língua escrita: a leitura dos textos para que se adivinhasse quem eram seus autores: Adivinhe quem é quem... Se você acha que conhece todos que estão nesta turma, teste seu conhecimento. Abaixo de cada auto-retrato, existe um espaço para ser preenchido com o nome do personagem autobiografado. Se tiver dúvidas e não conseguir resolver o enigma, vá até o final da sessão e recorte os nomes que estão na ordem correta de apresentação dos textos no livro e cole-os no lugar indicado. Boa sorte e aproveite para conhecer mais detalhadamente quem se apresenta então a seguir... Auto-retrato aos 38 anos Nasceu em 1960, em Lagedão, Bahia Casado duas vezes, tem quatro filhos Altura: 1,68 Sapato nš 40 Pesa 58 quilos Gosta de andar Gosta de vizinhos, sendo cada um na sua casa Gosta muito de rádio e televisão Detesta quem fala alto Usa óculos Gosta de comida mineira Adora frutas Gosta muito de música sertaneja Ama muito seus filhos É católico não praticante Primeiro livro que leu: "O Xangô" de Jô Soares Fuma cigarros "FREE" Gosta muito de praia e de mar Gosta de pescar Tem uma gastrite nervosa que o incomoda muito Espera morrer quando Deus quiser. Autor: Outro importante trabalho com a leitura e escrita consistiu em aprender a selecionar informações relevantes de um texto, que se traduziu e materializou em textos informativos em forma de "VOCÊ SABIA". Aqui amostras de algumas produções: Exposição ANIMAL VOCÊ SABIA QUE O TATUPEBA É UM DOS POUCOS ANIMAIS QUE CONTINUAM SENDO CAÇADOS, APESAR DA LEGISLAÇÃO QUE PROÍBE A MATANÇA DOS ANIMAIS SILVESTRES? GECIEL VIEIRA CASSIANO VOCÊ SABIA QUE O GAMBÁ FOI O PRIMEIRO BICHO AMERICANO CONHECIDO NA EUROPA? O NAVEGANTE VICENTE PINZÓN LEVOU UMA FÊMEA NO NAVIO, E FICOU ENCANTADO COM A BOLSA QUE ELA TINHA NA BARRIGA, ONDE APARECIAM AS CABEÇAS DOS GAMBAZINHOS CURIOSOS. VOCÊ SABIA QUE O GAMBÁ MEDE 47 CM, MAIS 37 CM DE RABO? Judivan VOCÊ SABIA QUE PELO TAMANHO, O LEÃO PARTILHA COM O TIGRE O PRIMEIRO LUGAR ENTRE OS GRANDES FELINOS? UM MACHO ADULTO PODE MEDIR ATÉ TRÊS METROS DE COMPRIMENTO DO FOCINHO À PONTA DO RABO, E PESAR MAIS DE 230 QUILOS? CICERO FERNANDES VOCÊ SABIA QUE O VEADO MATEIRO É CASTANHO?
O VEADO É CASTANHO, TENDENDO PARA COR FERRUGEM, MAS QUANDO FILHOTE É TODO PINTADINHO. ESSAS MANCHINHAS BRANCAS SOBRE O PÊLO MARROM AJUDAM O VEADINHO A SE CAMUFLAR NO MEIO DA MATA. VOCÊ SABIA QUE O VEADO MATEIRO PERDE O CHIFRE A CADA ANO E CADA VEZ QUE O CHIFRE NASCE ELE É MAIOR? NADI Exemplos do trabalho com poemas que resultou num livro: Apresentação do trabalho pela professora: " É com muito orgulho que apresento o produto final de escrita do nosso trabalho de Língua Portuguesa. Em síntese , ele é parte da história deste grupo que durante um ano leu muitos poemas, devorou crônicas, apreciou romances... E, portanto, pôde se dedicar com afinco à tarefa, mais que árdua, de produzir textos escritos. Espero, realmente, que apreciem os poemas inventados!!! Só tenho elogios a fazer para quem, com dedicação, freqüentou as aulas e pôde descobrir ou redescobrir os prazeres de conhecer... Foi um ano em que pudemos, além de escrever, visitar outros mundos através da leitura e tenho certeza de que muitos adoraram e aproveitaram muito a viagem. A companhia de Graciliano Ramos, João Cabral de Mello Neto, Carlos Drummond de Andrade, Luís Fernando Veríssimo, Jorge Amado, Jô Soares e tantos outros nos foi tão oportuna! No entanto, este tempo de trabalho foi só o começo e é preciso seguir avançando, e isto significa continuar lendo, se preocupando com a escrita correta das palavras, com a pontuação, com a apresentação final dos textos, observando enfim como escrevem nossos mestres para que se possa aprender ainda mais com eles. Agora, é hora de colher os frutos das conquistas e uma delas é poder apreciar este livro. Espero que gostem do resultado, que sem dúvida representa muito de tudo que foi concretizado. Parabéns, alunos!
Os poemas que vocês lerão a seguir foram feitos a partir da leitura e análise deste lindo poema de Carlos Drummond de Andrade. Cidadezinha qualquer Carlos Drummond de Andrade Casas entre bananeiras, Mulheres entre laranjeiras, Pomar, amor, cantar.
Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham... - Etâ vida besta, meu deus! Exemplos dos poemas dos alunos: Gente Cléo Gente sem trabalhar Gente sem estudar Estudar, trabalhar, avançar.
Homem precisa trabalhar, pois, sem trabalho, não tem Como de sua família cuidar.
Criança precisa estudar Pois, sem estudo Não tem como trabalhar. - Etâ vida sofrida sem estudar!!!
Valdemir Aves no meio das árvores Que passam o tempo a cantar E que não precisam pensar.
Um carro vai devagar Levando gente para passear Sem beber e sem fumar E sempre a cantar.
Devagar as pessoas olham e dizem: - Êta vida corrida, cansada e sofrida, Meu Deus!!!
NOTAS * Pedagoga; Consultora da SEF/MEC; Coordenadora de projetos no CEDAC (Centro de Estudos e Documentação para a Ação Comunitária). |